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Sim, eu também já pertenci àquele grupo de sujeitos muito nacionalistas no que toca à língua portuguesa, que pensa que a fauna dos avecs e filiações constitui um atentado ao bem estar do Português no século XXI. Quão inocente! Passamos a vida a criticar os outros sem qualquer amostra de empatia. E se fôssemos nós? Fazemos pouco de quem fala assim e assado, quem pensam eles que são, contaminar o bom Português com o Francês e o Inglês e essa escória linguística toda, darem nomes estranhos aos filhos, depois regressam a Portugal e fazem uma peixeirada, só se querem mostrar, acham que são gente importante ou quê?

Amigos, eu estou fora de Portugal aí há uns três minutos e às vezes debato-me para parir uma frase em Português com tanta intensidade que só me apetece slap that freaking shit out of me!

É, tipo, super difícil pensar fluentemente in one’s native language quando, quinze horas por dia, a temos de renegar. N’est-ce pas?

E, quando há mais do que uma língua de trabalho, mais do que uma língua a usar no dia-a-dia, encontramos mais expressividade numa do que noutra para certos propósitos. Todas as línguas envolvidas acabam por nos pertencer, nós ganhamos o direito de as usar de igual forma. A “outra” língua ganha relevância, deixa de ser essa “outra” para ser “mais uma”.

Vivemos num mundo global – e não, este não é um pleonasmo, ou talvez seja, mas é um facto. O mundo já não é um grupo de ilhas, é um só continente, porque o território é contínuo. As culturas são fluídas, as línguas tocam-se, a população mescla-se. Não sejamos tão rígidos e mesquinhos, porque há muito a acontecer por aí que nós nem conseguimos imaginar.

O fenómeno dos avecs é exactamente o mesmo fenómeno que deu origem às línguas como nós as conhecemos. Por que raio vocês pensam que chá, em tailandês, se diz “chá”? Por que os portugueses trouxeram o chá das Ásias! Por que acham que, em Inglês, há tantas palavras francesas? Por causa das origens históricas comuns dos ingleses e dos franceses, porque os soldados anglófonos passaram muito tempo em França durante a 2ª Guerra Mundial? E vocês, que andam para aí a escrever “LOL”, ou a fazer sexting, ou a melhorar as vossas soft skills, ou que se dão ao luxo de ter um abat-jour lá em casa? Ou que dão nomes como “Sandra” às vossas filhas, quando esta é, obviamente, uma forma relativamente recente do nome “Alexandra”? Ou que frequentam os “Summer Fest” desta vida? Ou vocês são daqueles que só ouvem música da pedra e música azul e têm um telemóvel esperto? 

As línguas, as culturas, as populações… nada é estanque. O Portunhol não é nada mais do que o processo de formação de palavras e negociação de vernáculos que aconteceu sem limites, até alguém se lembrar de escrever gramáticas e dicionários e de os movimentos nacionalistas dos últimos dois séculos ganharem proporções relevantes e terem estabelecido fronteiras nunca antes existentes.

Então, não criemos mais fronteiras. Construamos, antes, pontes. Espaços e tempo para negociação. Para discussão. Para abertura ao que vem, supostamente, de fora. E sejamos flexíveis quanto às transformações naturais da língua, da cultura e dos indivíduos, porque nós somos, apesar de tudo, o resultado inacabado de toda esta miscelânea.

Em suma, eu não ando linguisticamente confusa porque sou uma pedante que gosta de mostrar que é poliglota. Aliás, este nem é o meu pior estado: há quatro anos, eu andava a estudar três línguas estrangeiras ao mesmo tempo e aí sim, andei a trocar os linguarejares todos. E, aliás #2, uma pessoa fica realmente frustrada quando não consegue articular o que pretende na sua língua materna. Sentimo-nos deslocados, ou quase traidores, auto-expatriados, ainda que não seja assim que nos vemos.

Sejam bonzinhos para quem vive no estrangeiro. O pessoal já anda a bater suficientemente mal da cabecinha. Acreditem em mim, que eu já estou a dar o flop. Se no meu cérebro operasse um sistema como o do Inside Out, os meus bonecos teriam quatro ou cinco cabeças e cada uma falaria uma língua diferente, mas todas ao mesmo tempo.

I’m out.

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[Críticas à peça de teatro As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos e ao filme Selma.]

 

No final de 2014, tomei duas decisões: que havia de ir mais vezes ao teatro e que havia de ir mais vezes ao cinema. Ok, e que havia de ir mais vezes a exposições de arte, a museus e etc e tal, mas ainda não cheguei lá (por agora!).

Sendo assim, já comecei a investir nessas decisões durante este fim-de-semana prolongado de Carnaval.

 

 

No Domingo, fui ver a peça As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos, no Teatro Tivoli. Já esteve em cena no ano passado, depois esteve noutras zonas do país e há uns meses regressou à capital. Durante todo este tempo, nunca parei de pensar "vou ver no próximo fim-de-semana... e vou no outro... e talvez depois dos testes... e agora não tenho dinheiro" - até que recebi a derradeira ameaça. 15 de Fevereiro de 2015 seria o seu último dia em Lisboa, muito provavelmente pela última vez (uma terceira temporada de uma peça de teatro, em menos de dois anos, na mesma cidade, em Portugal, não seria pedir demasiado?). Claro que mandei o dinheiro às urtigas, deixei de ser forreta e lá fui eu, mais a minha avó e a minha tia.

Primeiro aspecto a frisar: a opinião pública acaba por viciar muito as nossas expectativas.

 

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Estou quase a acabar de ler um livro chamado Os Portugueses, do jornalista inglês Barry Hatton (que vive em Portugal há cerca de 28 anos). Este excerto é apenas uma das imensas pérolas que o autor refere acerca dos tugas - perdão, portugueses! - e só lendo o livro todo é que se acredita que, realmente, somos uma sub-espécie humana muito curiosa. Depois de passar 2 semanas a viver com pessoas doutros 4 países, não podia deixar de sublinhar que tudo o que o autor teoriza é verdade, provavelmente em todos os aspectos da nossa vida. Graças a estra grande obra-prima da literatura cultural, fiquei a conhecer-me muito melhor e aos meus compatriotas (pronto, pronto, mais opiniões no outro blogue, quando terminar a leitura).

Apesar de ser um bocadinho longo, aconselho-vos a lerem todo este parágrafo. Vale a pena!

 

Os portugueses tornaram-se adeptos de se irem safando, um talento para a adaptabilidade chamado «desenrascanço», aperfeiçoado por séculos de dificuldades. Trabalhos paralelos ajudam a manter as dificuldades à porta. Fora das cidades, as pessoas têm em geral um bocado de terra onde plantam legumes e, mesmo nas cidades, podem encontrar-se faixas de terreno plantadas no meio do trânsito intenso. A sociedade parece obedecer a regras informais. A ajuda vem da família ou dos vizinhos, ligados por uma rede informal que compensa as limitações do sistema. Não é o modelo da moderna UE, mas mais uma inspiração do passado. Arranjar alguma coisa que é precisa implica alguns telefonemas para amigos dos amigos - relações úteis chamadas «cunhas» - porque o Estado, pensam as pessoas, nunca vos dará nada de bom grado. Estas relações substituem os parâmetros do mérito e da justiça pois, dizem os portugueses, não se trata de «saber como» mas de «conhecer quem». E, esperando por um milagre como o regresso de el-rei D. Sebastião, os portugueses são os europeus que gastam mais, em termos relativos, na lotaria do Euromilhões. Tal como aqueles que afastam os receios de uma repetição do terramoto de 1755, estes jogadores depositam a sua fé na providência e apostam pouco na possibilidade de triunfar através da sua própria iniciativa. 

 

Barry Hatton, Os Portugueses

 

 

 

 

 

 

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As criancinhas querem livros!

por BeatrizCM, em 21.05.13
Eu sei que os miúdos querem é brincar, jogar Playstation e arreliar os animais de estimação, mas penso que a vertente cultural não perde importância nenhuma no meio de tanta tropelia. E quem diz vertente cultural diz LIVROS. Oh sim, os livros! Preparem-se para ler o (curto) best of dos argumentos pró-livros na infância que esta livro-maníaca tem para vos "vender".

Primeiro, pergunto apenas: como é possível, neste mundo, neste nosso Portugal, ainda haver criancinhas de dois anos (e por aí fora) que não têm livros nem contactam com ninguém que lhos mostre ou que lhes contem, sequer, uma história da Carochinha ou da Cinderela? Como?! Deparando-me com casos próximos sofrendo deste mal, não me consigo questionar outra coisa...

Não me lembro de um único momento ou etapa da minha vida em que não tenha estado em contacto com livros. Aliás, já tenho aqui escrito sobre a nossa precoce e sempre fecunda relação e vocês já devem ter entendido que isto é para a vida, amigos, ai que não é. Claro que nem sempre me fiz acompanhar de calhamaços de oitocentas páginas, mas nunca me faltaram as bandas desenhadas da Disney, do Astérix ou do Tintin, livros de histórias infantis populares (principalmente dos contos dos irmãos Grimm, da Anita e de fábulas, como as do Hans Christian Andersen) ou até mesmo aqueles com pouca escrita e muitas imagens coloridas, de capa dura. Daí a minha apreensão quando conheço uma criança que não esteja a ser habituada a este mundo. Faz-me impressão, dá-me comichão, deixa-me lesão, aumenta-me a tensão!
Pelo que me tenho apercebido, não só pelo meu caso, como também por outros, as crianças que se habituam aos livros têm mais probabilidade de gostar deles e de os ler, efectivamente. Ao longo do tempo, sempre mos compraram, deram ou emprestaram, e eu nunca os li todos - senão, ainda estaria por esta altura a meio das minhas aventuras d'Os Cinco ou dos da Condessa de Ségur.
E, regra geral, as crianças que lêem têm tendência a tornar-se mais criativas, a ter mais sucesso na escola e a ter uma mentalidade mais liberal. Lendo, aprende-se a escrever e a pensar, o que costuma dar jeito na vida real (apesar de não parecer, eu sei...). De pequenino se torce o pepino! Pessoalmente, os livros nunca me trouxeram desgostos (excepto um final infeliz ou outro) e jamais desistiram de me trazer alegrias. Mesmo que os seus enredos sejam uma porcaria, que o autor seja o mais pervertido e maquiavélico, sabe-me bem chegar ao primeiro terço das páginas, a metade, a três quartos... ao fim, e pensar "eu cheguei aqui/eu li tudo isto!" e ser inundada por uma onda gigante de orgulho, que me alimenta o ego e a auto-estima.

Não quero, com isto, parecer estar a fazer propaganda aos livros - eu não pareço, porque estou mesmo! Deixem as criancinhas ter livros! Dêem-lhes livros, nem que sejam aqueles que custam 0,99€ no Continente. Afinal, que mal poderá daí advir? Nenhum. Eu tenho livros desde que me lembro e não deixei de papar tudo o que era desenho animado na televisão, catálogo de brinquedos ou jogos, muito menos foi por isso que não  me interessei pelo meu Game Boy, pelas Bratz, pelas Pollys ou pelos meus bichos da seda. Estou viva e tenho-me saído razoavelmente bem - eu... e mais uns quantos milhões.

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Se há coisa que me inquieta terrivelmente é, na minha escola, valorizar-se mais o desporto do que a actividade intelectual. Não me interpretem mal - eu sou da opinião de que deve haver um equilíbrio entre os dois, pois ambos são importantes, à sua maneira, na nossa formação. Mas, vejam-me lá o desplante da situação!, o pessoal que ganha, por exemplo, campeonatos desportivos, tem direito a fotografia e a alegre comunicado no site da escola, tal como à entrada de cada pavilhão, enquanto o pessoal que ganha concursos literários ou científicos é colocado em segundo plano e, se obtiver uma linha na página de Facebook do agrupamento, já vai com muita sorte (e, confesso, até poderei estar a incluir-me nesse grupo, uma vez que já ganhei pelo menos 4 prémios desde que entrei na C+S, além de ser algo activa na comunidade lectiva, nunca tendo visto o meu esforço recompensado com tais mordomias). Deste modo, pegando num pequeno exemplo como este, se confirma que a sociedade, em geral, tem as prioridades um bocado trocadas. Vivemos num mundo em que o pontapé na bola é superior à investigação científica, ao exercício da cidadania e à cultura. Depois queixam-se de que andamos em crise.

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