Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Aviso à navegação, como se costuma dizer

IMG_25610203_132054.jpg

 

Caros todos: leitores, seguidores, amigos, família, professores, conhecidos e quem mais por aqui andar...

 

O blogue tem estado parado, por falta de experiências a relatar que interessem ao grande público (ou, simplesmente, "falta de inspiração"). Ainda hei-de escrever sobre o meu regresso e consequente re-adaptação à vida no lar-pátria, lar-casa, lar-pessoas que amo - mas, por agora, há que viver essa mesma vida que acontece de rajada. Entre alegrias, tristezas, surpresas de elevar qualquer espírito, desapontamentos de enterrar mortos, amores, desamores, e, em geral, a inevitabilidade dos dias, ainda tenho muito a digerir antes de poder partilhá-lo convosco.

 

No entanto, mesmo à falta de experiências imediatas e extremamente profundas para relatar, a partir desta semana este blogue erguer-se-á das cinzas tailandesas e fará também a sua transição para o seu estado mais português e mais rotineiro. Prometem-se, pelo menos, tentativas de vos trazer um cheirinho do que de melhor existe nesta vida suburbana pouco glamorosa, mas em transformação e aperfeiçoamento.

 

Obrigada por continuarem desse lado!

 

(Aos meus amigos... sei que já prometi muitos almoços, jantares, lanches, cafés, encontros e por aí fora. Por isso, prometo outra vez que a partir desta semana "é que vai ser"! Vocês vão ver! Vai mesmo! 😂)

Bateu a nostalgia de quem vai voltar a Portugal em menos de dois dias

IMG_25610129_173734.jpg

 (Há bocadinho, quando cá cheguei.)

 

Na literatura e no cinema, ou apenas na nossa imaginação, existe uma pergunta omnipresente: se soubesses que irias morrer amanhã, o que farias hoje?

Felizmente, não conto morrer tão depressa. No entanto, saber que me vou mudar dum país a 10 000 km de volta para Portugal, e que aqui poderei não voltar tão rapidamente, traz-me uma nostalgia indescritível. Aliás, vou tentar descrevê-la agora, mas não tenho a certeza se me farei entender tão bem quanto desejo.

 

Tenho quase completa certeza de que voltarei a Banguecoque ou à Tailândia no futuro. Quero, pelo menos, mostrar ao meu namorado onde vivi, já que a minha família nuclear cá me foi visitando. O que me causa nostalgia é saber que Banguecoque é uma cidade em mutação acelerada e o que eu conheço hoje já poderei desconhecer daqui a um ano (é verdade). Só na minha avenida, prevêem a conclusão da nova linha de sky train entre este e o próximo ano). Além disso, há sítios aos quais sei que muuuuuito dificilmente poderei regressar, como é o caso do meu estúdio (aquela unidade particular onde vivi durante onze meses e meio) ou do meu condomínio (terei muitas saudades da minha piscina e do ambiente verde e tons de terra dum lado e, do outro, as torres brancas e cinzentas).

 

Deste modo, fiquei com vontade de regressar ou visitar muitos sítios onde não tive tempo de ir, ou porque me senti forreta ou por falta de planeamento. O meu falecimento para Banguecoque e para a Tailândia como os conheço é já daqui a 36 horas e eu não completei a minha bucket list. Nem a meio cheguei. Na semana passada pensei "se morresses agora, ou no mínimo sabendo que vais regressar a Portugal, onde irias?" e fiz imensos planos, mas a vida quotidiana aconteceu e fiquei pela rama. 

 

Seja como e onde for, esta nostalgia deve-se, em grande parte, a saber que este tempo já não volta, porque eu sou agora uma pessoa que se vai apagar no momento em que o avião descolar em direcção à Europa. Não desdenho a pessoa que penso ser aqui na Tailândia, mas sei que também quero experimentar outras versões de mim. Os primeiros quase dois anos da minha vida adulta pós-estudos foram passados aqui, onde tive o meu primeiro emprego, onde vivi sozinha, experimentei muitas coisas novas (comida, pessoas "aspas aspas que é como quem diz", sentimentos, roupa, forma de pensar e estar)... Mas sei que não quero continuar a ser a mesma que sou neste lado, quero antes encontrar um equilíbrio entre o que sou agora, dia 29 de Janeiro de 2018, quem era no dia 22 de Junho de 2016 e quem me vejo sem no futuro.

 

Divago. Voltando ao que me apetece partilhar...

Enquanto escrevo, estou à beira da minha piscina, a tal piscina do condomínio onde vivo (é relativamente normal e barato para alguém da classe média tailandesa viver num condomínio com condições e infraestruturas semelhantes). Custa um pedacinho chorudo da alma sair desta espreguiçadeira onde me encontro sentada, sabendo bem que é provável que nunca mais eu venha a estar neste preciso ponto do globo. Eu sou dada a nostalgias, é um facto que tenho aprendido a aceitar, mas eu tenho quase a certeza que nunca mais vou estar neste sítio, muito menos a esta hora (vou devolver a chave amanhã à tarde), com esta vista nocturna, mas calorosamente iluminada e reflectida na água.

 

E estou a escrever-vos, presentemente no telemóvel, porque não conheço outra forma de lidar com este luto alegre de quem sabe que se está bem aqui, mas que há momentos para tudo na vida, estando eu especialmente entusiasmada por poder partilhá-los com aqueles que mais amo, em vez de o fazer em regime semi-solitário, o que - convenhamos - é bem melhor.

 

Então, pronto. Daqui a 48 horas já estarei com um pé a apontar para Lisboa e, quando assim for, esta nostalgia há-de se encontrar bem enterrada em sonhos e expectativas mais europeias e invernais.

 

(Uma certeza eu tenho: quando puser o nariz fora do avião em Lisboa, hei-de sofrer com saudades do bafo de poluição e humidade De Banguecoque... mas só momentaneamente, que uma pessoa nunca tem fôlego nesta terra!) 

 

IMG_25610129_191908.jpg

(Agora mesmo.) 

Para onde vamos depois de terminar o ensino secundário?

Vai fazer cinco anos que terminei o ensino secundário. Parece pouco, mas meia década já deu para muito. O mais curioso, para mim, é a diversidade de caminhos das pessoas com quem andei na escola - do meu ano e sem ser do meu ano.

 

Há muita gente que já anda em mestrados, há quem tenha repetido o secundário no ensino profissional, há quem tenha ido logo trabalhar, há quem concilie estudos e trabalho. Há quem já tenha filhos, há quem só tenha coleccionado namorados. Alguns já vão no segundo filho e/ou no 35º namorado/a.. Há quem se tenha tornado jogador de futebol, há quem se tenha casado ou tido filhos com um. Outros participaram na Casa dos Segredos, e/ou iniciaram negócios. Há quem tenha ido para a tropa ou para a marinha. Alguns emigraram ou foram estudar para fora do país ou para o outro lado de Portugal. Uns trabalham nos supermercados onde vamos todos os dias, outros trabalham em escritórios de alto gabarito ou bancos, ou são professores ou educadores, engenheiros de várias áreas, biólogos, psicólogos (vários), animadores socioculturais, antropólogos, actores, ...

 

Depois de terminar o ensino secundário, nenhum outro casal de pombinhos sobreviveu, pelo menos dos que me lembre do meu ano. A maioria das pessoas engordou. Muitas das miúdas "todas boas" do secundário estragaram-se. Há muitas que não eram "as mais boas", mas que ficaram bem giras. Os rapazes tornaram-se, por norma, melhores do que estavam (a puberdade mais tardia ajudou). Por outro lado, há quem já pareça ter quarenta anos, antes sequer de avistar os 25. E há quem continue na mesma. 

 

Antes de terminar o ensino secundário, nunca pensei no quão diferentes poderiam vir a ser os caminhos futuros de tanta gente que cresceu na mesma vila e frequentou as mesmas escolas/cafés/parques/centros comerciais durante tantos anos. Começamos todos no mesmo sítio, de forma semelhante, partilhamos a infância e/ou a adolescência, mas seguimos por vias tão criativas quanto o nosso ADN. A vida é uma coisa estranha, não é?

Baby Boom [Boom, Boom, BOOOOOM!] no Instagram

Por estes dias, principalmente entre a época natalícia e o início do novo ano, anunciaram-se múltiplas gravidezes por esses perfis de Instagram fora. De repente, parece que todas as sugestões de posts apresentam uma barriga a crescer, uma ecografia, uma deixa sugestiva. É assim o amor e a esperança dum futuro cheio de bençãos e alegrias. Fico contente por se ver mais gente a partilhar energia positiva. Destacam-se também as mensagens de carinho. É bonito de se ver e ler. Também há muitos bebés a nascer ultimamente. Parece que se renova toda uma geração a nível mundial numa questão de meses!

 

No entanto, relógios biológicos mais susceptíveis devem manter-se afastados. A sério. Não se aguenta tanta ternura, queixinhos minúsculos e mãozinhas enrugadas de gordurinha, bochechinhas rosadas, cabelinhos de cetim no cimo da cabeça...

 

Lindo, lindo, mas penso que vou rebentar de fofice muito brevemente.

O papel da religião na minha vida

IMG_25601230_151612.jpg

 

Recentemente, aproveitei o facto de a minha tia ter passado o Natal e o Ano Novo em Banguecoque comigo para visitar uma data de igrejas cristãs [católicas], legado maior dos franceses e portugueses, desde o século XVI, nas margens do rio Chao Phraya. Estas visitas, apesar de curtas, deram-me para pensar no papel da religião na minha vida.

 

A verdade é que eu sou daquelas pessoas que "não sabe rezar". Raramente vou à missa, quando vou é por alguma ocasião especial, sou baptizada mas nem fiz a primeira comunhão, todos os membros da minha família tiveram uma educação religiosa (incluindo escolas de freiras pelo meio da equação), praticam a sua fé mas não explicitamente na igreja... e, apesar de me incutirem valores cristãos todos os dias, mesmo depois de maior e vacinada, nunca me forçaram a acreditar num Deus específico, apenas a acreditar nalguma coisa (e a respeitar esse entidade, sem o que ou quem for).

 

Acho que foi assim que o papel da religião na minha vida se tornou, acima de tudo, orientar-me para ser uma melhor pessoa e ter esperança de que nós, humanos, não estejamos sozinhos neste mundo, que haja algo maior do que nós que nos ajude e que olhe pelas nossas vidas. Pensando bem, tudo isto se tornou mais uma questão espiritual do que religiosa. Vejo-me como uma pessoa que acredita (e não é pouco), que sabe que há muita coisa sem explicação que me/nos acontece, que sabe haver - no entanto - muitas perguntas sem respostas, que se sente curiosa sobre todas as religiões e os princípios e valores que as regem. 

 

De qualquer forma, penso que outro papel da religião, não só na minha vida como o de todos os seres humanos, é o de providenciar elementos comuns a uma sociedade, uniformizar práticas e crenças. Infelizmente, muito é feito em nome de Deus no sentido oposto. Não me conformo com os usos que certos povos e indivíduos conferem às suas religiões, nem com a fixação em agradar a Deus através de práticas absurdas para o século XXI.

 

Gosto de pensar que mantenho uma mente aberta sobre a questão da religião, pelo menos por agora. Viver num país estrangeiro - com duas outras religiões dominantes (a maior parte dos tailandeses é budista e outra grande parte é muçulmana), e cuja população cristã vive as suas crenças e rotinas de forma muito diferente do que é feito em Portugal ou na Europa - ter-me-á ajudado bastante a reflectir no papel não só da "religião", como também do que significa "acreditar em Deus". 

 

Em geral, a minha pergunta, considerando o papel da religião nas nossas vidas, continua a ser "por que é que alguém escolheria ter uma visão limitada acerca do assunto, se hoje em dia há recursos que nos trazem uma perspectiva mais abrangente, holística?" O mais difícil, no entanto, também continua a ser formular uma resposta estruturada para uma pergunta que levanta tantas outras questões. Mesmo que eu escolha ver a religião dum ponto de vista cultural, social, simultaneamente pessoal, há muito mais que eu desconheço e que me colocará perante novas experiências e, consequentemente, novas perguntas e alternativas de resposta.

 

De certeza que voltarei a tocar neste tópico. 

Destralhar

Aproveitando duas ocasiões muito propícias para o aumento de motivação para dar um arranjo na casa (digo, o meu estúdio de 29m2), isto é, um novo ano a estrear e a partida de Banguecoque, decidi destralhar à grande.

 

Podem achar que o facto de viver num estúdio há apenas onze meses deveria ser condição suficiente para a inexistência de tralha, mas decerto estarão a subestimar-me. Além de já ter trazido tralha nas três vezes em que fui a Portugal neste ano e meio (livros, na sua maioria) e tralha do outro condomínio onde vivi antes, também sou uma coleccionadora ávida de fotocópias para os meus alunos (teoricamente, não é? Elas acabam por ficar pelas minhas bandas), fotocópias do meu mestrado, talões, recibos, contas que nunca cheguei a organizar como deve ser, contratos de trabalho e da casa e da Internet (e, se tivesse comprado Lord Ennui, também teria os recibos dele, ah ah ah), brochuras de hotéis e monumentos onde já fui, bilhetes de avião, bilhetes de museus e do cinema... you name it! A papelada e a tralha acumulam-se em meu redor como pragas.

 

Portanto, na semana passada pus mãos à obra logo de manhã e comecei por uma caixa. Ao longo da semana, fui pegando noutra e noutra caixa para onde tenho andado a atirar papelada no último ano, recalcando a sua existência.

 

Também já investi na cozinha. Tinha algumas coisas fora da validade, outros pacotes de comida instantânea que, realisticamente, nunca irei consumir (muito má!), fiz um inventário mental do que tenho que possa servir para cozinhar antes de me ir embora, a ver se não desperdiço alimentos nem dinheiro que posso poupar.

 

Antes de regressar a Portugal, destralhar também irá passar por dar ou vender alguma mobília ou objectos utilitários, livros, presentes que, apesar de simpáticos, não vieram acrescentar nada à minha vida.

 

Destralhar deve ser feito regularmente, não como eu o faço - apenas de ano a ano ou por ocasião dum grande evento ou recomeço. Desde que comecei a destralhar e até a seleccionar roupas, livros e electrodomésticos pequenos dos quais já não me vou servir nas próximas três semanas, tenho-me sentido cada vez mais leve.

 

Ainda há um longo caminho a percorrer neste negócio mental de destralhar (deixo este, este não, por que haveria de ficar com este, e não aquele), mas não há nada que não se faça às prestações. Faz bem à alma, faz bem ao ar que se respira em casa, reduz a confusão e o ruído visual. Destralhar é uma prática da qual eu não me deveria esquecer.

5 coisas de que tenho saudades em Portugal

De facto, não há melhor lição do que esta, quando vivemos longe de Portugal: tomamos tantas coisas por garantidas, mas das quais sofremos horrores com saudades, quando nos afastamos do nosso país.

Esta é a minha lista de coisas de que tenho saudades - em Portugal - aqueles gestos, sítios, objectos, rotinas... Acho que algumas pessoas entenderão o que quero dizer!

 

1. A emoção à flor da pele
Quando estava em Portugal, achava que algumas pessoas eram um pouco hipócritas nos seus actos. Demasiadas fofinhices, demasiada simpatia, demasiado entusiasmo, mas ia-se a ver e era tudo um exagero.
No entanto, agora que estou longe, tenho saudades de abraços, beijinhos de olá e adeus, sentir empatia, sentir um certo conforto nessas palavras, mesmo quando parecem ser ditas em vão. Quem diria que eu viri a ter saudades disto?

 

  

2. A variedade de sabores
A comida tailandesa tem dois sabores: ou sabe a alho, ou sabe a chili. Na minha opinião, a portuguesa tem esses dois e mais uns três milhões. Além disso, para quem gosta de comer carne (tal como eu, apesar de não muita), viver na Tailândia, onde a carne tem sabor a nada, é uma experiência quiçá aborrecida. Valha-nos a variedade de vegetais e a comida de rua tailandesa, para equilibrar o consumo dos sabores dos dois países. Só de pensar em comida portuguesa, já estou aqui a salivar por uma carne de porco à alentejana, um cozido à portuguesa, um bitoque com batatas fritas, um bacalhau com natas, ou pastéis de bacalhau, alheira com ovo... Vocês não me tentem!

IMG_25601104_140057.jpg

 Num dos dois restaurantes portugueses em Banguecoque, antes de comer uma bela pratada de bacalhau com natas. *feliz*

 

3. Pão e bolos
Sim, também há pão e bolos em Banguecoque, guardem os vossos terrores. O problema é mesmo a falta de pão e bolos "como deve ser" - isto é, com uma textura consistente, com sabor a mais do que mero açúcar refinado. Sim, e o pão também é quase sempre doce e mole por estas bandas! Onde já se viu tal desplante? Já os bolos, desfazem-se em migalhas, sabem todos ao mesmo e não enchem nem um rato. Fazem-me falta pães salgados, rijos, mas fresquinhos, acabados de sair do forno, quentinhos, sem sabor a conservantes. Sinto saudades de bolos que me satisfaçam a gula. Até existem cá em Banguecoque, o problema é o 💰💰. Há uns dias, mandei vir quatro pães... por quinze euros. Haja paciência para o luxo de se ser portuguesa..!

1514124467294.jpg

Nesta foto, ainda me sentia muito impressionada pelo tamanho deste bolo de noiva! Logo depois, disseram-me que nem os bolos de noiva são reais! São só papel e os noivos cortam-nos unicamente para fazer vista!

 

 

4. Saber que, se sair do local X à hora Y, chegarei ao local A à hora B
Confusos? O trânsito de Banguecoque é imprevisível, excepto algumas alturas do dia ou da semana em que já há um padrão óbvio (pelo menos, para quem cá vive há um ano e meio). De resto, basta uma formiga ser atropelada para filas e filas de carros ficarem bloqueadas num raio de dez quilómetros. O trânsito é insuportável e pouco recomendável a cardíacos, ansiosos e claustrofóbicos. É necessária uma dose divina de paciência ou a coragem de chamar um táxi-mota. Por causa de todo este stress do trânsito inesperado e sempre caótico, tenho saudades de Portugal, por pelo menos ser previsível e não ficarmos meia hora dentro do carro para percorrer 5km.

E os transportes públicos??? Senhores, que desgraça! A rede é bastante eficiente fora da hora de ponta (há comboio, skytrain, metro, autocarro, várias linhas até de barco), mas basta chover um bocadinho, ser sexta-feira à noite e as horas de ponta ficam ainda mais insuportáveis ao ponto de tudo parar - e, com isto, até deixar de haver táxis disponíveis. Ficamos eternamente à espera dum comboio que chegará "dentro de 10 minutos".

 

IMG_25601003_182417.jpg

Atentai nestas caras de desorientação e no mar de gente numa plataforma que, mesmo sendo extensa, fica a parecer minúscula! E até parecemos um bocadinho mais ordenados porque é preciso fazer fila para entrar no comboio.

 

5. Espaços verdes e abertos, ar livre e fresco
Esplanadas, parques, jardins, pracetas, estar à janela. Enquanto escrevo este texto, é Inverno em Banguecoque e está mais ou menos frio (20ºC muito ventosos), mas este não costuma ser o caso. De Fevereiro a Novembro, está sempre abafado, ou a chover, ou o sol é demasiado forte. Em todo o caso, o ar está demasiado poluído para se "apanhar ar fresco". Tenho imensas saudades de me sentar debaixo do sol ameno de Lisboa num final de tarde, a comer um gelado, ou ir almoçar, literalmente, fora. Tenho imensas saudades do meu quintal, com árvores de fruto, um sofá de baloiço, relva, as vozes familiares dos vizinhos ao longe, os cães e os gatos a pedirem mimo, seja Inverno ou Verão. Portugal tem sítios lindos onde ir passear, até Lisboa ou o Porto ainda têm dimensões e população razoáveis que permitem preservar a qualidade de vida. Podemos passear, passar tempo no exterior, desfrutar da Natureza... 

received_1528560430531188.jpeg

 Uma foto de há uns dias, da minha rua em Portugal, quando o meu pai foi passear com a nossa cadela. 

 

Finalmente, haverá por aí alguém que também viva no estrangeiro ou que já tenha vivido? O que acrescentariam a esta lista? Tenho a certeza de que poderia ainda mencionar mais uns tópicos, por isso estejam à vontade.

Portugal, chego em menos de um mês!

A verdade sobre as minhas resoluções de ano novo

IMG_25610101_000411.jpg

Fogo de artifício no rio Chao Phraya, em Banguecoque. Teve mais piada ao vivo!

 

Para mim, 2018 vai ter de ser muito diferente de 2017. Há tanto por fazer, tanto de bom que já se começa a anunciar, tantas mudanças bruscas, mas produtivas, a aproximar-se. Ainda assim, este ano, inundada pelas resoluções que li nas redes sociais e blogues, decidi contrariar a tendência e deixar as minhas pela rama. Em geral, quero saúde e energia, ânimo para trabalhar, estar com aqueles de quem mais gosto, talvez viajar pela Europa para recuperar estes últimos anos fora. Mais especificamente, escrevi-as para referência pessoal, mas decidi não as partilhar. Surto de superstição, ou de zelo, talvez uma certa vontade de simplesmente as guardar para mim. Seja como for, desejo a todos que as suas missões de ano novo se realizem, desejo-lhes força para as levar a cabo e estado de espírito receptivo à alegria de as cumprir e para desfrutar delas.

 

IMG_25610101_000431.jpg 

 

Além das palavras para 2018, o meu balanço para o novo ano termina assim.

Obrigada pelos vossos votos aqui, no Instagram e no Facebook. Cá estarei para mais um ciclo de procrastinação em forma de blogue!

5 palavras para 2018

Se a minha palavra-chave para 2017 for "trabalho", a de 2018 poderia ser "descanso". Estou convencida de que não seria possível fazê-lo a tempo inteiro (apesar de não me importar de ter uma ou duas semanas sem pensar em trabalhar ou estudar, ou complicar seja o que for), por isso decidi escolher 5 palavras para 2018 que sejam ligeiramente mais assertivas acerca do que já é provável que aconteça.

 

IMG_25610102_105902.JPG

 

Ordem, no caos das novidades que aí vêm.

Amor, que tudo deve curar e que, vindo de tantas fontes que me têm dado de beber, tem também que ser cultivado e oferecido de volta.

Disciplina, porque muitos desafios e novas rotinas extremamente desejadas estão para chegar.

Estabilidade, em vez de ansiedade no exterior da zona de conforto; voltar lá se for necessário.

Lar, onde todas as palavras restantes fazem sentido e são possíveis (muito bem sugerida pela minha amiga Daniela, obrigada).

 

Esta é a minha curta lista de palavras para 2018, e a vossa, qual é?

Sobre o que eu penso ser o choque cultural

Não houve qualquer hipótese da minha licenciatura em Ciências da Cultura, ou as experiências de intercâmbio em que participei, me prepararem para o que é o choque cultural sobre o qual vos venho escrever.

 

Quase no fim desta experiência a viver no estrangeiro, cheguei à conclusão de que há vários graus de choque cultural, que nalguns aspectos traz habituação, noutros traz frustração. 

 

Habituei-me à comida picante, ao trânsito louco, à falta de raciocínio rápido e pragmatismo, à ausência de pontualidade, à língua (que aprendi a falar, pelo menos de forma a desenrascar-me e a mostrar educação e gratidão), aos contrastes da população, à mistura de mundos, às casas de madeira à beira dos canais a conviverem ao lado dos condomínios modernos de 20+ andares, à hierarquização e aos alunos que se prostram aos meus pés para me falarem, aos tailandeses que estudaram no estrangeiro e dos quais não se sabe o que esperar, ao sotaque tailandês que esquarteja as outras línguas em arestas flácidas. 

 

Mas, depois de todo este processo de habituação e de tantas outras alterações a concessões a que submeti a minha forma de pensar, comportar e viver, também cabe aos tailandeses decidirem se querem acolher-me (ou a qualquer outro estrangeiro) na sua própria comunidade. Eles dizem que sim, e é verdade, eu sei que eles querem mesmo acolher os estrangeiros. 

 

O problema é que falar é mais fácil do que concretizar. Na minha opinião, as relações entre pessoas resultam de negociações bilaterais constantes. Dá-se e recebe-se. A maioria dos tailandeses dá o suficiente, não dá aquilo a que não é obrigado. Assim, as relações que fui estabelecendo ficam pela rama.

 

Não me queixo, apenas tento analisar. Fiz amigos, estou-lhes agradecida por me terem acolhido, dentro do que se conseguiu, mas o meu conceito de amizade quer ir mais longe, precisa de mais, quando o deles não. Trabalhar e viver num meio exclusivamente tailandês, trabalhar para o governo, viver nos subúrbios, leva-me a sentir que necessito de mais do que o que me querem dar e talvez seja isso o verdadeiro "choque cultural": a negociação mal sucedida ou insuficiente de conceitos tão abstractos quanto amizade, carinho, sentimentos, emoções, visões do mundo.

 

Para mim, todos estes conceitos estão no fim da linha da adaptação cultural, porque não são uma necessidade vital, mas sim o que sustém a vida a longo prazo, o que torna possível viver no estrangeiro ou longe do sítio onde crescemos.

 

Há vários níveis de choque cultural. Primeiro, não gostamos da comida. Depois, perdemos a paciência com a maneira diferente de fazer as coisas. Quando já nos resolvemos quanto aos primeiros choques ("é mesmo assim!"), mais desafios se apresentam. E mais. E mais. E mais complexos. E a exigirem mais de nós. E podemos vencê-los, moldando indefinidamente a forma como pensamos, comportamos e vivemos; ou chega a uma altura em que já não dá mais. É assim que eu me sinto.

 

Não me sentir parte de nenhum grupo ou comunidade é o derradeiro efeito do meu choque cultural, que é um choque do que se sente no coração e no fundo do estômago. É o resultado da procura de sentido na vida dos outros, quando só se encontram portas meio abertas. É o choque de se tentar aprofundar o superficial, de passar os colegas a amigos, que não funciona. O derradeiro desafio da transculturalidade.

 

Mas não faz mal! É mesmo assim. Faz tudo parte desta experiência que é a vida humana. A minha vida. Estou em paz com o que posso dar e receber. Já referi o quão agradecida me sinto por poder, sequer, escrever acerca de tudo isto? 

 

(E, não tendo concluído o meu mestrado por cá, posso dizer que aprendi o suficiente para uma pós-graduação em gestão da interculturalidade! )