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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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a dor de corno e a interesseirice

   Estou rodeada de cor de corno desde o miolo até à carapaça. Gostam muito de falar mal do que eu digo, do que eu faço, do que eu sou ou poderia deixar de ser, mas, no final de contas, continuam a adorar aproveitar-se de mim.


   Evidentemente, existe sempre quem me odeie e ponto final, que se há de fazer?, e considero-o legítimo, desde que me odeiem pura e verdadeiramente e não que apenas sintam uma comichãozinha causada pelas minhas irritantes inspirações e expirações que me permitem continuar a viver dia após dia, apesar de alegarem tratar-se muito mais do que isso.


   Tenho a perfeita noção de que são muito poucas as pessoas que gostam verdadeiramente de mim. Reconheço que sou uma pessoa extremamente fácil de odiar e extremamente difícil de amar, porque tenho um feitio complicado, não sei estar calada, sou demasiado sarcástica e nem sempre sou entendida como, penso eu, do alto do meu inchadíssimo ego (sarcasmo, outra vez, viram?), deveria ser. Ainda assim, insisto em ser como sou, esta criatura aparvalhada e casmurra de quem muita gente tem dor de corno e cotovelo ou, por outro lado, que muita gente odeia e ponto final.


   E não é que prefiro que me odeiem e se deixem de mariquices do que serem uns parvos de uns maricas que não se decidem se preferem ignorar-me ou usar-me?! É que é mesmo curioso, o meu caso!


   Digo isto com alguma confiança, meus caros, porque me costumo apanhar em certas situações que de confortáveis não têm nada, graças à indecisão de umas quantas pessoas minhas conhecidas.


   Porque, se querem saber, há pessoas que conseguem gostar de mim numas circunstâncias e praguejar contra mim noutras. Foi algo que sempre me tem acontecido, tanto aos oito, como aos catorze ou aos dezassete. Hei-de ter setenta e há-de ser a mesmíssima coisa!


   Conheço determinadas pessoas que, por muito mal que pensem e falem de mim, insistem em fazer-se de simpáticas quando a ocasião a tal obriga. Precisam de favores meus? Precisam de informações? Precisam de conselhos? Precisam de seja o que for que lhes dê na cabeça? ‘Bora ser querido para a Beatriz! E quando não precisam?! ‘Bora ser uma cambada de maldizentes e haters e eternos descontentes com o facto de terem de conviver com ela e de saber que está viva e de boa saúde!


   A isso, chamo eu de interesseirice, com toda a força da minha alma, com toda a força do meu inchadíssimo ego, tão odiado por quem é obrigado a levar com ele!


   Não querendo abusar da minha já conhecida falta de humildade, começo a pensar em levar esta interesseirice como um elogio, obrigada, obrigada. Se há quem precise de mim, ainda que apenas pontualmente, talvez eu não seja assim tão má - talvez eu até seja mais ou menos boazinha, mais ou menos querida pelos que me rodeiam.


   E é desta maneira que se acende uma pequena chama de esperança dentro da confiança que é batida e rebatida pelos que menos me prezam; é desta maneira que, do fundo do poço das pessoas mais malditas em Portugal (apenas ultrapassada pela Pipoca Mais Doce e pelos membros Governo), eu começo a entrever uma escada de salvação uns metros acima; é desta maneira que, raios me partam, eu sei que, muitas das vezes, o que me nutrem não passa de dor de corno (poderia chamar-lhe “dor de cotovelo”, mas adoro manifestar por escrito a ufana brejeirice que não sou capaz de adaptar à língua).


   Para finalizar, como se aperceberam, vim por este meio suplicar que me odeiem a bom odiar, que maldigam o meu nome cinquenta vezes antes de adormecerem, que me roguem as piores pragas de que se lembrarem, mas que me deixem em paz, sem que eu me sinta necessária neste mundo. Eu já percebi que só me querem viva quando convém! Parem de me pedir favores, parem de me elogiar indirectamente, parem de me fazer sentir fantástica! (Oh p’ra ela, toda cheia de si própria!) É que isto de se ser levada por otariamente ingénua é um bocado insultuoso demais! Arre!


 


(A esta publicação, adapta-se perfeitamente a música abaixo publicada, "Scratch My Back", da Aurea.)

é Bel-Ami, mas podia ser outro

Serei eu capaz de deixar um livro a meio?   

 

   É engraçado como vim a ganhar, de há uns tempos para cá, a tenebrosa mania de não acabar de ler livros. Às tantas, não sei se é do livro, se é de mim. E por que não dos dois?! Se calhar, nem eles me cativam nem eu sou de cativar. Ficamo-nos pelo cinquenta, cinquenta. No entanto, a única que acaba por se sentir culpada no fim destes divórcios litigiosos (o livro a pedir mais uma oportunidade, eu a tentar ser feliz) sou eu. É que custa-me largar uma história que já me acompanhou durante, pelo menos, algumas horas. Mas acontece e não é pouco.

   Um dos melhores exemplos que posso dar é o romance francês Bel-Ami, de Guy de Maupassant - sim, aquele que foi convertido num filme com o Robert Pattinson como protagonista. Tivemos um namoro fugaz, ainda que eu tenha estado indecisa durante muito tempo depois do noivado. Porém, a pressão social para ler o maior número de clássicos da literatura acabou por me fazer ceder e aceitei. A princípio, foi um casamento deveras feliz, comigo muito empenhada para que resultasse, quase tanto como ele [o livro]. Comecei a tratar as personagens por "tu", já sabia percorrer os cenários extremamente bem descritos pelo autor como se também lá vivesse. Criei inimizades e amizades, senti-me feliz. Até que o período de lua-de-mel terminou, quando eu me apercebi que a personagem Bel-Ami era, nada mais, nada menos, que um otário que menosprezava as mulheres e que, estando muito bem casado com a mais inteligente das senhoras da alta sociedade, andava a comer várias ao mesmo tempo, porque sim, elas mereciam, devido à sua condição... de lixo! Um ultraje.

   Ao fim de algumas páginas após essa revelação, não tenho a certeza se algum dia retomarei a leitura. Fiquei-me pela página trezentos e tal e a vontade de continuar é pouca. Acho que, por agora, terei de fazer olhos cegos ao livro que repousa na estante, abandonadinho, coitadinho, porque Guy de Maupassant se lembrou de criar um personagem estúpido, calculista e adúltero. Se eu não simpatizar com quem me acompanha nas narrativas, a coisa dá para o torto.

 

Respondendo à questão inicial, "serei eu capaz de deixar um livro a meio?", confesso que sim, sou capaz de ser dura com certas histórias. Já não conto pelos dedos as relações tempestuosas que já terminei na literatura.

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