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Em Junho, fez um ano que terminei a licenciatura. Depois dum estágio, comecei a trabalhar em Outubro. Como sabem, calhou-me na rifa um emprego longínquo, mas aqui fica a minha opinião acerca das oportunidades de trabalho em Portugal depois da licenciatura.

 

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O grande panorama

Em primeiro lugar, todos sabemos que o mercado de trabalho em Portugal se encontra saturado, não só de licenciados, desta ou doutra área, mas de todos os domínios profissionais ou diferentes níveis de qualificação e educação. Ainda assim, eu acho que o panorama não é assim tão negro para recém-licenciados que procuram o seu primeiro trabalho.


Estudei Letras. Línguas, literatura, cultura, artes, política, filosofia. Estudei de tudo um pouco na minha licenciatura, tive a sorte de aprender imenso, mas a verdade é que as licenciaturas abrangentes costumam ser vistas como "aquelas que não dão para nada". No entanto, sei que muitos dos meus colegas conseguiram arranjar emprego em Portugal nos meses seguintes ao fim do curso. Aposto que não terão sido os seus empregos de sonho, mas conseguiram.

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A importância dos estágios (curriculares e extra-curriculares)

Existe este mito de que "os empregadores não olham para as notas", por isso aqui vai alguma desmistificação.
Hoje em dia, em Portugal, é indispensável participar num estágio ou numa experiência extra-académica. Um estágio permite-nos obter o conhecimento e prática que, na maioria das vezes, não obtemos pela via escolar. Quanto mais cedo o fizermos, melhor. Sempre que quis arranjar trabalho, mesmo que temporário, enquanto estudava, os estágios permitiram-me, no mínimo, mostrar que era responsável e que me encontrava motivada para trabalhar, pôr as mãos na massa. Além disso, ajudam-nos a decidir se gostamos de trabalhar em determinada área profissional. 

Quão relevantes são as médias finais de curso?

E lá está: as notas. Frequentemente, estes estágios de que vos falava, incluindo o estágio que me trouxe à Tailândia, são promovidos ou organizados pelas instituições onde estudamos. Adivinhem para onde é que vão olhar, a que aspecto vão dar importância imediata? É isso, a nota. Sem experiência profissional anterior, a média da licenciatura acaba por ser determinante para certos recrutadores.

 

Uma licenciatura é suficiente?

 Obviamente que, na hora de sermos contratados, a nota média final de curso não é suficiente. Arranjar trabalho em Portugal depois da licenciatura parece-me ter em conta outros aspectos. A nota é uma grande parte do bolo, a que devemos acrescentar formação profissional paralela, workshops, conferências, os estágios, programas de intercâmbio, trabalho voluntário, portfólio, prémios, cartas de recomendação, diplomas e certificados vários... Eu sei que esta lista pode parecer assustadoramente extensa, mas os três anos de licenciatura servem para muito mais do que estudar, ir às reuniões com os professores, ir à praxe, às festas, aos convívios... E muitas destas experiências duram menos dum dia de trabalho! Se tentarmos explorar duas por ano, teremos mais seis motivos para apresentar a um potencial empregador, convencendo-o de que somos as escolha certa.

 

Está bem, mas afinal o que é que mais importa para encontrar emprego depois da licenciatura?

Diferenciarmo-nos. Mostrarmos que não somos apenas um número.
Costumam ser admitidos cerca de 60 alunos à licenciatura em Ciências da Cultura na FLUL (agora com o título de Estudos de Cultura e Comunicação). Talvez 50 cheguem a terminar a licenciatura.
Foi desses 50 colegas que eu sempre me tentei diferenciar, porque eles seriam mais 50 pessoas, fora os licenciados doutros anos, com quem eu teria de competir no mercado de trabalho, se ninguém fizesse mais nada senão o próprio curso.
E há licenciaturas em que entram 200 candidatos anualmente!

Somando tudo, acabei por elaborar um perfil pessoal e profissional durante os três anos da licenciatura, com o objectivo de me demarcar doutras pessoas. Licenciatura + nota + proficiência em línguas + certificados + formação + estágios + intercâmbios + competências consequentemente adquiridas = combinação única. Não quer dizer que o meu perfil é melhor ou pior do que o doutro colega meu, mas, pelo menos, é diferente.

 

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Resumindo e concluindo
Encontrar trabalho em Portugal, depois da licenciatura ou de qualquer outro nível de estudos, não tem de ser sempre uma tarefa titânica. Pode ser, sim, o resultado dum esforço contínuo para encontrarmos interesses apenas nossos, criarmos o nosso "eu" pós-universidade continuamente e perseguirmos novas ideias e projectos para o futuro, mais ou menos longínquo, em Portugal ou no estrangeiro. Claro que tudo isto parece mais fácil assim escrito do que feito, mas espero, pelo menos, convencer-vos a serem um pouco mais optimistas acerca do vosso (possível) percurso universitário.

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Tenho uma foto profissional

por BeatrizCM, em 04.08.17

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Ontem, entrei na sala de conferências. Ia ter uma reunião geral com todos os professores e restantes profissionais da faculdade, acerca do que se tem feito e irá ser feito neste semestre que começa na segunda-feira. Entrei. Fui apanhada de surpresa, como todas as restantes pessoas: suit up, vamos lá tirar uma foto para o site da faculdade, toca a vestir o casaco dum fato dois tamanhos acima do meu, com o logótipo da universidade, ... ainda bem que tinha lavado o cabelo de manhã, usado o secador XPTO que comprei há duas semanas, vestido uma blusa branca, escolhido os melhores brincos, guardado um batom na mala, maquilhado o visage, estreado as lentes de contacto verdes, desinchado a bochecha dos dentes do siso arrancados.

 

Fiquei gira, mas respeitável. E, espero eu, sem parecer mais nova do que os meus alunos. 'Tá qualidade LinkedIn, não 'tá? 

 

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Como sabem, adoptei o excelentíssimo Lord Ennui há quase dois meses. Ele tem cerca dum ano, parece ser feliz comigo, come bem mas sem ser uma grande despesa, é saudável, não é exigente nos brinquedos (basta enrolar um bocado de papel higiénico ou arranjar uma caixa de plástico que faça barulho) e está cada vez mais a habituar-se a ser um "gato de companhia".

 

 

No entanto, Lord Ennui não tem só qualidades. O primeiro defeito que tem é... não foi bem tratado pelo antigo dono. E agora vocês dizem "mas isso não é defeito". Bem, para muitos poderia ser. Para mim, é um desafio.
Para muitos, poderia ser, porque um gato - ou qualquer outro ser vivo - negligenciado no passado é um gato com falta de confiança nos humanos.
Lord Ennui adaptou-se instantaneamente à vida num apartamento. Massajou o tapete e roeu-me os dedos dos pés de imediato, encontrou a caixa de areia, demonstrou interesse no chuveiro e não foi esquisito com a comida.

 

No entanto, desde o primeiro dia que notei que não estava habituado a ser o que eu chamo um "gato de companhia". Não sabia saltar para o sofá, não gostava de colo, escondia-se frequentemente debaixo do mobiliário, não se deixava apanhar.

 

A única coisa que sei sobre o passado deste gato é que pertencia a um criador sem escrúpulos. Foi exactamente isso que me disseram. Mais não sei. Uma veterinária recolheu-o e foi à clínica dela que o fui buscar.

Portanto, adoptei um gato desconfiado. Um gato "bicho do mato". Um gato em segunda mão.
Felizmente, está a ficar cada vez mais confortável na rotina da vida caseira.

 

Agora, um mês e meio depois, pede muitos mimos. Aprendeu a comunicar. Vai à janela. Começa a perceber quando está a ser chamado. Sobe para o sofá e para a cama. Pede sempre um pedaço da nossa comida. Corre pela casa em acessos de alegria súbita. Brinca sem fim, incluindo à apanhada connosco.

 

Mas, antes de todo este processo, foi preciso muita calma. Eu queria muito um gato de colo, que gostasse de estar comigo. No entanto, não é possível esperar tal coisa de Lord Ennui. É um gato traumatizado, cujos traumas eu não conheço. Muito prático, não é?
Não é prático, mas é uma missão.

Há que ser paciente. Já diz o ditado: "gato escaldado...". A seu tempo, um gato desconfiado aprende a ser um gato relaxado.

 

Seja como for, não me arrependo um único minuto de adoptar Lord Ennui, indomável, terrível, trapezista, atleta, arisco, mas um gato que, sendo amado como é, só pode ser feliz. Só espero que pare de atirar tudo para o chão, de esconder canetas, de rasgar a cortina do chuveiro e de dormir em cima da minha cara durante a noite.

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😬🤓😅😇😎

Tudo sob controlo... 💞

 

 

 

 

 

 

*Obviamente que esta é apenas uma nota sarcástica, só para rir, e que ambas as partes envolvidas sabem muito bem que um anel vale o que vale. Mas pronto, é engraçado, apesar de a foto já ter uns meses. 

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Ser feliz longe de Portugal

por BeatrizCM, em 05.07.17

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Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

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Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

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(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

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Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

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