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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Bateu a nostalgia de quem vai voltar a Portugal em menos de dois dias

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 (Há bocadinho, quando cá cheguei.)

 

Na literatura e no cinema, ou apenas na nossa imaginação, existe uma pergunta omnipresente: se soubesses que irias morrer amanhã, o que farias hoje?

Felizmente, não conto morrer tão depressa. No entanto, saber que me vou mudar dum país a 10 000 km de volta para Portugal, e que aqui poderei não voltar tão rapidamente, traz-me uma nostalgia indescritível. Aliás, vou tentar descrevê-la agora, mas não tenho a certeza se me farei entender tão bem quanto desejo.

 

Tenho quase completa certeza de que voltarei a Banguecoque ou à Tailândia no futuro. Quero, pelo menos, mostrar ao meu namorado onde vivi, já que a minha família nuclear cá me foi visitando. O que me causa nostalgia é saber que Banguecoque é uma cidade em mutação acelerada e o que eu conheço hoje já poderei desconhecer daqui a um ano (é verdade). Só na minha avenida, prevêem a conclusão da nova linha de sky train entre este e o próximo ano). Além disso, há sítios aos quais sei que muuuuuito dificilmente poderei regressar, como é o caso do meu estúdio (aquela unidade particular onde vivi durante onze meses e meio) ou do meu condomínio (terei muitas saudades da minha piscina e do ambiente verde e tons de terra dum lado e, do outro, as torres brancas e cinzentas).

 

Deste modo, fiquei com vontade de regressar ou visitar muitos sítios onde não tive tempo de ir, ou porque me senti forreta ou por falta de planeamento. O meu falecimento para Banguecoque e para a Tailândia como os conheço é já daqui a 36 horas e eu não completei a minha bucket list. Nem a meio cheguei. Na semana passada pensei "se morresses agora, ou no mínimo sabendo que vais regressar a Portugal, onde irias?" e fiz imensos planos, mas a vida quotidiana aconteceu e fiquei pela rama. 

 

Seja como e onde for, esta nostalgia deve-se, em grande parte, a saber que este tempo já não volta, porque eu sou agora uma pessoa que se vai apagar no momento em que o avião descolar em direcção à Europa. Não desdenho a pessoa que penso ser aqui na Tailândia, mas sei que também quero experimentar outras versões de mim. Os primeiros quase dois anos da minha vida adulta pós-estudos foram passados aqui, onde tive o meu primeiro emprego, onde vivi sozinha, experimentei muitas coisas novas (comida, pessoas "aspas aspas que é como quem diz", sentimentos, roupa, forma de pensar e estar)... Mas sei que não quero continuar a ser a mesma que sou neste lado, quero antes encontrar um equilíbrio entre o que sou agora, dia 29 de Janeiro de 2018, quem era no dia 22 de Junho de 2016 e quem me vejo sem no futuro.

 

Divago. Voltando ao que me apetece partilhar...

Enquanto escrevo, estou à beira da minha piscina, a tal piscina do condomínio onde vivo (é relativamente normal e barato para alguém da classe média tailandesa viver num condomínio com condições e infraestruturas semelhantes). Custa um pedacinho chorudo da alma sair desta espreguiçadeira onde me encontro sentada, sabendo bem que é provável que nunca mais eu venha a estar neste preciso ponto do globo. Eu sou dada a nostalgias, é um facto que tenho aprendido a aceitar, mas eu tenho quase a certeza que nunca mais vou estar neste sítio, muito menos a esta hora (vou devolver a chave amanhã à tarde), com esta vista nocturna, mas calorosamente iluminada e reflectida na água.

 

E estou a escrever-vos, presentemente no telemóvel, porque não conheço outra forma de lidar com este luto alegre de quem sabe que se está bem aqui, mas que há momentos para tudo na vida, estando eu especialmente entusiasmada por poder partilhá-los com aqueles que mais amo, em vez de o fazer em regime semi-solitário, o que - convenhamos - é bem melhor.

 

Então, pronto. Daqui a 48 horas já estarei com um pé a apontar para Lisboa e, quando assim for, esta nostalgia há-de se encontrar bem enterrada em sonhos e expectativas mais europeias e invernais.

 

(Uma certeza eu tenho: quando puser o nariz fora do avião em Lisboa, hei-de sofrer com saudades do bafo de poluição e humidade De Banguecoque... mas só momentaneamente, que uma pessoa nunca tem fôlego nesta terra!) 

 

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(Agora mesmo.) 

Para onde vamos depois de terminar o ensino secundário?

Vai fazer cinco anos que terminei o ensino secundário. Parece pouco, mas meia década já deu para muito. O mais curioso, para mim, é a diversidade de caminhos das pessoas com quem andei na escola - do meu ano e sem ser do meu ano.

 

Há muita gente que já anda em mestrados, há quem tenha repetido o secundário no ensino profissional, há quem tenha ido logo trabalhar, há quem concilie estudos e trabalho. Há quem já tenha filhos, há quem só tenha coleccionado namorados. Alguns já vão no segundo filho e/ou no 35º namorado/a.. Há quem se tenha tornado jogador de futebol, há quem se tenha casado ou tido filhos com um. Outros participaram na Casa dos Segredos, e/ou iniciaram negócios. Há quem tenha ido para a tropa ou para a marinha. Alguns emigraram ou foram estudar para fora do país ou para o outro lado de Portugal. Uns trabalham nos supermercados onde vamos todos os dias, outros trabalham em escritórios de alto gabarito ou bancos, ou são professores ou educadores, engenheiros de várias áreas, biólogos, psicólogos (vários), animadores socioculturais, antropólogos, actores, ...

 

Depois de terminar o ensino secundário, nenhum outro casal de pombinhos sobreviveu, pelo menos dos que me lembre do meu ano. A maioria das pessoas engordou. Muitas das miúdas "todas boas" do secundário estragaram-se. Há muitas que não eram "as mais boas", mas que ficaram bem giras. Os rapazes tornaram-se, por norma, melhores do que estavam (a puberdade mais tardia ajudou). Por outro lado, há quem já pareça ter quarenta anos, antes sequer de avistar os 25. E há quem continue na mesma. 

 

Antes de terminar o ensino secundário, nunca pensei no quão diferentes poderiam vir a ser os caminhos futuros de tanta gente que cresceu na mesma vila e frequentou as mesmas escolas/cafés/parques/centros comerciais durante tantos anos. Começamos todos no mesmo sítio, de forma semelhante, partilhamos a infância e/ou a adolescência, mas seguimos por vias tão criativas quanto o nosso ADN. A vida é uma coisa estranha, não é?

O papel da religião na minha vida

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Recentemente, aproveitei o facto de a minha tia ter passado o Natal e o Ano Novo em Banguecoque comigo para visitar uma data de igrejas cristãs [católicas], legado maior dos franceses e portugueses, desde o século XVI, nas margens do rio Chao Phraya. Estas visitas, apesar de curtas, deram-me para pensar no papel da religião na minha vida.

 

A verdade é que eu sou daquelas pessoas que "não sabe rezar". Raramente vou à missa, quando vou é por alguma ocasião especial, sou baptizada mas nem fiz a primeira comunhão, todos os membros da minha família tiveram uma educação religiosa (incluindo escolas de freiras pelo meio da equação), praticam a sua fé mas não explicitamente na igreja... e, apesar de me incutirem valores cristãos todos os dias, mesmo depois de maior e vacinada, nunca me forçaram a acreditar num Deus específico, apenas a acreditar nalguma coisa (e a respeitar esse entidade, sem o que ou quem for).

 

Acho que foi assim que o papel da religião na minha vida se tornou, acima de tudo, orientar-me para ser uma melhor pessoa e ter esperança de que nós, humanos, não estejamos sozinhos neste mundo, que haja algo maior do que nós que nos ajude e que olhe pelas nossas vidas. Pensando bem, tudo isto se tornou mais uma questão espiritual do que religiosa. Vejo-me como uma pessoa que acredita (e não é pouco), que sabe que há muita coisa sem explicação que me/nos acontece, que sabe haver - no entanto - muitas perguntas sem respostas, que se sente curiosa sobre todas as religiões e os princípios e valores que as regem. 

 

De qualquer forma, penso que outro papel da religião, não só na minha vida como o de todos os seres humanos, é o de providenciar elementos comuns a uma sociedade, uniformizar práticas e crenças. Infelizmente, muito é feito em nome de Deus no sentido oposto. Não me conformo com os usos que certos povos e indivíduos conferem às suas religiões, nem com a fixação em agradar a Deus através de práticas absurdas para o século XXI.

 

Gosto de pensar que mantenho uma mente aberta sobre a questão da religião, pelo menos por agora. Viver num país estrangeiro - com duas outras religiões dominantes (a maior parte dos tailandeses é budista e outra grande parte é muçulmana), e cuja população cristã vive as suas crenças e rotinas de forma muito diferente do que é feito em Portugal ou na Europa - ter-me-á ajudado bastante a reflectir no papel não só da "religião", como também do que significa "acreditar em Deus". 

 

Em geral, a minha pergunta, considerando o papel da religião nas nossas vidas, continua a ser "por que é que alguém escolheria ter uma visão limitada acerca do assunto, se hoje em dia há recursos que nos trazem uma perspectiva mais abrangente, holística?" O mais difícil, no entanto, também continua a ser formular uma resposta estruturada para uma pergunta que levanta tantas outras questões. Mesmo que eu escolha ver a religião dum ponto de vista cultural, social, simultaneamente pessoal, há muito mais que eu desconheço e que me colocará perante novas experiências e, consequentemente, novas perguntas e alternativas de resposta.

 

De certeza que voltarei a tocar neste tópico. 

Agradecimento tardio, mas sentido

Apesar de alguma inquietação nas últimas semanas, há que frisar que estou viva! A publicação da semana passada foi, de facto, o maior desabafo que eu poderia ter partilhado, porque esse foi um dia longo, que culminou em mim a comer um cupcake de banana e chocolate no Starbucks, enquanto músicas natalícias passavam no fundo, e a ir a um evento sem companhia: um recital multimédia de fado, com direito a imagens soalheiras de Lisboa. Tudo do bom e do melhor para soltar uns bons soluços! 

 

 

E não, eu não estou em Bangkok forçada nem nada, estou porque quero, como os leitores deste blogue já saberão. Estou a adorar a experiência, mas até o melhor dia é quase sempre uma desilusão se não o pudermos partilhar com aquelas pessoas. É só isso. 

 

Por todos estes motivos, é com grande felicidade que venho partilhar com todos que, dentro de três meses, já estarei de volta a Portugal! Até ao início da semana que passou, não valia a pena espalhar a notícia, porque tive, em primeiro lugar, que contar à minha chefe e a alguns superiores. Não fazia sentido estar a comunicá-lo antes disso. Contudo, a decisão já foi tomada há muito mais tempo! 

 

Então, tenho a agradecer aos leitores mais assíduos que me têm acompanhado as suas palavras amáveis e por continuarem desse lado a ler os meus amores e dissabores sobre a Tailândia. Sei que não tenho mantido este blogue muito actualizado, o ritmo da minha vida tem andado meio estranho, mas daqui para a frente será sempre a melhorar! Vamos lá ver! Muito, muito obrigada, como sempre. Obrigada também aos Destaques do SAPO (e até à plataforma SAPO) por andarem a promover 70% das minhas escassas publicações. Sabe sempre bem receber algum feedback do vosso lado, é sempre muito gratificante.

 

Numa nota menos positiva acerca da inevitável visibilidade consequente (mesmo que momentânea), tenho a acrescentar algumas palavras de censura a quem acabou de chegar e se pôs logo a enviar-me postas de pescada. Isto dos blogues é um fenómeno cheio de detalhezinhos, coisinhas miúdas que devemos ter em consideração, e uma delas é a seguinte: não vale a pena julgarem-me por UM TEXTO que eu tenha escrito NUM DIA aleatório de seis anos de Procrastinar Também é Viver. É como julgar um casamento feliz de cinquenta anos por uma discussão naquele dia em que alguém não pôs a loiça na máquina. Felizmente, tenho sido abençoada com oportunidades únicas na minha vida ainda curta, tenho tido uma vida com algumas contrariedades, mas bastante cheia, tenho conhecido gente maravilhosa... Aliás, quem lê o que escrevo no resto do tempo sabe disso. A Tailândia foi um dos maiores jackpots que me calhou, mas nem todos os dias são paisagens maravilhosas. A vida continua aqui, como em todo o lado; eu não estou propriamente de férias. Ser feliz longe de Portugal é, por isso, um desafio, por muito que gostemos do sítio onde estamos.

 

Seja como for, as vozes positivas prevalecem e, mais uma, e outra, e outra vez, muito obrigada por estarem desse lado. Adoro escrever neste blogue, adoro a vossa companhia. Têm sido seis anos de crescimento, já me viram adolescente, adulta, feliz, triste, apaixonada, desapaixonada... É assim a vida! 😘

 

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Solidão no meio de dez milhões

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Foi em Bangkok que me senti só pela primeira vez. Custa muito admitir que nos sentimos sós, porque é mais fácil estarmos em negação. Quando cheguei ao ponto de o reconhecer, já tinha passado por muitas fases.

 

A primeira fase foi arranjar sempre algum bode expiatório para o descontentamento. No início, não podia ir a casa no Natal. Depois, arranjei uma forma e fui. Dois meses depois, mudei de apartamento, culpando as baratas debaixo da bancada da cozinha que me comiam o jantar, o lixo à saída do condomínio e a má gestão do edifício. No novo condomínio, sentia falta dum animal de estimação. À revelia das regras - ainda que à semelhança da prática de tantos outros vizinhos - arranjei um gato. Depois do gato, veio a minha avó. Por dois meses, senti-me acompanhada, mas sabendo que não iria durar para sempre.

 

Entretanto, a fase de estar triste sem saber porquê. Uma melancolia imensa, um vazio e muita inquietação.

 

Por fim, a consciência de que me sinto... de que me tenho sentido só. Do outro lado da linha, chegam-me palavras cheias de amor, mas essas só se ficam pela metade. É pela falta delas que me sinto assim, é por, como acontece com os fantasmas, as poder ouvir e ver, sem lhes tocar, que me sinto isolada neste mundo que é o mesmo, parecendo uma realidade paralela.

 

Não sei se é assim que todos se sentem quando se mudam para outro país. Espero que não. Talvez eu sinta, por acréscimo, todo o isolamento cultural, geográfico, visual como consequência de estar tão longe.

 

Bangkok é uma cidade com dez milhões de pessoas, mas nunca me senti tão sozinha antes, nem quando vivia num sítio com uns poucos milhares de pessoas.

 

Tenho amigos em Bangkok, mas cada um está na sua vida, cada um vive noutra ponta da cidade. Estar longe da família e daqueles que amamos tem disto. Não há ninguém à nossa espera em casa, raramente há quem se disponha, à última hora, a acompanhar-nos seja onde for. Não há certezas de nada. Não há ninguém que possamos alcançar à distância duma chamada.

 

Mas, se eu precisar dalguma coisa, é só ligar - dizem eles.

Do que eu preciso é de não ter de ligar.

Há alguma receita para o amor?

Reposta curta:

Não, não há nenhuma receita para o amor.

Resposta longa: Há apenas possíveis ingredientes. Eu nunca fui boa cozinheira, por isso faço sempre misturas estranhas. Vai por tentativa e erro. Mais um ingrediente aqui, menos um ingrediente ali. Da próxima sai melhor. Se não é desta, será doutra.

Não há receitas para o amor, mas há cozinheiros que, ao trabalharem em equipa, conseguem criar pratos equilibrados a partir do desequilíbrio de sabores.

Eu sei que tive a sorte de conhecer o melhor chef do mundo há muitos anos. Há poucas aventuras que eu queira ter sem ele. Passo a vida a pensar "o Ricardo havia de gostar deste sítio, quem me dera que o Ricardo visse isto, o que é que o Ricardo diria daquilo?, o Ricardo ia adorar estar aqui". Mesmo quando vivia em Portugal, mesmo quando vivíamos a três quilómetros um do outro e nos víamos quase todos os dias antes e depois das aulas e do trabalho, eu já sabia que, como ele, há poucos.

O amor não tem receita, mas as relações humanas têm, todas elas. Quando começámos a namorar, quando ainda estava tudo muito fresco e eu contei ao meu pai que só namorávamos, oficialmente, há duas semanas, ele disse que o mais importante devia ser sempre o respeito mútuo. Foi o único conselho que recebi, mas devo dizer que há muito mais por trás desta única palavra.

O respeito não existe facilmente, é preciso muito mais. Tenho aprendido, a cada dia que passa, que, para haver respeito, tem de haver uma certa admiração pelo outro. Pelo que ele é capaz de fazer, pelas ambições, pelos feitos, pelo feitio, pela disposição, pela maneira como encara a vida. Só assim é que consigo respeitar alguém e só assim sou capaz de respeitar o Ricardo, não necessariamente apenas enquanto meu namorado, mas enquanto amigo, filho de alguém, irmão de alguém, futuro pai, cidadão deste mundo, profissional e membro desta e doutra comunidade ou equipa.

E, além do respeito, sempre achei necessário haver um compromisso. Falar de bebés e contas bancárias aos 17 e aos 19 anos pode parecer despropositado, mas funcionou, porque eram e são esses os nossos planos e ideias para o futuro. Partilhar expectativas em relação ao que se espera duma família e do seu funcionamento faz parte duma relação que não se deseja ser um desperdício de tempo. Quando se assume um compromisso, seja aos 15 ou aos 85 anos, tem de haver um contrato explícito. Aos 22 e 24 anos, falamos dos mesmos assuntos, uma e outra vez, à procura de consenso permanente, para verificar se continuamos na mesma página. Continuamos, mais do que nunca. Lemos livros diferentes, mas viramos as páginas em simultâneo. 

Provavelmente, tudo o que idealizamos ainda há de levar mais meia década a concretizar-se. Chegaremos sem grande esforço a perto de dez anos de negociações, preparações, projectos, ideias. Talvez por virmos de famílias e pais que teriam precisado bastante de viver este processo demorado antes de nos terem, somos uns gatos escaldados.

Receita para o amor não há, mas há comunicação e abertura numa parceria como qualquer outra. Precisamos de melhorar isto, aquilo não pode ser mudado, aqueloutro está bom. 

 

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E agora vocês, quais são os ingredientes da vossa história de amor e parceria? ♥ 

Tenho saudades de casa

Nos últimos dias, talvez semanas, tenho batido no fundo do poço, uma e outra vez, constantemente a subir um pouco e a cair, a subir e a cair, e cada queda parece sempre pior do que a anterior. Tenho saudades de casa, onde não chego nem perto desde Abril. Fez ontem cinco meses que regressei à Tailândia depois da Páscoa/ano novo tailandês e não há palavras que consigam descrever a sensação de não se estar no sítio onde deixámos o coração e de se ter quase a certeza de que não é suposto estarmos onde estamos.

Viver na Tailândia tem sido uma experiência e tanto. Tenho aprendido e vivido o que pensei não chegar a fazer parte da minha experiência de vida. Sou uma sortuda, foi-me entregue de bandeja o emprego que eu só esperava quase aos 30. O meu salário não é ideal para quem vive a praticamente 1000€ de distância do seu país e faz questão de lá ir duas vezes por ano e de "importar" os seus nos entretantos, mas é um salário bem superior ao que eu alguma vez esperaria ganhar em Portugal saída de fresco duma licenciatura (mesmo em euros, o meu salário médio - aulas base, aulas extra, tutorias privadas - ronda quatro dígitos muito confortáveis). Vivo sozinha, sou responsável pelas minhas contas, adoptei um gato, vivo numa cidade que eu nem sabia localizar no mapa, vou a sítios que ficam bem nas fotos do Instagram, de vez em quando posso esbanjar em roupa a condizer com a paisagem, não ando a contar trocos, blá blá blá.

 

Há três semanas que não tenho um dia inteiro para mim. De manhã, quando acordo, até â noite, quando adormeço. Tenho algumas manhãs e tardes livres, mas sempre com a sombra dos trabalhos do mestrado e das aulas para preparar a seguir-me para onde quer que vá (tentar) distrair-me. Quando acabo uma tarefa qualquer, já tenho outras na fila.

 

Não vejo o meu namorado em carne e osso desde que o deixei nas partidas do aeroporto de Lisboa e só o volto a ver em Dezembro ou Janeiro, daqui a 3 ou 4 meses. Entretanto, aturo perguntas que, apesar de inocentes, doem pela insistência e incredulidade: "mas o teu namorado não vem ter contigo? só o vais ver em X data?". Há poucas pessoas que percebam o sacrifício de trabalhar e estudar ao mesmo tempo (o meu caso e o dele) e de nem sequer compensar viajar meio mundo por dois dias para se lá estarem outros dois, não nos esquecendo do sempre terrível preço do bilhete.

 

Muitas vezes ao dia, muitas mais do que eu gostaria que acontecesse, desejo a calma de espírito daqueles que, mesmo vivendo em terras remotas, seja por opção ou porque teve de ser, não se importam de ir a casa a cada dois anos, estão confortáveis seja onde for, tomam banho em filosofias de carpe diem e são felizes sem um lar, ou que versatilmente constroem muitos lares. Que fantástico seria não andar a dançar em nós na garganta e a aperceber-me cada vez mais que sorrio mais por ansiedade e reflexo do que porque de facto me apetece! Mas não, ainda bem que estas emoções negativas existem, por serem a prova de outras bem positivas: amor, pertença, lealdade, aconchego.

 

Felizmente, eu sei que continuo aqui a prazo. O mundo é tão grande, há tanto a explorar, e agora é mais do que hora de voltar a lançar os dados e apostar em novos números. No meio do processo, aprendi a valorizar e a desvalorizar certas experiências e ambições. Umas eram tidas em alta consideração, mas foram repensadas. Outras nunca me teriam passado pela cabeça se eu cá não estivesse.

 

Uma coisa é certa: não é possível ser-se feliz para sempre com os pés num sítio e com o coração acolá. Sair do país deu-me a mim e às pessoas que me rodeavam diariamente uma nova perspectiva sobre a realidade. Acho que estamos todos diferentes. Há laços que se estreitaram, outros que sumiram para debaixo do tapete. Contudo, não me arrependo, até porque isso não serve de nada.

 

As melodias que o meu humor tocaria (e escreveria, em grande parte) neste momento:

 

Dos pedidos de casamento

Quando era mais nova, sempre sonhei em viver momentos de filme, cheios de lamechice, obviamente fruto dos filmes de Hollywood e da Disney: rapaz conhece rapariga, apaixonam-se, ele pede-a em casamento assim de surpresa num local mega especial (ou numa ocasião engraçada), casam-se, têm filhos e vivem felizes para sempre (ou até se divorciarem ou se fartarem um do outro, uma alternativa que sempre tive no meu imaginário, infelizmente).


Pois bem, intrigava-me principalmente a parte do pedido de casamento e a sua simbologia. O homem é que pede: check. Anel de diamantes: check. Mulher admiradíssima aceita: check. Salva de palmas de quem ouve o pedido e respectiva resposta: check. Sinceramente, nunca sequer questionei o facto de ser o homem a pedir a mulher em casamento. Parece que eu vivia num conto de fadas, onde as mulheres trabalham, sim senhor, onde estudam e ganham o seu salário, mas onde esperam que o seu príncipe encantado lhes venha perguntar se lhes dão a sua mãozinha e o pezinho (Cinderela style) em matrimónio.

 

E depois descobri que, na vida real, nem sempre esses pedidos fazem sentido, a menos que estejamos num reality show ou nos EUA. Porque, na vida real, perguntei logo ao meu primeiro arranjinho, nas primeiras semanas, se aquilo era para casar ou não (missão suicida, portanto), o moço disse um sim muito vago e eu, apesar de ligeiramente fascinada por obter feedback, por muito a despachar que fosse, também senti que aquilo não devia dar o pano para mangas como eu queria.

 

Sobre o que é que gostarias de escrever?

Ontem, reencontrei alguns antigos colegas, numa surpresa que se preparou à professora que nos acompanhou como directora de turma do 5º ao 9º ano, no colégio (beijinhos, professora Antónia, seguidora silenciosa deste blogue!).

Não via a maior parte deste grupo há imenso tempo, talvez anos. Só nos vamos "seguindo" de vez em quando pelas redes sociais e penso que não estávamos juntos desde o baile de finalistas do 9º ano... até ontem. Pensei que ia ser estranho reencontrar estes colegas 5 anos depois, mas foi uma óptima surpresa. Talvez tenhamos mudado imenso, talvez tenha sido eu a mudar, mas, pelos vistos, os grandes hobbies de cada um parecem não ter sofrido alterações significativas. No meu caso, ainda sou recordada pelos meus antigos colegas, que conheço desde os 5 ou 6 anos, como uma miúda que escreve imenso. Obviamente, continuar a escrever um (vá, dois em um) blogue também ajuda a manter uma certa expectativa, digo eu.

O que me leva ao assunto principal da presente publicação: um destes colegas perguntou-me sobre o que é que eu gostaria de escrever. E a minha resposta foi qualquer coisa como "não sei". Contudo, foi uma pergunta que me fez começar a reflectir.

Eu sei que gostaria de vir a escrever qualquer coisa de significativo, que fizesse a diferença e que não fosse apenas mais um mono na estante de alguém, mas, para que isso aconteça, sinto que preciso de crescer mais um tanto e que preciso de perceber mais sobre determinados assuntos que me interessam particularmente e que poderiam servir de suporte para um possível livro que eu venha a escrever. Um romance, um livro teórico ou mesmo um conto necessitam de tempo para amadurecer (primeiro, na cabeça; depois, no papel) e de disponibilidade mental que não lhes consigo conceder neste momento. Provavelmente, tanto hei-de esperar pelo momento certo, que ainda me apanharei a certo ponto a dar a desculpa de ser "tarde de mais". Como é óbvio, dificilmente chegarei aos calcanhares dos autores, portugueses ou estrangeiros, que admiro; não considero que seja possível viver amarrada para sempre nessa sombra e, deste modo, resta-me acreditar que, um dia destes, ainda me há-de sair qualquer história da cabeça que valha a pena ser lida.

Há coisas que temos de fazer e ponto final e, para mim, uma dessas coisas é escrever. Sobre o quê, ainda não estou certa. Enquanto as personagens que imagino (que existem, disso tenho a certeza) se encontram em negociações entre si e tentam descobrir o que as move, vou-me contentando em escrever sobre a única personagem que conheço melhor, que sou eu. Se nem eu sei ainda o que ando para aqui a fazer neste mundo, se nem eu sei para que é que estou reservada, como raio poderia eu saber o que as personagens que desejo criar serão capazes de concretizar no papel?

Não chega saber como se escreve um livro, nem como se estruturam os capítulos, os parágrafos e as frases. Eu também pretendo descobrir como contar a história de personagens especiais e específicas sem aborrecer/ofender/criticar/expor ninguém e sem ser mal entendida. Sou uma perfeccionista e reconheço que já escrevi umas tantas páginas de outros "exercícios de escrita" que são bons (caso contrário, nunca teria ganho nenhum prémio nem as pessoas me teriam dito que não sou nada má a escrever). Só que, no que toca à possibilidade de publicação oficial de uma obra substancial, sou muito reticente e pouco confiante quanto às minhas capacidades de criação literária.