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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Os problemas em adoptar um gato "em segunda mão"

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Como sabem, adoptei o excelentíssimo Lord Ennui há quase dois meses. Ele tem cerca dum ano, parece ser feliz comigo, come bem mas sem ser uma grande despesa, é saudável, não é exigente nos brinquedos (basta enrolar um bocado de papel higiénico ou arranjar uma caixa de plástico que faça barulho) e está cada vez mais a habituar-se a ser um "gato de companhia".

 

 

No entanto, Lord Ennui não tem só qualidades. O primeiro defeito que tem é... não foi bem tratado pelo antigo dono. E agora vocês dizem "mas isso não é defeito". Bem, para muitos poderia ser. Para mim, é um desafio.
Para muitos, poderia ser, porque um gato - ou qualquer outro ser vivo - negligenciado no passado é um gato com falta de confiança nos humanos.
Lord Ennui adaptou-se instantaneamente à vida num apartamento. Massajou o tapete e roeu-me os dedos dos pés de imediato, encontrou a caixa de areia, demonstrou interesse no chuveiro e não foi esquisito com a comida.

 

No entanto, desde o primeiro dia que notei que não estava habituado a ser o que eu chamo um "gato de companhia". Não sabia saltar para o sofá, não gostava de colo, escondia-se frequentemente debaixo do mobiliário, não se deixava apanhar.

 

A única coisa que sei sobre o passado deste gato é que pertencia a um criador sem escrúpulos. Foi exactamente isso que me disseram. Mais não sei. Uma veterinária recolheu-o e foi à clínica dela que o fui buscar.

Portanto, adoptei um gato desconfiado. Um gato "bicho do mato". Um gato em segunda mão.
Felizmente, está a ficar cada vez mais confortável na rotina da vida caseira.

 

Agora, um mês e meio depois, pede muitos mimos. Aprendeu a comunicar. Vai à janela. Começa a perceber quando está a ser chamado. Sobe para o sofá e para a cama. Pede sempre um pedaço da nossa comida. Corre pela casa em acessos de alegria súbita. Brinca sem fim, incluindo à apanhada connosco.

 

Mas, antes de todo este processo, foi preciso muita calma. Eu queria muito um gato de colo, que gostasse de estar comigo. No entanto, não é possível esperar tal coisa de Lord Ennui. É um gato traumatizado, cujos traumas eu não conheço. Muito prático, não é?
Não é prático, mas é uma missão.

Há que ser paciente. Já diz o ditado: "gato escaldado...". A seu tempo, um gato desconfiado aprende a ser um gato relaxado.

 

Seja como for, não me arrependo um único minuto de adoptar Lord Ennui, indomável, terrível, trapezista, atleta, arisco, mas um gato que, sendo amado como é, só pode ser feliz. Só espero que pare de atirar tudo para o chão, de esconder canetas, de rasgar a cortina do chuveiro e de dormir em cima da minha cara durante a noite.

É Natal!

A minha avó descobriu o supermercado cheio logo às nove da manhã, com filas para as caixas que chegavam à peixaria; o meu namorado foi atropelado na passadeira; uma das minhas gatas bebés, a Nonô, apareceu inexplicavelmente doente, com o corpo mole e sem apetite; já passa das 11 horas da manhã de dia 25 e a minha família ainda não abriu prendas porque adormecemos todos ontem a ver um filme e só despertamos para ir mesmo para a cama.

Mas ainda há milagres de Natal. A minha avó despachou-se no supermercado através das caixas de self-service; o meu namorado saiu ileso de um atropelamento que lhe podia ter magoado as pernas e os pés; a minha gata foi levada ao veterinário , de urgência, antes do jantar, e depois de uma dose de anti-inflamatório os efeitos da febre abrandaram e ela finalmente comeu alguma coisa; bem, e as prendas... podem esperar, desde que o Pai Natal não se lembre de as levar de volta.

Feliz Natal, hô, hô, hô, hô!

 

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Amor de bicho - antes e depois

Andam por aí a circular uns artigos com fotos de tipo "Antes e Depois" de animais de estimação com os seus respectivos donos (ou deverei dizer irmãos?) e eu derreto-me sempre que as vejo, principalmente aquelas que têm um intervalo de muito tempo. Também eu tenho dois cães, dois gatos e uma tartaruga, já tive mais cães que, infelizmente, já não ladram por cá, e por isso também sei o que é crescer com eles e reflectir acerca do que já passámos juntos, do nosso crescimento, porque o engraçado é assistir à evolução dos dois lados. Assim, aqui vos deixo as minhas fotografias favoritas da Internet!

 

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(10 anos depois)

 

 

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(17 anos depois)

 

 

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(14 anos depois)

 

 

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(12 anos depois)

 

 

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(10 anos depois)

 

 

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(15 anos depois)

 

 

*RETIRADAS DAQUI*

Só em Portugal, a selva humana de edição limitada

O Governo (de Portugal, what else?) quer limitar o número de animais domésticos por apartamento para, no máximo, três cães ou quatro gatos. A boa notícia é que eu vivo numa moradia e, de momento, tenho "apenas" dois cães, dois gatos e uma tartaruga, não sendo, de qualquer modo, vítima directa dessa infeliz ideia que os nossos caríssimos políticos querem implementar.

Aliás, será que eles têm alguma coisa contra as tartarugas? Ou contra os próprios cães ou gatos, já agora. Que mal é que eles fizeram às pessoas, afinal? Se alguém tiver um apartamento grande, ou com uma varanda, ou uma vida que lhe permita passear os bicharocos as vezes suficientes de modo a dar-lhes um bom lar e boas condições de vida, não entendo por que haveriam de o proibir de os ter. Pessoalmente, acho muito mais problemático ter uma aranha, seja num apartamento ou numa mansão. Ainda mais problemático que qualquer aranha, ou réptil exótico (tipo anacondas e cenas malucas do género, que isto existe de tudo), é haver animais abandonados aos montes ou a serem treinados para... actividades menos agradáveis. Desde que a presença de vários animais por apartamento não incomode vizinhos, esta nova proposta de lei é uma farsa, um desvio de atenção para assuntos prementemente mais importantes. Não é verdade? 

 

Senhores ministros, senhores deputados, senhores-sejam-lá-quem-forem, sempre tive animais de estimação e penso que só tenho retirado benefícios dessa convivência permanente com eles. E não é só de mim: já foram feitas investigações científicas que provaram que o contacto com animais (domesticados, não como uns certos sujeitos engravatados) reduz o stress e combate eventuais depressões, trazendo-nos sensações positivas de conforto, calma e altruísmo. Como é óbvio, quem aprovou esta proposta decerto nunca terá conhecido tais relações como as que se estabelecem entre um ser humano e um companheiro de quatro patas.

 

Infelizmente, há indivíduos que, de humanos, só têm o polegar oponível e a posição anatómica erecta.

Contudo, felizmente, também há bichos que, de animais, só têm o nome.

Gosto #3

Gosto de dias inesperadamente luminosos no Inverno e de sentir o sol fraco na cara. Gosto da brisa tépida que me descongela do meio-gás em que permaneço até aos primeiros sinais da Primavera.

Gosto de dormir com o meu cão aos pés da cama, porque ele me aquece os meus, enquanto o mero facto de o ter perto de mim me aconchega, simplesmente pelo que representa o calor de outro corpo.

Gosto de abraços, porque aquecem, não só o físico, como também o coração, enquanto transmitem uma ternura que só quem nos é querido consegue transmitir. Pela mesma razão, gosto igualmente de dar as mãos (e as minhas estão sempre geladas!).

Gosto de beijos que incendeiam o ego e arredores, sejam breves, longos, ocasionais, repenicados, imprevistos, imprevisíveis, pedidos ou roubados. Aliás – toda a gente gosta.

Enfim, gosto da luz, do calor e do fogo.

 

(Já começa a estar frio.)

Um cão

Em memória do Bijagó, do Caracol e do Misha, para o Dinky e para a Bianca, tal como para todos os cães. Todos, todos, todos.

Um cão não aspira a outra coisa que não ser um cão. Um cão nunca chega a definir um objectivo de vida além de viver e sobreviver segundo a sua natureza, procurando, deste modo, alguém com quem partilhar essa luta. Ainda assim, é demasiado independente dos da sua espécie para que se torne facilmente seu aliado. A sua ascendência lupina incentiva-o a procurar um alfa.
Por isso, quando encontra um alfa em forma humana, um líder, é a ele que passa a obedecer. E, se essa humanidade do seu novo humano existir realmente, o contrato é recíproco. É deste modo que nasce uma parceria que, se tudo correr bem, poderá ser vitalícia, prometendo o cão e o humano lealdade um ao outro.
Num ambiente caracteristicamente doméstico, ambos cumprem a sua parte do acordo. Em poucas palavras, auxiliam-se mutuamente. O humano dá guarida ao cão, comida e todos os cuidados que, sozinho, o último não poderia providenciar. O cão, por seu turno, protege o território que partilham, olhando também, por afinidade, por todos os que se encontrarem nesse espaço, sejam humanos ou animais. Surge o conceito de núcleo familiar, a matilha mista por que ansiava.
Dentro dessa matilha, o cão procura satisfazer (e, por vezes, exibir-se) perante o seu dono. Portanto, não se importa de acarretar com todas as tarefas que lhe forem atribuídas e ainda, sem que sejam designadas, as restantes que for capaz de realizar. Se houver crianças humanas por perto, zela pelo seu bem-estar, dá-lhes atenção, junta-se às suas brincadeiras, cria outras, é paciente e, propositadamente ou não, acarinha-as. Se vir estranhos aproximarem-se de elementos da sua matilha ou do seu território ou se os seus sentidos apurados detectarem algo pouco usual, ladra a plenos pulmões. Se alguém adoece, mantém-se por perto. Se alguém está triste, consola. Se alguém está feliz, multiplica a felicidade. A natureza do cão é ser altruísta, pensando e agindo pelo e para o bem do grupo.
Porém, como todo o ser à face da terra, dos mais irracionais aos mais racionais, o cão não é perfeito. Apresenta-se frequentemente confuso quanto ao sítio onde fazer chichi ou quanto aos objectos em que pode fincar os dentes; o seu pelo nunca pára de cair em novelos; a sujidade, completamente indiferente no seu habitat natural, senão rica em agradáveis odores para o nariz canino, não é assim tão bem cheirada no habitat humano, onde coabita presentemente; jamais é capaz de decorar os lugares para onde não pode subir nem os alimentos que não lhe estão destinados… É guloso, teimoso, cabeça-dura, chantagista, inquieto, barulhento, pedincha pouco ciente do conceito de higiene…
Responsável, atento, leal, sentimental, sensível, amoroso, um compincha para todas as horas, minutos, segundos e milésimos de segundo, sensato, saudavelmente louco, desafiador, esponja absorvente das emoções que o rodeiam, desde o início do seu contrato e, se lhe derem oportunidade, até ao fim - físico ou metafísico.
Um cão nasce para servir a sua matilha e o seu alfa, pelo que o papel do seu alfa e da sua matilha deve ser garantirem-lhe o fruto do trabalho conjunto da pequena comunidade: conforto, comida, amizade, um lar. Não se trata de um contrato verbal, pois as falhas de comunicação são constantes entre indivíduos de espécies diferentes, trata-se sim de um contrato cego, surdo e mudo, independente da linguagem, do audível e do palpável: é um contrato selado com o coração, tal como em todas as verdadeiras amizades. Não é em vão que se diz que o cão é o melhor amigo do homem; nós é que temos o dever e a honra de o merecer.

Misha, Abril de 1998

Caracol, Dezembro de 2005

Dinky, Novembro de 2009

Bijagó, Verão de 2010

Bianca, Outubro de 2012