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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Professores do ensino superior, esta é para vocês

Pergunto-me constantemente se certos professores meus não terão a noção do quanto os alunos se estão a marimbar para as suas aulas. Será que não conseguem perceber que não chega saber a matéria toda? Que é necessário saber cativar a audiência, que não só de conhecimento empilhado se faz uma aula? Que não se concebem apresentações de Power Point com mais de meia dúzia de linhas, senão os alunos vão estar mais preocupados a passá-los do que a ouvir o professor?

Não haverá qualquer intenção de aperfeiçoamento, de se ser um melhor professor? De se ser mais eficiente? De se obedecer (minimamente) aos princípios da pedagogia?

E que tal ser obrigatório que os professores do ensino superior tenham formação para serem mais do que investigadores e profissionais conceituados da sua área? Se todos os outros a devem ter, desde aqueles que lidam com os meninos pequeninos até àqueles que lidam com os matulões do 12º...

 

 

Já tardava: refugiados

Palavra de honra que tenho procrastinado este tema a valer. Refugiados para ali, refugiados para aqui, mas são migrantes ou são refugiados, com que teorias devemos concordar, quem tem razão, primeiro nós ou primeiro eles, seremos todos farinha do mesmo saco, e os direitos humanos...???

Consegue-se perceber a minha indecisão desse lado, não é verdade?

Entretanto, o meu ano lectivo iniciou-se. Isto até poderia não vir nada ao contexto, mas olhem que vem mesmo, não estudasse eu Comunicação e Cultura e não andasse a tentar perceber há quase três anos o que nos torna quem somos, o que forma a nossa identidade, o que nos torna tão diferentes mas tão iguais. E há quase três anos que me sinto cada vez mais inquieta, mas é normal - é isso que se pretende do estudo, deixar-nos cada vez mais inquietos, a interrogar o mundo com insistente curiosidade.

E, ao fim de quase três anos, surge uma questão concreta que urge ser resolvida na minha cabeça, que vem colocar em causa a minha ética pessoal e o meu sentido de respeito pela humanidade: os refugiados-barra-migrantes devem ser alojados na Europa? Ou devemos arranjar maneira de os voltar a enviar para o país deles? Com tanta pobreza na Europa, com esta crise maluca (económica, financeira, mas também social), é sensato acolhermos mais pessoas, milhares delas, correndo o risco de criar ainda mais instabilidade e insustentabilidade? (Uma só questão multiplica-se em várias.)

Portanto, como eu dizia, comecei as aulas na semana passada. Este semestre, tenho até uma cadeira chamada Comunicação Intercultural. A relevância de tudo isto é que foi a ler os primeiros documentos para esta disciplina que me apercebi de que a resposta que consigo arranjar até ao momento pode ser alcançada com algum discernimento. Ler avivou-me a memória e o raciocínio.

Queridos leitores deste blogue, o meu dilema encontra-se cada vez mais próximo de uma resolução: sem dúvida que todas estas pessoas têm vindo a sofrer muito. Claro que merecem ser tratadas consoante as premissas da Declaração dos Direitos Humanos, têm direito a viver onde quiserem e a receberem um tratamento digno (água, comida, alojamento, ensino and so on). O problema é que - estejamos muito conscientes disto - é incomportável acolher tantos indivíduos no seio de uma cultura tão diferente da deles. É incomportável para os que acolhem, mas também para os que são acolhidos. 

O entendimento entre comunidades será difícil, muito difícil. A médio prazo, podemos "ter" de vir a acolher números astronómicos de pessoas que não falam a nossa língua, que não partilham dos nossos princípios, que não vieram ali de França ou da Eslovénia (comunidades com raízes culturais próximas das de outros países europeus). E o problema não se resume a nós adaptarmo-nos a eles. Também se resume a eles adaptarem-se a nós. Entendem que nenhum dos partidos se encontra preparado para conviver, certo? Ou, se se encontra preparado apenas mentalmente para uma grande mudança em termos do que chamam a "mentalidade", até todas as mudanças serem operadas ainda hão-de ser precisos alguns anos, talvez gerações, até que a assimilação seja completa, até que possamos todos viver em relativa paz uns com os outros.

Entretanto... Entretanto, corremos riscos. Calculo que os problemas imediatos se venham a transformar em problemas sérios a médio e a longo prazo. O racismo e a xenofobia de certos contingentes da população que acolhe também podem ser sentidos pela população que é acolhida, já pensaram nisso? Será que ambos se saberão acomodar mutuamente? Porque, se não souberem, verificaremos outros problemas de "segunda geração" ligados à exclusão social (insustentabilidade das instituições de apoio, desemprego, fraco rendimento escolar dos mais jovens, aumento da quantidade de guetos e bairros sociais, aumento da criminalidade).

Atenção, não estou a dizer que os indivíduos refugiados são criminosos. Estou a dizer que "a ocasião faz o ladrão" em determinadas circunstâncias - querer alimentar um filho, exigir o cumprimento dos seus direitos, reagir à hostilidade de quem não os vir com bons olhos...

Porque foi isso que vi nalgumas reportagens que passam diariamente na televisão: os migrantes refugiados a imporem-se perante funcionários das fronteiras (nomeadamente, da Húngria), que apenas faziam o seu trabalho. Os migrantes refugiados a trazerem famílias numerosas e a exigirem quase os funcionários das fronteiras lhes dêem uma mãozinha, um copo de água e um prato de caviar, em vez de os tentarem parar de entrar em território onde, oficialmente não é permitido entrarem (mais uma vez, cumprindo o seu dever). Pois, há direitos e também há deveres.

É-me muito difícil pensar sobre este tema, expor a minha opinião, sem sentir que continuo a não saber a história toda, que só estou a ver o cenário parcial de todo este frenesim, sem sentir que nenhuma opinião - quanto mais a minha - conseguirá resolver este problema que calhou nas mãos da humanidade nos últimos meses.

Continuo a achar que todas as pessoas são cidadãs do mundo, independentemente da sua cor de pele e da sua origem cultural, que todas têm direito a viver com dignidade e estabilidade, que todas têm direito a procurar as melhores condições de vida, onde quer que seja. Mas isso é impraticável nas circunstâncias que se apresentam, não é? Quase parece que estamos a ser invadidos, só que por pessoas que, tal como nós, não têm (em princípio, acredito eu de maneira inocente) a intenção de nos causar prejuízo de maneira alguma. Já vimos isto anteriormente, tanto com a emigração portuguesa transversal a tantas das últimas décadas, quanto com as comunidades do antigo Ultramar que procu(ra)ram refúgio em Portugal, quanto com qualquer outro tipo de migração (à sua maneira, todos os migrantes procuram refúgio, quer migrem dos Açores para os EUA, quer migrem de Aveiro para Braga).

 

Deixo um apelo aos leitores deste texto: não tentem interpretar mal a minha opinião. Esta é a minha opinião literal e eu abro espaço para tentar compreender outros pontos de vista. Estou receptiva aos vossos comentários. Este é um tema polémico, cada um tem tentado atirar a sua posta de bacalhau, a sua acha para a fogueira - tal como eu. E reservo-me ao direito, como todos os opinadores de bancada, a alterar a minha perspectiva acerca do assunto, mesmo depois de ter escrito um texto enorme sobre ele. Lá está: escrevi-o hoje, dia 14 de Setembro de 2015, mas no dia 17 de Outubro de 2020 ou no dia 30 de Fevereiro do ano de São Nunca, à tarde, já poderei considerar o tema com outro olhar.

Os primeiros dias de Setembro

Fui a Braga visitar a minha família. Voltei. Vendi alguns livros. Comecei um semestre numa universidade diferente, mas na verdade só desci para aí duas ruas. Escolhi tornar-me uma licenciada possivelmente desempregada, quando me foi dada a oportunidade de ser uma quase-licenciada empregada numa área profissional do meu maior interesse. O meu tablet avariou. Perdi um texto que ia submeter para um prémio literário, que já estava iniciado no Google Keep (convenientemente desincronizado) e outro que estava pronto a ser publicado aqui. Li um livro inteiro na Fnac, numa hora e meia. Acabei de ler outro, talvez a pior leitura deste ano, mas tão boa ao mesmo tempo. Visitei o Museu Berardo com a minha cara-metade e chegámos à conclusão de que, no que toca à arte moderna, somos uns grandes filhos da mãe conservadores (telas em branco, figuras de cera em posições pornográficas, linhas rectas num quadro, figuras geométricas ilógicas, neo-estilos, pseudo-estilos - tudo para o caraças). Não actualizei este blogue como prometi a mim mesma que faria.

A minha terra nas notícias

É quase surreal ver aquela que considero ser a minha terra nas notícias, pelos piores motivos. Sei que, há uns anos, era conhecida pelo tráfico de droga. Agora, todos ouvimos falar dela por causa de um triplo homicídio. Para mim, toda esta mediatização simplifica a essência de uma localidade, reduzindo-a ao palco de um crime.

O que estas reportagens sensacionalistas non stop não referem é que o local que mencionam todos os dias também é habitado por outras pessoas, a maioria pacata e honesta. 

Porque esse local cujo nome lançam inconsciente e persistentemente em rodapés e cabeçalhos das notícias foi onde eu estudei durante três anos, onde já trabalhei, onde conheci alguns dos meus melhores amigos e o meu namorado, em cujos parques brinquei imenso quando era pequena e quando ainda nem pensava que algum dia viria a ter muitos dos momentos mais importantes da minha adolescência nas redondezas. É o local por onde passo todos os dias antes de ir para a faculdade e aquele onde me vejo a viver daqui a uns anos.

É surreal ver um sítio que adoramos nas notícias, reduzido a terra de crime. Vive lá mais gente, passam-se lá mais coisas, é onde as crianças ainda podem brincar na rua e onde os vizinhos e os que não são vizinhos se conhecem todos.