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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Como gostava de ser recordada?

Tenho muita curiosidade em saber que tipo de biografia - chegando eu a uma fase tardia ou ao fim da minha vida - se poderá escrever sobre mim. Mais do que vision boards, entradas de diário ou qualquer outro exercício de imaginação presente quanto a um momento futuro, entusiasmo-me verdadeiramente com a perspectiva de contribuir para o que um dia pode vir a ser dito ou escrito a propósito dum possível legado semeado ao longo dos anos que me restam gozar.

 

Comecei a fazer este exercício de forma mais consciente, desde que me deparei com um questionário feito pela Ariana Amorim. Diz a penúltima pergunta: Como gostava de ser recordada?

 

Se no primeiro par de anos da idade adulta me foquei em atingir grandes metas em muito pouco tempo, em tentar ser imbatível e inesquecível, acho que amadureci no sentido de agora me interessar mais em ir atingindo outras mais pequenas por períodos de tempo mais longos, mas de forma mais consistente. Afinal, acredito cada vez mais que uma pessoa não se faz das conquistas pontuais, mas sim da sua repetição, insistência ou permanência. Prefiro fazer pequenas escolhas, aqui e ali, que me levem à história que um dia contarão sobre mim - mas terei realmente poder sobre elas?

 

Desde que tentei responder à pergunta da Ariana, tenho mantido a atenção em tal hipótese a muito longo prazo. Que tipo de histórias se contarão sobre mim dentro de quarenta ou cinquenta anos? E até que ponto me cabe a mim a responsabilidade de as ir concretizando?

 

Na Introdução ao seu livro de memórias, Bilhete de Identidade, Maria Filomena Mónica conclui que o livre-arbítrio que julgamos ter enquanto vivemos a nossa vida e fazemos determinadas escolhas é, no final de contas, ilusório. Ao escrever sobre a sua infância e juventude, foi isto que a própria sentiu, que pensava ter tido mais poder nos acontecimentos da sua vida do que lhe parece décadas depois.

 

Esta descoberta relembra-me uma conversa que tive há algumas semanas com um amigo. O efeito-borboleta é um fenómeno maravilhoso, quando percebemos que, se não nos tivéssemos conhecido, ou se não tivéssemos reunido as condições ou circunstâncias que levaram ao dia em que nos conhecemos, as nossas vidas ter-se-iam tornado muito diferentes das vidas que agora reclamamos como nossas. E que poder tivemos nós na sua construção? Eu diria que não muito, mas pouco. Entre pequenos e grandes encontros, tornamo-nos seres com biografias imprevisíveis.

 

Em geral, não querendo ser pessimista, sei que podemos apenas tentar escolher o melhor possível de acordo com a matéria-prima dos dias. É a partir daí que pretendo contribuir para o que será o tal legado de memórias, a tal "marca" que gostava de deixar no mundo.

 

São estas referências para a acção, uma espécie de código de conduta, que mais importam. O resto será sempre volátil e efémero.

Partir em caso de emergência

Sou uma pessoa cheia de medos:

Medo das alturas

Medo de não ser capaz

Medo de me revelar insuficiente

Medo de ser abandonada

Medo de falhar

 

Como se esta lista ainda não fosse suficiente, o tempo presente tem-me trazido ainda mais medos.

 

Medo de não poder abraçar

Medo do isolamento

Medo da doença (e da morte)

Medo de estar longe

Medo da estagnação

Medo da ausência

 

Se a segunda metade do Verão me deixou sair para aproveitar o sol e até algum afecto dum par pessoas de quem sentia falta, não acredito que consiga manter esta proximidade com aquilo e aqueles que me consolam até ao final do ano. Como uma sentença, mesmo que auto-imposta, tenho quase a certeza de que chegará o dia em que terei de decidir recolher-me, ou afastar-me, deixar de abraçar até de fugida. É provável que nem precise de restrições anunciadas na televisão, mas apenas da minha própria acumulação de medos, sublimados.

 

Conto as pessoas indispensáveis ao meu mundo com poucos dedos esticados, nunca fui de festas ou ajuntamentos, não bebo, gosto de ir cedo para a cama e sou ligeiramente claustrofóbica. Trabalho por conta própria, gosto que me deixem quieta a ler, a ver filmes lamechas e a ouvir música no conforto do sofá de casa ou da cama. Mas gosto demasiado de abraços e de passear sem destino para me sentir confortável dentro de quatro paredes por dias a fio.

 

O que é que faz uma pessoa como eu, que tem medo até da própria sombra, ao enfrentar a incerteza regente?

 

O inverno está aí, mas já comecei a compilar uma lista de pequenos consolos que me possam manter activa e motivada, à tona da água.

 

Que vidros podemos partir em caso de emergência?

Porque escrevemos?

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Porque escrevemos? De onde surge esta necessidade de traduzir pensamentos efémeros em letras, palavras, textos que acabam registados no papel (ou num ficheiro digital)?

 

Na próxima terça-feira, dia 29 de Setembro, às 21:00, vou mediar uma discussão com o tema "Porque escrevemos?" (cliquem para mais informações)

Por exemplo, José Luís Peixoto diz que escreve para tentar encontrar sentido no caos. João Tordo escreve para compreender os outros e para se compreender a si mesmo. Joan Didion explica no seu artigo "Why I Write" que precisava de escrever para descobrir os seus pensamentos - afinal, se alguma vez tivesse tido acesso à sua própria mente, não teria sentido falta da escrita.

E da vossa parte, o que responderiam?


Nesta discussão mediada por mim, iremos partilhar as razões pelas quais escrevemos. Assim, relembraremos o que nos motiva a voltar a pegar no caderno ou a abrir o processador de texto, o efeito que a escrita tem nas nossas vidas e como podemos aprender e viver tanto através dela.

 

 Se se quiserem juntar, enviem-me o vosso e-mail para olaescritacriativaportugal@gmail.com. Até lá!

Como ler um livro - manual de utilizador

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É essencial fazer as perguntas certas, mesmo quando as achamos demasiado fáceis. Aliás, são essas as perguntas mais importantes, que frequentemente deixamos de fazer por comodismo, inércia ou habituação. Então, hoje abri um novo livro no qual quero mergulhar nos próximos dias e, pela primeira vez em muito tempo, questionei-me agitada: afinal, como é que se lê um livro?

 

Um livro parece ser um objecto com o qual todos lidamos de forma intuitiva. Pegamos-lhe, abrimos na primeira página, e começamos a ler. No entanto, há tantas questões a considerar. Por exemplo… Haverá alguma forma mais acertada de ler um livro? Ou algum passo que devamos seguir antes de qualquer outra acção? E se preferirmos começar pela última página? Neste sentido, quero partilhar algumas das minhas impressões sobre como ler um livro.

 

Pego num livro – e agora? Em primeiro lugar, no caso dos livros físicos, gosto de me sentar com eles, apreciá-los, pousá-los na estante, agarrá-los de novo, folheá-los, cheirá-los – habituar-me a eles e à forma como se adaptam à minha mão. Em segundo lugar, procuro índices, listas, epígrafes ou dedicatórias (além da sinopse e da biografia do autor), que são óptimas referências para entrar no espírito da obra, assim como fazer uma análise breve ao tipo de letra, capítulos ou outras particularidades gráficas.

 

O passo seguinte é ler a primeira frase com muita atenção. Seja ficção ou não-ficção, a forma como um autor escolhe apresentar o seu trabalho pode contribuir para uma primeira impressão mais completa, quiçá promissora, ou por outro lado desapontante. E também há quem escolha avaliar uma frase aleatória no meio do livro, que sirva de amostra do resto.

 

Após este ritual, ainda é comum ter alguma dificuldade em concentrar-me: a primeira página é o contacto inicial com uma nova realidade, uma nova narrativa, uma nova história, um novo tema. Por isso, normalmente levo algum tempo a situar-me e a encontrar um significado para a mancha de letras e palavras.

 

O trajecto vai-se tornando mais fácil de navegar a partir daí, mais suave. Nem sempre é intuitivo voltar a pegar no livro, de tantas distracções e interesses que existem fora das páginas. Talvez a primeira impressão não tenha sido óptima, por isso custa-nos retomar. Mas acredito que existe sempre um livro qualquer por perto que nos irá entusiasmar sem sequer nos apercebermos. Há sempre um livro capaz de nos levar por aí fora até à última página, de forma consistente e constante. Se forem como eu e gostarem de tirar notas, apreciarão a companhia dum lápis, dum marcador e de um caderno.

 

Ora, mas também não nos podemos esquecer da preparação: ainda antes de apreciar o livro, de o analisar, de prestar atenção à primeira frase ou de tirar notas, gosto de começar a leitura num sítio acolhedor, apesar de a continuação poder acontecer em quaisquer condições. Talvez comece num sofá confortável, talvez aconchegada debaixo de mantas, talvez esticada na cama a meia-luz, sempre em silêncio, ao som do meu gato a ressonar ou com uma música de fundo que inspire a concentração e a fruição da palavra escrita.

 

No fundo, o que interessa é sentirmo-nos à vontade. O que interessa é estarmos confortáveis perto de livros e deixá-los entrar nas nossas vidas, perceber como nos podem enriquecer ou pelo menos entreter. O que interessa é ler, e o “como” vai-se descobrindo. Portanto, agora é a tua vez de tentar.

 

Pegas num livro – e agora?

Três conselhos para alunos de Letras

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Na semana passada, recebi um e-mail dum futuro aluno da minha licenciatura (Ciências da Cultura, na FLUL, que agora se chama Estudos de Cultura e Comunicação). Nesse e-mail, o remetente pedia-me conselhos para quem começa agora esse percurso universitário, o que me despertou sentimentos ambivalentes.

 

Por um lado, parece extremamente irreal pedir apenas um conselho, como se dele dependessem os três anos seguintes, e tendo eu escrito tanto sobre o assunto no blog (a ver tags como "universidade", "estudar", "faculdade" ou "flul", ainda que correndo o risco de lerem o que já escrevi há vários anos e com o qual já não me identifico). Por outro lado, não foi há muito tempo que estava eu nesse lugar, que para mim foi tão feliz e cheio de esperança. Entrar para a universidade foi dos momentos mais felizes da minha vida. Por um conselho ou dois, se soubesse para onde e para quem enviar e-mails, eu tê-lo-ia feito.

 

Por isso, aqui nos encontramos, neste texto. Decidi lembrar-me da miúda que era, dos meus colegas, do nervoso que migrava para o estômago, do entusiasmo, da expectativa. Quis ajudar, aproveitando ao mesmo tempo para fazer um balanço ao fim de sete anos desde a minha primeira aula.

 

Portanto, não sabendo mais nada sobre o remetente do tal e-mail, além do nome e licenciatura, partilho convosco não um, não dois, mas três conselhos especialmente dirigidos a quem entra ou está em Estudos de Cultura e Comunicação na FLUL (aplicáveis a outros cursos de Letras, como Línguas, Literaturas e Culturas). Que sejam boas sugestões intemporais para quem tiver paciência para os ler!

 

1. Ler tanto quanto possível é o mais importante

Para se tirar um qualquer curso em Letras, é preciso gostar-se de ler. Não basta “gostar-se de estudar umas coisas”. Nem sempre ler vai ser uma actividade prazerosa ou de lazer nos próximos anos, mas é importante ler todos os dias, em quantidade e variedade. Por isso, também é essencial saber o que ler, onde encontrar o que se quer ler e como selecionar informação. Se passei os três anos de licenciatura sem ter propriamente “estudado”, tal só foi possível porque senti sempre que ia apenas lendo, tirando notas quando sentia essa necessidade, cultivando e saciando a minha curiosidade.

 

Os materiais que os professores fornecem nas bibliografias e nas antologias são óptimos para quem quer apenas saber o essencial ou por onde pode "começar". No entanto, há sempre temas sobre os quais queremos saber mais, e mais, e mais. Se encontrarmos um interesse específico em cada cadeira, conseguimos aprender muito melhor o que há para aprender, e as nossas relações com os professores e notas acabam por reflecti-lo - principalmente dado que muitas cadeiras têm como elemento de avaliação final um trabalho com tema à escolha ou negociado com o professor.

 

2. Saber escrever, para bem pensar e bem falar

Se noutra qualquer instituição de ensino superior é obrigatório saber escrever, numa faculdade de letras é pecado não saber fazê-lo correctamente e com destreza. O primeiro passo é saber pontuar um texto. O segundo passo é utilizar as palavras certas. O terceiro deve ser organizar as ideias. A maior parte dos elementos de avaliação são entregues em formato escrito e nenhum professor da universidade vai estar disponível para ensinar o que deveria ter ficado sabido no ensino secundário. Não me interpretem mal: tive professores maravilhosos na FLUL, e os maus de que me lembro contam-se pelos dedos duma mão. Mas quem entra numa faculdade de letras tem a obrigação de saber ao que vai e ter uma preparação melhor nesse sentido, não necessariamente da escola, mas acima de tudo por interesse pessoal.

 

A propósito do ensino secundário, a verdade é que é inevitável sentirmos que estamos a dar um salto maior do que a perna, quando passamos do 12º ano para o 1º ano de licenciatura. Neste mundo da universidade, geralmente os professores já não nos querem tratar por “tu”, nem podem baixar a fasquia. É o mundo dos “crescidos” e já não há quem nos dê o desconto.

 

Seja como for, bem escrever resulta em bem falar e em bem pensar - três em linha, e é isso que se quer.

 

3. Aproveitar todas as oportunidades

Com certeza que quem se candidata a cursos de Humanidades ou Ciências Sociais já terá ouvido a sua dose de “e isso dá para o quê?”, ou outras variações do enredo novelístico “vais ficar desempregado para o resto da vida, e agora?!”.

 

Confio que já terei escrito muitas linhas sobre isto durante os últimos anos e mantenho a minha palavra: vamos todos ficar no desemprego se não nos mexermos e esperarmos que, acabadinhos de sair da última aula do curso, nos vá cair uma proposta de trabalho no colo. Não interessa se nos licenciamos em Estudos de Cultura e Comunicação, em Direito, em Gestão, em Arquitectura ou em Engenharia do Ambiente.

 

É preciso fazer pelo menos um pedacinho mais do que o mínimo indispensável, como tirar outro tipo de formação profissional, fazer um intercâmbio europeu (mesmo que de curta duração), fazer parte da comissão do curso ou da Associação de Estudantes, fazer um estágio (mesmo que em part-part-part-time, num centro de estudos), um programa Erasmus ou um Almeida Garrett, arranjar trabalho durante o Verão ou conciliando com as aulas… You name it!

 

A minha experiência pessoal também dita que, se não tivesse feito um pouco de todas essas coisas, não teria realmente vivido ou aprendido muito, além de ter enfiado a cabeça nos livros, antologias e fotocópias.

 

Não se deixem intimidar pelos comentários alheios. Se tiverem gosto pelo que estudam, vão viver três anos inesquecíveis de crescimento. E não, uma licenciatura numa universidade não é um curso profissional: não se aprende realmente a fazer "algo", mas a pensar (sugestão: o discurso This is Water, de David Foster Wallace).

 

Espero que as Letras vos façam tão felizes quanto me fizeram (fazem) a mim!

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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Hotel do Parque, Curia - o destino ideal para uns dias a ler e a escrever

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O Hotel do Parque, na Curia, foi inaugurado em Julho de 1922. Aos 98 anos de idade, dá-nos o conforto dum bisavô meio esquecido do passado, sonolento, enrugado, mas cheio de histórias, ou não fosse a sua decoração ao estilo Belle Époque, como nas séries Downton Abbey e A Espia (na verdade, esta última foi mesmo gravada no Hotel do Parque).

 

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Situado numa rua cheia de hotéis, incluindo o Hotel Termas da Curia, o Hotel do Parque destaca-se por ser o mais pequeno dos edifícios, parcialmente coberto de hera nas paredes exteriores e rodeado de árvores e arbustos por todos os lados. Quando passámos à sua frente pela primeira vez, ainda perdidas e abandonadas pela falta de sinal do GPS, a minha avó exclamou a brincar “é esta casa que eu vou comprar”. E não é que foi precisamente aqui que passámos estes últimos cinco dias?

 

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Inicialmente, escolhi o Hotel do Parque por me parecer o sítio ideal para vir sozinha escrever, ler e descansar, baseando-me numa recomendação blogosférica. Entretanto, a minha avó decidiu também vir comigo, alterei a reserva de uma para duas pessoas e ambas confirmamos: o Hotel do Parque fica numa zona calma, bonita, verde, silenciosa, central. Felizmente, os hóspedes com quem nos cruzámos respeitavam o espaço uns dos outros e conseguimos estar horas e horas na piscina ou no salão sem mais ninguém.

 

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(Tenho ainda a destacar que, nestes tempos em que o distanciamento social é necessário, o Hotel do Parque tem todas as condições e segue todas as medidas de prevenção ao contágio por coronavírus - assim como os restaurantes e pequeno comércio e restaurantes muito acessíveis e variados.)

 

Ao pequeno-almoço, comemos no buffet incluído no preço da estadia, do qual recomendo especialmente o pão de cereais e os bolos feitos pela proprietária, a D. Maria João. Ao almoço e jantar, ora comemos num restaurante a três minutos a pé (com pratos do dia bem confecionados e baratos), ora comemos no próprio hotel, onde é servida comida mais leve, como tostas, saladas, hambúrgueres, bebidas e outros snacks.

 

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Quanto aos espaços, todos são preciosos. Os corredores nos dois pisos são uma caixinha de surpresas para os apreciadores de loiça antiga; o salão (sem televisão) é o poiso ideal para ler e escrever nas horas de maior calor e depois do jantar; a piscina e o jardim entretêm miúdos e graúdos; os quartos são frescos, fofos e acolhedores para boas noites de sono. A cada esquina, embarcamos numa viagem de regresso ao passado, onde reina o saudosismo e uma atmosfera romântica do início do século.

 

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Pela sua antiguidade, o hotel precisaria de uns arranjos aqui e ali, o que justificará não ter mais estrelas do que 2*. Os canos são mais ruidosos, o papel de parede descola nalgumas pontas, o soalho e os armários rangem, as colchas têm buraquinhos… Só que, tal como se ele fosse uma pessoa, gosto ainda mais deste hotel vivido, imperfeito e com vestígios dos anos, do que se tudo fosse previsivelmente perfeito.

 

Last but not least, o Hotel do Parque colecciona uma data de pormenores curiosos, mas o meu preferido é a tentativa de preservação do património histórico, mas também familiar. O Hotel do Parque pertence à mesma família há quatro gerações, três das quais servem e convivem com os hóspedes ainda hoje – a D. Maria João, que nos recebe e está sempre atenta aos nossos pedidos e perguntas; o filho Zé Pedro, que acumula funções de cozinheiro, restaurador, handy man e cuidador da horta; e a mãe, D. Alda, que vamos vendo pela sala ou pelo jardim. O resto dos funcionários do hotel, incluindo a Joana, as senhoras que servem o pequeno-almoço e as que fazem as limpezas, só nos confirmam o quão agradável é estarmos neste cantinho e nem sentirmos necessidade de sair.

 

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Sentimo-nos muito bem acolhidas e aconchegadas, por isso todas as nossas recomendações são poucas. Nem o facto de termos de fazer 300km de estrada será suficiente para não voltarmos cá assim que possível, agora que descobrimos o Hotel do Parque. As estadias por noite rondam os 30€ poe quarto individual, 50-60€ por quarto duplo, ou 60-70€ por quarto triplo.

 

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(Ainda por cima, ficámos de ir ao Buçaco, ao Luso, Aveiro e Coimbra nas próximas visitas, já que acabámos por permanecer sempre no hotel.)

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Sobre a pandemia, as novas dinâmicas sociais e a saúde mental

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Esta semana, escrevi um texto para o P3 sobre uma data de coisas que sinto, e que imagino serem comuns a muitas outras pessoas. Pelos motivos que lá partilho, também me tem sido difícil escrever no blog com tanta assuidade quanto penso ser ideal. No entanto, tenho vontade de continuar a escrever, mesmo que nem sempre tenha a inspiração suficiente ou temas interessantes para um texto com sentido. Assim... Aqui vos deixo o texto do P3, é só clicarem - ou procurarem-no na secção do Megafone!

 

Espero que continuem por aí, e que estejam a aproveitar o Verão. 

Razões para adorar a Wikipédia

 

Para bom aprendedor, uma enciclopédia online basta... para começar, é claro. Já lá vão os tempos em que, na escola, me fartava de ouvir a lengalenga "ai de quem for à Wikipédia...!" Alguns anos depois, gostaria de voltar atrás e assegurar à minha versão mais nova que consultar a Wikipédia não é pecado. Pelo contrário, é um recurso a valorizar na aprendizagem, e não apenas uma fonte de informação condensada sobre os ídolos da adolescência. Há muitas razões para adorar a Wikipédia, e aqui partilho algumas.


Por causa da má fama da Wikipédia, adquirida à conta da função "copiar/colar", acredito que ainda haja muitas pessoas com uma mina de conhecimento por descobrir. Talvez fosse importante promover nas um bom uso das ferramentas e da informação disponibilizadas pela Internet, incluindo o bom uso duma enciclopédia criada em comunidade.


A Internet apresenta-nos informação infinita e, por isso, de difícil selecção. Se antigamente o acesso a livros e a outros documentos escritos, o espaço físico que ocupam e o seu preço constituíam possíveis entraves à consulta gratuita, imediata e sistematizada de informação em constante necessidade de actualização, hoje em dia já os podemos contornar. O novo desafio é encontrar fontes de informação fidedigna e organizada, para leigos e principiantes. Para mim, a Wikipédia tem sido indispensável nesse sentido. Desde a história de acontecimentos e monumentos, até à pesquisa de conceitos científicos, passando por biografias e resumos de obras, a Wikipédia abre mundos inexplorados.


Não, a Wikipédia não substitui as fontes de informação originais ou a fruição de livros, filmes ou séries (não conta dizer que se leu o que não se leu, ou que se viu o que não se viu, só porque lemos a sinopse na Internet). Não, a Wikipédia não serve todos os propósitos, nem é sempre a melhor fonte de informação para tudo. Mesmo assim, fornece referências para outras fontes, indica-nos por onde podemos começar a nossa aprendizagem e sintetiza os mais variados temas. Numa leitura, aprendemos e até ganhamos motivação para aprender mais sobre assuntos que nos interessam e sobre os quais provavelmente não voltaríamos a ler doutro modo.


Para curiosos e autodidactas, o acesso facilitado a uma enciclopédia actualizada é um trunfo dos tempos modernos que não deve ser desperdiçado. Eu que o diga: nos últimos anos tenho-me interessado por tantos temas, de áreas de estudo tão diferentes, que a Wikipédia tem servido para me contextualizar e começar por algum lado. E o nosso mundo encontra-se em expansão: para o exercício duma cidadania responsável, cada vez se torna mais importante estarmos a par do que se passa, não só no nosso bairro, como em todas as partes do globo.


Acredito que haja muito mais razões para adorar a Wikipédia, e adorava conseguir desconstruir o estigma cultivado pelos professores do secundário, temerosos das nossas competências de plágio. E acredito que se deva, antes, apostar no ensino de bons valores e da utilização das ferramentas disponíveis. Não há motivos para não se gostar duma enciclopédia que tão bem democratiza o acesso ao conhecimento.

Os livros certos que surgem na altura errada

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Tenho tentado lembrar-me da noite em que o meu pai me ofereceu Walden ou a Vida nos Bosques, de Thoreau. Esse é um dos livros certos da minha vida que surgiu na altura errada. Sei que o meu pai mo ofereceu quando eu era muito nova, algures entre os 9 e os 12 anos, porque ele já confiava que eu poderia ler livros grandes, mas também me lembro de achar aquele livro tão fascinante (um livro de adultos!) quanto impossível de ler. Eu era demasiado pequena, imatura para entender o tema, ou mesmo a não-ficção, muito menos um livro de memórias com um cariz político, ambiental, económico, social. Além disso, os parágrafos apertados assustavam-me, havia demasiadas palavras por página.

 

Voltei a ler Walden aos 20 anos. O papel amarelou e ficou cheio de manchinhas, mas não ficou por ler. A curiosidade aguçou-se com os anos e, afinal, recusei-me a ter uma licenciatura em Letras sem conhecer uma obra fundamental para o pensamento contemporâneo como esta. Li-o com o carinho de quem tem um livro que guardou até se sentir preparada, sempre por ali, à espera, paciente. Espero relê-lo ainda este ano, cinco anos depois.

 

Tal como Walden, fui arranjando outros livros, principalmente nos últimos dois anos, que sei que hei-de ler um dia, quando sentir que tenho o conhecimento e a profundidade para os apreciar. Por agora, sei onde os posso encontrar e isso chega-me. Há um tempo certo para todas as leituras. E para o tsundoku.

 

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