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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

A pior situação que pode acontecer no local de trabalho

A pior situação que pode acontecer no local de trabalho não é sermos despedidos nem despromovidos.

 

Quando temos de trabalhar em equipa, é muito importante ter uma relação positiva com os nossos colegas, seja enquanto estudantes ou empregados duma qualquer instituição ou empresa.
Quando trabalhamos com pessoas de quem, à partida, gostamos, acabamos quase sempre por baixar a guarda e essa relação profissional vaza para a vida pessoal, tornando-se uma espécie de amizade. Talvez até fiquemos, realmente, amigos.

 

Na minha opinião, a pior situação que pode acontecer no local de trabalho é essas relações poderem desintegrar-se sem aviso prévio, passando de extremamente frutuosas (quase até o motivo pelo qual chegamos a horas, aguentamos ficar a trabalhar depois da hora, dar o litro naquele projecto) para extremamente nocivas.

 

Às vezes, é difícil lembrarmo-nos de que, do outro lado, há outros seres humanos, com muitas qualidades, mas também muitas falhas. Quando nos esquecemos que essas falhas podem existir, elevamos as nossas expectativas. O bom passa a ser óptimo. A pior situação que pode acontecer no local de trabalho é percebermos que essas mesmas pessoas podem passar de bestiais a bestas sem mais nem menos.

 

Talvez não as conheçamos o suficiente. Talvez seja mesmo assim que as relações interpessoais são. O problema é que, ao acontecerem num ambiente profissional, podem não só minar uma relação pessoal, mas também colocar em risco o trabalho a ser desenvolvido.

 

Solução ou forma de evitar esse problema? Não há. A vida é mesmo assim. Poderemos, porventura, armar uma muralha à nossa volta, mas isso pode prevenir, de igual forma, relações saudáveis.

 

Basta-nos ter paciência, seguir em frente e tentar separar as águas sempre que possível. Obviamente, essa vontade terá de partir da outra parte, mas pelo menos nós ficaremos dê consciência tranquila e teremos esperança que o dia de amanhã corra ligeiramente melhor.

Será fácil arranjar trabalho em Portugal depois da licenciatura?

Em Junho, fez um ano que terminei a licenciatura. Depois dum estágio, comecei a trabalhar em Outubro. Como sabem, calhou-me na rifa um emprego longínquo, mas aqui fica a minha opinião acerca das oportunidades de trabalho em Portugal depois da licenciatura.

 

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O grande panorama

Em primeiro lugar, todos sabemos que o mercado de trabalho em Portugal se encontra saturado, não só de licenciados, desta ou doutra área, mas de todos os domínios profissionais ou diferentes níveis de qualificação e educação. Ainda assim, eu acho que o panorama não é assim tão negro para recém-licenciados que procuram o seu primeiro trabalho.


Estudei Letras. Línguas, literatura, cultura, artes, política, filosofia. Estudei de tudo um pouco na minha licenciatura, tive a sorte de aprender imenso, mas a verdade é que as licenciaturas abrangentes costumam ser vistas como "aquelas que não dão para nada". No entanto, sei que muitos dos meus colegas conseguiram arranjar emprego em Portugal nos meses seguintes ao fim do curso. Aposto que não terão sido os seus empregos de sonho, mas conseguiram.

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A importância dos estágios (curriculares e extra-curriculares)

Existe este mito de que "os empregadores não olham para as notas", por isso aqui vai alguma desmistificação.
Hoje em dia, em Portugal, é indispensável participar num estágio ou numa experiência extra-académica. Um estágio permite-nos obter o conhecimento e prática que, na maioria das vezes, não obtemos pela via escolar. Quanto mais cedo o fizermos, melhor. Sempre que quis arranjar trabalho, mesmo que temporário, enquanto estudava, os estágios permitiram-me, no mínimo, mostrar que era responsável e que me encontrava motivada para trabalhar, pôr as mãos na massa. Além disso, ajudam-nos a decidir se gostamos de trabalhar em determinada área profissional. 

Quão relevantes são as médias finais de curso?

E lá está: as notas. Frequentemente, estes estágios de que vos falava, incluindo o estágio que me trouxe à Tailândia, são promovidos ou organizados pelas instituições onde estudamos. Adivinhem para onde é que vão olhar, a que aspecto vão dar importância imediata? É isso, a nota. Sem experiência profissional anterior, a média da licenciatura acaba por ser determinante para certos recrutadores.

 

Uma licenciatura é suficiente?

 Obviamente que, na hora de sermos contratados, a nota média final de curso não é suficiente. Arranjar trabalho em Portugal depois da licenciatura parece-me ter em conta outros aspectos. A nota é uma grande parte do bolo, a que devemos acrescentar formação profissional paralela, workshops, conferências, os estágios, programas de intercâmbio, trabalho voluntário, portfólio, prémios, cartas de recomendação, diplomas e certificados vários... Eu sei que esta lista pode parecer assustadoramente extensa, mas os três anos de licenciatura servem para muito mais do que estudar, ir às reuniões com os professores, ir à praxe, às festas, aos convívios... E muitas destas experiências duram menos dum dia de trabalho! Se tentarmos explorar duas por ano, teremos mais seis motivos para apresentar a um potencial empregador, convencendo-o de que somos as escolha certa.

 

Está bem, mas afinal o que é que mais importa para encontrar emprego depois da licenciatura?

Diferenciarmo-nos. Mostrarmos que não somos apenas um número.
Costumam ser admitidos cerca de 60 alunos à licenciatura em Ciências da Cultura na FLUL (agora com o título de Estudos de Cultura e Comunicação). Talvez 50 cheguem a terminar a licenciatura.
Foi desses 50 colegas que eu sempre me tentei diferenciar, porque eles seriam mais 50 pessoas, fora os licenciados doutros anos, com quem eu teria de competir no mercado de trabalho, se ninguém fizesse mais nada senão o próprio curso.
E há licenciaturas em que entram 200 candidatos anualmente!

Somando tudo, acabei por elaborar um perfil pessoal e profissional durante os três anos da licenciatura, com o objectivo de me demarcar doutras pessoas. Licenciatura + nota + proficiência em línguas + certificados + formação + estágios + intercâmbios + competências consequentemente adquiridas = combinação única. Não quer dizer que o meu perfil é melhor ou pior do que o doutro colega meu, mas, pelo menos, é diferente.

 

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Resumindo e concluindo
Encontrar trabalho em Portugal, depois da licenciatura ou de qualquer outro nível de estudos, não tem de ser sempre uma tarefa titânica. Pode ser, sim, o resultado dum esforço contínuo para encontrarmos interesses apenas nossos, criarmos o nosso "eu" pós-universidade continuamente e perseguirmos novas ideias e projectos para o futuro, mais ou menos longínquo, em Portugal ou no estrangeiro. Claro que tudo isto parece mais fácil assim escrito do que feito, mas espero, pelo menos, convencer-vos a serem um pouco mais optimistas acerca do vosso (possível) percurso universitário.

Ser feliz longe de Portugal

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Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

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Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

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(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

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Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

O amor, os blogues e as fofocas

 

Na semana passada, nesse dia emblemático em que o Benfica, o Papa e o Salvador Sobral deram tantas alegrias a Portugal e aos portugueses, outra surpresa mexeu comigo: umas fotos muito curiosas de dois dos meus blogueiros de eleição, que alegadamente estariam separados/divorciados e em torno dos quais até se tinha gerado um zum zum de admiração, angústia, tristeza, de repente muitos seguidores a comentarem que, assim, até deixariam de acreditar no amor, que eles eram o par perfeito, levantaram-se mãos ao céu (ou emoticons tristes no Instagram)... Enfim, eu fui uma delas. 

A separação desse casal dos blogues teve um impacto bastante grande em mim. Eu serei sempre a primeira a dizer que as aparências iludem e que de amor ninguém percebe quase nada. Para mim, andamos todos ao mesmo: vai-se por tentativa e erro, a ver se os nossos métodos funcionam com os da outra pessoa. Para mim, casais felizes na Internet também podem ser uma farsa ou um retrato dum conto de fadas, porque só quem anda no convento sabe o que lá vai dentro. Raramente me deixo iludir ao ponto de acreditar que é tudo lindo e maravilhoso lá por casa, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, 7 dias por semana.

No entanto... olhem, qualquer coisa mexeu comigo quando soube desta separação. Talvez por eu costumar dizer que há uma tríade de Ricardos na blogosfera que garantem o sucesso de relações - o meu, o dessa blogger e o duma terceira. (Eu sei que é um bocado presunçoso e ligeeeeeiramente tendencioso pensar nestes termos, mas uma pessoa tem de acreditar nalguma coisa.) Talvez por eu passar demasiado tempo na Internet a pensar na vida dos outros (o que não deixa de ser uma possibilidade credível). Talvez eu até me tenha sentido chocada por ter crescido a ver essa relação a desenvolver-se e, sem me ter apercebido, essas pessoas fazerem um bocadinho parte do meu dia-a-dia e da minha concepção do que é o mundo em geral e o sucesso profissional.

Acho que todas estas são opções muito válidas! E sabem porquê? Porque a verdade incontornável é que a Internet permite-nos ter uma relação, maioritariamente unilateral e quiçá falaciosa, com os escritores, produtores de vídeo, jornalistas ou cronistas. É uma relação não correspondida, mas que nos acompanha por anos e anos. Chegamos da escola e lemos o texto mais recente ao lanche, saímos do trabalho e pelo caminho vemos o novo vídeo. Essas pessoas tocam nas nossas vidas de maneiras muito mais permanentes do que certas partes das nossas famílias.

Assim, foi uma enorme alegria ver que esse casal de que estou a falar desde o início passou tempo de qualidade um com o outro, a julgar pelas fotos que mostram no Instagram. Muitos especulam que será uma reconciliação, mas a mim nem é a possível reconciliação que mais me interessa - é o facto de parecerem felizes e em paz enquanto estão juntos. Não interessa se permaneceram amigos ou outra coisa qualquer. Interessa que, no final, há esperança. Pode ter sido um casal a divorciar-se, mas é uma ligação que não morre, mesmo alé dos filhos.

Às vezes, também me pergunto o que aconteceria se eu e o Ricardo nos separássemos (emocionalmente, porque fisicamente a coisa não pode ficar mais aguda). Número um, não me parece provável que aconteça nos próximos tempos. Número dois, nunca se sabe, por isso não custa puxar pela cabeça e colocar hipóteses na mesa. Acho que, no final, o que mais importaria seria declararmos a paz. Se essa paz viesse na forma duma amizade ou dum carinho especial que não se apaga, significatia que a última meia década não teria acontecido em vão.

Noutra nota... Obviamente que, se os sujeitos em questão publicaram as fotos, já estariam à espera do efeito. Muita gente iria comentar e largar a sua posta de pescada. Neste caso, as fofocas são inevitáveis e quem criticar seja quem for por comentar a situação (hummm, como por exemplo, eu) não tem grande estrutura argumentativa para defender a sua causa. Deste lado, ainda temos poder para escolher o que queremos partilhar e o que preferimos omitir da praça pública. Certamente, este casal/ex-casal não terá escolhido partilhar estes desenvolvimentos de forma inocente e desinformada. Assim, toma lá a minha posta, à qual tenho igual direito.

 

Viva a felicidade! Viva o amor! Viva os sururus que mantêm a blogosfera fofoqueira entretida! Viva a gente contente e satisfeita!

O amor dá-nos muitas perguntas e poucas respostas, mas principalmente dá-nos um certo trabalho que muitos não querem ter

Acabo de ler a mais recente entrada no blogue d’O Arrumadinho. Estou chocada, revoltada, angustiada, mas, acima de tudo, desiludida. Estes “adultos” deixam-me estupefacta.

Diz o autor que amor inocente só há na adolescência, que como esse já não vêm mais. Pronto, tudo bem, obviamente que todos crescemos e passamos a ver o mundo através dum filtro muito menos encantado. No entanto, depois diz que...

A merda da vida, e a forma acelerada e atribulada como ela vai acontecendo, rouba-nos quase sempre esta capacidade de amar só porque sim, de amar de forma deslumbrada e sem freios. Temos sempre de ter muito cuidado com tudo, temos sempre de ir muito devagar, temos de ter sempre em atenção as intenções dos outros, temos sempre de enquadrar o nosso amor no nosso passado e no passado das outras pessoas, temos sempre de racionalizar tudo o que fazemos e sentimos, sendo que isso é precisamente o oposto de sentir.

Aí é que já não aguentei mais. Realmente, que chatice, ter em conta o que as pessoas de quem gostamos sentem, o que as magoa, o que as deixa inquietas e infelizes. Ora, e uma pessoa a pensar que estar com um olho no outro também faz parte duma relação, seja ela de cariz romântico, familiar ou entre amigos.

Lá está: que inocência a minha.

Talvez seja mesmo eu uma alma inocente, talvez seja ingénua, ou parva, ou mesmo estúpida. Ou talvez as pessoas estejam a ficar cada vez mais traumatizadazinhas da cabeça com coisa pouca e estejam a ficar mesmo tapadinhas. De facto, eu não possuo grau de comparação entre o que é o amor duma namorada ou namorado  e o amor dum pai/mãe e filhos. Ainda não tive filhos. Sei lá o que é isso. Não consigo ainda entender o que O Arrumadinho quer dizer.

Mas uma coisa é certa: amor é amor e, quando uma pessoa ama realmente, deve tentar e tentar e tentar até já não haver amor. Quando já não houver amor, epá, descompliquem. Se calhar nunca houve amor, só houve tentativas e incompatibilidades que sempre estiveram presentes, mas que se fizeram silenciosas. Se calhar, houve mesmo ingenuidade, apenas não aquela a que se aponta logo o dedo.

Todos os tipos de amor incluem uma certa dose de generosidade, porque temos de dar do nosso tempo, da nossa paciência, às vezes do nosso dinheiro. Será que é isso que as pessoas não querem dar? E dá trabalho?

Cada vez me pergunto mais se serei eu que tenho muita sorte ou se a falta dela ainda estará por vir.

O Ricardo não é o meu primeiro amor, nem sequer foi uma coisa assolapada, foi uma coisa que sempre me entusiasmou, só nada de loucuras, mas depois de meia década juntos continuo a sentir que, de facto, me sinto deslumbrada. Está bem, que ainda éramos os dois adolescentes, mas provavelmente éramos os adolescentes menos à espera de contos de fadas. E deslumbra-me a maneira como tudo se desenrola pacificamente. Deslumbra-me os pequenos gestos e preocupações. Deslumbra-me que, ao começar uma discussão, não fique a sentir-me nada bem se não acabar em pazes e se não se explorar o assunto até ao último nó. Deslumbra-me ainda olhar para ele e sentir que é com aquela pessoa que eu quero passar o resto da minha vida - pelo menos é o que agora sinto (não se confia no futuro, claro). Deslumbra-me ser tudo tão fácil quando há sempre uns minutinhos para se enviar uma mensagem engraçada, um link da Internet, um vídeo a fazer caretas, declarar honestamente quando há ou não há mesmo disposição para se falar (relação de longa distância, ao que obrigas). Deslumbra-me a quantidade de planos que fazemos e desfazemos constantemente para os próximos anos. Deslumbra-me que, ainda nos teens, achássemos piada a imaginar o quão fixes os nossos filhos serão, com uns pais tão diferentes e tão iguais. 

Em suma, há que encontrar a tal magia em lugares inesperados.

Certo?

Cada vez vejo mais pessoas à minha volta com demasiada preguiça em conhecerem-se umas às outras e a darem-se ao trabalho de procurar melhor o que faz de cada um de nós tão especiais. Para mim, é isso que é o amor: estar repetitivamente à procura de alguma coisa. Não pensar que é tudo para sempre, mas saber que amanhã e provavelmente depois ainda será. Estou constantemente a perguntar-me o que fará as pessoas deixarem de se amar e de se importarem, o que as fará dizerem que o amor pede demais, quais são os problemas e como surgem. Acho que é um tema que interessa a todos. 

Enfim, cruzes credo, nunca se sabe quando nos há-de acontecer a nós e depois temos de bater na boca!!! 

Os aziados do São Valentim

Já sei que vêm daí alguns ataques em barda, mas eu gosto de picar e cá vai disto: odeio os aziados de São Valentim!

Obviamente, as vozes críticas dirão que eu tenho lá moral para falar, tenho o meu Valentine há montes de tempo, já devia era estar casada e com filhos há um par d'anos, ou que eu que não atire muitos foguetes, porque um dia ainda hei-de apanhar as canas.

Olhem, e sabem o que isso significa, minhas riquezas? Significa que vocês são UNS AZIADOS! 

 

O que eu realmente cá venho comunicar, o assunto que me leva a vir fazer queixinhas, é as pessoas por essa Internet fora que criticam o Dia dos Namorados, afirmando que isto é uma patetice e que isto é mas é um valente dia para se sair com os amigos (bem... pelo que tenho visto, é mais uma cena de amigas mulheres), enquanto se queixam dos ex-namorados, que amor a sério só existe nos filmes, estamos bem é sozinh@s, ninguém manda em nós, não temos que fazer o jantar a ninguém, saímos ou não é da nossa conta, vamos beber à nossa saudinha, blá blá blá - QUE SECA!

Por estes dias, existe ainda um segundo tipo de gente que me irrita de tédio - os que gostam de autocomiseração. Olhem para mim, que sou um forever alone. 14 de Fevereiro, para uns conhecido como Dia dos Namorados, para mim é mais uma terça-feira. Olhem para mim, coitadinho, sou feio, sou gordo, cheiro mal da boca, tenho fungos nos pés, jogo no computador 16 horas por dia, sou desempregado de profissão e vocação, mas ninguém me quer. OUTRA SECA!

 

São todos uns aziados e odeio (nem que temporariamente) quem tem este tipo de atitude. São uma mistura de velhos do Restelo com desmancha-prazeres. São gente que me causa ácidos, de tanto disparate que destilam.

 

Aos aziados que gostam da autocomiseração, porque a vida os surpreendeu com amores menos duradouros: celebrem o amor na mesma! Mesmo que o amor não dure, não deixa de ser amor, não deixou de vos fazer felizes a certo ponto e isso é que devia ser a parte mais importante.

Aos aziados que gostam da autocomiseração, porque é mais fácil queixarem-se do que agirem, façam o favor de enfrentar o touro pelos cornos: o amor não cai no céu e encontrá-lo também tem uma dose de esforço, seja ele amor apaixonado, amor de filho, amor de amigo, amor de dono de piriquito!

 

Outras espécies de "encalhados" que eu odeio:

- os moralistas que acham que o Dia dos Namorados é só mais um dia, mas que gostam muito do Pai Natal criado pela Coca-Cola e do Coelho da Páscoa;

- os que odeiam casais que estão felizes e que gostam de mandar postas de pescada sobre o quão foleiros parecemos;

- os que só celebram o Dia dos Namorados porque é o que toda a gente faz.

 

 

Atirem lá as pedrinhas (mas só depois de verem este vídeo e de lerem este e este texto como bibliografia complementar, uma vez que já é tarde aqui nas Ásias e este corpinho já não aguenta mais prosa).

Somos todos doutorados em relações à distância

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Quando decidi vir para o outro lado do mundo, preocupei-me com muita coisa: as saudades de casa, o preço dos vôos, tornar o meu apartamento acolhedor, assegurar meios de subsistência suficientes, mentalizar-me de que estar sozinha não significa estar só, conseguir tratar do visto e da permissão de trabalho - e, dentro desta lista infindável de tarefas físicas e mentais, ainda outra...

Apalpar terreno para uma relação à distância.

 

Dos pedidos de casamento

Quando era mais nova, sempre sonhei em viver momentos de filme, cheios de lamechice, obviamente fruto dos filmes de Hollywood e da Disney: rapaz conhece rapariga, apaixonam-se, ele pede-a em casamento assim de surpresa num local mega especial (ou numa ocasião engraçada), casam-se, têm filhos e vivem felizes para sempre (ou até se divorciarem ou se fartarem um do outro, uma alternativa que sempre tive no meu imaginário, infelizmente).


Pois bem, intrigava-me principalmente a parte do pedido de casamento e a sua simbologia. O homem é que pede: check. Anel de diamantes: check. Mulher admiradíssima aceita: check. Salva de palmas de quem ouve o pedido e respectiva resposta: check. Sinceramente, nunca sequer questionei o facto de ser o homem a pedir a mulher em casamento. Parece que eu vivia num conto de fadas, onde as mulheres trabalham, sim senhor, onde estudam e ganham o seu salário, mas onde esperam que o seu príncipe encantado lhes venha perguntar se lhes dão a sua mãozinha e o pezinho (Cinderela style) em matrimónio.

 

E depois descobri que, na vida real, nem sempre esses pedidos fazem sentido, a menos que estejamos num reality show ou nos EUA. Porque, na vida real, perguntei logo ao meu primeiro arranjinho, nas primeiras semanas, se aquilo era para casar ou não (missão suicida, portanto), o moço disse um sim muito vago e eu, apesar de ligeiramente fascinada por obter feedback, por muito a despachar que fosse, também senti que aquilo não devia dar o pano para mangas como eu queria.

 

A discriminação positiva não deixa de ser discriminação

Ando um (grande) bocado desiludida com a discriminação positiva. Ele é os refugiados que têm os direitos cívicos garantidos até antes de serem inseridos no mercado de trabalho, ele é a bolsa que permite a jovens ciganos estudar, viver, comer e manter uma vida confortável a nível universitário sem ajuda dos pais, ele é os alunos que estão em colégios e institutos de ensino superior privados e que continuam a usufruir de ajuda económica do Estado. Percebo que o nosso instinto seja sempre tentar ajudar as pessoas, o mais possível, com o coração, principalmente quando se tratam de minorias étnicas e culturais ou indivíduos com dificuldades económicas. 

No entanto, a discriminação positiva não deixa de ser descriminação. Para cada caso de descriminação positiva, forma-se um caso de discriminação negativa, do qual praticamente nos esquecemos, mas que não deixa de existir. Vejamos: por cada bolsa de estudos atribuída a um jovem porque ele é cigano, quer estudar e a família não o apoia, um jovem que não é cigano, quer estudar e cuja família não o apoia fica a olhar para as moscas. Por cada refugiado que Portugal acolhe e sustenta através de fundos da Europa ou da própria Segurança Social, um desempregado português em risco de perder as condições mínimas de sobrevivência fica sem qualquer ajuda, porque chegou ao fim dos três anos de subsídio de desemprego e, daí em diante, fica sem tecto e comida na mesa e/ou, na melhor das hipóteses, dependente de subsídios miseráveis de "inserção". Por cada aluno inscrito numa instituição de ensino privada, mas que usufrui de subsídios para financiar os seus estudos fora de instituições públicas, porque os pais declaram parcos rendimentos, um aluno que até para frequentar uma escola pública apresenta os mesmos ou piores obstáculos é remetido para segundo plano. 

Contudo, ainda mais importante do que qualquer consequência que se possa enumerar, estes indivíduos contra quem a dita discriminação positiva actua involuntariamente passam a sentir-se colocados de parte pelo sistema. Por um lado, compreendo que o objectivo da descriminação positiva seja compensar certos desequilíbrios na sociedade ou promover a ajuda a grupos desfavorecidos, só que, por outro lado, não me sinto completamente fã da discriminação negativa que é passível de produzir. Para se ajudar uns, deixamos de ajudar outros. Muitas vezes, nem é que essas pessoas não mereçam, mas não merecemos todos, não devemos ser todos avaliados a partir de lupas semelhantes? 

Correndo o risco de ser mal interpretada, sublinho que estas são apenas ideias soltas e em desenvolvimento, porventura algo generalizadas, mas certamente muito sinceras. Como sempre, reservo-me o direito de estar errada, de mais tarde descobrir incoerências na minha opinião ou de, não estando realmente errada, poder vir a alterar o meu ponto de vista.