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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Tagarelando sobre "O Caminho Incerto" de José Luís Peixoto

Sobre O Caminho Imperfeito que José Luís Peixoto percorreu. Sobre o meu próprio caminho imperfeito na Tailândia. Cada um fez o seu, mas em muitos pontos os dois acabaram por se tocar. Deixo-vos com os meus pensamentos (já publiquei o vídeo há algum tempo, mas só agora o estou a partilhar aqui; culpem a tal procrastinação).

Espero que gostem!

 

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Agradecimento tardio, mas sentido

Apesar de alguma inquietação nas últimas semanas, há que frisar que estou viva! A publicação da semana passada foi, de facto, o maior desabafo que eu poderia ter partilhado, porque esse foi um dia longo, que culminou em mim a comer um cupcake de banana e chocolate no Starbucks, enquanto músicas natalícias passavam no fundo, e a ir a um evento sem companhia: um recital multimédia de fado, com direito a imagens soalheiras de Lisboa. Tudo do bom e do melhor para soltar uns bons soluços! 

 

 

E não, eu não estou em Bangkok forçada nem nada, estou porque quero, como os leitores deste blogue já saberão. Estou a adorar a experiência, mas até o melhor dia é quase sempre uma desilusão se não o pudermos partilhar com aquelas pessoas. É só isso. 

 

Por todos estes motivos, é com grande felicidade que venho partilhar com todos que, dentro de três meses, já estarei de volta a Portugal! Até ao início da semana que passou, não valia a pena espalhar a notícia, porque tive, em primeiro lugar, que contar à minha chefe e a alguns superiores. Não fazia sentido estar a comunicá-lo antes disso. Contudo, a decisão já foi tomada há muito mais tempo! 

 

Então, tenho a agradecer aos leitores mais assíduos que me têm acompanhado as suas palavras amáveis e por continuarem desse lado a ler os meus amores e dissabores sobre a Tailândia. Sei que não tenho mantido este blogue muito actualizado, o ritmo da minha vida tem andado meio estranho, mas daqui para a frente será sempre a melhorar! Vamos lá ver! Muito, muito obrigada, como sempre. Obrigada também aos Destaques do SAPO (e até à plataforma SAPO) por andarem a promover 70% das minhas escassas publicações. Sabe sempre bem receber algum feedback do vosso lado, é sempre muito gratificante.

 

Numa nota menos positiva acerca da inevitável visibilidade consequente (mesmo que momentânea), tenho a acrescentar algumas palavras de censura a quem acabou de chegar e se pôs logo a enviar-me postas de pescada. Isto dos blogues é um fenómeno cheio de detalhezinhos, coisinhas miúdas que devemos ter em consideração, e uma delas é a seguinte: não vale a pena julgarem-me por UM TEXTO que eu tenha escrito NUM DIA aleatório de seis anos de Procrastinar Também é Viver. É como julgar um casamento feliz de cinquenta anos por uma discussão naquele dia em que alguém não pôs a loiça na máquina. Felizmente, tenho sido abençoada com oportunidades únicas na minha vida ainda curta, tenho tido uma vida com algumas contrariedades, mas bastante cheia, tenho conhecido gente maravilhosa... Aliás, quem lê o que escrevo no resto do tempo sabe disso. A Tailândia foi um dos maiores jackpots que me calhou, mas nem todos os dias são paisagens maravilhosas. A vida continua aqui, como em todo o lado; eu não estou propriamente de férias. Ser feliz longe de Portugal é, por isso, um desafio, por muito que gostemos do sítio onde estamos.

 

Seja como for, as vozes positivas prevalecem e, mais uma, e outra, e outra vez, muito obrigada por estarem desse lado. Adoro escrever neste blogue, adoro a vossa companhia. Têm sido seis anos de crescimento, já me viram adolescente, adulta, feliz, triste, apaixonada, desapaixonada... É assim a vida! 😘

 

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Solidão no meio de dez milhões

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Foi em Bangkok que me senti só pela primeira vez. Custa muito admitir que nos sentimos sós, porque é mais fácil estarmos em negação. Quando cheguei ao ponto de o reconhecer, já tinha passado por muitas fases.

 

A primeira fase foi arranjar sempre algum bode expiatório para o descontentamento. No início, não podia ir a casa no Natal. Depois, arranjei uma forma e fui. Dois meses depois, mudei de apartamento, culpando as baratas debaixo da bancada da cozinha que me comiam o jantar, o lixo à saída do condomínio e a má gestão do edifício. No novo condomínio, sentia falta dum animal de estimação. À revelia das regras - ainda que à semelhança da prática de tantos outros vizinhos - arranjei um gato. Depois do gato, veio a minha avó. Por dois meses, senti-me acompanhada, mas sabendo que não iria durar para sempre.

 

Entretanto, a fase de estar triste sem saber porquê. Uma melancolia imensa, um vazio e muita inquietação.

 

Por fim, a consciência de que me sinto... de que me tenho sentido só. Do outro lado da linha, chegam-me palavras cheias de amor, mas essas só se ficam pela metade. É pela falta delas que me sinto assim, é por, como acontece com os fantasmas, as poder ouvir e ver, sem lhes tocar, que me sinto isolada neste mundo que é o mesmo, parecendo uma realidade paralela.

 

Não sei se é assim que todos se sentem quando se mudam para outro país. Espero que não. Talvez eu sinta, por acréscimo, todo o isolamento cultural, geográfico, visual como consequência de estar tão longe.

 

Bangkok é uma cidade com dez milhões de pessoas, mas nunca me senti tão sozinha antes, nem quando vivia num sítio com uns poucos milhares de pessoas.

 

Tenho amigos em Bangkok, mas cada um está na sua vida, cada um vive noutra ponta da cidade. Estar longe da família e daqueles que amamos tem disto. Não há ninguém à nossa espera em casa, raramente há quem se disponha, à última hora, a acompanhar-nos seja onde for. Não há certezas de nada. Não há ninguém que possamos alcançar à distância duma chamada.

 

Mas, se eu precisar dalguma coisa, é só ligar - dizem eles.

Do que eu preciso é de não ter de ligar.

Estamos em 2017 e continuamos a discutir as saídas profissionais em Portugal (bem, e no mundo)

Spoiler: estou-me pouco ***************** [inserir qualquer palavra inadequadamente adequada] para as saídas profissionais em Portugal, quais as melhores áreas, quais os melhores cursos, os melhores empregos, aqueles que dão mais dinheiro, e, em geral, tudo o que se intitule "mais e melhor".

 

Após ter recebido algumas mensagens nos últimos anos, desde o início de tags neste blogue, como universidadeemprego, decidi compilar mais algumas questões e respostas acerca da vida durante e após o ensino superior e também acerca das saídas profissionais no nosso país.

 

Vamos lá ver...

 

Não sei que profissão quero ter no futuro, mas tenho de escolher uma licenciatura. Em que área devo tirá-la?

Na área que mais gostares de estudar. Ainda que haja muita licenciatura super profissionalizante e específica por aí (como Direito e Medicina), cujo objectivo é formar os alunos para exercerem carreiras nesses mesmos domínios, quase todas as licenciaturas deixam imenso espaço para oportunidades em áreas profissionais diversas. "Estou a tirar Desenho, por isso estarei quase de certeza condenado a ser um artista falido." Mas porquê? E que tal investir num negócio de retratos personalizados na Internet? Ou ser ilutrador de livros de crianças? Ou tentar a sorte em galerias? Já agora, eu, que tirei uma licenciatura em Ciências da Cultura, terei direito ao título de "cientista da cultura"? Humm... Duvido. E mesmo licenciados/mestres em Direito e Medicina têm imensas opções. A minha amiga Joana tirou Medicina, está a acabar o ano comum, vai tirar a especialidade, mas também já pensou em investir num mestrado em Nutrição. Há tantas opções... para quê limitarmo-nos à licenciatura como único factor de decisão ou relevância no nosso futuro profisional?

Além disso, aos 18 anos, pouco saberemos sobre o que o futuro nos reserva. Para quê deixarmos que a nossa licenciatura nos defina ad eternum?

 

Depois da licenciatura em Portugal, é preciso tirar um mestrado?

Sou também a maior defensora de que o nível de escolaridade ou académico duma pessoa não definirá necessariamente o seu futuro profissional. No entanto, volto a repetir: hoje em dia, toda a criatura viva consegue tirar a licenciatura. Qualquer pessoa com dois dedos de testa entra e é capaz de sair, há imensos recursos, as médias de entrada são baixíssimas e é possível obter uma licenciatura com 9,5 valores de média de curso. Além disso, a maioria das licenciaturas em Portugal só duram três anos, após o Tratado de Bolonha, há dez anos, e são de cariz teórico. Dessa forma, o que é que se aprende em três anos?

Uma das minhas professoras da licenciatura fartava-se de gozar com os meus colegas que achavam que a universidade era uma escola profissional. Não é. A universidade é uma escola teórica, quer queiram, quer não. Se querem ganhar competências técnicas, licenciem-se numa escola politécnica ou façam o ensino secundário profissional. Ou atirem-se de cabeça para o mercado de trabalho!

Antes, durante e após a licenciatura, há que investir em formação e experiência paralelas. Já falei sobre as licenciaturas e as saídas profissionais em Portugal há pouco tempo. É mesmo necessário "tirar" qualquer coisinha além da licenciatura, que são apenas três anos numa vida inteira. O mundo encontra-se em constante mutação, há que actualizar os nossos conhecimentos de forma permanente.

Seja como for, os cursos pós-graduados também permitem desenharmos mais um pouco do perfil académico e, quiçá, profissional, que almejamos. Podemos sair da área da licenciatura, podemos permanecer, podemos adaptá-los um ao outro. Há imensa oferta! Pós-graduações, mestrados, MBAs, doutoramentos, formações avançadas... e mesmo cursos profissionais ou profissionalizantes de curta ou média duração, alcançáveis a todos os bolsos.

 

Quero tirar o meu mestrado numa universidade estrangeira, mas pedem quatro anos de licenciatura. O que faço?

As licenciaturas em Portugal têm, por norma, três anos - obrigatórios; tive colegas que tiraram um quarto ano, para poderem estudar outras cadeiras que lhes interessavam. Quer isto dizer que qualquer pessoa pode fazer quantos anos de licenciatura lhe apetecer, apesar dos 180 ECTS básicos. As universidades estrangeiras pedem uma licenciatura como requisito mínimo de admissão e usam "4 anos" de estudo como referência. Na União Europeia, vigora o Tratado de Bolonha, mas cada país no exterior adopta um sistema diferente. Por que não esclarecer estas dúvidas directamente com as instituições onde se espera prosseguir os estudos ou com a embaixada/consulado do país para onde se pretende ir?

 

Os rankings das universidades contam para melhorar as saídas profissionais em Portugal?

Os rankings existem por algum motivo, mas acredito que seja importante de igual forma saber filtrar a informação. De facto, há universidades e institutos cujo lugar nos rankings é baixo por motivos óbvios: fracos resultados em investigação científica, fracas médias de entrada dos alunos candidatos, pouca inovação tecnológica associada ao ensino e até ao funcionamento administrativo, escoamento deficiente de alunos para o mercado de trabalho, professores pouco especializados, poucas provas de internacionalização.

A Universidade Católica Portuguesa é capaz de ser das melhores no nosso país, porque consegue dar resposta a todos estes desafios. Quando lá estudei por um semestre, consegui perceber por que é tão reconhecida. No entanto, eu tirei a minha licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma das mais antigas escolas de humanidades do país, cujo ensino assenta na tradição e que não depende realmente da tecnologia para formar os seus alunos. Já na internacionalização, avaliação do currículo dos cursos e dos professores, e nos resultados científicos, encontra-se no topo, mas tal não é suficiente para vermos a FLUL a encabeçar maioria dos rankings. Mas não interessa assim tanto.

Por outro lado, muitas das universidades, escolas e faculdades portuguesas mais recentes não estão bem posicionadas, porque lhes falta tudo e mais alguma coisa, o que é relevante para a qualidade do ensino e da preparação dos alunos para outros horizontes (nem digo profissionais, mas principalmente académicos, no estrangeiro, por exemplo).

Mais uma vez, os rankings contam o suficiente, contam o que contam, são números e cálculos e o resultado de variantes fixas que escapam à maioria dos mortais. No entanto, uma e outra vez, cabe aos alunos forjar o seu próprio caminho, independentemente de onde vem a sua licenciatura.

 

Em suma, criem vocês mesmos as vossas "saídas profissionais", em vez de deixarem que outros factores externos as moldem, limitem ou controlem! Ganhem iniciativa, tenham mão no vosso presente e no vosso futuro!

 

Para mais informação e divagação, podem clicar nas hiperligações que vos deixo espalhadas acima.

Comprei um Kobo... e agora?!

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Há muitos anos que as minhas amigas me andavam a melgar, evangelizar, suplicar para comprar um e-reader, leitor electrónico, Kobo/Kindle/qualquer coisa. Porque faria maravilhas. Porque era tão prático para elas. Porque qualquer minhoca da leitura tinha um. Porque eu tinha todo o ar de quem iria gostar de ler livros, que não são bem livros, mas que os imitam muito bem. 

 

Recusei-me sempre, durante todos estes anos (para aí uns quatro, no mínimo) a comprar essa coisa ridícula dos leitores electrónicos. Caros comó raio, sem qualquer outra funcionalidade, e depois os livros físicos é que são bons, papelinho para virar, cheirar, passear na mão com vaidade... 

 

Comecei a ler em tablets e não desgostei da experiência. No entanto, os olhos é que pagam. É muita luz, tal como a dos telemóveis, que queremos evitar. Mas os tablets sempre dão para outras coisas!

 

Há umas semanas, tive um professor convidado a dar uma aula do meu mestrado. O senhor era muito jeitoso, bem falante, inteligente, convenceu-me logo ali, não necessariamente a comprar um Kobo, mas a finalmente reconhecer o óbvio: sem experimentar um e-reader, eu nunca viria a saber o que esta gente pregava. Em dois dias comprei um. Pesquisei, comparei, encontrei um Kobo com um desconto abismal (por ser refurbished) e aqui vos deixo as minhas impressões.

 

 

Desculpem lá a extensão do vídeo, pois acumulei muitos anos de ignorância pela qual tenho de compensar o mundo! 😂

Impressões gerais sobre O Caminho Imperfeito que José Luís Peixoto percorreu

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Eu sei que já deveria ter escrito sobre este assunto há pelo menos uma semana. Mas sabem aqueles momentos em que parece que nem temos disponibilidade mental para nada, que as actividades mundanas já ocupam demasiado espaço nos nossos dias? 

 

Pronto, eu sinto-me assim. 

 

Seja como for, já acabei de ler O Caminho Imperfeito de José Luís há demasiado tempo para não vos deixar um sequer um atalho para as minhas impressões gerais. Já que eu conheço a maior parte dos sítios que o autor refere, já que vivo aqui, é quase uma obrigação confirmar ou comentar tantos dos detalhes deste livro. Digo eu!

 

Mais tarde, gostaria de partilhar mais outros detalhes engraçados, mas tudo a seu tempo. Por agora, o meu entendimento sobre O Caminho Imperfeito está aqui. Por agora, no Goodreads. Mais tarde, talvez em vídeo ou num texto. Logo veremos! 

Hoje, um ano após a morte do rei da Tailândia, Rama IX

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(Crédito: http://newdelhi.thaiembassy.org/en/2016/11/thailand-mourns-late-great-monarch-majesty-king-bhumibol-adulyadej/ )

 

Há um ano, morreu o rei da Tailândia, o rei Bhumibol (que se lê Bu-mi-pon), ou Rama IX.

Levanto-me cedo. Às oito estou fora de casa. Na rua, as pessoas vestem roupas escuras - à semelhança de todos os dias que antecederam este dia, de há um ano até este momento em que eu saí à rua a 13 de Outubro de 2017. As ruas estão quase vazias, porque foi declarado o feriado nacional, mais um dia de luto. 

Este luto que eu também carrego não é um fardo, mas sim uma experiência com e na alma. Os tons neutros e tristes da minha roupa são uma parte da representação da perda. Eu também perdi um rei, o rei que construiu este país que me acolheu, com todos os choques culturais a que tive direito, com direito às pontes linguísticas que tentei forjar, com direito aos meus alunos, com direito aos dias de chuva, à humidade, às filas e ao trânsito, ao cheiro a tubos de escape, ao cheiro a comida, ao meu emprego de sonho, a comida de rua, deliciosa, às crianças que sorriem quando me vêem, algumas que se escondem, aos guardas a gritarem-me "beautiful" todas as manhãs, às máquinas da roupa com moedas, aos condomínios com piscina, às assimetrias da população e das casas, aos meus colegas que eu passei a adorar, à minha chefe que me dá abraços quando me vê, aos 7-eleven... A Tailândia é isto, uma mistura indecifrável de estímulos e gente e barulho e cheiros - seja em tons negros ou vermelhos, laranjas, azuis, como eu a conheci antes.

 

Quando entrei na estação de comboio, pela primeira vez em muito tempo apercebi-me de que tinham colocado músicas solenes a tocar no fundo, em Tailandês e em Inglês. Nenhuma voz anunciava os comboios que chegavam e partiam. Ninguém gritava, só as empregadas do Starbucks atiravam frases mais imperativas. Até os turistas pareciam calados, por fim.

 

É um feriado que anuncia um fim-de-semana prolongado e este parece-se com qualquer outro, excepto que se sente uma qualquer coisa no ar. Até o céu está escuro, sem chover. Ou talvez seja de mim.

 

Morreu o rei da Tailândia, Rama IX, faz hoje um ano. Agora, que são nove da manhã, eu estou aqui sentada no Starbucks, esta herança da abertura do país ao estrangeiro. Há um ano, estava no condomínio onde vivi antes, no 21º andar, eram cerca de sete ou oito da noite, quando li as notícias no Facebook. De imediato, o chat conjunto dos meus colegas inundou-se de palavras que eu não entendia, mas pressentia. Expressei as minhas condolências e pedi conselhos sobre como me vestir no dia seguinte. Assim como me disseram, tenho-me tentado vestir desde então.

 

Há um ano, os meus colegas choraram. Eu escrevi as mensagens oficiais em Inglês em nome da minha faculdade. Mensagens acerca do luto. "Mourning". "We mourn the passing of...". O resto são palavras fixas, escolhemos as que ficavam melhor, as que melhor descreveriam o rei Bhumibol (Bu-mi-pon) até que esses posters e publicações online fossem retirados de circulação.

 

Ainda não foram.

 

Este dia será de luto. Aliás, o resto deste mês será de luto. Os ajuntamentos no Grande Palácio, o aniversário sobre a morte, a construção do crematório, a construção de miniaturas do crematório por todo o país, a cremação, a coroação, e talvez só depois consiga voltar a serenidade nestes corações tailandeses.

 

Porque este foi o rei que se ajoelhou perante os seus súbditos e lhes... e os tocou. Em todos os aspectos.

 

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(Crédito: http://www.abc.net.au/news/2016-10-14/thai-kings-body-taken-to-palace-as-mourners-pay-last-respects/7935152 )

Sim, o dinheiro traz felicidade

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Há poucas sensações tão boas quanto esta: entrar num restaurante, numa loja, ir de férias, com uma pessoa de quem gostamos e poder dizer "escolhe o que quiseres, não olhes para os preços, sou eu que pago".

Quem diz que o dinheiro não traz felicidade é hipócrita. Dinheiro que seja gasto em experiências, para mim, é dinheiro que me faz muito feliz.

Não pretendo ter um salário X para poder esbanjá-lo todo em coisas inúteis, mais porcarias e bugigangas, mas sim para poder mimar-me a mim e aos meus de vez em quando. No futuro a longo prazo, poder ter uma casa onde não falte nada, um carro que não me traga dissabores, férias fora do habitual todos os anos, ter um bom seguro de saúde para toda a minha família, dar à minha avó um resto de vida de papas e descanso, oferecer aos meus hipotéticos filhos uma educação que lhes abra os olhos e as portas para o futuro.

Por agora, é só isto: levar a minha avó e o meu pai ao melhor resort que há numa ilha tailandesa, mesmo que por apenas uma noite, entrar num restaurante e não olhar demasiado para os preços, viajar pelo país, proporcionar-lhes mudanças radicais De cenário, ser eu a pagar, poder partilhar o que tenho - basicamente, ter dinheiro suficiente para não ter de pensar... em dinheiro.

Há alguma receita para o amor?

Reposta curta:

Não, não há nenhuma receita para o amor.

Resposta longa: Há apenas possíveis ingredientes. Eu nunca fui boa cozinheira, por isso faço sempre misturas estranhas. Vai por tentativa e erro. Mais um ingrediente aqui, menos um ingrediente ali. Da próxima sai melhor. Se não é desta, será doutra.

Não há receitas para o amor, mas há cozinheiros que, ao trabalharem em equipa, conseguem criar pratos equilibrados a partir do desequilíbrio de sabores.

Eu sei que tive a sorte de conhecer o melhor chef do mundo há muitos anos. Há poucas aventuras que eu queira ter sem ele. Passo a vida a pensar "o Ricardo havia de gostar deste sítio, quem me dera que o Ricardo visse isto, o que é que o Ricardo diria daquilo?, o Ricardo ia adorar estar aqui". Mesmo quando vivia em Portugal, mesmo quando vivíamos a três quilómetros um do outro e nos víamos quase todos os dias antes e depois das aulas e do trabalho, eu já sabia que, como ele, há poucos.

O amor não tem receita, mas as relações humanas têm, todas elas. Quando começámos a namorar, quando ainda estava tudo muito fresco e eu contei ao meu pai que só namorávamos, oficialmente, há duas semanas, ele disse que o mais importante devia ser sempre o respeito mútuo. Foi o único conselho que recebi, mas devo dizer que há muito mais por trás desta única palavra.

O respeito não existe facilmente, é preciso muito mais. Tenho aprendido, a cada dia que passa, que, para haver respeito, tem de haver uma certa admiração pelo outro. Pelo que ele é capaz de fazer, pelas ambições, pelos feitos, pelo feitio, pela disposição, pela maneira como encara a vida. Só assim é que consigo respeitar alguém e só assim sou capaz de respeitar o Ricardo, não necessariamente apenas enquanto meu namorado, mas enquanto amigo, filho de alguém, irmão de alguém, futuro pai, cidadão deste mundo, profissional e membro desta e doutra comunidade ou equipa.

E, além do respeito, sempre achei necessário haver um compromisso. Falar de bebés e contas bancárias aos 17 e aos 19 anos pode parecer despropositado, mas funcionou, porque eram e são esses os nossos planos e ideias para o futuro. Partilhar expectativas em relação ao que se espera duma família e do seu funcionamento faz parte duma relação que não se deseja ser um desperdício de tempo. Quando se assume um compromisso, seja aos 15 ou aos 85 anos, tem de haver um contrato explícito. Aos 22 e 24 anos, falamos dos mesmos assuntos, uma e outra vez, à procura de consenso permanente, para verificar se continuamos na mesma página. Continuamos, mais do que nunca. Lemos livros diferentes, mas viramos as páginas em simultâneo. 

Provavelmente, tudo o que idealizamos ainda há de levar mais meia década a concretizar-se. Chegaremos sem grande esforço a perto de dez anos de negociações, preparações, projectos, ideias. Talvez por virmos de famílias e pais que teriam precisado bastante de viver este processo demorado antes de nos terem, somos uns gatos escaldados.

Receita para o amor não há, mas há comunicação e abertura numa parceria como qualquer outra. Precisamos de melhorar isto, aquilo não pode ser mudado, aqueloutro está bom. 

 

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E agora vocês, quais são os ingredientes da vossa história de amor e parceria? ♥ 

Tenho saudades de casa

Nos últimos dias, talvez semanas, tenho batido no fundo do poço, uma e outra vez, constantemente a subir um pouco e a cair, a subir e a cair, e cada queda parece sempre pior do que a anterior. Tenho saudades de casa, onde não chego nem perto desde Abril. Fez ontem cinco meses que regressei à Tailândia depois da Páscoa/ano novo tailandês e não há palavras que consigam descrever a sensação de não se estar no sítio onde deixámos o coração e de se ter quase a certeza de que não é suposto estarmos onde estamos.

Viver na Tailândia tem sido uma experiência e tanto. Tenho aprendido e vivido o que pensei não chegar a fazer parte da minha experiência de vida. Sou uma sortuda, foi-me entregue de bandeja o emprego que eu só esperava quase aos 30. O meu salário não é ideal para quem vive a praticamente 1000€ de distância do seu país e faz questão de lá ir duas vezes por ano e de "importar" os seus nos entretantos, mas é um salário bem superior ao que eu alguma vez esperaria ganhar em Portugal saída de fresco duma licenciatura (mesmo em euros, o meu salário médio - aulas base, aulas extra, tutorias privadas - ronda quatro dígitos muito confortáveis). Vivo sozinha, sou responsável pelas minhas contas, adoptei um gato, vivo numa cidade que eu nem sabia localizar no mapa, vou a sítios que ficam bem nas fotos do Instagram, de vez em quando posso esbanjar em roupa a condizer com a paisagem, não ando a contar trocos, blá blá blá.

 

Há três semanas que não tenho um dia inteiro para mim. De manhã, quando acordo, até â noite, quando adormeço. Tenho algumas manhãs e tardes livres, mas sempre com a sombra dos trabalhos do mestrado e das aulas para preparar a seguir-me para onde quer que vá (tentar) distrair-me. Quando acabo uma tarefa qualquer, já tenho outras na fila.

 

Não vejo o meu namorado em carne e osso desde que o deixei nas partidas do aeroporto de Lisboa e só o volto a ver em Dezembro ou Janeiro, daqui a 3 ou 4 meses. Entretanto, aturo perguntas que, apesar de inocentes, doem pela insistência e incredulidade: "mas o teu namorado não vem ter contigo? só o vais ver em X data?". Há poucas pessoas que percebam o sacrifício de trabalhar e estudar ao mesmo tempo (o meu caso e o dele) e de nem sequer compensar viajar meio mundo por dois dias para se lá estarem outros dois, não nos esquecendo do sempre terrível preço do bilhete.

 

Muitas vezes ao dia, muitas mais do que eu gostaria que acontecesse, desejo a calma de espírito daqueles que, mesmo vivendo em terras remotas, seja por opção ou porque teve de ser, não se importam de ir a casa a cada dois anos, estão confortáveis seja onde for, tomam banho em filosofias de carpe diem e são felizes sem um lar, ou que versatilmente constroem muitos lares. Que fantástico seria não andar a dançar em nós na garganta e a aperceber-me cada vez mais que sorrio mais por ansiedade e reflexo do que porque de facto me apetece! Mas não, ainda bem que estas emoções negativas existem, por serem a prova de outras bem positivas: amor, pertença, lealdade, aconchego.

 

Felizmente, eu sei que continuo aqui a prazo. O mundo é tão grande, há tanto a explorar, e agora é mais do que hora de voltar a lançar os dados e apostar em novos números. No meio do processo, aprendi a valorizar e a desvalorizar certas experiências e ambições. Umas eram tidas em alta consideração, mas foram repensadas. Outras nunca me teriam passado pela cabeça se eu cá não estivesse.

 

Uma coisa é certa: não é possível ser-se feliz para sempre com os pés num sítio e com o coração acolá. Sair do país deu-me a mim e às pessoas que me rodeavam diariamente uma nova perspectiva sobre a realidade. Acho que estamos todos diferentes. Há laços que se estreitaram, outros que sumiram para debaixo do tapete. Contudo, não me arrependo, até porque isso não serve de nada.

 

As melodias que o meu humor tocaria (e escreveria, em grande parte) neste momento: