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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

27/30 (sobre o esquecimento)

Existem lacunas nas memórias que guardo de um certo ano da minha vida. Pessoas com quem estive entre 2018 e 2019 contam-me sobre experiências que vivemos juntos sobre as quais não me recordo. Irmos a um restaurante, irmos a um evento, termo-nos conhecido... Sei mais ou menos o que me aconteceu, e até me lembro bem dos livros que li, de tal forma que acabo por me recordar do que pensava estar esquecido quando me dizem que leituras andava a passear na mala. Mas, de vez em quando, lá vou reparando que não me lembro disto e daquilo. São buracos. Vou-me apercebendo da gravidade do assunto, principalmente quando são memórias ligadas a pessoas de quem gosto muito, ligadas a planos aparentemente divertidos, diferentes e facilmente reconhecíveis entre a espuma dos dias.

 

O que quer isso dizer? Acho que quer dizer que o mais provável era eu sentir-me bastante deprimida. Ou que talvez tivesse falta, ou excesso, de estímulos. Sim, havia muito a passar-se nesse annus horribilis, que simultaneamente foi um período cheio de coisas boas, aprendizagens e decisões importantes. Talvez eu simplesmente não tenha andado a pensar muito nisso, e me vá esquecendo naturalmente de umas coisas ou de outras, por muito estranho que pareça ao primeiro raciocínio.

26/30 (eu isto e o João aquilo)

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Costumo dizer muitas vezes, em tom puramente caricatural: eu e o João falamos línguas diferentes. Depois de mais de ano e meio juntos, começamos a comunicar cada vez melhor, e a arranjar um entendimento partilhado que nos permite uma tradução razoável. Mas isso é o mínimo, a ponta de um iceberg. A simplificação não é sempre o caminho.

 

É difícil conhecerem duas pessoas mais diferentes entre si do que nós - à primeira vista. Quando nos viu juntos e falou connosco pela primeira vez, o nosso vizinho comentou logo o facto de eu ser a parte que fala e o João a parte que ouve. Foi mais ou menos assim que nos descreveu, e eu achei engraçado haver esta dicotomia obrigatória. Uma é isto e o outro é aquilo.

 

Vejamos...

Eu sou criativa, o João é lógico. Eu sou extrovertida, o João é introvertido. Eu sou espontânea, o João é comedido. Eu sou complexa, o João é pragmático. Eu sou batata de sofá, o João fez um ginásio em casa. Eu sou ansiosa, o João é calmo. Eu sou das Letras, o João é das Ciências. Eu penso, o João faz. Eu sonho, o João planeia. Eu digo sim, o João diz não. Podia continuar, mas a amostra já é suficiente para se entender onde quero chegar: como é que duas pessoas tão diferentes se podem fazer tão felizes?

 

Correndo o risco de abusar do cliché, parece-me inevitável invocar o conceito de equipa. O que falha no elemento X abunda no elemento Y. E vice-versa.

 

E, depois, há aspectos que são tão mais importantes para uma relação funcionar: a vontade de estar na relação (óbvia, mas desvalorizada), os desejos para o futuro, os princípios éticos e morais, a visão sobre o dinheiro, o compromisso e a dedicação diária, a capacidade de partilhar os pertences, o espaço e as responsabilidades, o estilo de comunicação, as linguagens não faladas, a admiração mútua, as rotinas. Embora hoje já me faltem palavras e energia para continuar o raciocínio, hei-de voltar a escrever sobre o assunto.

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

23/30 (porque ouço podcasts, e que podcasts ouço)

Tenho saudades de ter aulas e de assistir a conversas ao vivo, então ouço podcasts. Ouço a voz doutras pessoas, as suas lições de vida mas também o que estudam, ou o que contam sobre experiências de trabalho. Ouço sobre os seus interesses, se são activistas e em quê, como fazem o que fazem, como vêem o mundo, o que andam a ler e a ver, que dúvidas e momentos de fraqueza e fracasso acumulam.

 

Tenho saudades de me sentar e de ouvir, ao vivo e a cores, então dei por mim à procura de podcasts, por vezes só episódios específicos, que tratem do que me interessa. Embora seja como pôr o penso numa ferida que não estanca, vou-me contentando. O Spotify, o Google Podcasts e outras plataformas de streaming ajudam na procura e no encontro entre ouvintes e o produto, seja ele uma entrevista, uma troca de ideias entre amigos, uma mesa redonda, um monólogo, uma reportagem, uma aula ou explicação...

 

Entre os meus temas favoritos, contam-se os livros, a literatura, a psicologia e o ensino de línguas. Com alguma frequência, também gosto de ouvir conversas em que participem pessoas que eu admire ou que aprecie simplesmente ouvir falar.

 

Além disso, dá muito jeito ter um entretenimento paralelo com caminhadas, exercício físico ou tarefas domésticas. Os podcasts fazem tudo isto parecer muito melhor.

 

Deixo-vos com uma lista de podcasts que vou ouvindo de forma mais assídua, em português e em inglês, sem nenhuma ordem particular excepto a da enumeração de cabeça:

  1. Meu Inconsciente Coletivo
  2. Louco Como Eu
  3. A Beleza das Pequenas Coisas
  4. The Happiness Lab
  5. The Journey Talks
  6. Interruptor
  7. Shut Up Brain
  8. Biblioteca de Bolso
  9. 45 Graus
  10. The Science of Happiness
  11. Botequim
  12. Good Life Project
  13. Before Breakfast
  14. Reset

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

19/30 (blogs, livros e a liberdade de expressão)

Demoramos cinco minutos a criar um blog, talvez mais dez a escrever a primeira publicação. Podemos opinar, deitar cá para fora as nossas postas de pescada, bastando clicar no botão azul que permite que o nosso texto vá para o ar. Nas redes sociais, idem; aliás, nelas é ainda mais rápido e intuitivo escrever e dizer o que quisermos, mesmo quando ainda não pensámos muito no assunto, ou mesmo quando o que escrevemos ou dizemos não faz sentido, ou atenta contra alguém, ou quando não era bem aquilo que queríamos comunicar.

 

Assim é a liberdade de expressão em 2021, em Portugal. Qualquer pessoa dispõe de recursos, ferramentas e conhecimentos para, em curtos minutos, contar ao mundo o que lhe vai na mente. Desde o acesso universal à educação, até ao poder de nos fazermos ouvir quando, onde e como queremos, passando pela generalização do uso das tecnologias da informação, a liberdade é um dado adquirido.

 

Sabiam que, na Tailândia, o livro 1984 é proibido? Na altura em que vivi em Banguecoque, fui ver uma peça de teatro baseada na obra, e todos naquela sala, numa das melhores universidades do país, sabiam que faziam parte de um acto colectivo de rebelião contra as amarras da ditadura militar e da monarquia absoluta, inquestionável. Antes de entrarmos, apontava-se e murmurava-se para um jovem. "Ele já foi preso por ter ido ler passagens do 1984 para a porta da Embaixada dos Estados Unidos".

 

A certa altura, não sei se antes ou depois de ir ver essa peça encenada por alunos da Universidade Chulalongkorn, comprei o 1984 para o ler pela primeira vez, encontrado na minha livraria de eleição, de livros usados em inglês, a Dasa Books, na avenida Sukhumvit. Eu sabia que, sendo estrangeira, esse estatuto poderia beneficiar-me ou, infelizmente, colocar-me em maior perigo se fosse apanhada com o livro nas mãos. Decidi não arriscar, e envolvi a capa em papel branco.

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, seria impossível ter um blog livre, que não fosse detalhadamente escrutinado (se os houvesse, é claro), tal como seria impossível ler qualquer livro que se quisesse (se se soubesse ler e escrever), ou obtê-lo ou trazê-lo para Portugal, tal como na Tailândia, em 2017. A minha avó conta-me que o meu avô ia à Livraria Barata comprar livros proibidos, por exemplo. Já se imaginaram a viver num mundo em que há leituras e obras proibidas e censuradas? Eu não.

 

Quando alguém recusa ou desvaloriza a importância de vivermos em democracia em Portugal, é impossível não sentir a profunda injustiça dessa sua tomada de posição. Eu, mulher, que nasci num país em paz, que não dependo do poder patriarcal para sobreviver e tomar as decisões da minha vida, que jamais vi o que escrevo, digo ou crio censurado, que nunca me senti perseguida por ter opiniões (sejam elas mais ou menos acertadas, mais ou menos reflectidas), sinto-me privilegiada. Escrevo e estudo sobre o que quero e me apetece, vivo com um homem com quem não estou casada, beijo em público, dou a mão em público, sinto-me livre e os meus actos, se não lesarem ou magoarem ninguém, podem mesmo nem sequer ter quaisquer consequências. O mesmo não puderam dizer mulheres como as Três Marias, e mesmo a minha avó ou a minha bisavó.

 

Quem viveu a ditadura e o 25 de Abril está a envelhecer. A cada nova celebração do Dia da Liberdade, temos cada vez menos testemunhos na primeira pessoa prontos a refrescarem-nos a memória. Dentro de duas gerações, os pais e os avós dos filhos da madrugada (pegando na canção de Zeca Afonso ou no título do programa de Anabela Mota Ribeiro) não estarão cá para contar que Portugal era esse. Pode tornar-se cada vez mais difícil recordar como era viver no nosso país antes de 1974, ou acreditar que vivemos realmente num país melhor. A memória pode atraiçoar, o enviesamento é inevitável. Resta-nos cuidar do legado e preservar o que for possível da memória de grande parte do século XX, ainda tão recente, mas mais distante a cada dia que passa.

 

Não, a democracia como a conhecemos hoje não é perfeita, longe disso. Muitas desigualdades continuam a existir, tal como corrupção, pobreza, desemprego, desespero, falta de oportunidades. Mesmo assim, não tenhamos ilusões: a vida é melhor agora do que há 47 anos. Tratemos de acrescentar qualquer coisa, dentro das nossas possibilidades, a essa liberdade que outras gerações não tiveram.

18/30 (escrever sobre as falhas)

Se há algo que tenho aprendido ultimamente sobre a escrita, isso será sem dúvida que o mais difícil de escrever é aquilo que mais tem de ser escrito.

 

As palavras não são presas fáceis. Devemos saber manipulá-las, chamá-las à nossa teia, enredá-las em relações inesperadas e mesmo forçadas. Aquilo que mais sinto necessidade de escrever é aquilo que não sai. Talvez não saia porque, inconscientemente, eu sei que será doloroso ler o que está na folha, será um confronto com a minha imperfeição e a imperfeição do meu pensamento, mas principalmente com a imperfeição do mundo que eu ainda não consigo comunicar.

 

Sobre o que queres escrever, Beatriz? Quero escrever sobre as falhas. Todos nós temos falhas, somos resultados de falhas e não temos outra hipótese senão ir navegando todo o falhanço que nos rodeia. Penso que é para isso que a literatura serve, para deixar um registo do que mais nos incomoda, assim como aquilo que, por contraste, mais desejamos.

 

Catarse. Escritores e leitores procuram a libertação através da explicação da ordem do mundo, esse mundo cheio de falhas e, por isso, todo ele imperfeito. É impressão minha, ou os escritores procuram, com os recursos que têm ao dispor, racionalizar o que é irracional?

 

É por isso que me custa tanto escrever. Eu tenho muito medo de encarar a falha, quer a que materializo, quer a que fica por materializar. No fundo, eu sei que faço parte e que quero contribuir activamente para um processo que nunca terá fim, quiçá anti-catárctico.