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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Leitor e escritor, entre a realidade e a ficção: Autobiografia (José Luís Peixoto)

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Este livro deixou-me com sentimentos contraditórios.

 

Há autores que fazem parte da nossa vida; ora porque nos falaram ao coração e criaram aquilo de que precisávamos, ora porque os lemos em fases críticas no desenvolvimento pessoal e ajudaram a moldar os nossos gostos, ora porque nos deram uma espécie de alimento que aprendemos a digerir e sem o qual deixamos de poder viver.

 

Entre os 15 e os 19 anos, houve três escritores portugueses que me arrancaram do Harry Potter, dos Diários da Princesa e dos romances de cordel: Eça, Saramago e José Luís Peixoto. Os primeiros dois foram sugestão da escola e, ao ler o obrigatório, achei que era pouco e li quase tudo o que me passasse pelas mãos, tivesse em casa ou houvesse na biblioteca. O último foi uma surpresa. Folheei um Abraço no Modelo da Quinta do Conde, e depois acho que fiquei tão fascinada que o pedi pelo aniversário seguinte. Foi, de facto, o abraço literário da minha adolescência.  De vez em quando, abro o livro e escolho uma crónica aleatória para ler. Demorei muitos meses até conseguir terminar todas pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos não tinha profundidade para absorver tudo duma vez, mas o que li teve um efeito duradouro. Depois disso, vi o JLP num evento da FLUL, fui ao lançamento de Galveias em Lisboa, conheci-o em Banguecoque e fui a um encontro com outro escritor tailandês na Casa Pessoa no Verão passado.

 

Acho que já só me falta ler dois livros de José Luís Peixoto. No entanto, Autobiografia subiu na lista de prioridades quando soube que teria Saramago como personagem. Não poderia perder a oportunidade de saber mais sobre esse Saramago que JLP, que ganhou o Prémio Saramago quando ainda era bastante jovem, conheceu e que escolheu trazer-nos.

 

Não sei como falar de Autobiografia sem vos contar demasiado sobre o enredo. Vou tentar ser breve: é um texto ficcional de carácter biográfico. Ou, se calhar, não é. De autobiografia tem pouco, excepto do ponto de vista das personagens. Mas são personagens ou pessoas reais? Por que não ambas?

 

Autobiografia é um livro cheio de camadas que nos cabe desbravar. O enredo forma-se a partir do entrelaçamento entre a realidade e a ficção, numa metanarrativa acerca do que significa ser-se escritor e leitor (e, mais uma vez, por que não ambos?). Existe um José, existe um (José) Saramago, existe uma Pilar e outras tantas figuras. A conclusão a que chegamos é que não interessa se são retratadas correspondendo à realidade ou se é tudo da cabeça do autor. Em vez disso, basta sabermos que existem neste livro. No início pode ser um pouco dissonante confrontarmo-nos com esta diluição de fronteiras e dicotomias, mas ao cabo de algumas páginas conseguimos finalmente desprender-nos das amarras dessas expectativas.

 

Quanto à escrita... Esta sim, faz-me ter sentimentos contraditórios. Por um lado, José Luís Peixoto consegue - como sempre - descrever o mundo como uma criança que o descobre pela primeira vez, maravilhando-se com as mais ínfimas (e íntimas) tonalidades da vida. É assertivo, inocente e simples com as palavras, e isso é bonito. Ainda assim, fiquei à espera de mais. Muitas expressões soam a lugar-comum da sua obra. O leigo di-las-á batidas. Não há surpresa, dei por mim a querer mais. Talvez não seja do autor, talvez seja de mim, mas confesso que as minhas expectativas eram bastante elevadas.

 

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, vou à apresentação do livro em Lisboa, por isso estou bastante entusiasmada. Tenho bastante curiosidade em saber o que o autor tem para contar sobre a sua própria obra, assim como outros que lá estarão, porque decerto ajudará a compreendê-la ainda melhor.

 

💡Seja como for, os nossos autores favoritos têm sempre um lugar de honra na nossa estante e na nossa formação informal enquanto leitores. Isso ninguém lhes tira! Acho que fazem muito bem em colocar esta Autobiografia na vossa lista de leituras para as férias de Verão.

Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

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Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?

Como contar e ler as melhores histórias: The Science of Storytelling (Will Storr)

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Andei a procrastinar esta opinião durante duas semanas. Senti sempre que tudo o que eu escrevesse não faria justiça ao que este livro é, o quanto gosto do tema e o quanto quero recomendá-lo a todas as pessoas que gostem de ler e escrever, seja a título profissional ou ocupação pessoal e inconsequente dos tempos livres.

 

Não é o livro do ano, nem da década, nem da vida, mas é um livro que nos ensina a ler histórias, seja em que meio for: The Science of Storytelling, de Will Storr (o mesmo autor de Selfie), publicado pela primeira vez há poucos meses, não é um manual de escrita criativa. É, em primeiro lugar, um manual de leitura atenta. Não serve só para quem cria histórias, mas principalmente para quem gosta de as destrinçar, analisar, receber com cuidado. E são explicadas tantas, mas tantas dicas sobre como fazer e ler histórias cativantes! Afinal, o objectivo evolutivo de criar histórias é educar, transmitir conhecimento e promover relações entre os membros de uma comunidade, para que a espécie humana sobreviva. Então, há que fazê-lo bem.

 

Segundo The Science of Storytelling, porque as histórias de que mais gostamos se calhar até são um espelho da vida, as partes mais importantes da narrativa poderiam ser as mais importantes quando pensamos na nossa própria história individual. Começamos com um herói, e a sua viagem no espaço físico ou mental, moral, emocional (à semelhança do que Joseph Campbell já escreveu). Por sua vez, este herói coloca-se e coloca-nos uma pergunta que nos guia e prende até à última página: quem sou eu? Segundo Will Storr, uma boa história corresponde à auto-descoberta dos protagonistas e, para tal acontecer, tem de haver uma evolução constante, quer seja externa ou interna. O que nos leva a outra das características mais importantes das histórias bem contadas: a falha sagrada das personagens, que é algo que não só as distingue, como também poderá ser a causa dessa procura de identidade ou evolução no enredo. Atentemos em exemplos muito fáceis que talvez todos conheçamos: exactamente por ter colocado em questão a forma como viveu a sua vida, até ao momento em que o filme começa, é que Elle Woods (a personagem de Reese Witherspoon em "Legalmente Loira") tem uma história minimamente interessante para ser contada. Nós identificamo-nos, nem que seja metaforicamente, com aquela criatura cor-de-rosa, porque ela é uma excelente rapariga, tem bom coração, move-se por causas nobres, apesar de... no início parecer cognitivamente limitada, ser imatura, superficial e ingénua, ter problemas por resolver. Tal como nos sentimos solidários com Mrs. Richardson, que é uma excelente mãe de família, adora os filhos e o marido, apesar de... ser hipócrita, coscuvilheira, cega para o resto do mundo que não cumpra os seus ideais. Ou porque acabamos por empatizar com Lord Voldemort: coitado, teve um início de vida trágico, o pai abandonou a mãe, que o abandonou a ele, viveu num orfanato cheio de miúdos sujos, ficou sem nariz, apesar de... ser ruim, matar pessoas, invocar tudo o que seja força negra e entreter-se a perseguir um adolescente para conseguir a imortalidade.

 

Estas personagens com falhas também somos nós. As histórias que elas vivem também são as nossas. O nosso cérebro procura acção, questionamento e algo com que nos possamos identificar, seja com o protagonista ou o antagonista. Por outro lado, estes princípios também podem ser subvertidos, se procurarmos antes uma história menos comercial e mais desafiante.

 

Obviamente, isto é apenas um pouco do que vos posso contar em poucos parágrafos sobre The Science of Storytelling. Will Storr tem muito mais para vos oferecer do que eu. No final, temos ainda uma lista de referências bibliográficas muito interessantes e que dão vontade de estender ainda mais a lista de livros por ler.

 

Por isso, comecem já por este. São apenas duzentas e poucas páginas com letra gordinha e espaçada. Infelizmente, ainda só existe em inglês, mas pode ser que alguma editora portuguesa lhe pegue em breve, por ser um autor com alguma notoriedade.

 

📚  De resto, porque me tenho interessado imenso pelo storytelling e pela empatia, agradeço todas as sugestões de leitura que tenham sobre estes temas. Ou mesmo opiniões pessoais: acham que os princípios apresentados por Will Storr são mesmo ingredientes indispensáveis numa história? O que é que vos move a devorar um livro? O que é que procuram?

As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

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Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

Aos 23

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Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

Fé, questionamento e sentido de humor: Caim (José Saramago)

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Quem é que nunca se zangou com Deus? Quem é que não Lhe fez perguntas que acabam por ecoar no vazio? Quem é que nunca se sentiu endrominado, frustrado, descrente?


Mesmo que não nos identifiquemos com elas, muitos de nós cresceram no meio de referências cristãs, quiçá católicas. Sempre ouvimos falar de Deus e do poder que tem sobre as nossas vidas, das histórias da Bíblia e da sua relação com a História. Este livro é para quem tem muitas perguntas e poucas respostas, crente ou descrente, praticante ou não praticante, desde que consiga encontrar um escape no humor e na exposição do absurdo.


Há quase duas semanas, acabei de ler o livro Caim, de José Saramago. Gostei muito e só tenho pena de me faltar cultura bíblica para entender tudo ainda melhor, para ainda mais me rir. É um livro tão pequeno, mas tão engraçado. E tão polémico. Sei que pode haver quem se ofenda. Ainda assim, ao ler sobre as aventuras de Caim pelas palavras de Saramago, imaginei-o numa discussão acesa com Deus, porque nem todos podemos manter a fé perante tantas dúvidas, porque Deus nem sempre assiste, ao que parece, e porque somos apenas humanos e procuramos sentido em tudo, sem conseguirmos encontrá-lo sempre. Para os crentes, penso que pode ser uma forma de reler a religião, de forma a testar a sua própria fé e... enfim, sentido de humor.


Por ter sido Saramago a escrevê-lo, também imaginei a leitura na voz dum avô resmungão, revoltado contra as injustiças do universo nos últimos anos da sua vida - que provavelmente foi o caso. Por estar cheio de provocações, é daqueles livros de que se gosta muito ou que se odeia, mas é impossível ficar indiferente ao questionamento constante de Deus, cheio de falhas, não só antropomórfico, como também humanizado, rival-amigo de Satanás, chefe dos anjos, vivendo a eternidade a seu belprazer.


Infelizmente, Caim não é um dos meus livros favoritos escritos por Saramago - não pela parte religiosa, mas pela literária. Não lhe encontrei nada de especial, além da indagação e da ridicularização da crença no divino, porque o resto me pareceu vulgar, pouco ambicioso e surpreendente. Além disso, claro que não ajuda a minha falta de conhecimento profundo acerca da Bíblia! De resto, por ser um romance curto e cheio de imprecações que fariam um adolescente corar, recomendo para quando precisarem de uma leitura rápida e bem disposta, mas não menos desafiante.

 

📝 Pergunta para queijinho: qual é o vosso livro favorito de Saramago? E porquê?

Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

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Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

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🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?

O primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa 2019

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Diziam que, em 2019, a Feira do Livro de Lisboa seria maior, mais sustentável e que teria mais actividades. Ainda só fui ao primeiro dia, estive lá por volta da hora do jantar até ao fecho, e estas são as minhas conclusões acerca do que vi.

 

De facto, a Feira do Livro de Lisboa 2019 está maior. Tem mais bancas, mais editoras e projectos, e não é por causa disso que está mais apertada. Continua a haver espaço para circular e é apenas normal que, de vez em quando, tenhamos que esperar pelo leitor anterior para chegar à bancada seguinte. Para quem já tem uma lista de desejos, penso que vai valer imenso a pena esperar pela segunda semana da feira, quando começar a haver Hora H, ou andar à caça dos Livros do Dia. Os descontos parecem ser simpáticos e todas as desculpas são poucas para lá ir arejar as ideias (ainda por cima, trabalho a cinco minutos a pé, que desgraça!!!).

 

Por outro lado, falta comida... de jeito. E em variedade. Apesar de haver opções vegetarianas, há pouco mais do que hambúrgueres, wraps e pitas. As farturas não faltam, mas não fazem um almoço ou jantar. Tudo o resto, que não é muito, é extremamente caro. O meu conselho é que tentem comer antes de ir à FLL ou, se tiverem fome enquanto lá estão, saiam ou levem um lanchinho (e claro que a comida é importante, porque, se forem como eu, são capazes de lá ficar tempo suficiente para precisarem de sustento pelo meio). Também acaba por ser demorado estar nas filas intermináveis ou à espera de se ser servido. Ontem eu e o meu namorado ficámos vinte minutos à espera duma mísera pita de frango com batatas de pacote, tempo esse que gostaríamos de ter gasto a ver livros, o pôr-do-sol ou simplesmente a descansar.

 

No entanto, acho que a minha maior crítica quanto à bebida e comida é outra. Tudo o que era notícia e anúncio à Feira do Livro 2019 declarava que seria OH! tão sustentável! Mas esqueceram-se do mais óbvio: onde podemos encontrar água? Estamos no século XXI, não conheço quase ninguém que não se faça acompanhar garrafas reutilizáveis. Ainda assim, a FLL não tem nenhum sítio onde ir enchê-las, e como se não bastasse vende garrafas de água a 2€. Sendo um evento onde se vai com a família, onde os aficionados ficam bastante tempo e andam dum lado para o outro, debaixo de altas temperaturas, não aleijaria ninguém haver alguns dispensadores de água, mesmo que pagos, em locais estratégicos do recinto. Pouparia os nossos bolsos e o ambiente, tudo ao mesmo tempo. Serei a única a achar que isto faria maravilhas?

 

Quanto às actividades, tenho pena que a Hora H comece só na segunda semana, mas não sei muito mais, porque ainda é demasiado cedo para comentar e porque não costumo ir à Feira do Livro por causa das actividades (excepto os dois clubes de leitura de que faço parte e que já marcaram os encontros de Junho na FLL). Só espero que consigam atrair leitores e potenciais leitores, que propiciem um ambiente familiar agradável e que tornem a Feira do Livro de Lisboa ainda melhor e memorável para os mais novos.

 

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📚 E por aí, quais as vossas expectativas para a Feira do Livro de Lisboa 2019? Eu portei-me muito bem ontem, não comprei nada e estou-me a guardar para os Livros do Dia e para a Hora H. Não me apetece cair em tentação, por isso já tenho uma lista de compras para a primeira semana, a ver se não gasto por impulso o dinheiro de que vou precisar para fazer tudo o que quero durante o Verão.

 

😈 Aproveitem e deixem as vossas queixinhas nos comentários!

Sobre as relações de vizinhança: Casos do Beco das Sardinheiras (Mário de Carvalho)

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Tenho pena de quem nunca tenha experimentado a sensação de ter nos seus vizinhos uma mão extra quando falta, a companhia suplente para os grandes eventos, o ingrediente que falta ou as ofertas inesperadas dum bolo, uma fruta trazida da terra, os legumes da horta ou uma boleia quando o carro não pega. A vida é tão melhor quando vivemos perto de pessoas cujos nomes sabemos, a quem podemos sorrir logo de manhã ou com quem nos cruzamos no elevador sem grande constrangimento. Os meus vizinhos em Portugal partilham tudo o que cultivam na horta, e até me venderam o carro deles em segunda mão por um preço simpático; e os do outro lado da rua foram como uma extensão à família durante a minha infância e adolescência. Do outro lado do mundo também tive sorte: uma das minhas vizinhas tailandesas em Bangkok trazia-me mangas e fruta-dragão da terra dela, apesar de nem falarmos a mesma língua e a nossa comunicação se basear em pedaços de inglês aqui e ali e em risos e wais descoordenados.


Pareceu-me ser esse o tema do livro Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho: a vizinhança com quem se mantém uma relação amor-ódio, que são realmente tudo de bom, mas que de vez em quando também podem ser só gente metediça e inconveniente. À mistura, temos um bairro muito sui generis, que tem tanto de típico, como de paranormal. Eventos estranhos acontecem no Beco das Sardinheiras, ora por culpa dum vizinho, ora por culpa do outro, ora por sabe-se lá que carga de água.

 

Ler os Casos do Beco das Sardinheiras é como abrir um glossário de expressões idiomáticas que os nossos avós usam, ou que pelo menos se ouvem cada vez menos. A cada página, parece que somos surpreendidos por mais uma, que provavelmente nunca ouvimos antes. Ainda bem que há quem tente preservar este espírito que será enterrado à medida que tais expressões caem em desuso! Sempre que descobria uma nova, só pensava "e se alguém tentasse traduzir isto para outras línguas?!". Acho que nem dava, ou seria precisa muita mestria para abarcar a sua riqueza linguística e cultural.

 

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Mesmo assim, foi o último dos Casos do Beco das Sardinheiras que realmente me surpreendeu. Não vos vou contar qual é o desfecho, mas prometo que ficarão surpreendidos e que lhe acharão graça.


Se estão à procura dum livro literalmente levezinho escrito por um autor português, talvez porque, tal como eu, se andam a desleixar na leitura da nossa língua nativa, recomendo este. São casos que nos fazem ficar a pensar que, mesmo quarenta anos depois de serem escritos, continuam a fazer sentido neste modo de estar tão português, tão cosmopolita, e simultaneamente tão provinciano.

 

📚 Têm mais alguma sugestão de leitura em português? Esta foi a minha leitura de Maio, com o tema "Flores", para Uma Dúzia de Livros, promovido pela Rita. 

Encontrámo-nos anteontem para discutir as nossas leituras, no sítio do costume -  A Sala, uma cafetaria/espaço de lazer muito acolhedor em São Bento, onde também já organizei um workshop e onde tento ir sempre que possível! O gelado da primeira foto estava delicioso!

 

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