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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Será fácil arranjar trabalho em Portugal depois da licenciatura?

Em Junho, fez um ano que terminei a licenciatura. Depois dum estágio, comecei a trabalhar em Outubro. Como sabem, calhou-me na rifa um emprego longínquo, mas aqui fica a minha opinião acerca das oportunidades de trabalho em Portugal depois da licenciatura.

 

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O grande panorama

Em primeiro lugar, todos sabemos que o mercado de trabalho em Portugal se encontra saturado, não só de licenciados, desta ou doutra área, mas de todos os domínios profissionais ou diferentes níveis de qualificação e educação. Ainda assim, eu acho que o panorama não é assim tão negro para recém-licenciados que procuram o seu primeiro trabalho.


Estudei Letras. Línguas, literatura, cultura, artes, política, filosofia. Estudei de tudo um pouco na minha licenciatura, tive a sorte de aprender imenso, mas a verdade é que as licenciaturas abrangentes costumam ser vistas como "aquelas que não dão para nada". No entanto, sei que muitos dos meus colegas conseguiram arranjar emprego em Portugal nos meses seguintes ao fim do curso. Aposto que não terão sido os seus empregos de sonho, mas conseguiram.

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A importância dos estágios (curriculares e extra-curriculares)

Existe este mito de que "os empregadores não olham para as notas", por isso aqui vai alguma desmistificação.
Hoje em dia, em Portugal, é indispensável participar num estágio ou numa experiência extra-académica. Um estágio permite-nos obter o conhecimento e prática que, na maioria das vezes, não obtemos pela via escolar. Quanto mais cedo o fizermos, melhor. Sempre que quis arranjar trabalho, mesmo que temporário, enquanto estudava, os estágios permitiram-me, no mínimo, mostrar que era responsável e que me encontrava motivada para trabalhar, pôr as mãos na massa. Além disso, ajudam-nos a decidir se gostamos de trabalhar em determinada área profissional. 

Quão relevantes são as médias finais de curso?

E lá está: as notas. Frequentemente, estes estágios de que vos falava, incluindo o estágio que me trouxe à Tailândia, são promovidos ou organizados pelas instituições onde estudamos. Adivinhem para onde é que vão olhar, a que aspecto vão dar importância imediata? É isso, a nota. Sem experiência profissional anterior, a média da licenciatura acaba por ser determinante para certos recrutadores.

 

Uma licenciatura é suficiente?

 Obviamente que, na hora de sermos contratados, a nota média final de curso não é suficiente. Arranjar trabalho em Portugal depois da licenciatura parece-me ter em conta outros aspectos. A nota é uma grande parte do bolo, a que devemos acrescentar formação profissional paralela, workshops, conferências, os estágios, programas de intercâmbio, trabalho voluntário, portfólio, prémios, cartas de recomendação, diplomas e certificados vários... Eu sei que esta lista pode parecer assustadoramente extensa, mas os três anos de licenciatura servem para muito mais do que estudar, ir às reuniões com os professores, ir à praxe, às festas, aos convívios... E muitas destas experiências duram menos dum dia de trabalho! Se tentarmos explorar duas por ano, teremos mais seis motivos para apresentar a um potencial empregador, convencendo-o de que somos as escolha certa.

 

Está bem, mas afinal o que é que mais importa para encontrar emprego depois da licenciatura?

Diferenciarmo-nos. Mostrarmos que não somos apenas um número.
Costumam ser admitidos cerca de 60 alunos à licenciatura em Ciências da Cultura na FLUL (agora com o título de Estudos de Cultura e Comunicação). Talvez 50 cheguem a terminar a licenciatura.
Foi desses 50 colegas que eu sempre me tentei diferenciar, porque eles seriam mais 50 pessoas, fora os licenciados doutros anos, com quem eu teria de competir no mercado de trabalho, se ninguém fizesse mais nada senão o próprio curso.
E há licenciaturas em que entram 200 candidatos anualmente!

Somando tudo, acabei por elaborar um perfil pessoal e profissional durante os três anos da licenciatura, com o objectivo de me demarcar doutras pessoas. Licenciatura + nota + proficiência em línguas + certificados + formação + estágios + intercâmbios + competências consequentemente adquiridas = combinação única. Não quer dizer que o meu perfil é melhor ou pior do que o doutro colega meu, mas, pelo menos, é diferente.

 

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Resumindo e concluindo
Encontrar trabalho em Portugal, depois da licenciatura ou de qualquer outro nível de estudos, não tem de ser sempre uma tarefa titânica. Pode ser, sim, o resultado dum esforço contínuo para encontrarmos interesses apenas nossos, criarmos o nosso "eu" pós-universidade continuamente e perseguirmos novas ideias e projectos para o futuro, mais ou menos longínquo, em Portugal ou no estrangeiro. Claro que tudo isto parece mais fácil assim escrito do que feito, mas espero, pelo menos, convencer-vos a serem um pouco mais optimistas acerca do vosso (possível) percurso universitário.

Aprender Inglês sem estudar?

 

Hoje em dia, saber o mínimo de Inglês já é um dado adquirido, ou que o deveria ser, principalmente para a minha geração. Nascemos com todos os recursos à mão, estivemos em contacto com a língua desde muito cedo, tenha sido na escola, na televisão, nos filmes, em palavras emprestadas ao Português... Quando vamos a uma entrevista de trabalho, já nem é só Inglês que temos de falar. É-nos pedido cada vez mais. Bem nos podemos safar!

 

Enquanto professora, gosto de partilhar a minha opinião sobre como aprender Inglês facilmente (ou outra língua não nativa qualquer).

Por exemplo, os meus alunos ficam muito parvos quando lhes digo que nunca senti necessidade de aprender Inglês a estudar. Logo eles, que estão a tirar a licenciatura em Língua Inglesa, gostariam de saber os meus truques. 

 

A questão é: não há truques. Há apenas hábitos. São pequenos gestos diários que fazem a diferença na aprendizagem duma língua. É uma repetição de gestos e pensamentos que valem mais do que mil aulas. Afinal, vamos ser sinceros: muitas vezes aprendemos melhor uma língua estrangeira fora da escola. Perguntem aos vossos pais, aos vossos amigos, aos vossos professores. Muitas vezes, o ensino formal das línguas funciona mais como um complemento. Eu própria aprendi os básicos a ver o Harry Potter e o Cálice de Fogo e respectivos conteúdos bónus vezes sem conta, depois de ter poupado as minhas mesadas até poder comprar o DVD. Ou a ver Crepúsculo. Ou a ler, devagarinho, até perceber quase tudo o que os livros tinham escrito.


Eu percebo a luta que é para muitas pessoas aprenderem línguas e a relutância em investir em aulas (porque, se os professores não forem dinâmicos, as aulas são uma seca prometida). De jovem professora para potenciais poliglotas independentes, aqui vão alguns hábitos para aprender Inglês sem estudar:

 

1. Não substituir as letras originais das músicas pelo linguarejar aleatório

Ouvir música regularmente faz parte da rotina diária de quase toda a gente. Desta forma, a primeira dica que vos deixo é tentarem decorar nem que seja o refrão dos hits do momento que mais passam na rádio ou que vocês ouvem nos vossos telemóveis enquanto vão para a escola ou para o trabalho. Uma vez que o refrão é reproduzido umas três ou quatro vezes em cada música, acabamos por não só cantarolar palavras aleatórias, mas sim a decorar expressões inteiras em Inglês (evitar aprender palavras soltas é um dos princípios mais importantes ao aprender qualquer língua).

 

2. Alterar a língua predefinida nos telemóveis, computadores e outros dispositivos electrónicos

Lá está, aprender Inglês sem estudar pode ser uma consequência natural de hábitos tão simples quanto este. De tanto ler "Clock", de tanto ler "Would you like to reboot your phone?", de tanto ler "low battery", de tanto ler "Your computer is installing a new update", certos padrões de frases vão encaixando a pouco e pouco na nossa mioleira (que é rija, mas nós somos mais).

 

3. Instalar o Pinterest para frases inspiradoras

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Parece-vos foleiro? A sério? Eu solidifiquei os meus conhecimentos de Inglês a ver Hannah Montana e a série dos Jonas Brothers em Inglês, antes de saírem em Portugal. Aos 21, estava já a ensinar Inglès na universidade (self-praising time, cough cough). Por esta altura, já deviam saber que NADA é foleiro. Cada um safa-se como pode e provavelmente muitos de nós adoram frases inspiradoras (ou pseudo), que soem a Pedro Chagas Freitas, mas que servem muito bem para o efeito de nos porem a sorrir. Ainda por cima, o conteúdo gramatical e a estrutura desta frases costuma ser simples. Start your day with a smile. Então pronto, uma frase do Pinterest por dia, não sabe o bem que lhe fazia! Depois é só procurem o significado de novas palavras e voilà!

 

4. Ir ao supermercado e procurar o nome dos produtos em Inglês

Quase todos os produtos do supermercao têm rótulos bilingues ou trilingues, o que torna muito fácil identificar relações como "arroz-rice-riz". Não sabem como se diz molho em Inglês? Olhem lá para o rótulo. É "sauce". E os valores nutricionais? ProteinsCarbohydrates. Vitamins. Ainda por cima, estas palavras estão sempre envolvidas num contexto específico, o que mais uma vez facilita a memorização.

 

5. Rever os vossos filmes e séries favoritos (ou leiam os livros) em Inglês que mais vos marcaram...

... e troquem as legendas em Português para legendas em Inglês. Vocês já conhecem a história. Muitas vezes já sabem certas passagens de cor e salteado. Agora, resta ir mais além e ver e ouvir tudo na língua original. 

 

 

De resto, não se deixem abalar pelo início lento. Não sejam duros convosco, sejam duros com o Inglês, persistam, comparem a vossa evolução ao fim dum mês e não de dois dias. Não tentem descobrir logo a diferença entre o past simple continuous e o present perfect, não abram gramáticas e manuais antes de se sentirem preparados para complementar a aprendizagem natural com outros materiais. Apenas... aproveitem a língua. Não façam por odiar o Inglês, que vos pode trazer tantas alegrias a longo prazo. Aprendam Inglês sem estudar, sem pressa, sem pressão e sem expectativas.

 

Boa sorte!

5 desafios de ensinar no estrangeiro

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Com os meus 117 alunos deste semestre, 1º e 2º ano da licenciatura em Artes Liberais, major em Inglês.

 

Viver fora de Portugal já é suficientemente difícil, mas ensinar no estrangeiro é ainda mais desafiante.

Em primeiro lugar, tenho de vos alertar desde já que adoro ensinar na Tailândia. Esta é uma experiência que está a mudar a minha vida a cada dia que passa.

Tirando as saudades que tenho de casa, da família, do namorado, dos amigos e de Portugal, sinto que só tenho retirado boas energias e um desenvolvimento pessoal e profissional bastante positivo.

No entanto, ensinar no estrangeiro tem também muitos desafios e é preciso ter-se um não sei quê de perseverança e coragem para os resolvermos.

 

1. O passado educativo dos alunos é, inicialmente, uma incógnita para nós

Por muitos livros que nos informem acerca dos sistemas de ensino do país onde vamos trabalhar, a forma como os alunos se comportam vai provavelmente revelar-se... apenas na sala de aula, no terreno. Por exemplo, eu já sabia que a educação na Tailândia não dá lugar ao pensamento criativo e à discussão livre entre professores e alunos, que is professores têm quase sempre a última palavra. Na verdade, todas as palavras. Os alunos são motivados em direcção à passividade. Mas sabia lá eu que eles iam detestar que lhes dessem a possibilidade oposta! (Entretanto, os meus já levaram um tratamento de choque e muitos já dizem que gostam das minhas infindáveis perguntas. Eu também levei uma chapada sem mão e deixei de stressar por não ter muitos potenciais participantes.)

 

2. Os alunos são diferentes, as burocracias idém

Outro desafio de ensinar no estrangeiro é lidar com os documentos de legalização e de ter de o fazer com o staff da escola/instituto/universidade. No meu caso, achei tudo muuuuuito lento, as pessoas complicadinhas até mais não e cheguei a chorar de desespero, já pensava em deportação, problemas com a lei, os oficiais da imigração virem à minha faculdade passar-me uma multa por ainda não ter o visto ou a licença de trabalho regularizados. A outra parte também foi levada às lágrimas, não fui só eu. Afinal, os desentendimentos são bilaterais e precisamos todos uns dos outros.

 

3. A barreira linguística. Perdão, não é barreira, é um muro. Com vidro partido em cima. E arame farpado.

Imagino que ensinar num país cuja língua materna seja parecida às que falamos ou que nós dominemos acabe por facilitar a nossa adaptação. No entanto, imaginem que não falam nenhuma língua próxima, quanto mais a língua local, o alfabeto é incompreensível, o staff administrativo fala um inglês macarrónico, ninguém se entende... Pois, é como voltar à Torre de Babel. Ainda bem que a maior parte dos meus alunos são "English Majors" e que os meus colegas também são professores de Inglês.

 

4. Os alunos cresceram num país diferente, logo pensam distintamente

Desde a questão da falta de pensamento crítico que já não me agradava "a conversa" (ou falta dela). Só quando começarem a conhecer os vossos alunos e a falar com eles diariamente é que os vão realmente entender, mas penso que haverá sempre alguns que simplesmente se fecham em copas e depois esperam que tenhamos poderes telepáticos para lhes ler as razões, os quês e os não sei quês. Estas diferenças poderão estar relacionadas com tabus culturais, estruturas familiares e organizacionais, expectativas a nível pessoal e profissional, linguagem corporal, expressões faciais, registo de língua... You name it!

 

5. A posição e reputação dos professores no país

No que toca à Tailândia, os professores não são os profissionais que são recompensados mais justamente, mas são provavelmente das classes mais respeitadas na sociedade. Um professor é um chefe, uma figura da autoridade e quase omnisciente. As vénias (ou wais) que recebia no início pareciam-me uma tolice desnecessária. Contudo, aprendi a apreciar este tratamento e a negociá-lo com os meus alunos. Tive de lhes ensinar que professores e alunos devem aprender mutuamente. Que temos de trabalhar juntos em direcção a um objectivo comum. E que o respeito deve ser merecido e que eu estou sempre a tentar merecê-lo. Também eu demonstro o respeito que tenho pelos meus alunos, com vénias (a saudação tradicional), palavras de encorajamento ou com simples conversas e confidências. Por outro lado, outros professores terão experiências opostas.

Preparem-se sempre para serem mais ou menos respeitados no vosso país de acolhimento e para as respectivas consequências. Preparem-se para serem tratados com mais ou menos deferência, de acordo com a perspectiva dos vossos alunos, superiores e colegas em relação aos estrangeiros.

 

E vocês, têm mais sugestões? Até agora, estes são os maiores desafios que encontro ao ensinar num país estrangeiro, mas certamente haverá mais listas por aí. Que tal as vossas ideias?

Último dia na FLUL

Acabei de assistir à última aula da minha licenciatura na FLUL. Resta-me apenas vir cá no dia 20 de Junho apresentar o meu relatório de estágio.

Acho que ainda não me tinha apercebido da importância deste acontecimento, dado que a tarde foi marcada pelas pressas em terminar o dito relatório de estágio, entre paralisias inesperadas do meu computador, detalhes que tinham sido esquecidos e ficaram para o atar das feridas*, e a grande excitação de saber que dentro de três semanas já estarei eu própria a dar aulas do outro lado do mundo.

 

Acabei de assistir à última aula da minha licenciatura na FLUL. Então, brindemos mentalmente a um possível regresso, dessa feita estando eu do outro lado da mesa!

 

*Mas olhem que ficou tudo bem bonito e organizadinho, estou uma babadona pelas minhas 111 páginas!!!

Universidade #9 - Pasta de finalista + bênção das fitas

Como em tudo no que toca às pseudo-tradições académicas, escolhi experimentar estas duas, com receio de me arrepender mais tarde caso não tivesse fazer parte delas. Tenho para mim que é sempre melhor "ver para crer", em vez de nos pormos com peneiras e falsos orgulhos, mesmo que, à partida, aquilo com que nos deparamos nos pareça uma mariquice.
Foi com isto em mente que comprei e mandei fazer a minha pasta de finalista, mais as fitas azuis timbradas da minha faculdade, e me inscrevi na benção das ditas cujas. Provavelmente, quem me conhece e me ouviu falar sobre estes assuntos desde o primeiro ano no ensino superior acabou por se surpreender. Ah e tal, que eu sou uma vendida, uma troca-tintas, uma Maria vai com as outras. Se calhar sou, porque a certa altura eu achei que isto dos finalistas era tudo uma gravíssima lamechice e que gastar um sábado inteiro ao sol numa cerimónia com milhares de pessoas, mais uma pequena fortuna na pasta, nas fitas e no bilhete era duma pessoa se atirar da ponte. Afinal, se tudo correr pelo melhor, ainda hei-de ser finalista mais duas vezes.
Só que, quando chegou o momento da verdade, aquele em que me defrontei com a possibilidade de fazer ou não fazer o que estou prestes a fazer... Aí é que foram elas! Deixar passar a oportunidade e ficar na ignorância é que não! Por isso, encomendei a pasta de finalista e cá tenho eu andado a distribuir as minhas fitinhas pelo pessoal, à espera que me escrevam, desenhem e desejem coisas bonitas, dignas de ser abençoadas pelo Cardeal Patriarca no dia 21.

Depois, conto-vos como foi.

 

 

 

A dita cuja! #ciênciasdacultura #flul #ulisboa #senioryear #bênçãodosfinalistas

Uma foto publicada por Beatriz Canas Mendes (@beatrizcanasmendes) a

Queridos professores,

Venho, por este meio, solicitar que deixem os alunos escolher o estilo de citação nos seus trabalhos (Chicago, APA, MLA, Harvard... who the hell cares???), porque eles existem em número superior à quantidade de neurónios na minha cabeça às nove da noite.

E, já que estamos por aqui, vamos falar a sério. Parem, de uma vez por todas, com isso do "20 é para Deus, 19 é para o professor e 18 é para o Stephen Hawking". Por causa dessa brincadeira forreta, despenteiam-me a média. Que eu saiba, a avaliação possível vai de 0 a 20, não de 10 a 17. E não, 18 não é uma "nota boa", é uma nota real e ponto final, tal como o 19 e o 20 - que, já agora, também constam da minha pauta, graças a professores menos bota de elástico. #ficaadica

 

Saudações esquentadamente cordiais,

Beatriz

FLUL vs. Faculdade de Ciências Humanas da UCP

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Regressei há duas semanas à Faculdade de Letras e já sinto falta das casas-de-banho asseadas e da eficiência dos serviços académicos da Faculdade de Ciências Humanas.
Também me apercebi que deixei de ser imune a professores efusivos e com características muito... características (para o bem e, infelizmente, para o mal). Lembro-me de até gostar de certos casos, mas acho que fiquei mal habituada aos acessos de loucura docente que, no 2º ano, ainda me fascinavam.
De certa forma, os colegas são um factor indiferente na equação. Conheci pessoas extremamente interessantes nos dois sítios e, no final de contas, acho que todos os encontros dependem de muitos acasos. A contabilização deficiente de faltas na FLUL e as aulas mais curtas e intervaladas da FCH+direito privilegiado a hora de almoço que o digam.
No que toca às condições dos edifícios, continuo a preferir os da FLUL, até as caves e o Pavilhão Novo (recentemente restabelecido, décadas depois, tendo voltado a fazer um bocadinho mais de justiça ao nome que carrega), mesmo quando chove lá dentro, por isso ainda não sei como irei viver sem eles diariamente a partir de Junho, se o semestre na FCH já me deixou tão saudosa. Quero lá saber das variações ridículas de temperatura de sala para sala ou das salas para o corredor. Eu gosto é do ar que se respira na FLUL, daquele ar húmido que emana as gerações de estudantes e professores que já a habitaram. Não há limpeza na FCH que me dissuada deste amor que eu nutro pelas instalações da FLUL. E aquela biblioteca... Oh, querida biblioteca sem pó, albergue duma variedade invencível de livros! A quantidade de escadarias na FCH também não abona a favor da mesma no presente confronto de titãs e muito menos a carência de locais calmos para pôr o estudo em dia.
Porém, uma coisa é certa: há professores queridos e competentes nas duas faculdades, que adoram os alunos e vivem apaixonadamente o espírito de entreajuda e de transmissão do conhecimento. No final, esta é a conclusão mais relevante a sublinhar e que certifica tanto a FLUL quanto a FCH enquanto instituições de ensino onde dá gosto e prestígio estudar. Qualquer que seja a escolha de futuros alunos do ensino superior, ficarão bem servidos.

Estagiar no ensino superior - porquê?

Notícia de segunda-feira: "Governo quer estágios em todos os anos das licenciaturas e mestrados"

 

Muitos são aqueles que criticam os estágios, em geral. Que são a legalização da escravidão. Que se estabelecem contratos manhosos, ambíguos e apologistas da exploração laboral dos estagiários. Que, hoje em dia, se passa a vida a ser estagiário, sem surgirem as oportunidades de progressão de carreira nas empresas ou instituições e sem se ser recompensado espiritual ou financeiramente. Que se contratam estagiários porque fica mais barato do que contratar um profissional com experiência.
No entanto, essas críticas só vêem o lado negativo dos estágios, até porque é o único que temos conhecido ultimamente. Para lá dessa faceta, existe uma outra.
Os estágios, nomeadamente os estágios no ensino superior, não servem para andar a ser feitos para o resto das nossas vidas, mas sim para serem experimentados nos primeiros tempos profissionais. Servem para vivermos um sneak peak do que irá ser, ou poderá ser, o mercado de trabalho onde nos pretendemos inserir através dos nossos cursos. Para mim, estagiar 120 horas no fim do meu 3º ano de licenciatura, e já ter estagiado outras 100 no ano passado, significa colocar-me à prova fora da minha área de conforto. Entrei e entrarei em contacto com opções de trabalho completamente distintas uma da outra, mas ambas relacionadas com o que ando a estudar. Afinal, para que serve o meu curso? A que mercado de trabalho posso chegar com o meu canudinho e todas as competências que adquiri até ao momento? Como aplicá-los? E o que gostaria eu de fazer no futuro?
É para isto que servem os estágios no ensino superior, principalmente no universitário, que - digo eu - não parece acompanhar a evolução do mercado de trabalho e continua a formar indivíduos indefinidamente sem lhes mostrar outra realidade que não a académica. Nem todos viremos a ser professores, nem investigadores. É verdade que, se quiséssemos um curso mais prático, teríamos optado pelo ensino profissional, técnico ou superior politécnico, mas a universidade também deve alargar os horizontes dos alunos. Quem se candidata ao ensino superior universitário fá-lo por desejar o conhecimento. Mas não nos iludamos: o que nos leva a estudar mais sabe-se lá quantos anos e a investir milhares de euros na nossa instrução passa igualmente pela expectativa de virmos a trabalhar naquilo de que gostamos, com um salário mais composto do que se nos tivéssemos ficado com o 12º ano e com melhores condições nos contratos. Para isso, há que sair da faculdade já com alguma visão.
E sim, eu sou a favor de estagiar no ensino superior em todos os anos das licenciaturas e mestrados, desde que com algumas reservas. Se é para ser todos os anos, que sejam estágios de curta duração, uma semana ou duas a tempo inteiro ou parcial, por exemplo. Nada de serem estágios que duram o semestre inteiro e que, mesmo sendo a tempo parcial, obrigam os alunos a faltar a aulas e a sofrer uma sobrecarga horária (como me acontecerá a mim). E, mais importante do que qualquer outra coisa: nada de usar o trabalho dos estagiários para substituir o trabalho dos profissionais, que ou não são contratados exactamente por o trabalho ser assegurado pelos estagiários, ou porque os próprios se aproveitam dos estagiários para trabalhar o que lhes compete. É suposto um estágio constituir um momento de aprendizagem, que implica a presença e a participação constante de alguém com experiência para orientar o estagiário, género job shadowing. Para quê estagiar num festival artístico (muito comum no meu curso), se esse mesmo festival é quase completamente realizável à custa do trabalho desenrascado dos estagiários? O que se aprende? A trabalhar-se sem orientação e à pressão? A ser-se autodidacta?


Espero que esta nova ideia do Governo seja bem aproveitada e que até sirva para apertar a legislação sobre os estágios curriculares, extra-curriculares e profissionais.

As caras-metade das pessoas que não param

Quando alguém conhece uma pessoa que não pára, que se farta de trabalhar, com vontade de comer o mundo com uma só dentada, nunca se lembra daqueles que a rodeiam diariamente - se é que alguém a rodeia. As pessoas que não param parecem nem ter tempo para se coçarem, quanto mais para manterem relações humanas frequentes e duradouras.

Mas a verdade é que, quando se quer, tem-se tempo para tudo. O pior é já não se ter energia para nada ao final de um dia de esforço contínuo e, nisso sim, coloca-se a questão se haverá quem seja capaz de estar do lado de uma pessoa imparável. 

E nisso tenho eu montes de sorte.

Quando o Ricardo me conheceu, diz ele que eu já deixava o cheirinho à criatura non-stop das 7h às 19h (na melhor das hipóteses) que sou hoje. Isto foi há quase 4 anos. No ensino secundário, já eu queria participar em tudo o que houvesse, já não me escapava grande coisa. Já havia Alliance Française, já havia Forum Estudante, já havia prémios literários.

No entanto, o número de actividades em que me comecei a envolver a partir do primeiro ano da faculdade começou a aumentar bastante, em proporção ao tempo que me restava depois de fazer as contas às horas de aulas e de estudo. Comecei logo a trabalhar, continuei a inscrever-me para tudo e mais qualquer coisa.

E o Ricardo, super calmo, continuou a estar disponível para me dar atenção e assegurar-se de que, emocionalmente, nada me faltaria.

 

(Atenção que o Ricardo não é a única pessoa que me apoia, porque, felizmente, tenho um grupo de amigos que, entre workaholics semelhantes ou gente independente que não precisa de estar constantemente em contacto com os outros para lhes dizer o quanto gosta deles, compreende a minha posição. E também tenho a minha avó, que me anda sempre a comprar chocolate, uma espécie de combustível que o meu cérebro não dispensa, e que me deixa dormir na cama dela de vez em quando.

Mas aqui, falam-se de caras-metade, por isso voltemos a elas.)

 

O meu segundo ano de licenciatura tem sido c'os diabos. Ando desmotivada, os professores não sabem realmente o que estão a fazer, fui aceite para um estágio que me rouba demasiado tempo (acaba em três semanas, yes!), continuo a trabalhar que nem uma louca, etc e tal. Chego ao final do dia com as baterias todas fraquinhas. Depois, das duas uma: ou me vou abaixo e fico apática, ou fico com um humor de crocodilo e começo a mandar vir ou começo a chorar desconsoladamente até adormecer ou até alguém resistente me dar um abraço como deve ser.

Pois quem me dá esses abraços é o Ricardo e quem me chama passivo-agressiva, pacientemente, é ele também, como se estivesse a comentar que lindo dia está. "Já estou habituado", diz ele, garantindo-me que não o diz pejorativamente, mas sim que, se já me conheceu como sou, por que haveria de deixar de gostar de mim?

O Ricardo, nesse aspecto, é a luz dos meus dias ou, pelo menos, das manhãs e das tardes em que nos encontramos no comboio ou em casa, quando dou explicações à irmã dele - tudo de raspão, muitos encontros-relâmpago.

Supostamente, os opostos atraem-se. Com isto, não quero dizer que sejamos muito diferentes um do outro, mas a descontracção dele é o catalizador para a minha ansiedade. É sempre necessário um equilíbrio, não é? Alguém que se preocupa demasiado precisa de alguém que não se preocupe com grande coisa (e vice-versa).

 

No outro dia, um professor meu (super jovem) dizia-me que é possível ter-se uma cara metade, sendo-se ambicioso. Contudo, confirmava-me ele que é necessário essa pessoa compreender por que é que nos sujeitamos a tamanhas atrocidades físicas e psicológicas, a contratempos, por que é que ficamos tão cansados, por que é que nos falta tempo, que não é por mal que, à vezes, só nos apetece aninhar para o resto da eternidade (e atestar as reservas de feromonas, acrescento eu). Mas é preciso essa pessoa ser meeeeeeeeeesmo especial.

 

Se algum dia o Ricardo acabar comigo, será porque eu o traí... com os livros e o computador.

A propina de 1000€ (fora o resto)

Vocês perdoem-me a teimosia em falar de universidade, universidade, universidade e só universidade nos últimos dias, mas prometo que esta há-de ser a minha última intervenção acerca do assunto durante os próximos tempos. E prometo ser breve.

 

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(em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=764210) 

 

Não sei qual é a vossa situação, não sei se andam na faculdade, se têm bolsas, se andam a trabalhar para pagar os estudos. Provavelmente, se andam, têm alguma bolsa E trabalham. Porquê? Porque as bolsas da DGES, mesmo aquelas que cobrem a totalidade do custo da propina anual no ensino superior público (entre os 1000 e os 1400€, pelo que sei), não são suficientes. O que são 1400€ de bolsa dos Serviços de Acção Social (SAS), quando há, não só as propinas, mas também o transporte e os materiais de estudo (livros, fotocópias, material técnico) para pagar? Ou o que são 2000€ quando, além desses gastos, ainda nos encontramos deslocados de casa, a viver numa residência para estudantes - ou num quarto, porque não há residências suficientes para tanta procura?

Infelizmente, nem toda a gente pensa assim. Um exemplo desses sujeitos menos iluminados é o reitor da Universidade de Lisboa (onde eu estudo), António Cruz Serra, que acha que usufruímos todos de um excelente SAS, sendo-nos permitido estudar sem nos preocuparmos com mais nada. A entrevista para que vos remeto no início da publicação é apenas o reflexo de uma profunda hipocrisia e autismo quanto à realidade do nosso país, de tantas famílias de Norte a Sul.

O maior problema para as famílias é não ter o rendimento do trabalho de uma pessoa que, em vez de trabalhar, foi estudar, diz ele. Mas eu discordo. Antes de entrarmos para a faculdade, por norma também não trabalhávamos. Já marcávamos presença na equação do orçamento familiar. Seja como for, mesmo quando trabalhamos, os nossos pais não ficam à espera que entreguemos todo o nosso salário, religiosamente. Já que trabalhamos, talvez possamos ajudar numa despesa ou outra, mas, se pudéssemos sequer trabalhar, se encontrássemos um emprego estável e bem pago, mais facilmente sairíamos de casa dos papás e pronto. Por isso, não, o maior problema dos alunos do ensino superior não é não serem economicamente produtivos para as suas famílias.

(...) daí resulta um valor de 1.060 e poucos euros por ano, que não afasta ninguém do Ensino Superior (...), continua. Lembram-se de eu referir que certos professores universitários vivem dentro de uma bolha, onde não são atingidos pelas causalidades do resto do mundo? É isso mesmo que se passa com este reitor, António Cruz Serra. E que sorte que ele teve, pois terminou a licenciatura em 1978 - numa altura em que não se pagava propinas no ensino superior em Portugal! Claro que a mencionada figurinha representa o culminar de toda a estupidez possível, graças a esta saída muito infeliz, e que nem todos os professores, até considerando os mauzinhos, são assim. But still...

Encontramo-nos num país onde há pessoas a passarem fome e frio, onde há pessoas que nem para pagarem a renda ou a comida têm dinheiro. É um insulto um gajo - sim, um gajo! - vir dizer ao pessoal que está tudo bem, obrigada, e que 1000€ (fora o resto) no orçamento familiar anual não representa that big of a deal, que é peanuts! Nem 100€, quanto mais 1000€! Há certos indivíduos nesta sociedade que ainda não perceberam que, numa casa onde se passam dificuldades, onde há desemprego, ou aperto, ou doença, ou cortes nos salários, ou "apenas" aumento de impostos, até 1€ que exceda o orçamento já faz mossa.

Falo por experiência própria: também tive de trabalhar para poder estudar, também tive de procurar bolsas extra-DGES que me ajudassem a colmatar o resto das despesas e para, de vez em quando, poder ajudar a minha família! Agora, em princípio, já estou mais orientada (porque, lá está, trabalhei e estudei para manter a bolsa de mérito), mas não deixo de me sentir solidária para com aqueles que, ao contrário do que o fofuxo do António Cruz Serra diz, são realmente obrigados a deixar de estudar por causa da mísera propina de 1000€ (que, no final de contas, nem nos garante certas condições materiais para o decorrer pacífico do nosso dia-a-dia de estudantes, sendo recorrente os edifícios estarem degradados, o corpo docente envelhecido e em número insuficiente, e por aí fora).

O ensino superior é um dos meios pelos quais se atinge o progresso numa comunidade, numa sociedade, num país. Se os alunos de outros tipos de ensino alternativos não pagam propinas, por que haveríamos nós de ter de as pagar? Temos caras de elite ou quê? Somos menos do que os outros? (E não, não estou a sugerir que os outros as deviam pagar, é apenas e exactamente o contrário.)