Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O papel da religião na minha vida

IMG_25601230_151612.jpg

 

Recentemente, aproveitei o facto de a minha tia ter passado o Natal e o Ano Novo em Banguecoque comigo para visitar uma data de igrejas cristãs [católicas], legado maior dos franceses e portugueses, desde o século XVI, nas margens do rio Chao Phraya. Estas visitas, apesar de curtas, deram-me para pensar no papel da religião na minha vida.

 

A verdade é que eu sou daquelas pessoas que "não sabe rezar". Raramente vou à missa, quando vou é por alguma ocasião especial, sou baptizada mas nem fiz a primeira comunhão, todos os membros da minha família tiveram uma educação religiosa (incluindo escolas de freiras pelo meio da equação), praticam a sua fé mas não explicitamente na igreja... e, apesar de me incutirem valores cristãos todos os dias, mesmo depois de maior e vacinada, nunca me forçaram a acreditar num Deus específico, apenas a acreditar nalguma coisa (e a respeitar esse entidade, sem o que ou quem for).

 

Acho que foi assim que o papel da religião na minha vida se tornou, acima de tudo, orientar-me para ser uma melhor pessoa e ter esperança de que nós, humanos, não estejamos sozinhos neste mundo, que haja algo maior do que nós que nos ajude e que olhe pelas nossas vidas. Pensando bem, tudo isto se tornou mais uma questão espiritual do que religiosa. Vejo-me como uma pessoa que acredita (e não é pouco), que sabe que há muita coisa sem explicação que me/nos acontece, que sabe haver - no entanto - muitas perguntas sem respostas, que se sente curiosa sobre todas as religiões e os princípios e valores que as regem. 

 

De qualquer forma, penso que outro papel da religião, não só na minha vida como o de todos os seres humanos, é o de providenciar elementos comuns a uma sociedade, uniformizar práticas e crenças. Infelizmente, muito é feito em nome de Deus no sentido oposto. Não me conformo com os usos que certos povos e indivíduos conferem às suas religiões, nem com a fixação em agradar a Deus através de práticas absurdas para o século XXI.

 

Gosto de pensar que mantenho uma mente aberta sobre a questão da religião, pelo menos por agora. Viver num país estrangeiro - com duas outras religiões dominantes (a maior parte dos tailandeses é budista e outra grande parte é muçulmana), e cuja população cristã vive as suas crenças e rotinas de forma muito diferente do que é feito em Portugal ou na Europa - ter-me-á ajudado bastante a reflectir no papel não só da "religião", como também do que significa "acreditar em Deus". 

 

Em geral, a minha pergunta, considerando o papel da religião nas nossas vidas, continua a ser "por que é que alguém escolheria ter uma visão limitada acerca do assunto, se hoje em dia há recursos que nos trazem uma perspectiva mais abrangente, holística?" O mais difícil, no entanto, também continua a ser formular uma resposta estruturada para uma pergunta que levanta tantas outras questões. Mesmo que eu escolha ver a religião dum ponto de vista cultural, social, simultaneamente pessoal, há muito mais que eu desconheço e que me colocará perante novas experiências e, consequentemente, novas perguntas e alternativas de resposta.

 

De certeza que voltarei a tocar neste tópico. 

Os meus sítios favoritos na Tailândia #1: Octave Rooftop Lounge & Bar, Banguecoque*

 *A partir de hoje, vou partilhar aqui no blogue os meus sítios favoritos na Tailândia, de forma a que eu mesma tenha mais uma fonte para memória futura e possa também deixar online algumas recomendações a quem estiver interessado em visitar o país. Muitos dos meus sítios favoritos na Tailândia são pouco conhecidos ou menos valorizados pelos turistas, por isso nem sempre são as escolhas mais óbvias de quem procura locais interessantes para visitar.

 

Estão a ver o actual cabeçalho do blogue (se estão a ler este post no futuro, refiro-me a esta foto)? É parte do Oeste do centro de Banguecoque, onde os edifícios são mais altos, onde se vê a linha de skytrain, onde o pôr-do-sol acontece por trás do cenário urbano, onde se vê o verde, o branco, todos os tons de cinzento da Big Mango e arredores. E de onde tiro as fotos que vos apresento de seguida? Dum dos meus sítios favoritos na Tailândia: o Octave Rooftop Lounge & Bar.

 

IMG_25600901_181211.jpg

 

Esta deve ser a minha vista favorita da cidade de Banguecoque. É muito mais confortável estar a vê-la de cima, como um gigante, do que de baixo, como uma entre milhões de formigas e imenso trânsito. Assim, até parece uma cidade bonita. Dum lado, os (mais ou menos) arranha-céus. Do outro, os subúrbios ainda verdes. O céu cheio de recortes de nuvens, nuns dias vermelhas e escassas, noutros indistinguíveis na massa enegrecida de chuva.

 

1503070821164.jpg

 

O Octave Rooftop Lounge & Bar (ou apenas Octave) fica nos 45º a 49º andares do hotel Marriott, na Sukhumvit Road, soi 57 (soi significa beco em tailandês, e todas as estradas/avenidas dividem-se em becos em número infinito). Fica no centro da cidade, nesta que é uma das avenidas mais conhecidas, movimentadas e trendy, onde se concentram tanto zonas residenciais como parte dos serviços, comércio local e centros comerciais mais famosos. O Octave fica na esquina entre a soi 57 e a estrada principal.

 

IMG_25600915_175734.jpg

 

Quando vou ao Octave, peço sempre a mesma bebida: o mocktail chamado "Passion", de maracujá. Se jantarem no Octave ou antes de irem ao bar, tentem que seja algo leve, caso queiram tentar o "Passion", porque é bastante concentrado e doce - super delicioso! Há muitas outras bebidas da casa, alcoólicas e não alcoólicas, vinhos e cervejas para todos os gostos. 

 

IMG_25600722_215245.jpg

 

No 45º andar, o Octave tem um restaurante ao ar livre que serve pratos que são mais tapas e aperitivos do que refeições completas. No 48º e 49º andares, é exclusivamente um bar (nunca fui aos 46º e 47º andares, mas suspeito de que tenha um restaurante interior). Cada vez que alguém me vem visitar, tento sempre levá-los ao Octave, porque não tem demasiada gente ou barulho, não fica numa zona impossível de aguentar com trânsito, é comummente desvalorizado por não ser o rooftop mais alto da cidade (o que contribui para um menor número de turistas inconvenientes) e os empregados são duma enorme simpatia. A vista é de ficar sem fôlego, sem obstáculos que nos impeçam de aproveitar uma corrente de ar fresco e o cenário já descrito. 

 

IMG_25601027_175705.jpg

 

A certa altura, considerei o Octave não um dos meus sítios favoritos na Tailândia, mas talvez meu sítio favorito (no mínimo, em Banguecoque!). No semestre de Verão, cheguei a ir lá todas as semanas com os meus colegas. Também costumo ir sozinha quando me apetece encontrar um refúgio longe do stress que se sente em baixo, na cidade. Vou pensar, ler e escrever lá para cima, ver as pessoas, os carros e os comboios que passam. Além disso, uma vez que o Octave abre às 17h, é provavelmente o melhor sítio em Banguecoque para ver o pôr-do-sol e aproveitar a happy hour mais silenciosamente (por vezes, quase sem ninguém à volta) e com as bebidas da casa a metade do preço até às 19h. Essa é a razão pela qual todas as fotos que partilho convosco mostram um céu meio encoberto, escurecido ou vermelho.

 

IMG_25601217_181214.jpg

 

E pronto, fica aqui esta primeira recomendação de sítios interessantes na Tailândia. O Octave até pode ser uma boa ideia para quem chega a Banguecoque em vôos mais tardios e não sabe onde esgotar a energia do jet lag

 

(Espero que gostem desta nova rubrica!)

Destralhar

Aproveitando duas ocasiões muito propícias para o aumento de motivação para dar um arranjo na casa (digo, o meu estúdio de 29m2), isto é, um novo ano a estrear e a partida de Banguecoque, decidi destralhar à grande.

 

Podem achar que o facto de viver num estúdio há apenas onze meses deveria ser condição suficiente para a inexistência de tralha, mas decerto estarão a subestimar-me. Além de já ter trazido tralha nas três vezes em que fui a Portugal neste ano e meio (livros, na sua maioria) e tralha do outro condomínio onde vivi antes, também sou uma coleccionadora ávida de fotocópias para os meus alunos (teoricamente, não é? Elas acabam por ficar pelas minhas bandas), fotocópias do meu mestrado, talões, recibos, contas que nunca cheguei a organizar como deve ser, contratos de trabalho e da casa e da Internet (e, se tivesse comprado Lord Ennui, também teria os recibos dele, ah ah ah), brochuras de hotéis e monumentos onde já fui, bilhetes de avião, bilhetes de museus e do cinema... you name it! A papelada e a tralha acumulam-se em meu redor como pragas.

 

Portanto, na semana passada pus mãos à obra logo de manhã e comecei por uma caixa. Ao longo da semana, fui pegando noutra e noutra caixa para onde tenho andado a atirar papelada no último ano, recalcando a sua existência.

 

Também já investi na cozinha. Tinha algumas coisas fora da validade, outros pacotes de comida instantânea que, realisticamente, nunca irei consumir (muito má!), fiz um inventário mental do que tenho que possa servir para cozinhar antes de me ir embora, a ver se não desperdiço alimentos nem dinheiro que posso poupar.

 

Antes de regressar a Portugal, destralhar também irá passar por dar ou vender alguma mobília ou objectos utilitários, livros, presentes que, apesar de simpáticos, não vieram acrescentar nada à minha vida.

 

Destralhar deve ser feito regularmente, não como eu o faço - apenas de ano a ano ou por ocasião dum grande evento ou recomeço. Desde que comecei a destralhar e até a seleccionar roupas, livros e electrodomésticos pequenos dos quais já não me vou servir nas próximas três semanas, tenho-me sentido cada vez mais leve.

 

Ainda há um longo caminho a percorrer neste negócio mental de destralhar (deixo este, este não, por que haveria de ficar com este, e não aquele), mas não há nada que não se faça às prestações. Faz bem à alma, faz bem ao ar que se respira em casa, reduz a confusão e o ruído visual. Destralhar é uma prática da qual eu não me deveria esquecer.

5 coisas de que tenho saudades em Portugal

De facto, não há melhor lição do que esta, quando vivemos longe de Portugal: tomamos tantas coisas por garantidas, mas das quais sofremos horrores com saudades, quando nos afastamos do nosso país.

Esta é a minha lista de coisas de que tenho saudades - em Portugal - aqueles gestos, sítios, objectos, rotinas... Acho que algumas pessoas entenderão o que quero dizer!

 

1. A emoção à flor da pele
Quando estava em Portugal, achava que algumas pessoas eram um pouco hipócritas nos seus actos. Demasiadas fofinhices, demasiada simpatia, demasiado entusiasmo, mas ia-se a ver e era tudo um exagero.
No entanto, agora que estou longe, tenho saudades de abraços, beijinhos de olá e adeus, sentir empatia, sentir um certo conforto nessas palavras, mesmo quando parecem ser ditas em vão. Quem diria que eu viri a ter saudades disto?

 

  

2. A variedade de sabores
A comida tailandesa tem dois sabores: ou sabe a alho, ou sabe a chili. Na minha opinião, a portuguesa tem esses dois e mais uns três milhões. Além disso, para quem gosta de comer carne (tal como eu, apesar de não muita), viver na Tailândia, onde a carne tem sabor a nada, é uma experiência quiçá aborrecida. Valha-nos a variedade de vegetais e a comida de rua tailandesa, para equilibrar o consumo dos sabores dos dois países. Só de pensar em comida portuguesa, já estou aqui a salivar por uma carne de porco à alentejana, um cozido à portuguesa, um bitoque com batatas fritas, um bacalhau com natas, ou pastéis de bacalhau, alheira com ovo... Vocês não me tentem!

IMG_25601104_140057.jpg

 Num dos dois restaurantes portugueses em Banguecoque, antes de comer uma bela pratada de bacalhau com natas. *feliz*

 

3. Pão e bolos
Sim, também há pão e bolos em Banguecoque, guardem os vossos terrores. O problema é mesmo a falta de pão e bolos "como deve ser" - isto é, com uma textura consistente, com sabor a mais do que mero açúcar refinado. Sim, e o pão também é quase sempre doce e mole por estas bandas! Onde já se viu tal desplante? Já os bolos, desfazem-se em migalhas, sabem todos ao mesmo e não enchem nem um rato. Fazem-me falta pães salgados, rijos, mas fresquinhos, acabados de sair do forno, quentinhos, sem sabor a conservantes. Sinto saudades de bolos que me satisfaçam a gula. Até existem cá em Banguecoque, o problema é o 💰💰. Há uns dias, mandei vir quatro pães... por quinze euros. Haja paciência para o luxo de se ser portuguesa..!

1514124467294.jpg

Nesta foto, ainda me sentia muito impressionada pelo tamanho deste bolo de noiva! Logo depois, disseram-me que nem os bolos de noiva são reais! São só papel e os noivos cortam-nos unicamente para fazer vista!

 

 

4. Saber que, se sair do local X à hora Y, chegarei ao local A à hora B
Confusos? O trânsito de Banguecoque é imprevisível, excepto algumas alturas do dia ou da semana em que já há um padrão óbvio (pelo menos, para quem cá vive há um ano e meio). De resto, basta uma formiga ser atropelada para filas e filas de carros ficarem bloqueadas num raio de dez quilómetros. O trânsito é insuportável e pouco recomendável a cardíacos, ansiosos e claustrofóbicos. É necessária uma dose divina de paciência ou a coragem de chamar um táxi-mota. Por causa de todo este stress do trânsito inesperado e sempre caótico, tenho saudades de Portugal, por pelo menos ser previsível e não ficarmos meia hora dentro do carro para percorrer 5km.

E os transportes públicos??? Senhores, que desgraça! A rede é bastante eficiente fora da hora de ponta (há comboio, skytrain, metro, autocarro, várias linhas até de barco), mas basta chover um bocadinho, ser sexta-feira à noite e as horas de ponta ficam ainda mais insuportáveis ao ponto de tudo parar - e, com isto, até deixar de haver táxis disponíveis. Ficamos eternamente à espera dum comboio que chegará "dentro de 10 minutos".

 

IMG_25601003_182417.jpg

Atentai nestas caras de desorientação e no mar de gente numa plataforma que, mesmo sendo extensa, fica a parecer minúscula! E até parecemos um bocadinho mais ordenados porque é preciso fazer fila para entrar no comboio.

 

5. Espaços verdes e abertos, ar livre e fresco
Esplanadas, parques, jardins, pracetas, estar à janela. Enquanto escrevo este texto, é Inverno em Banguecoque e está mais ou menos frio (20ºC muito ventosos), mas este não costuma ser o caso. De Fevereiro a Novembro, está sempre abafado, ou a chover, ou o sol é demasiado forte. Em todo o caso, o ar está demasiado poluído para se "apanhar ar fresco". Tenho imensas saudades de me sentar debaixo do sol ameno de Lisboa num final de tarde, a comer um gelado, ou ir almoçar, literalmente, fora. Tenho imensas saudades do meu quintal, com árvores de fruto, um sofá de baloiço, relva, as vozes familiares dos vizinhos ao longe, os cães e os gatos a pedirem mimo, seja Inverno ou Verão. Portugal tem sítios lindos onde ir passear, até Lisboa ou o Porto ainda têm dimensões e população razoáveis que permitem preservar a qualidade de vida. Podemos passear, passar tempo no exterior, desfrutar da Natureza... 

received_1528560430531188.jpeg

 Uma foto de há uns dias, da minha rua em Portugal, quando o meu pai foi passear com a nossa cadela. 

 

Finalmente, haverá por aí alguém que também viva no estrangeiro ou que já tenha vivido? O que acrescentariam a esta lista? Tenho a certeza de que poderia ainda mencionar mais uns tópicos, por isso estejam à vontade.

Portugal, chego em menos de um mês!

A verdade sobre as minhas resoluções de ano novo

IMG_25610101_000411.jpg

Fogo de artifício no rio Chao Phraya, em Banguecoque. Teve mais piada ao vivo!

 

Para mim, 2018 vai ter de ser muito diferente de 2017. Há tanto por fazer, tanto de bom que já se começa a anunciar, tantas mudanças bruscas, mas produtivas, a aproximar-se. Ainda assim, este ano, inundada pelas resoluções que li nas redes sociais e blogues, decidi contrariar a tendência e deixar as minhas pela rama. Em geral, quero saúde e energia, ânimo para trabalhar, estar com aqueles de quem mais gosto, talvez viajar pela Europa para recuperar estes últimos anos fora. Mais especificamente, escrevi-as para referência pessoal, mas decidi não as partilhar. Surto de superstição, ou de zelo, talvez uma certa vontade de simplesmente as guardar para mim. Seja como for, desejo a todos que as suas missões de ano novo se realizem, desejo-lhes força para as levar a cabo e estado de espírito receptivo à alegria de as cumprir e para desfrutar delas.

 

IMG_25610101_000431.jpg 

 

Além das palavras para 2018, o meu balanço para o novo ano termina assim.

Obrigada pelos vossos votos aqui, no Instagram e no Facebook. Cá estarei para mais um ciclo de procrastinação em forma de blogue!

5 palavras para 2018

Se a minha palavra-chave para 2017 for "trabalho", a de 2018 poderia ser "descanso". Estou convencida de que não seria possível fazê-lo a tempo inteiro (apesar de não me importar de ter uma ou duas semanas sem pensar em trabalhar ou estudar, ou complicar seja o que for), por isso decidi escolher 5 palavras para 2018 que sejam ligeiramente mais assertivas acerca do que já é provável que aconteça.

 

IMG_25610102_105902.JPG

 

Ordem, no caos das novidades que aí vêm.

Amor, que tudo deve curar e que, vindo de tantas fontes que me têm dado de beber, tem também que ser cultivado e oferecido de volta.

Disciplina, porque muitos desafios e novas rotinas extremamente desejadas estão para chegar.

Estabilidade, em vez de ansiedade no exterior da zona de conforto; voltar lá se for necessário.

Lar, onde todas as palavras restantes fazem sentido e são possíveis (muito bem sugerida pela minha amiga Daniela, obrigada).

 

Esta é a minha curta lista de palavras para 2018, e a vossa, qual é?

O que eu não mudaria em 2017

Que ano turbulento. Costuma-se dizer que, quanto maior é a subida, maior é a queda, mas 2017 foi uma série de escadarias, e rampas, e trampolins, para cima e para baixo.

Felizmente, há muita coisa que eu não mudaria.

 

1503070889330.jpg

 

Não mudaria ter ido viver para outro condomínio. Poupei imenso dinheiro nesta renda duma unidade mais pequena e nos subúrbios, onde consegui encontrar silêncio, risos de criança no jardim, espaço verde e de lazer com fartura. O condomínio no centro de Banguecoque era glamoroso, tinha uma vista de tirar o fôlego a qualquer um, mas as baratas e o barulho estavam a tirar-me do sério. Além disso, era demasiado grande para uma pessoa só.

 

IMG_25600729_133344.jpg

 

Não mudaria o quanto trabalhei este ano - tanto enquanto professora, como também enquanto estudante. Custou, mas teve frutos, deu-me experiência, fiquei com calo, testei-me, recebi palavras de reconhecimento e respeito dos meus alunos, dos meus colegas, da minha chefe, fiquei com uma média quase perfeita no mestrado (apesar de incompleto). Os meus alunos escreveram-me mensagens de carinho, ajudaram-me a melhorar, pediram-me para ficar nas minhas turmas até ao momento em que lhes disse que este foi o meu último semestre. Os meus colegas cumprimentam-me efusivamente nos corredores, raramente sinto más energias na minha direcção, fiz amigos (mais ou menos, vá). A minha chefe reconhece o que faço, incluiu-me até num projecto de extrema importância desde 2016 e que culminará em 2018, quando poderia ter pedido a outra pessoa qualquer com mais experiência para a ajudar. Tudo isto é gratificante.

 

1511796589881.JPEG

 

Não mudaria o que trabalhei em quantidade e intensidade, tendo em vista ganhar mais do que o meu salário base. Consegui rendimentos decentes no final de cada mês, que me permitiram proporcionar férias inesquecíveis à minha família, cada vez que me visitaram, principalmente a minha avó, que esteve cá quase dois meses - as primeiras férias em dezoito anos, desde que eu fui lá para casa para ela me criar! Também pude dar-me a pequenos luxos, como adoptar um gato e comer em bons restaurantes.

 

IMG_25600714_185835.jpg

 

Não mudaria nada do que tentei dar à minha família. Ao ajudá-los a ter estas experiências, senti que consegui arranjar uma bela desculpa para os arrancar do ciclo de muitos anos negativos e cheios de sacrifício. Sei que estas visitas à Tailândia, mesmo quando curtas, tiveram resultados muito positivos e lhes trouxeram uma forma renovada de ver a vida. Além disso, o orgulho que sentem por mim irradiou ainda mais quando me visitaram.

 

IMG_25601011_124821_1.jpg 

IMG_25601223_081510.jpg

 

Não mudaria o quanto protegi o meu namoro de energias negativas, o quão firmes fomos os dois com esta dinâmica de relação a longa distância, o facto de termos feito tudo encaixar e funcionar até este momento, depois de oito meses sem nos vermos e mais dum ano sem realmente convivermos no mesmo espaço sem interferências do jet lag ou agendas familiares apertadas. Não mudaria o facto de ter investido nesta relação como sendo a única aposta viável para uma vida feliz e como a imagino, e de ter insistido que teria de ser mesmo assim.

 

IMG_20170411_123257.jpg

Em suma, não mudaria o esforço que investi em continuar a ser optimista. Ser feliz nem sempre é fácil e facilmente nos esquecemos de como estar satisfeitos com o que temos. Estou feliz por ter tido a oportunidade de viver no estrangeiro, estou feliz por me ter desenrascado como pude e quase sempre com sentido de humor e uma certa alegria! Esforcei-me muito para acabar este ano com saldo positivo, estou mesmo feliz por estar a acabar, para que novos desafios possam aparecer.

 

Fica um agradecimento eterno no ar a todos os meus amigos, família, namorado, professores, conhecidos e toda, toda a gente que me trouxe sorrisos e com quem partilhei neuras nestes doze meses.

 

Sob sugestão duma ideia da Cláudia (já não me lembro em que post), penso que a minha palavra para 2017 tenha sido "trabalho", sem me ter apercebido. Para 2018, que palavra escolherei?

Feliz Natal!

IMG_25601126_195705.jpg

 

Longe, com calor húmido de 30ºC, calças de algodão e manga cava. Longe, com o coração apertado a pensar em quem está do outro lado do mundo à minha espera. Longe, com vontade de rever toda a gente e todos os sítios. 

 

Este Natal é uma bênção, como todos os outros Natais o têm sido e serão, com as suas peculiaridades, acontecimentos inesperados, amor e carinho salteados a gosto. 

 

A melhor prenda que eu poderia receber é - na verdade - o amor, o carinho e a dedicação de todos aqueles de quem gosto. É ter saúde para ter saudades, é ter saudades porque sei que alguém me espera, é esperar porque há mais para vir. 

 

Desejo-vos, assim, um Natal tão abençoado quanto o meu. Não procrastinem as guloseimas nem as palavras com aroma aos doces da vida. Nem os abraços, nem os beijos. 

Sobre o que eu penso ser o choque cultural

Não houve qualquer hipótese da minha licenciatura em Ciências da Cultura, ou as experiências de intercâmbio em que participei, me prepararem para o que é o choque cultural sobre o qual vos venho escrever.

 

Quase no fim desta experiência a viver no estrangeiro, cheguei à conclusão de que há vários graus de choque cultural, que nalguns aspectos traz habituação, noutros traz frustração. 

 

Habituei-me à comida picante, ao trânsito louco, à falta de raciocínio rápido e pragmatismo, à ausência de pontualidade, à língua (que aprendi a falar, pelo menos de forma a desenrascar-me e a mostrar educação e gratidão), aos contrastes da população, à mistura de mundos, às casas de madeira à beira dos canais a conviverem ao lado dos condomínios modernos de 20+ andares, à hierarquização e aos alunos que se prostram aos meus pés para me falarem, aos tailandeses que estudaram no estrangeiro e dos quais não se sabe o que esperar, ao sotaque tailandês que esquarteja as outras línguas em arestas flácidas. 

 

Mas, depois de todo este processo de habituação e de tantas outras alterações a concessões a que submeti a minha forma de pensar, comportar e viver, também cabe aos tailandeses decidirem se querem acolher-me (ou a qualquer outro estrangeiro) na sua própria comunidade. Eles dizem que sim, e é verdade, eu sei que eles querem mesmo acolher os estrangeiros. 

 

O problema é que falar é mais fácil do que concretizar. Na minha opinião, as relações entre pessoas resultam de negociações bilaterais constantes. Dá-se e recebe-se. A maioria dos tailandeses dá o suficiente, não dá aquilo a que não é obrigado. Assim, as relações que fui estabelecendo ficam pela rama.

 

Não me queixo, apenas tento analisar. Fiz amigos, estou-lhes agradecida por me terem acolhido, dentro do que se conseguiu, mas o meu conceito de amizade quer ir mais longe, precisa de mais, quando o deles não. Trabalhar e viver num meio exclusivamente tailandês, trabalhar para o governo, viver nos subúrbios, leva-me a sentir que necessito de mais do que o que me querem dar e talvez seja isso o verdadeiro "choque cultural": a negociação mal sucedida ou insuficiente de conceitos tão abstractos quanto amizade, carinho, sentimentos, emoções, visões do mundo.

 

Para mim, todos estes conceitos estão no fim da linha da adaptação cultural, porque não são uma necessidade vital, mas sim o que sustém a vida a longo prazo, o que torna possível viver no estrangeiro ou longe do sítio onde crescemos.

 

Há vários níveis de choque cultural. Primeiro, não gostamos da comida. Depois, perdemos a paciência com a maneira diferente de fazer as coisas. Quando já nos resolvemos quanto aos primeiros choques ("é mesmo assim!"), mais desafios se apresentam. E mais. E mais. E mais complexos. E a exigirem mais de nós. E podemos vencê-los, moldando indefinidamente a forma como pensamos, comportamos e vivemos; ou chega a uma altura em que já não dá mais. É assim que eu me sinto.

 

Não me sentir parte de nenhum grupo ou comunidade é o derradeiro efeito do meu choque cultural, que é um choque do que se sente no coração e no fundo do estômago. É o resultado da procura de sentido na vida dos outros, quando só se encontram portas meio abertas. É o choque de se tentar aprofundar o superficial, de passar os colegas a amigos, que não funciona. O derradeiro desafio da transculturalidade.

 

Mas não faz mal! É mesmo assim. Faz tudo parte desta experiência que é a vida humana. A minha vida. Estou em paz com o que posso dar e receber. Já referi o quão agradecida me sinto por poder, sequer, escrever acerca de tudo isto? 

 

(E, não tendo concluído o meu mestrado por cá, posso dizer que aprendi o suficiente para uma pós-graduação em gestão da interculturalidade! )

Fotos de dias felizes ♥

received_1645203122169065.jpeg

A decoração natalícia antes da festa de ano novo da faculdade. Fofa!!! 

 

FB_IMG_1513865651369.jpg

Os amigos das aventuras e dos fatos coloridos (Vietnamita, palhaço internacional e tailandesa). 

 

FB_IMG_1513866234020.jpg

Um dos mil abraços da melhor chefe do mundo (posso levá-la para Portugal? Por favor?). 

 

FB_IMG_1513866028718.jpg

Todos a cantarem em honra do ano novo. 

 

1513865190518.jpg

Em destaque como gueixa que faz playback de músicas marotas - na festa da universidade. Para o que os meus colegas me empurram... Mas valeu a pena, porque, seis horas depois, ainda estou a receber mensagens de gente que se divertiu a ver-me/nos.

 

1513865093815.jpg

No final da performance. Muitos risos, ai ai. 

 

1513843333042.jpg

A fatiota toda. 

 

1513865178081.jpg

Alguns colegas que participaram.

 

Porque há dias maus, outros mais ou menos, outros bons e outros óptimos! Obviamente, dias seguidos com festas de Natal e ano novo têm um lugar especial na minha lista de preferências!