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Tenho saudades de casa

por BeatrizCM, em 19.09.17

Nos últimos dias, talvez semanas, tenho batido no fundo do poço, uma e outra vez, constantemente a subir um pouco e a cair, a subir e a cair, e cada queda parece sempre pior do que a anterior. Tenho saudades de casa, onde não chego nem perto desde Abril. Fez ontem cinco meses que regressei à Tailândia depois da Páscoa/ano novo tailandês e não há palavras que consigam descrever a sensação de não se estar no sítio onde deixámos o coração e de se ter quase a certeza de que não é suposto estarmos onde estamos.

Viver na Tailândia tem sido uma experiência e tanto. Tenho aprendido e vivido o que pensei não chegar a fazer parte da minha experiência de vida. Sou uma sortuda, foi-me entregue de bandeja o emprego que eu só esperava quase aos 30. O meu salário não é ideal para quem vive a praticamente 1000€ de distância do seu país e faz questão de lá ir duas vezes por ano e de "importar" os seus nos entretantos, mas é um salário bem superior ao que eu alguma vez esperaria ganhar em Portugal saída de fresco duma licenciatura (mesmo em euros, o meu salário médio - aulas base, aulas extra, tutorias privadas - ronda quatro dígitos muito confortáveis). Vivo sozinha, sou responsável pelas minhas contas, adoptei um gato, vivo numa cidade que eu nem sabia localizar no mapa, vou a sítios que ficam bem nas fotos do Instagram, de vez em quando posso esbanjar em roupa a condizer com a paisagem, não ando a contar trocos, blá blá blá.

 

Há três semanas que não tenho um dia inteiro para mim. De manhã, quando acordo, até â noite, quando adormeço. Tenho algumas manhãs e tardes livres, mas sempre com a sombra dos trabalhos do mestrado e das aulas para preparar a seguir-me para onde quer que vá (tentar) distrair-me. Quando acabo uma tarefa qualquer, já tenho outras na fila.

 

Não vejo o meu namorado em carne e osso desde que o deixei nas partidas do aeroporto de Lisboa e só o volto a ver em Dezembro ou Janeiro, daqui a 3 ou 4 meses. Entretanto, aturo perguntas que, apesar de inocentes, doem pela insistência e incredulidade: "mas o teu namorado não vem ter contigo? só o vais ver em X data?". Há poucas pessoas que percebam o sacrifício de trabalhar e estudar ao mesmo tempo (o meu caso e o dele) e de nem sequer compensar viajar meio mundo por dois dias para se lá estarem outros dois, não nos esquecendo do sempre terrível preço do bilhete.

 

Muitas vezes ao dia, muitas mais do que eu gostaria que acontecesse, desejo a calma de espírito daqueles que, mesmo vivendo em terras remotas, seja por opção ou porque teve de ser, não se importam de ir a casa a cada dois anos, estão confortáveis seja onde for, tomam banho em filosofias de carpe diem e são felizes sem um lar, ou que versatilmente constroem muitos lares. Que fantástico seria não andar a dançar em nós na garganta e a aperceber-me cada vez mais que sorrio mais por ansiedade e reflexo do que porque de facto me apetece! Mas não, ainda bem que estas emoções negativas existem, por serem a prova de outras bem positivas: amor, pertença, lealdade, aconchego.

 

Felizmente, eu sei que continuo aqui a prazo. O mundo é tão grande, há tanto a explorar, e agora é mais do que hora de voltar a lançar os dados e apostar em novos números. No meio do processo, aprendi a valorizar e a desvalorizar certas experiências e ambições. Umas eram tidas em alta consideração, mas foram repensadas. Outras nunca me teriam passado pela cabeça se eu cá não estivesse.

 

Uma coisa é certa: não é possível ser-se feliz para sempre com os pés num sítio e com o coração acolá. Sair do país deu-me a mim e às pessoas que me rodeavam diariamente uma nova perspectiva sobre a realidade. Acho que estamos todos diferentes. Há laços que se estreitaram, outros que sumiram para debaixo do tapete. Contudo, não me arrependo, até porque isso não serve de nada.

 

As melodias que o meu humor tocaria (e escreveria, em grande parte) neste momento:

 

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Há tanto de diferente e tanto de igual na Tailândia, quando me lembro de Portugal. No entanto, voltaria já a Portugal sem olhar para trás, caso houvesse essa oportunidade, neste preciso minuto. Ainda assim, vamos lá continuar este semestre e logo se verá. Viver na Tailândia tem muito de bom, mas aprendi que não há nada como estar em casa, no nosso lar, com as pessoas de quem mais gostamos. 

Entretanto, deixo aqui estes apontamentos. Decidi que o melhor a fazer é mesmo gravar em português, dadas as estatísticas da audiência que segue estes vídeos, por isso espero que sejam minimamente interessantes e que constituam uma fuga aos textos loooongos que eu costumo escrever. 

 

 

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Nota à blogosfera

por BeatrizCM, em 23.08.17

Ando a adiar esta publicação há demasiado tempo. Há muito a ser dito, mas poucas palavras para o expressar, por isso aqui vão as melhores que tenho.

 

Desde que vim morar para Bangkok, a minha vida tem sido uma constante de desconforto, descobertas e avalanches várias. No semestre passado, trabalhei, literalmente, até às lágrimas. Sete dias por semana. Nos dias supostamente livres, tinha de planear aulas. Ao fim de semana, era eu a estudante.

 

Assim, sei que muita coisa na minha vida mudou. Foi tudo um bocado de repente, atabalhoado, daí o choque ter sido maior. Tenho batido muito com a cabeça em paredes de vidro esse aço, tenho-me esfolado toda nesta aventura. Há dias mesmo muito maus, e outros muito bons. Os meus alunos fazem-me sorrir, dando-me segurança acerca da qualidade do meu trabalho. Nem tudo são rosas: há mesmo, mesmo dias em que só me apetece ir embora JÁ.

 

No entanto, no meio de toda esta comoção, da falta de tempo ou de paciência ou de tema para escrever no blogue, vocês continuam desse lado. Alguns já vêm de tempos anteriores e mais pacíficos, outros terão chegado agora ou há pouco tempo, mas cada "favorito", cada ligação, cada comentário e cada e-mail valem mil dias de praia!

 

Obrigada.
Obrigada, tantas vezes.

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Viver num país exótico não tem de ser necessariamente uma experiência exótica todos os dias, areais paradisíacos, rooftops privilegiados e massagens. Desde que cá cheguei, tenho-me sentido a andar com uma nuvem à frente do nariz. Tenho tanta mensagem por responder, tanto comentário a que não dei seguimento. Estou agora a sair desta nuvem, pouco a pouco, porque sei que dia se melhores virão. Estou optimista. A vida só me tem dado chocolates nos últimos anos e uma das provas disso até é este blogue. Esta nuvem vai desaparecer! Vai-me deixar ser positiva e voltar ao estado alerta.

 

Obrigada, outra vez. Obrigada por continuarem a ler o que eu escrevo, ainda que seja tão escasso. Obrigada por me fazerem querer produzir conteúdo cada vez melhor e explorar temas diferentes.

 

Este blogue é muito especial para mim, porque é o meu projecto pessoal há SEIS ANOS! Eu sei, não parece muito, mas isso é para aí metade da minha vida, se não contarmos com as fraldas e a escola primária. Tenho muito orgulho no que faço aqui, porque não é pago nem patrocinado por nada (se bem que um dinheirinho extra vem sempre dar um jeitão), mas mesmo assim eu continuo a voltar e a tentar melhorá-lo. O que eu escrevia quando o criei não tem, claramente, nenhuma semelhança com o que para aqui vai agora, mas olhem... É bestial poder ver essa evolução, na escrita, na pessoa, nos interesses, nas transições...

 

Então pronto, era só isso: obrigada!

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Tenho uma foto profissional

por BeatrizCM, em 04.08.17

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Ontem, entrei na sala de conferências. Ia ter uma reunião geral com todos os professores e restantes profissionais da faculdade, acerca do que se tem feito e irá ser feito neste semestre que começa na segunda-feira. Entrei. Fui apanhada de surpresa, como todas as restantes pessoas: suit up, vamos lá tirar uma foto para o site da faculdade, toca a vestir o casaco dum fato dois tamanhos acima do meu, com o logótipo da universidade, ... ainda bem que tinha lavado o cabelo de manhã, usado o secador XPTO que comprei há duas semanas, vestido uma blusa branca, escolhido os melhores brincos, guardado um batom na mala, maquilhado o visage, estreado as lentes de contacto verdes, desinchado a bochecha dos dentes do siso arrancados.

 

Fiquei gira, mas respeitável. E, espero eu, sem parecer mais nova do que os meus alunos. 'Tá qualidade LinkedIn, não 'tá? 

 

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Ser feliz longe de Portugal

por BeatrizCM, em 05.07.17

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Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

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Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

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(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

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Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

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