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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Ser adulto é...

Fazer fila na bomba de gasolina às onze da noite dum sábado antes que o preço aumente na segunda-feira. Ter sentimentos de culpa por comer fast food, pela dieta. Ter sentimentos de culpa por comer num restaurante, pela carteira. Ouvir falar cada vez mais em filhos, casamentos, rendas, contas-poupança, contratos vários. Pensar em comprar a prestações (tudo, desde máquinas de sumo a habitação permanente). Sentir uma profunda irritação por quem não faz piscas nas rotundas. Levar sempre "um casaquinho, porque pode fazer frio mais logo". Ter enxaquecas, insónias, tomar aspirinas e café. O café é sem açúcar, para não arruinar a linha. Pedir saladas e sopas no McDonald's. Ir às Finanças, ouvir más notícias e não desatar a ligar à família para pedir colo. Levar o carro à inspecção e pagar o selo. Pagar multas de estacionamento. Procurar compulsivamente sinais de presença da EMEL, uma obsessão. Preferir ir ao supermercado a ir ao ginásio. Seguir páginas de Facebook sobre receitas fáceis e saudáveis. Reflectir "eu preciso mesmo disto agora?!" antes de gastar tempo ou dinheiro seja no que for. Ouvir notícias acerca da idade da reforma e pensar com seriedade "ai, e quando for eu?".

 

Ser adulto é um pouco isto, não é?

Para ir actualizando, com certeza.

 

(Nota: Avó, se estiveres a ler isto, obrigada por me levares o carro à inspecção. Prometo que o levo em 2019. E, afinal, não és tu quem diz que serei a tua bebé para sempre? 😂)

Li um guia de escrita de ficção: Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão (Mário de Carvalho)

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Se estão à procura de mais um guia de escrita criativa, não leiam Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho. Este livro não é, sequer, apenas mais um "guia de escrita de ficção". É isso tudo e ainda um ensaio que varia entre o domínio das preferências e opiniões do próprio autor, a referência académica, catálogo de obras e autores, e o entretenimento ligeiro. Já o tinha na minha "to read list" há dois anos e finalmente me convenci (e fui convencida) a arranjá-lo. Valeu a pena!


A escrita criativa parece ser uma actividade com cada vez mais adeptos, seguidores ou meros curiosos. Talvez por causa do aumento da literacia das últimas gerações, escrever acabou por se disseminar como um passatempo respeitado, de exercício intelectual, incitado ainda mais pela Internet, pela popularização de blogues e mesmo pela vaidade em ver e ter obra. Assim, é normal que se publique regularmente sobre o assunto.


No entanto, Mário de Carvalho é considerado um dos melhores escritores vivos em Portugal, pelo que não se esperaria da sua autoria muito menos do que aquilo que se lê nas 276 páginas de Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. (É verdade que só li A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho há muitos anos, mas a reputação dum autor precede-o.)


Apesar de ser anunciado na capa que se trata dum "guia prático de escrita de ficção", arrisco dizer que até o considero um "guia de leitura". Acho que este livro me demonstrou, além de como poderei tentar escrever, o que posso esperar duma obra com qualidade literária e a repensar muitos dos meus livros favoritos (como a Odisseia e a obra de Eça de Queirós).


Os capítulos tratam de nos aconselhar obras e autores de referência, o que poderá ser a escrita, como começar a escrever, quais os cuidados gerais a ter em conta, a relação do escritor com o leitor, como planear a estrutura e o enredo, como criar títulos, nomes de personagens e as próprias personagens... entre outros assuntos que não me cabe a mim enumerar aqui, mas sim aos interessados descobrir na sua incursão pelo guia.

 

Outro aspecto que distingue este guia de escrita doutros que se encontram nas livrarias portuguesas é o gabarito do cânone seguido por Mário de Carvalho. Como ele mesmo refere, o escritor é que escolhe o tipo de leitor ao qual gostaria de chamar a atenção. Por sua vez, não me parece que os leitores deste livro pretendam escrever (ou aprender a ler, na minha opinião) o próximo bestseller de supermercado. Mesmo que não aspirem ao Nobel da Literatura, talvez possam pelo menos sonhar remotamente com um prémio Leya ou um concurso literário municipal.

 

Antes de terminar, aviso ainda que se devem preparar para a tal quantidade significativa de autores e obras de referência que pelo menos a mim me deu vontade de comprar por inteiro em atacado. Preparem os vossos orçamentos! As recomendações deixadas não sentirão piedade das vossas carteiras!


O resto é convosco. Espero ter-vos entusiasmado tanto para o Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão quanto este livro merece... digo eu!


Boas leituras... E escrita!

Blogue, baú de memórias, caixinha de recordações

Ter um blogue por muitos anos tem destas situações: partilham-se muitas histórias e estórias, passando várias pessoas pela vida de quem escreve, ainda por cima numa fase de transição e de formação pessoal, académica e profissional intensas.

 

Por isso, há uma pergunta que me tem ocupado algum tempo mental doutra forma vago. Será possível que já não faça sentido manter alguns conteúdos online, por terem deixado de pertencer à vida actual, às minhas crenças, sentimentos e forma de pensar?

 

Por um lado, um blogue não deixa de ser um baú de memórias. Não podemos apagar acontecimentos passados com um clique - a Internet vale o que vale. Eles continuam a fazer parte da nossa vida, principalmente se tiverem sido positivos no seu enquadramento temporal. Se formos uma trança, não devemos desfazer os nós - os tais episódios - que a começaram. Se formos uma casa em permanente construção, eles continuam a ser as paredes que nos completam. Se formos uma árvore, até as folhas antigas passam a fazer parte das raízes que nos sustentam.

 

Por outro lado, há a consciência de que o presente precisa de encontrar a sua individualidade e o seu protagonismo. Precisa dum pedaço de terra só seu para sobreviver. Precisa de germinar longe da sombra. Não precisa de tropeçar continuamente em portas para dimensões alheias.

 

Daí estas reflexões a que me dedico de vez em quando. Há um certo diálogo, quiçá confronto, entre o passado e o presente público. Metáforas à parte, nem sempre houve um cuidado especial em filtrar o que era escrito por aqui - porque o presente não costuma ter filtros, excepto quando colocado em cheque - e choque - por outros "presentes" (em toda a sua extensão semântica). Porque já não é minha aquela voz com a qual leio o que escrevi antes. Porque parecem indagações doutra vida. Porque não há espaço para todas as caixinhas de recordações algum dia empacotadas.

 

E assim se vão repensando os pretéritos já conjugados neste blogue.

Coisas boas atraem coisas boas, uma explicação científica

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Costumo dizer que não há nada que não possa ser resolvido com bom humor, boa disposição e optimismo. Na minha opinião, pensamentos positivos puxam resultados positivos. Coisas boas atraem coisas boas. 

 

Pelo menos, sempre tive a impressão, em grande parte devido às minhas próprias experiências, de que se verifica uma certa correlação entre esse tipo de atitude e acontecimentos favoráveis que se sucedem - mesmo correndo o risco de estar a simplificar uma míriade de coincidências e golpes aleatórios de sorte a um dogma pessoal e intransmissível.

 

(Afinal, esse espírito já me tinha sido incutido, desde que me lembro, pela minha avó, que eu considero uma das pessoas com mais para ensinar sobre o que significa viver bem, tendo feito face a circunstâncias adversas ao longo da vida, mas sem nunca se deixar abater até alcançar os objectivos a que se foi propondo. Não consigo evitar o pensamento automático, e típico de alguém que se considera relativamente privilegiada, de que o optimismo é a chave para as grandes dúvidas e desafios existenciais.)

 

No entanto...

 

Há uns dias, o meu namorado emprestou-me um livro do qual tenho gostado bastante. Apresenta-se em toda a imponência do seu volume e peso exigentes à primeira vista, mas lê-se muito bem: Pensar, Depressa e Devagar, do Nobel da Economia (2002) Daniel Kahneman. O tema do livro é o processo de tomada de decisão dos seres humanos, e, sumariamente, como o nosso cérebro percepciona a informação que recebe e como reage a esses estímulos.

 

Então, voltemos ao que me surpreendeu quanto às conclusões de Kahneman e da sua equipa, no domínio muito específico da influência da boa disposição. Parece que fizeram vários participantes dum estudo ter pensamentos alegres e que a exatidão das suas respostas intuitivas, ou palpites, aumentou. Isto é, a sua capacidade de análise e conexão cria menos erros lógicos. "A facilidade cognitiva é ao mesmo tempo causa e efeito de uma sensação agradável."

 

Quando temos pensamentos alegres e estamos bem-dispostos, tomamos decisões mais lógicas, logo acontecem-nos coisas melhores, mesmo que por mera intuição. Se formos negativos, o nosso poder de decisão fica fragilizado e acabamos a fazer más escolhas.

 

Quem diria que as ditas "boas energias" seriam mesmo reais no seu efeito? Quem diria que os resultados do optimismo são reais e estão comprovados cientificamente? 

 

Portanto, da próxima vez que tiverem uma decisão importante a tomar, assegurem-se de que se sentem bem, felizes. Evoquem e invoquem pensamentos que vos tragam felicidade para conseguirem escolher melhor - aliás, à maneira clássica de um Patronus (fãs de Harry Potter hão-de entender).

 

Optimismo atrai optimismo. Coisas boas atraem coisas boas, sem ser necessário abrir livros de auto-ajuda ou páginas motivacionais. É só (tentar) ver sempre tudo com um filtro positivo. Façamos essa escolha de sermos mais felizes, para gerar mais felicidade. O resto... deixemos com essa máquina incrível que é o nosso cérebro.

 

Mais alguém se revê nisto?

Livros: bilhetes de ida e volta para o resto do mundo

Não consigo imaginar um mundo sem livros. Aliás, literalmente, é-me impossível imaginar o mundo sem ter livros, nos quais posso ler acerca doutras pessoas, terras, momentos históricos, hábitos, tradições, formas de estar e pensar, cânones, situações e sentimentos.

 

Nunca me considerei uma criança ou uma adolescente particularmente sociável. Passei os meus primeiros cinco anos de vida em casa, sem irmãos, primos, pares da mesma idade. Sempre senti uma certa tendência a ser mais individualista, na medida em que me habituei a estar sozinha e a fazer muita coisa sozinha. Mesmo depois de entrar na escola, nunca causei furor entre colegas, gostava mais da companhia de adultos e continuei a preservar o meu espaço. Os livros, silenciosos e disponíveis, foram uma grande companhia e ensinaram-me, desde que aprendi a lê-los, a entender melhor as outras pessoas. Não viajei fisicamente até aos dezanove, mas já tinha viajado doutras formas. Além disso, os livros permitem-nos entrar no mundo mental, nas memórias de quem já desapareceu, doutros tempos. Acho que a vez em que melhor me apercebi deste alcance foi quando li a Brevíssima Relação da Destruição das Índias Ocidentais, de Bartolomeu de las Casas, provavelmente o primeiro relato do que realmente se passava no dito Novo Mundo, escrito na era dos Descobrimentos, no século XVI. Por conta dos livros, também viajamos no tempo.

 

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É assim que me sinto quando leio livros como The Thing Around Your Neck, de Chimamanda Ngozi Adichie - que posso viajar e conhecer outras pessoas sem sair do mesmo sítio. Graças a umas quantas páginas e histórias doutro lado do mundo, posso lá ir. Nunca estive na Nigéria nem nunca tinha tido interesse em saber mais sobre este país. Contudo, já li três ou quatro livros da mesma autora, o que me permitiu conhecer bastante do seu passado e compreender as circunstâncias presentes (nomeadamente, políticas). Nos últimos dias, o projecto Humans of New York tem contado histórias de nigerianos na capital, Lagos, e muitos dos entrevistados poderiam ser personagens dos livros da CNA, tal é a mestria com que ela relata as pessoas do seu país de origem; só que são indivíduos reais que, através da ficção, eu pude conhecer muito antes de a realidade se me ter apresentado. A ficção também tem o condão de nos abrir portas para o mundo verídico.

 

Em The Thing Around Your Neck, uma série de contos vai-nos apresentando histórias diversas sobre personagens inspiradas em nigerianos contemporâneos, com destaque para experiências de emigração para os EUA. Não gostei de todos os contos, mas a maioria não só foi capaz de me entreter, quanto ainda de gerar mais interesse sobre temas que até são da minha área de estudos, e de me fazer reflectir, sentir empatia, imaginar, sair da minha zona de conforto cultural, emocional, eurocêntrica. A escrita da autora pode parecer demasiado simples, sem floreados, desinteressante, mas é possível ir descobrindo o que realmente constitui o seu estilo e o que a torna especial. Consegue dar voz àquelas personagens que vivem entre a ficção e a realidade. Por isso, recomendo que leiam os seus livros na língua original, inglês, sempre que possível.

Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de Ricardo Araújo Pereira

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Não vos quero aborrecer com um texto muito longo. No entanto, sei que este é um dos livros mais esperados da rentrée: Estar Vivo Aleija, do humorista que dispensa apresentações, Ricardo Araújo Pereira. E eu digo: provavelmente acabei de o ler primeiro que vocês! Estava desejosa que chegasse o dia de ontem, o primeiro em que o livro esteve à venda sem ser através do site da editora Tinta da China. Por isso, cá vão os meus três tostões acerca desta leitura muito agradável - sem surpresa nenhuma.

 

Desta vez, o meu entusiasmo deve-se à curiosidade trazida por este tipo de crónicas escritas pelo RAP. Depois de ler a entrevista que deu ao Observador, percebi que Estar Vivo Aleija seria uma colectânea de textos sobre temas mais pessoais e descontraídos, e menos políticos (como as crónicas da série Boca do Inferno), num registo mais auto-biográfico e ao mesmo tempo universal, escolhido para agradar os leitores brasileiros da Folha de São Paulo, onde foram originalmente publicadas. São feitas várias referências terurentas à avó que o criou, às filhas e à mulher, sem retirar destaque às peças de teatro de Sófocles e Shakespeare, às singularidades da língua portuguesa, às moscas, ao amor, às batatas e ao chulé. É uma miscelânea de temas!

 

Mais ou menos político, o humor, perspicácia e inteligência permanecem como os conhecemos. Acho que as suas observações sobre as coisas mais banais da existência humana se podem comparar ao olhar sempre admirado e inquisitivo duma criança que está na idade de apontar para tudo e estabelecer ligações inesperadas entre elementos diferentes.

 

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Assim sendo, demorei menos de duas horas a devorar o livro. Li-o duma assentada. Cada crónica ocupa cerca de página e meia, o livro tem cerca de cento e cinquenta páginas... Foi um óptimo entretenimento para a minha hora de almoço! Esta é a leitura indicada para quem quer passar um bom bocadinho, mas também para quem quer ter o livro lá em casa e abri-lo de vez em quando para soltar uma gargalhada ou, pelo menos, arrancar-se um sorriso. Outra coisa não se esperava de RAP. Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de autores como ele.

Alguns motivos pessoais e profissionais para tirar um mestrado em Portugal

O mercado de trabalho tem-se tornado cada vez mais competitivo. Já o tenho referido por aqui: uma licenciatura já não é suficiente em 2018, muito menos uma licenciatura pós-Bolonha, sem experiência ou formação adicional, o que é normal para um recém-licenciado.

 

Por isso, talvez tirar um mestrado possa ser uma boa ideia, pelo menos em Portugal. Há ainda outras opções, como investir em cursos profissionais ou de extensão cultural e académica, adquirir competências que complementem o que estudámos ou que nos facilitem a entrada numa área profissional que nos agrade (mesmo sem certificado, de forma autónoma e autodidata) e - não menos importante - apostar em projectos pessoais, incluindo aqueles que nem apresentam benefícios óbvios à partida. Escrever um livro, aderir a um desafio semanal ou mensal, aprender algo totalmente novo, criar um blogue, ir viajar sozinho, trocar ideias com desconhecidos no LinkedIn - o mundo é a nossa ostra!

 

No entanto, deixo-vos um par de impressões sobre o que me leva a continuar os meus estudos, motivos pelos quais é importante investir num mestrado para mim, em Portugal, neste contexto pessoal, social, económico, académico, profissional... Esta é apenas a minha experiência, mas talvez mais alguém se reveja nestas necessidades e objectivos que são os meus.

 

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 Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa, onde já comecei o mestrado em Estudos de Cultura - Gestão das Artes e da Cultura (fotografia tirada por mim após a entrevista de admissão, há uns meses)

 

Em primeiro lugar, eu nunca tive dúvidas de que tirar um mestrado depois da licenciatura seria não um objectivo, mas uma simples realidade inegociável. Diz a sociologia que isto se pode dever ao facto de já não ser a primeira na minha família a frequentar o ensino superior, pelo que uma licenciatura e estudos pós-graduados sempre foram um dado adquirido desde que me lembro, nem que tivesse de me esfolar a trabalhar para pagar as propinas.

 

Mas foram "um dado adquirido" por óptimos motivos: acreditamos que a procura pelo conhecimento deve ser parte da nossa vida e que estudar durante vários anos é um privilégio do qual não devemos abdicar, nem que seja porque o conhecimento e a experiência são fontes de felicidade. Portanto, é nisto que eu acredito. Enquanto a minha vida familiar e profissional o permitir, tentarei chegar a tantos cursos, mestrados, doutoramentos ou qualquer outro tipo de formação contínua quanto humanamente possível.

 

Além disso, tirar um mestrado permite-me sair da minha zona de conforto, continuar a desafiar-me, não só pelo conhecimento proporcionado, mas também pelas experiências (como a Summer School, intercâmbios e todos os seminários, visitas e convidados, pelos colegas que ganhei, pelos professores e pela troca de ideias. Durante pelo menos dois anos, todos os dias terei algo para fazer e no qual me devo concentrar. Terei algo que exigirá motivação e trabalho.

 

Finalmente, sem a desvalorizar, vem a tal lista de vantagens profissionais para o desenvolvimento duma potencial carreira. Eu quero voltar a ensinar numa universidade, tal como fiz em Banguecoque, seja em Portugal ou onde quer que a vida me leve, por isso é óbvio que preciso de, nomeadamente, acumular graus académicos, publicações e... contactos. No entanto, seja como for, tirar um mestrado em Portugal é um percurso comum para quem pretende especializar-se nalguma área ou expandir os seus conhecimentos num domínio diferente. Um mestrado ou uma pós-graduação constituem complementos à nossa formação de base e, enquanto complementos, não são absolutamente indispensáveis, mas poderão abrir-nos algumas portas adicionais.

 

Para mim, tirar este mestrado ou o que ficou a meio depois de ter regressado a Portugal (e que conto terminar algures no futuro a médio prazo) representam uma certa expansão dos meus horizontes a vários níveis. Em geral, é isso que quero partilhar convosco.

 

Sim, um mestrado pode ser um fardo nas finanças pessoais e na vida social. É um compromisso. É mais uma responsabilidade mais ou menos acessória, principalmente quando acumulada com outras já existentes. Ainda assim, é uma aventura. Num par de anos, aquelas três novas linhas no currículo não serão só essas linhas, serão mais um conjunto de histórias, memórias e conhecimentos ganhos a muito custo, mas que, digo eu, nos saberão a mel. 

 

O que acham? Por agora, estou bastante confiante. Sei que vai ser difícil, que vou perder muitas horas de lazer, estudar e trabalhar ao mesmo tempo, ter muitos dias de cão, longos e esgotantes, mas sei que não os trocarei por nada daqui a um tempo.

 

O denominador comum para todos deveria ser a seguinte premissa: façam-no com gozo, se estiverem suficientemente convictos dos benefícios que um projecto desta envergadura traz, e se conseguirem reconhecer tanto aquilo de que vão abdicar quanto lucrar. Em caso de dúvida, o melhor é sempre tentar,  não é? E o conhecimento não ocupa lugar.

Não tenho cá procrastinado

Perdoem-me os dois ou três leitores habituais a falta de assiduidade na procrastinação blogosférica. Há fases assim. Felizmente! Nem blogue, nem Instagram, e Facebook reduzido. Ainda se escapa o Goodreads. Também já passei por algumas fases excessivas, mas, de facto, sinto falta de escrever aqui com mais regularidade. Na verdade, até tenho escrito alguns textos, mas ou os deixo a meio, ou serão publicados nos próximos dias (viva!).

 

Começo o meu mestrado na segunda-feira. Finalmente sinto alguma estabilidade pseudo-profissional - aliás, trabalho não me falta e já o começo a recusar quando aparece mais. Dum ponto de vista pessoal, têm-me acontecido coisas estupendas. À maioria dos meus amigos também. Tirando um ou outro desgosto ou imprevisto desagradável, não mudaria nada. Gente querida e feliz à minha volta. Livros. Desafios. E o tempo que vai voando quando estamos bem.

 

Piroseiras de quem está naquela altura do mês... Não me liguem, mas eu hei-de voltar melhor na próxima vez.

 

Bom fim-de-semana! 

Texto à caloira que eu fui

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Minha cara, vou já adiantar que "está tudo bem". Dentro dos possíveis, irias ficar abismada com o que te aconteceu na última meia década. Não sei se to deveria ter dito, mas não quero que fiques a pensar na morte da bezerra, que não ficas, mas há de chegar o momento em que não vais saber para onde te virar e em que te questionarás acerca das opções que se te apresentam. Ainda por cima, nao é como se fosses realmente receber este texto, por isso não faz mal revelar uma ou outra profecia de meia-tigela.

 

Vejamos: está tudo bem. Escolheste bem, mais imprevisto, menos imprevisto. Do teu lado, tiveste quase sempre pessoas maravilhosas, que te deram uma mãozinha sempre que possível, que te proporcionaram aconchego, segurança, liberdade, espaço para cresceres. Tiveste que trabalhar imenso, fazer-te valer das tuas próprias competências, conhecimento, optimismo incurável e grandes doses de estupidez natural, tiveste que provar o teu mérito vezes sem conta, frequentemente sentiste que não andavas a viver a vida duma pessoa da tua idade, mas também tiveste alguma sorte e pudeste colher os frutos desse esforço contínuo.

 

Há sensivelmente cinco anos, comecei a minha licenciatura. Aí estás tu.
Não sei qual a origem da enorme admiração do pai quanto ao facto de ter ido para Letras. Com o ISCTE e a FDUL mesmo à frente, por que raio não queria eu ser uma jornalista com formação de base num qualquer eito ou logia, em vez duma jornalista com uma formação de base genérica e confusa?! Ciências da Cultura, o que é isso?

 

Cinco anos depois, continuo sem conseguir explicar mais do que "estudei línguas, cultura, literatura, história, linguística e comunicação social, tudo num".

 

No entanto, sei muito bem que foi o melhor que eu tinha a escolher na altura. Fizeste bem em escolher a licenciatura da qual mais gostavas e não a mais conveniente, listada em rankings, com o título mais sintético. Tu, bicho irrequieto, que ainda pretendes fazer mais do que "uma coisa" na vida profissional, que lês desordenada e desconcentradamente, com hábitos de trabalho e enriquecimento pessoal desgovernados, terias sido - e eu ter-me-ia tornado - muito menos feliz. E tu sabe-lo, também. Já te conheces de modo a estar consciente do quão irrequieta a tua mente é.

 

O que interessa é que aprendeste imenso, sem te sentires consumida. Tiveste professores que te inspiraram e moldaram - ou agitaram - o pensamento, as crenças, os gostos, alguns dos quais ainda na tua lista de contactos. Por causa do trabalho desenvolvido por eles, chegarás à conclusão de que o jornalismo pode não ser para ti e confirmarás que o ensino deve ser a tua maior vocação. E mais: terás acesso a uma biblioteca maravilhosa onde passarás momentos de satisfatória procrastinação, mas onde também darás por ti a pensar na vida e, surpreendentemente, a ser produtiva.

 

Beatriz, continuas sem perceber claramente como é que a cultura, as línguas e os livros se vão tornar o teu ganha-pão para o resto dos teus dias, mas tens dado a volta ao assunto uma e outra vez. Por agora, tens conseguido. À tua volta, alguns amigos começam igualmente a fazê-lo, o que prova que aquelas conversas aborrecidas sobre a falta de oportunidades, sustento e dignidade nas ciências sociais e humanas, em que muitos te engoliram a paciência durante muitos anos, foram apenas inúteis e desagradáveis.

 

E não nos esqueçamos dessas pessoas que vais conhecer nos próximos dois ou três anos, graças a esse finca-pé de teres insistido em estudar Letras! Apesar de a tua vida social futura ser reduzida, vais fazer grandes amigos. Poucos, mas bons. Provavelmente, conhecerias outros amigos, noutras circunstâncias, mas... não seriam estes, que tanto adoras.

 

Está tudo bem, e vais gostar bastante dos próximos três anos - caóticos, trabalhosos, enriquecedores. Boa sorte!

 

P.S.: daqui a duas semanas vais ser despedida do call-center. Ups.
P.S. 2: não vais gostar da praxe.

Quando um livro nos desilude

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Recentemente, li um livro que me desiludiu. Não é, de longe, um mau livro. Muitos poderão defender que não só é um bom livro, como é um óptimo livro, na verdade. 

 

O problema talvez tenha sido esse. Eu queria que o livro fosse maravilhoso, à semelhança do que toda a gente à minha volta parecia dizer. Tanto me foi recomendado. Não tirei a pulga da orelha enquanto não o li. Também eu queria sentir o que os outros sentiram. Espero que não seja ganância literária, este desejo. 

 

Neste momento, o dito romance está classificado com uma média de 4,21 estrelas (o que acontece a muito poucas obras) no Goodreads, essa ferramenta que promete ilusões e que por vezes semeia desilusões, como a que me estava reservada sem eu saber. Comprei-o, o romance, comecei a lê-lo de imediato e gostei. Gostei, apenas.

 

De facto, é uma narrativa cativante, não se prolonga por demasiadas páginas, não enfada, dá-nos a conhecer um momento muito relevante da História nacional a partir dum ponto de vista curioso, emprestando voz a um protagonista por quem a maioria dos leitores consegue nutrir um certo carinho. Terminei-o em poucos dias, sem me sentir esgotada ou entediada.

 

A minha desilusão é nada disso ser suficiente. Mas eu queria adorar o raio do livro, queria mesmo! Infelizmente, encontrei-lhe algumas falhas e carências que destruíram qualquer possibilidade de o achar fora de série. Sim, é um bom livro. Um livro bom. Não deixo de o recomendar, mas não sinto que farei campanha ferrenha pela sua posição nas minhas preferências. Mas eu queria que ele fosse logo parar à minha lista de favoritos. Mas, mas, mas...

 

Alguma vez vos aconteceu tal desfeita? Alguma vez sentiram indiferença por um livro que pensavam inicialmente estar destinado a vôos mais altos? Alguma vez um livro vos desiludiu?

 

Quando um livro nos desilude, encolhemos os ombros e partimos para a próxima leitura. Ainda assim, fica um desconforto inexplicável no ar. Nem sequer há, como na cena dum crime, alguém a quem apontar o dedo. Nem há crime, criminoso ou vítima. Há, somente, um livro que nos passou ao lado.