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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Solidão no meio de dez milhões

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Foi em Bangkok que me senti só pela primeira vez. Custa muito admitir que nos sentimos sós, porque é mais fácil estarmos em negação. Quando cheguei ao ponto de o reconhecer, já tinha passado por muitas fases.

 

A primeira fase foi arranjar sempre algum bode expiatório para o descontentamento. No início, não podia ir a casa no Natal. Depois, arranjei uma forma e fui. Dois meses depois, mudei de apartamento, culpando as baratas debaixo da bancada da cozinha que me comiam o jantar, o lixo à saída do condomínio e a má gestão do edifício. No novo condomínio, sentia falta dum animal de estimação. À revelia das regras - ainda que à semelhança da prática de tantos outros vizinhos - arranjei um gato. Depois do gato, veio a minha avó. Por dois meses, senti-me acompanhada, mas sabendo que não iria durar para sempre.

 

Entretanto, a fase de estar triste sem saber porquê. Uma melancolia imensa, um vazio e muita inquietação.

 

Por fim, a consciência de que me sinto... de que me tenho sentido só. Do outro lado da linha, chegam-me palavras cheias de amor, mas essas só se ficam pela metade. É pela falta delas que me sinto assim, é por, como acontece com os fantasmas, as poder ouvir e ver, sem lhes tocar, que me sinto isolada neste mundo que é o mesmo, parecendo uma realidade paralela.

 

Não sei se é assim que todos se sentem quando se mudam para outro país. Espero que não. Talvez eu sinta, por acréscimo, todo o isolamento cultural, geográfico, visual como consequência de estar tão longe.

 

Bangkok é uma cidade com dez milhões de pessoas, mas nunca me senti tão sozinha antes, nem quando vivia num sítio com uns poucos milhares de pessoas.

 

Tenho amigos em Bangkok, mas cada um está na sua vida, cada um vive noutra ponta da cidade. Estar longe da família e daqueles que amamos tem disto. Não há ninguém à nossa espera em casa, raramente há quem se disponha, à última hora, a acompanhar-nos seja onde for. Não há certezas de nada. Não há ninguém que possamos alcançar à distância duma chamada.

 

Mas, se eu precisar dalguma coisa, é só ligar - dizem eles.

Do que eu preciso é de não ter de ligar.

Tenho saudades de casa

Nos últimos dias, talvez semanas, tenho batido no fundo do poço, uma e outra vez, constantemente a subir um pouco e a cair, a subir e a cair, e cada queda parece sempre pior do que a anterior. Tenho saudades de casa, onde não chego nem perto desde Abril. Fez ontem cinco meses que regressei à Tailândia depois da Páscoa/ano novo tailandês e não há palavras que consigam descrever a sensação de não se estar no sítio onde deixámos o coração e de se ter quase a certeza de que não é suposto estarmos onde estamos.

Viver na Tailândia tem sido uma experiência e tanto. Tenho aprendido e vivido o que pensei não chegar a fazer parte da minha experiência de vida. Sou uma sortuda, foi-me entregue de bandeja o emprego que eu só esperava quase aos 30. O meu salário não é ideal para quem vive a praticamente 1000€ de distância do seu país e faz questão de lá ir duas vezes por ano e de "importar" os seus nos entretantos, mas é um salário bem superior ao que eu alguma vez esperaria ganhar em Portugal saída de fresco duma licenciatura (mesmo em euros, o meu salário médio - aulas base, aulas extra, tutorias privadas - ronda quatro dígitos muito confortáveis). Vivo sozinha, sou responsável pelas minhas contas, adoptei um gato, vivo numa cidade que eu nem sabia localizar no mapa, vou a sítios que ficam bem nas fotos do Instagram, de vez em quando posso esbanjar em roupa a condizer com a paisagem, não ando a contar trocos, blá blá blá.

 

Há três semanas que não tenho um dia inteiro para mim. De manhã, quando acordo, até â noite, quando adormeço. Tenho algumas manhãs e tardes livres, mas sempre com a sombra dos trabalhos do mestrado e das aulas para preparar a seguir-me para onde quer que vá (tentar) distrair-me. Quando acabo uma tarefa qualquer, já tenho outras na fila.

 

Não vejo o meu namorado em carne e osso desde que o deixei nas partidas do aeroporto de Lisboa e só o volto a ver em Dezembro ou Janeiro, daqui a 3 ou 4 meses. Entretanto, aturo perguntas que, apesar de inocentes, doem pela insistência e incredulidade: "mas o teu namorado não vem ter contigo? só o vais ver em X data?". Há poucas pessoas que percebam o sacrifício de trabalhar e estudar ao mesmo tempo (o meu caso e o dele) e de nem sequer compensar viajar meio mundo por dois dias para se lá estarem outros dois, não nos esquecendo do sempre terrível preço do bilhete.

 

Muitas vezes ao dia, muitas mais do que eu gostaria que acontecesse, desejo a calma de espírito daqueles que, mesmo vivendo em terras remotas, seja por opção ou porque teve de ser, não se importam de ir a casa a cada dois anos, estão confortáveis seja onde for, tomam banho em filosofias de carpe diem e são felizes sem um lar, ou que versatilmente constroem muitos lares. Que fantástico seria não andar a dançar em nós na garganta e a aperceber-me cada vez mais que sorrio mais por ansiedade e reflexo do que porque de facto me apetece! Mas não, ainda bem que estas emoções negativas existem, por serem a prova de outras bem positivas: amor, pertença, lealdade, aconchego.

 

Felizmente, eu sei que continuo aqui a prazo. O mundo é tão grande, há tanto a explorar, e agora é mais do que hora de voltar a lançar os dados e apostar em novos números. No meio do processo, aprendi a valorizar e a desvalorizar certas experiências e ambições. Umas eram tidas em alta consideração, mas foram repensadas. Outras nunca me teriam passado pela cabeça se eu cá não estivesse.

 

Uma coisa é certa: não é possível ser-se feliz para sempre com os pés num sítio e com o coração acolá. Sair do país deu-me a mim e às pessoas que me rodeavam diariamente uma nova perspectiva sobre a realidade. Acho que estamos todos diferentes. Há laços que se estreitaram, outros que sumiram para debaixo do tapete. Contudo, não me arrependo, até porque isso não serve de nada.

 

As melodias que o meu humor tocaria (e escreveria, em grande parte) neste momento:

 

PERIGO: relações à distância são nocivas à saúde

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No outro dia, durante o almoço, a estagiária (de Hong Kong) que está a trabalhar na minha faculdade (em Bangkok) declarou que estava tentada a experimentar uma relação à distância com um rapaz indiano (outro antigo estagiário que já foi para casa). Parece que já se conheciam antes de virem e, enquanto cá estiveram os dois, o "clique" foi óbvio. Ainda assim, não iniciaram nenhuma relação, nem deu tempo para isso.

 

Segundo a minha experiência, provavelmente ela estava à espera que eu lhe dissesse qualquer coisa como "Força nisso! Tu consegues! Vai doer, mas vai valer a pena!".

 

Pois... NÃO!

 

Se puderem evitar relações a distância, evitem. Aliás, fujam delas como o diabo da cruz! Não se metam em aventuras! As relações à distância dão trabalho, dão que pensar, exigem os nossos melhores dias todos os dias e são um grande sacrifício. Estar longe das pessoas de quem gostamos não é a ideia romântica que vemos nos filmes. Na minha opinião, a de quem está deste lado, não é uma coisa "que se tente", desde início, só porque se sente ali um friozinho na barriga.

Se querem arriscar ter uma relação à distância ou encorajar alguém a tentar uma, avaliem a situação. É uma relação à distância desde início (o caso da minha colega estagiária) ou um acaso na vida de duas pessoas que já eram um casal antes? Há um plano ou nem por isso? Como vão ser os encontros? Com que frequência? Onde? Quem vai ter com quem? E a médio prazo, já imaginaram o que vai acontecer? Que sacrifícios estão em cima da mesa? Para quem? Há forma de negociar? E partilham-se as mesmas ideias, objectivos e visões acerca da vida em geral? Há entendimento, não só agora, mas também até daqui a uns tempos?

 

Estas são apenas algumas das questões que coloquei à minha colega e que decidi deixar à vossa consideração. São o mero resultado desta experiência que estou a viver. Só desejo uma relação à distância a quem tiver respostas suficientes. Não pretendo desencorajar ninguém, porque cada caso é um caso, mas não quero que sejam a minha colega, que não tem resposta para nada, não sabe nada, só sabe que "gostaria de tentar, para depois não se arrepender" (palavras dela). Se querem tentar, assegurem as perguntas e as respostas necessárias.

 

E, quando refiro "relações à distância", refiro desde o semestre Erasmus à oportunidade de emprego de sonho sem termo, a milhares de quilómetros. Repito: nada é um filme romântico, no qual é quase certo os protagonistas acabarem num beijo em grande plano.

Seja como for, há que dar graças a todos os santinhos pelas vídeo-chamadas gratuitas.

A importância dos bastidores na vida real (ou a questão do mérito invisível)

Gosto de pessoas agradecidas pelo que têm na vida, por isso eu mesma gosto de dar graças pelo que tenho, material e imaterialmente. O Dia de Acção de Graças americano já passou, mas todos os dias são dias de reconhecer que, muitas das vezes, o que nos acontece de bom pode ter tanto de mérito pessoal quanto de mérito colectivo, ainda que não se veja de imediato até que ponto isso acontece.

O que eu quero dizer é que não vim parar a Bangkok só porque sim. Na altura em que fui aceite como estagiária, não tinha verba nem para as viagens, nem para a comida do primeiro mês e muito menos para andar a conhecer a cidade. A minha família aconselhou-me a não desistir e que, se fosse necessário, alguma coisa haveria de surgir até ao último momento para que eu pudesse sustentar-me. Bem dito, bem feito: mesmo antes de ter de comprar as viagens, recebi um prémio simbólico por ser a melhor aluna do meu curso, caído do céu. No entanto, continuava a precisar de mais dinheiro. E a minha família, com enormes sacrifícios que só eles saberão o quão custosos foram, disponibilizou-me o restante.

Quando fui contratada como leitora na universidade onde estava a estagiar, tive de escolher deixar o país para viver a 13 000 km de distância. Antes de mais, eu podia ter escolhido não aceitar o convite, agradecer educadamente e seguir a minha vida. Poderia ter pesado os prós e os contras de deixar a minha família, o meu namorado poderia não ter aceite bem a ideia, podia ter dado ouvidos a alguns dos nossos amigos que acharam que me estava a precipitar, e eu poderia até ter ficado cá a trabalhar com todas essas condicionantes, logo sem qualquer apoio. 

Contudo, depois de mil e uma conversas à distância e presenciais quando estive em Portugal por três semanas, depois de chorarmos e de nos preocuparmos por antecipação com aquilo que poderia vir a suceder, os três núcleos mais importantes da minha vida (família, namorado, amigos) ficaram em paz com a minha decisão. Principalmente, eu fiquei em paz com a minha decisão.

 

No primeiro mês depois de me mudar definitivamente para Bangkok, tive imensos problemas a pagar a renda e o depósito do apartamento, de repente surgiram três milhões de despesas imprevistas ligadas à emssão dum visto e à minha legalização na Tailândia e eu, que já tinha um orçamento curto para os primeiros tempos, entrei em desespero. Felizmente, quem é que mais me ajudou na altura? A minha família. Sem eles, eu teria passado muito mal - ou não tratava dos meus assuntos ou não comia. Foi também um período de adaptação para o meu namorado e houve alturas em que a nossa relação e a nossa amizade foram testadas, por isso tivemos de estabelecer novas maneiras de nos mantermos à distância. Mas, no final do dia, a nossa relação continua saudável, não há discussões nefastas, não há dramas, só muita compreensão. Por outro lado, os meus amigos não se queixaram da minha falta de vontade para conversar e só agora é que começo a dar-lhes atenção outra vez. O que mais poderia eu desejar?

 

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 Faculty of Liberal Arts, King Mongkut's Institute of Technology Ladkrabang

 

Mas por que é que eu senti necessidade de escrever isto?

 

Quando me dão os parabéns pelo que consegui, a maioria das pessoas só vê o que está à frente, que sou eu a ser convidada para trabalhar noutro país a fazer aquilo que tinha estebelecido como meta para a próxima década, só que logo que acabei a licenciatura. Só me vêem a ser leitora numa universidade aos 21 anos.

A maioria não vê que muito do que consegui só se tornou possível por causa do trabalho dos bastidores. Por uma questão de justiça divina, decidi partilhar a minha (a nossa) situação, para que outros se possam sensibilizar quanto à importância das pessoas que nos rodeiam.

Raramente é possível fazermos seja o que for sozinhos, por nossa conta. Se enchermos a nossa vida de gente positiva e que nos faça bem, acabamos por criar uma rede por baixo dos nossos pés, que nos há-de amparar as quedas e fazer-nos saltar mais alto. Se não for a família, que seja a cara-metade. Se não for a cara-metade, que sejam os amigos. Se não forem os amigos, que sejam os colegas de trabalho. Provavelmente, falo de boca cheia, mas falo de boca cheia com muita gratidão e humildade perante a minha condição.

Trabalho todos os dias para provar que mereço o emprego que me deram, tenho sempre tido uma dose de sorte e felizes acasos que me dão uma ajudinha, e calhou-me ter nascido numa família cheia de vontade de me ajudar a concretizar as minhas ambições e ter conhecido os professores, os amigos e o namorado certos ao longo dos anos.

Sinto que quando me elogiam também elogiam, sem saberem, quem está por trás a manter tudo em ordem. Poder partilhar a minha felicidade e os meus feitos com outras pessoas é uma bênção. O "meu" mérito é de muita gente em simultâneo.

 

Espero que também vocês tenham quem vos apoie desta forma e a quem possam agradecer por serem parte da vossa identidade. Rodeiem-se de amor, esqueçam o que é tóxico e acreditem no que são capazes de fazer, tanto quanto quem vos garante que sim, vocês são capazes. Não tenham vergonha de ter falhas nem de pedir ajuda, desde que mais tarde possam pagar na mesma moeda, caso seja necessário. É para isso que as comunidades, desde os mais pequenos núcleos familiares até às sociedades e às nações, existem - para que nos possamos ajudar mutuamente.

Pode parecer que vos estou a encher a cabeça de clichés, que daqui a nada este blogue vira página lamechas, mas não me levem a mal: neste momento, sinto que tenho motivos de sobra para assumir a voz mais pseudo-motivacional de sempre. Não se preocupem, isto passa.

Era uma vez, no Facebook

Ainda está para ser descoberta a razão por trás de os meus colegas da faculdade (principal e ultimamente os da Universidade Católica) me estarem todos a adicionar no Facebook. Pelo menos todos aqueles a quem falei uma vez na vida o têm feito.
Mas porquê? E para quê?
Porque, de repente, se lembraram de que eu sou a pessoa mais interessante à face da terra? Ou para me poderem conhecer melhor, isto é, para me fuçarem no perfil e confirmarem as suas expectativas em relação a mim? E, seja como for, embora eu tenha passado quatro meses a vê-los quase todos os dias, no final, da quantidade de colegas com quem tive aulas, só fiquei amiga de uma.
Até à época de exames, ainda foi naquela: queriam pedir-me apontamentos, perceber melhor a matéria. Já nessa altura se deram mal comigo, que eu deixo esse tipo de mensagem por ler ou desvio o assunto. Agora... Bem, agora que eu não voltarei a ser colega deles, que qualquer oportunidade de contacto pessoal comigo já se esgotou, qual a utilidade de me coleccionarem na lista de amigos das redes sociais? Só se for para eu me tornar mais uma a distribuir-lhes likes. Enfim, sem comentários [originais].
Além do mais, o que se aplica aos meus colegas da faculdade aplica-se de igual forma a qualquer pessoa com quem me cruze.
Não, eu não aceito desconhecidos "em amizade". Tenho o meu perfil em modo privadíssimo por algum motivo. Dizerem-me bom dia de vez em quando e saberem o meu primeiro nome não é o suficiente para lhes conceder acesso a informações privilegiadas, como quem são a minha família, os meus amigos de carne e osso, onde vivo, qual é o meu meme favorito ou que jornais online é que eu leio. De qualquer maneira, sempre podem ler o meu blogue e pôr um like na respectiva página de Facebook. Aqui, já podem ser meu fãs à vontade, se é isso que o querem ser! Porque a amizade constrói-se frente a frente.

Para os amantes dos cães, com carinho

É impossível não nos derretermos com esta doçura. Sentimo-nos quase a engolir o nosso próprio coração. Ter um cão é sofrer todas as atrocidades consequentes, como cocós e chichis no meio da cozinha, nos pés dos sofás, restos de água e de baba pelo chão, nunca mais comer uma refeição em paz sem dois olhos fixos em nós e um nariz arrebitado a rasar o prato (principalmente quando comemos no colo com tabuleiros) ou sem um focinho periclitante que nos toca insistentemente no cotovelo (no caso dos cães maiorzinhos, os pequeninos só guincham por atenção)... Sei lá, ter um cão implica limpar muito vomitado de carpetes que nos foram legadas pelos nossos bisavós ou tetravós ou whatever, é apanhar muita carraça e ficar com fobia de pulgas (mesmo depois de lhe pormos coleiras e ampolas e pomadas que tais), é tentarmos dar-lhe banho e apanharmos nós uma banhada, é ficarmos com o coração apertado quando ficam doentes sem saberem muito bem o que lhes está a acontecer...

Enquanto amante de cães, este vídeo tocou-me mesmo cá dentro e eu nem costumo ser assim tãããããão emocional (ok, um bocadinho). Porque tudo o que é pequenino é bonito e querido e porque todos os cães, grandes ou minorcas, me fazem querer adoptá-los com um simples olhar. Sou assim, muito frágil e facilmente manipulável quando estabeleço contacto canino.

Mas haverá alguém por aí que fique indiferente aos muito famosos "olhos de cachorro"?

As caras-metade das pessoas que não param

Quando alguém conhece uma pessoa que não pára, que se farta de trabalhar, com vontade de comer o mundo com uma só dentada, nunca se lembra daqueles que a rodeiam diariamente - se é que alguém a rodeia. As pessoas que não param parecem nem ter tempo para se coçarem, quanto mais para manterem relações humanas frequentes e duradouras.

Mas a verdade é que, quando se quer, tem-se tempo para tudo. O pior é já não se ter energia para nada ao final de um dia de esforço contínuo e, nisso sim, coloca-se a questão se haverá quem seja capaz de estar do lado de uma pessoa imparável. 

E nisso tenho eu montes de sorte.

Quando o Ricardo me conheceu, diz ele que eu já deixava o cheirinho à criatura non-stop das 7h às 19h (na melhor das hipóteses) que sou hoje. Isto foi há quase 4 anos. No ensino secundário, já eu queria participar em tudo o que houvesse, já não me escapava grande coisa. Já havia Alliance Française, já havia Forum Estudante, já havia prémios literários.

No entanto, o número de actividades em que me comecei a envolver a partir do primeiro ano da faculdade começou a aumentar bastante, em proporção ao tempo que me restava depois de fazer as contas às horas de aulas e de estudo. Comecei logo a trabalhar, continuei a inscrever-me para tudo e mais qualquer coisa.

E o Ricardo, super calmo, continuou a estar disponível para me dar atenção e assegurar-se de que, emocionalmente, nada me faltaria.

 

(Atenção que o Ricardo não é a única pessoa que me apoia, porque, felizmente, tenho um grupo de amigos que, entre workaholics semelhantes ou gente independente que não precisa de estar constantemente em contacto com os outros para lhes dizer o quanto gosta deles, compreende a minha posição. E também tenho a minha avó, que me anda sempre a comprar chocolate, uma espécie de combustível que o meu cérebro não dispensa, e que me deixa dormir na cama dela de vez em quando.

Mas aqui, falam-se de caras-metade, por isso voltemos a elas.)

 

O meu segundo ano de licenciatura tem sido c'os diabos. Ando desmotivada, os professores não sabem realmente o que estão a fazer, fui aceite para um estágio que me rouba demasiado tempo (acaba em três semanas, yes!), continuo a trabalhar que nem uma louca, etc e tal. Chego ao final do dia com as baterias todas fraquinhas. Depois, das duas uma: ou me vou abaixo e fico apática, ou fico com um humor de crocodilo e começo a mandar vir ou começo a chorar desconsoladamente até adormecer ou até alguém resistente me dar um abraço como deve ser.

Pois quem me dá esses abraços é o Ricardo e quem me chama passivo-agressiva, pacientemente, é ele também, como se estivesse a comentar que lindo dia está. "Já estou habituado", diz ele, garantindo-me que não o diz pejorativamente, mas sim que, se já me conheceu como sou, por que haveria de deixar de gostar de mim?

O Ricardo, nesse aspecto, é a luz dos meus dias ou, pelo menos, das manhãs e das tardes em que nos encontramos no comboio ou em casa, quando dou explicações à irmã dele - tudo de raspão, muitos encontros-relâmpago.

Supostamente, os opostos atraem-se. Com isto, não quero dizer que sejamos muito diferentes um do outro, mas a descontracção dele é o catalizador para a minha ansiedade. É sempre necessário um equilíbrio, não é? Alguém que se preocupa demasiado precisa de alguém que não se preocupe com grande coisa (e vice-versa).

 

No outro dia, um professor meu (super jovem) dizia-me que é possível ter-se uma cara metade, sendo-se ambicioso. Contudo, confirmava-me ele que é necessário essa pessoa compreender por que é que nos sujeitamos a tamanhas atrocidades físicas e psicológicas, a contratempos, por que é que ficamos tão cansados, por que é que nos falta tempo, que não é por mal que, à vezes, só nos apetece aninhar para o resto da eternidade (e atestar as reservas de feromonas, acrescento eu). Mas é preciso essa pessoa ser meeeeeeeeeesmo especial.

 

Se algum dia o Ricardo acabar comigo, será porque eu o traí... com os livros e o computador.

O fim dos anos "teen" (nãããão!)

Os últimos tempos têm sido de constante mudança. Não sou só eu - também todos os meus amigos estão a tornar-se indivíduos adultos e a definir com cada vez mais clareza que tipo de pessoa, com que tipo de interesses, com que tipo de ambições vão ser.

Ando muito nostálgica por estes dias. Neste grupo, há quem já esteja a dar os primeiros passos numa carreira musical, há quem já esteja quase a acabar os seus cursos, há quem tenha terminado relações de longo prazo sem muito mais futuro, há quem continue à procura de novas soluções e de novos caminhos. Mas todos, todos nós começamos a ficar cada vez mais diferentes uns dos outros. As personalidades que têm sido moldadas durante anos anteriores estão a estruturar-se e a solidificar-se. Mesmo que as pessoas se encontrem em permanente evolução ao longo da vida, creio que no final da adolescência deixe de haver aquela mudança constante que sentíamos quando tínhamos 15, 16, 17, 18 anos. Foi como se, entre os 19 e os 21 anos, se estivesse a operar uma magia qualquer.

O meu grupo de amigos, não aqueles que fiz posteriormente na faculdade, mas sim aqueles com que cresci (uns, desde os tempos de colégio, outros que conheci no secundário) enchem-me de uma ternura imensa. A diferença de idades, entre os 17 e os 23 anos, não interfere, porque andamos todos muito a par dos restantes no que toca à evolução pessoal. Penso que, acima de tudo, fico feliz por ninguém estar a ficar para trás e por poder assistir ao que cada um vai fazendo com a sua vida.

Tenho muita sorte por todos os meus amigos gostarem uns dos outros. Eu sou amiga de todos eles, nem todos são amigos do peito entre si, mas entendemo-nos às mil maraviilhas e, quando uma parte do grupo se decide juntar, juntam-se todos e acabou-se. Acho que já o referi aqui imensas vezes e hei-de repeti-lo sempre que me sentir tão nostálgica quanto neste momento.

É o fim dos teen, não é? Está-me a bater aquela impressãozinha que me aperta o coração.

Tornar-se adulto deve ser "isto"... O pessoal não sabe se há de permanecer nos teen, se há-de ser c'xido.

Acho mas é que "isto" é tudo muito repentino e precoce, pá! Estou mas é depressiva!

Eu, a Inês e Paris, com 200€

Eu e a Inês conhecemo-nos há 14 anos, neste preciso dia, 3 de Abril, só que de 2001 e não de 2015. Tínhamos cinco anos. Ou seja, há três quartos das nossas vidas que a Inês me atura - e sim, tem sido mesmo "aturar".

Enquanto ela é a amiga mais passiva, a que escuta e a que aguenta, eu sou a amiga dramática, com um feitio mais esquisitinho, que era quem decidia a que é que se brincava, onde e quando. A Inês é assim uma espécie de santa que aguentou muita coisa dos meus 5 aos 15, ou até mais (entretanto, passaram-me as estupidezes várias com que a atormentava), aquela que tem ar de quem não faz mal a uma mosca, e não faz mesmo, é a amiga que me arranjava álibis na minha idade parva, a amiga que assiste às conversas porcas do resto do grupo e que fica só a rir, é a amiga a quem os meus cães já não ladram, é a amiga que vai comigo à casa-de-banho há mais tempo.

Quando eu e a Inês tínhamos para aí treze anos, prometemos uma vez que iríamos fazer juntas um cruzeiro ou uma viagem qualquer para celebrar a nossa maioridade e blá blá blá, essas tretas foleiras que as miúdas congeminam. Por isso, foi realmente uma coincidência que, no início deste ano, a Ryanair tenha feito uns descontos simpáticos nos bilhetes de avião, que eu tenha escolhido Paris e que a Inês tenha aceite de imediato a proposta com um "sempre quis ir lá!". Pelo meio, também convidei outros amigos, mas nenhum acabou por confirmar, por isso vamos mesmo só nós as duas.

E quando iremos???

Já amanhã. Paris por menos de 200€, durante quase 5 dias, um pequeno milagre em que as pessoas a quem tenho contado não acreditam (mas que é possível, amigos, com muita organização antecipada e sentido de oportunidade!).

Ultimamente, tenho andado muito atrapalhada com mil e uma tarefas diárias (estudar, trabalhar e estagiar, tirar a carta, ler, continuar minimamente atenta às minhas relações pessoais e às cusquices de Facebook), mantendo-me concentrada e produtiva em todas elas, mas ainda me restam estas consolações que me dou ao luxo de ir tendo (não que haja muito luxo envolvido). Viajar há-de estar sempre na lista das prioridades, sem dúvida, e não caibo em mim de contente pelas oportunidades fantásticas que tenho tido! Trabalho, mas vou gozando!

Tenho pena de não ir com mais amigos, de não levar o Ricardo, de não levar a minha avó... Contudo, ir com a Inês é uma espécie de marco no nosso crescimento, como se fosse um plano esquecido que emergiu das sombras, um ponto da nossa To Do List de vida onde vamos assinalar um "check". Não é fofo? Eu acho que é e só poderia melhorar se mais amigos tivessem aderido a esta viagem meia maluca.

 

 

Nota: aceitam-se propostas de locais a visitar (esqueçam é a Disneyland, que o pessoal não anda a nadar em dinheiro), onde comer bem e barato, onde relaxar um bocadinho com uma marmita, que visitas guiadas escolher, que transportes utilizar, informações acerca de Versalhes, do Louvre, da Ópera, de Notre-Dame, do aeroporto de Beauvais e respectivo serviço de transfer... Já temos muitos planos reservados e em mente, mas a partilha de sugestões é sempre positiva!

Os 4 tipos de pessoas online, face ao Dia dos Namorados

O Dia dos Namorados já foi ontem e, como devem ter reparado, por aqui é que não me encontraram. A explicação é simples: eu tenho namorado. Ah, e tenho um livro do código da estrada para acabar de ler com urgência. Mas enfim, adiante.

 

Apesar de ausente da blogosfera, marco presença assídua (e maioritariamente silenciosa) no Facebook. Estando sempre atenta às manifestações de amor, ódio, indiferença e sarcasmo nas redes sociais, comecei a notar alguns padrões de comportamento no que toca ao Dia dos Namorados. Deste modo, diversas reacções podem ser agrupadas em poucos grupos representativos de pessoas, os quais passo a explicar de seguida:

 

1 - Os forever alone

Muito queixume e pouca acção - é o que caracteriza estes infelizes, que se fartam de partilhar aquelas imagens foleiras do 9gag acerca do quão miseráveis são aqueles que chegam ao Dia dos Namorados... sem um(a) namorado/a. Auto-comiseração = palavra de ordem. Em vez de se martirizarem durante toda a semana que precede o S. Valentim, tornar-se-iam mais produtivos se gastassem a mesma energia a deixarem de ser parvos e a tornarem-se pessoas mais interessantes.

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2 - Os enjoadinhos

Já não se aguentam os enjoadinhos que passam a vida a proclamar o quão non sense é o Dia dos Namorados, que o amor pertence a todos os dias, e para quê tanta prenda, e para quê tanto consumismo, e em vez de estarem só bem neste dia, por que é que não estão bem o resto do ano... Enfim, já parece a conversa do Natal - e ninguém deixa de o festejar, pois não? A estas pessoas, só desejo que lhes calhe um futuro mais-que-tudo obcecado com ramos de flores e cupcakes cor-de-rosa e vermelhos cheios de corações, para lhes passar a mostarda no nariz.

 

 

3 - Os belicodoces-fofinhos-coisinhos-pirosinhos

Se já ninguém aguenta os enjoadinhos, também poucos haverá que ainda suportam os que mostram tanto mel que até enjoam. Eu sei, eu sei, mais vale a mais do que a menos, mas as redes sociais não me parecem o local mais apropriado para longas juras de amor (daquelas que ainda seguem depois do "Ver mais..."), para emoticons que vomitam cor e amo-tes e adoro-tes e venero-tes e meu rei e minha rainha afins.

 

 

4 - Aqueles que apreciam um dia normal, na companhia do seu mais-que-tudo, mas também de de uma flor e de uma caixa de chocolates Milka, evitando conviver com os outros três tipos de criaturas. 

Numa só palavra: eu. Vá, e o meu namorado. A sério, por que é que uma data tão banal quanto o 14 de Fevereiro, que por acaso é Dia dos Namorados, tem de ser tão polémica? Se há datas para celebrar o amor, por que não aproveitá-las, sem dramas ou exageros? Sim, o amor deve ter lugar todos os dias. Sim, deve haver momentos pirosos e foleiros. No entanto, não se justifica a promoção dos coitadinhos, não se justifica a frieza desmesurada, tal como não se justifica o fim da privacidade do carinho e o exagero material. Aproveitem apenas este dia previamente marcado no calendário popular para celebrarem o amor e o companheirismo, para oferecerem o melhor de vocês e para reflectirem melhor no tipo de parceiros que são. E, por conseguinte, adaptem essa maneira de pensar e agir aos restantes 364 dias do ano.