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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Os poetas passam recibos verdes

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No belíssimo livro Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, os poetas são comprados como bens de consumo, como quem adquire um aspirador. Acabam por ser uma mistura de animais de estimação e escravos, usados para bel-prazer dos seus proprietários - que, por um lado, não os entendem e chegam a troçar deles; mas que, por outro, se apropriam das suas gracinhas (dos seus versos e dos seus pensamentos) para fazer brilharetes perante outros humanos.

 

A sensibilidade e talento dos poetas e o seu contributo para a sociedade são, desta forma, menosprezados. Os poetas não passam de macaquinhos, uma espécie de bicho raro e extravagante sem nada para oferecer ao mercado e que, ainda por cima, causam despesa a quem os tem. A certa altura, uma personagem diz que uma experiência a faz sentir "Como se fosse lucrativo". Ela queria dizer que se sentia bem. Só o lucro importa.

 

No pequeno livro de Afonso Cruz, os poetas são seres marginalizados, equiparados a papagaios. Todo o livro é triste, incluindo a nota do autor, no final. Ainda assim, há esperança.

 

E é com uma nota de esperança que também escrevo este texto. Porque paguei parte da faculdade e pequenos luxos da adolescência e do início da idade adulta a escrever, ora com prémios literários que fui ganhando, ora com um trabalho a escrever para blogs através de uma agência de marketing. Porque quero continuar a escrever, por ser o que mais gosto de fazer, e a ser paga por isso. Porque quero que as minhas competências sejam valorizadas. Porque não quero ser vista apenas como um bicho raro, como o são os poetas da história de Afonso Cruz.

 

A ideia de talento ainda é limitada no nosso inconsciente colectivo, como se ter talento, ou ter jeito, fosse uma característica adquirida à nascença. Não é possível contabilizar o que aprende ou como pratica um artista (sublinhemos: um profissional da arte), dado que nada disso é mensurável. Por isso, mantemos a ideia de "talento", que por sua vez forma a ideia de que escrever, pintar, desenhar, tocar um instrumento ou fazer artesanato são "gracinhas", passatempos.

 

E podem ser. Mas, para muitos, estas actividades são o seu trabalho. Aliás, para muitos, o passatempo dos outros é uma fonte de rendimento extremamente interessante, sem esforço. É o que concluo, cada vez que alguém me envia um e-mail ou uma mensagem a pedir para divulgar isto ou aquilo, para lhes escrever reviews de livros que publicaram, até para escrever para sites profissionais e cheios de amor pela arte e cultura... a custo zero. Lá pelo meio, mencionam que os temas e a abordagem ficam ao critério da autora. Dizem-no com orgulho, até, o orgulho de quem não quer maçar muito, e de quem ainda se prontifica a tratar da promoção do texto ou trabalho nas suas redes sociais, provando como todos podem tirar dividendos deste acordo. A anedota faz-se sozinha... a bendita exposição não nos compra a casa, enlatados ou consultas no dentista.

 

No fundo, eu sei de quem é a culpa. A culpa é desses indivíduos, empresas ou entidades, mas também pode tornar-se facilmente culpa de quem o faz de graça, sem cobrar. Estas duas partes alimentam-se mutuamente. Porque os primeiros precisam de arte e engenho, e os segundos precisam que a sua arte e engenho sejam vistos. Eu sei, porque também já o fiz. Também já escrevi para o P3 do Público, cheia de boas intenções e motivação, até que reparei que o acesso às minhas crónicas começou a ser barrado pela paywall. Ou seja, eu escrevi conteúdo gratuitamente, mas esse conteúdo nem sequer está disponível para que eu e outras pessoas sem assinatura leiam. Nem sequer pode ser usufruído pela comunidade, que era o que eu mais queria. Aprendi a minha lição.

 

É muito chato pagar a quem escreve ou faz umas coisas. Afinal, o discurso público sobre a arte é, insistentemente, que é uma coisa gira que uns tipos fazem, esquecendo-se de que, se é uma coisa gira assim tão insignificante, pode muito bem ser feita por qualquer pessoa, como lavar a loiça ou cuidar de suculentas. E por que não o fazem?

 

Escrevo este texto cheia de esperança, mas a partir de um sítio de grande revolta, enquanto profissional das humanidades e das artes. Escrevo com indignação, em nome uma carreira que começo a construir de forma cada vez mais sólida e reflectida, com formação superior e profissional à altura. Estou a frequentar, nomeadamente, um mestrado em Estudos Comparados e uma pós-graduação em Escrita de Ficção, enquanto escrevo dois livros e concorro a vários prémios literários por ano. Com toda a minha vida a girar em torno das Letras (incluindo o facto de ser formadora certificada, professora de Português e Inglês, e ter formação em edição e revisão de texto), o mínimo que peço é que tenham a noção e decência de não tomar o que faço como uma palermice ou um passatempo.

 

Sim, eu tenho um blog. Muita gente tem blogs. Não somos pagos por isso, mas assim é porque o determinamos. Para mim, este blog é uma espécie de diário ou caixa de apontamentos sobre a vida, sobre as pessoas de quem gosto, sobre os livros que leio e os filmes que vejo, sobre aquilo que penso. Sobre quem sou. E é o espaço em que, simplesmente, pratico. Por isso é que me recuso a escrever sobre outras coisas e assuntos além dos que me apetece, por apetecer.

 

Fora deste blog, sou uma trabalhadora independente que tem contas para pagar e uma vida para desfrutar. Passo recibos verdes, pago impostos e pago Segurança Social.

 

Se gostariam de trabalhar comigo, contactem-me. Prometo profissionalismo, seja porque precisam de alguém que escreva para um blog ou para outro tipo de publicação, opine sobre um manuscrito, edite ou traduza um texto, ensine Inglês ou Português.

 

E depois disto, ainda querem comprar um poeta?

 

***

Na imagem: a autora no seu local de trabalho, o escritório, onde dá aulas, assiste a aulas, envia e-mails, escreve, passa recibos verdes, emite declarações, paga contas e procrastina.

Sobre estar a ler um livro, e de repente chega outro

(assim, qual deles leio?)

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Eu não quero ler outro livro senão este. Estou a ir a um ritmo tão bom. A cada página segue-se outra, sem sequer pensar no movimento do dedo indicador, que começa a puxar a folha da direita desde a lombada até ao vértice do canto, e depois essa folha passa a ser a da esquerda quando a transporto para o lado oposto. O ritmo mantém-se, o dedo trabalha como uma batuta.

 

Gosto tanto deste livro. E só de pensar que passei tantos anos a vê-lo de longe nas estantes e nos catálogos das livrarias, sem nunca lhe ter dado qualquer valor, e só me ter decidido a trazê-lo da biblioteca na semana passada...!

 

Estou eu a ler o adoradíssimo manual de psicologia popular, quando, de repente, tocam à campainha. Vem aí correio. Abro a janela do escritório, mesmo ao lado da porta da rua, para receber o carteiro. Lá me traz ele uma caixa de papel da Almedina.com, bem arrumadinha, bem selada.

 

Outro livro! Viva!

 

Desato à procura da tesoura, corto todas as amarras aos diários e apontamentos de Susan Sontag, acabadinhos de sair, que ainda na semana passada descobri o pré-lançamento, quero ler tudo, quero devorar, tenho tanta curiosidade, e é tão excitante bisbilhotar os escritos alheios mais íntimos e espontâneos…

 

Mas, de facto, ainda não consigo ler dois livros ao mesmo tempo. Isto é, não consigo ler um livro com um olho, enquanto leio outro livro com outro olho. Seria óptimo, mas o meu estrabismo é ligeiro e não dá para tanto.

 

Fico a matutar no assunto enquanto almoço. Por um lado, já só me faltam quarenta páginas para terminar o livro sobre perseverança e paixão. Por outro (outro lado, não outro olho), sinto-me encantada com a possibilidade de ler um novo livro, meu, a cheirar a novo, com a encadernação intacta e as páginas ainda resistentes ao polegar que se imiscui entre folhas.

 

Almoço rapidamente, antes das aulas. Depois, passo quase três horas a dá-las - constantemente a pensar como me saberia tão bem estar, em vez disso, a ler os diários.

 

Por fim, as aulas chegam ao fim, e eu tenho uma fome danada. Lancho de pé e penso "é agora que vou ler, e vou mas é terminar o Grit, antes de adicionar mais um livro às três pilhas de livros para ler que tenho espalhadas pela casa!".

 

Depois do lanche, lembro-me que seria mesmo bom ler, mas só depois de dobrar a roupa lavada. Quero paz de espírito enquanto leio a Susan (sim, a Susan, que eu não penso em títulos honoríficos enquanto arrumo cuecas e pijamas).

 

E, quando termino aquele monte de roupa e liberto os alguidares, já é hora de ir ao veterinário. Vou ao veterinário. A Coffee está lá para dentro a levar a vacina, mas quem sente que precisa de uma sessão de terapia orientada para a perseverança sou eu. Até porque, depois de regressar a casa, ponho-me a conversar com as vizinhas e nem dou pelo tempo passar.

 

Pronto, finalmente, já não tenho nada que me impeça de terminar o primeiro livro ou de começar o segundo. Pronto, finalmente, sento-me com uma mantinha pelas pernas e a cadelinha aos pés. Afinal, apetece-me terminar o livro de psicologia. Quero sentir que termino qualquer coisa. Quero praticar o que diz o livro.

 

Claro que, exatamente quando me decido, me lembro de que tenho de começar a escrever este texto*.

 

 

*Escrito como exercício de aula da pós-graduação.

Agradecimentos

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Adoro as páginas de agradecimentos dos livros. E adoro as dedicatórias, ainda no início. Ultimamente, dou por mim a imaginar como serão os agradecimentos, caso apareçam no final (o mais comum), enquanto leio o livro. Tento imaginar quem serão as pessoas que contribuíram, directa ou indirectamente, para que a obra como ela é, como eu a vejo, existisse.

 

Penso em tudo o que escrevo como uma folha de acetato entre mim e o leitor. Não é bem assim, mas há sempre uma parte do meu raciocínio que me faz acreditar que deixo transparecer tudo o que sou através da minha escrita. Por isso, imagino que os leitores prevejam facilmente quem serão os protagonistas dos possíveis agradecimentos num hipotético livro que eu publique um dia destes.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, mas com uma vida interior rica. Demasiado rica. Demasiado barulhenta. Extravagante? Extravasa para o papel, como é inevitável. É o que tenho aprendido ao ouvir a quantidade de podcasts que ouço e a ler a quantidade de textos autobiográficos que leio. Ainda assim, os escritores têm amigos e têm família. Têm editores e colegas de profissão. Têm montes de gente a torcer para que aquilo que escrevem seja bem recebido.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, por isso é natural que sejam permeáveis às vidas que os rodeiam. São influenciados e influenciáveis. A página de agradecimentos é que o confirma.

 

Quando também for altura de eu escrever uma página de agradecimentos, quase não precisarei de agradecer a quem tenho de agradecer. Só será uma formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

Sou a pessoa que pega nisso tudo, enfia na máquina da roupa e fica à espera do chocalhar do tambor. As fontes de inspiração, chamemos-lhes assim, saberão qual o agradecimento que lhes cabe, a partir de que parte. Finalmente, quando terminar o ciclo, terei uma mistura de pedaços daqui e dali que perfazem o meu trabalho (o trabalho de montar retalhos, portanto). Haverá, até, quem reivindique agradecimentos indevidos e imerecidos, mas até a esses eu direi: com certeza, agradeço a quem quiser que eu agradeça, que agradecimentos, renovada paciência e generosidade nunca faltarão a quem, por fim, consegue trazer uma obra ao mundo.

 

Mas os agradecimentos escritos vão lá estar, seja como for. Serão comprovativos daquilo e das pessoas que realmente interessam. Serão a tal formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

...

 

Na fotografia: a dedicatória em This is Going to Hurt, de Adam Kay.

 

Mais dedicatórias e agradecimentos interessantes aqui.

O fim de um ano sem resoluções

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No início de 2021, não escrevi nem fiz resoluções de ano novo sérias. Penso que foi a primeira vez em muitos anos, uma vez que sempre adorei listas, fazer apontamentos e fazer planos. Fazer planos tem sido a minha forma de vida desde que me lembro, motivada pela minha avó a sonhar e a pensar nas opções para o futuro de amanhã ou para o futuro das próximas décadas - lembro-me de falar com ela todos os dias, quase em monólogo, sobre possibilidades e estrutura.

 

Ainda assim, não planeei o último ano. 2021 podia ser tudo e podia ser... nada. Pareceu-me demasiado arriscado, talvez despropositado, visto que 2019 já tinha sido, para mim, um ano absolutamente improvável, e que 2020 jamais faria parte dos nossos sonhos, pesadelos ou cenários colectivos imaginados mais rocambolescos. Sabia lá eu o que poderia acontecer em 2021!

 

2021 foi um ano improvisado. Eu sabia que não havia alternativa, senão contar com uma dose considerável de aleatoriedade. Aceitei a abundância de variáveis. Aceitei que seria um ano com muita necessidade de fé, sobre o qual eu pudesse encolher os ombros com frequência.

 

Mudei-me para Vila Viçosa, comecei a viver com o João e abandonei convictamente (com todo o gosto) qualquer ambição de voltar a trabalhar ou estudar em Lisboa nos próximos anos. Encontrei uma rede de apoio e carinho nos nossos vizinhos, habituei-me à calma e às dinâmicas de viver numa vila pequena, ganhei tempo (e lentidão) para escrever como nunca escrevi na vida, para deixar de me sentir ansiosa a toda a hora e para ser só eu, no meu espaço.

 

Finalmente, o meu espaço. 2021 foi o ano de fazer duma casa nova um lar, o nosso primeiro lar a dois - ou a quatro. Agora, é um lugar de paz. Depois de termos adoptado a Coffee Bean no final de 2020, vimo-la crescer de cachorrinha mais activa e teimosa de sempre, para jovem adulta esperta, querida e companheira. Lord Ennui continuou a ser o gato mais carismático, falador e impaciente (mas paciente com a Coffee) que nos poderia calhar. Os dois fizeram as delícias de quem passava por baixo dos nossos varandins.

 

Li 42 livros, entre os quais se encontram algumas releituras, vi poucos filmes e vi mais séries do que esperava. Quase não saí de casa, procrastinei imenso e decidi cometer a loucura de fazer uma pós-graduação ao mesmo tempo que o mestrado. Concorri a três prémios literários; ganhei o 3º lugar num e fui finalista noutro, que tive a oportunidade de apresentar num evento especial. Escrevi quase um livro inteiro, um sem número de contos e desafiei-me a publicar mais no blog. Dei aulas a pessoas extremamente interessantes, com os meus alunos aprendi muito sobre a língua portuguesa.

 

Descobri que trabalho demais e que preciso de ser mais branda nas expectativas sobre mim mesma. Descobri que me esqueço de descansar.

 

Comecei o ano a matar plantas e acabei o ano a gostar de as manter vivas. Passei o verão a fazer mantas em crochet para as minhas sobrinhas emprestadas, descobri que sou daquelas pessoas que sabem cozinhar por puro acaso, sem esforço, e ouvi montes de podcasts enquanto me dediquei a essas actividades. Fiz terapia semanalmente, remendei muitos buraquinhos na minha cabeça e aceitei que o que faz sentido para mim é viver numa espécie de caos organizado (e contido pelo João).

 

Pelo meio, conheci imensas pessoas (algo surpreendente para quem ficou muito tempo em casa). Fiz amigos e mantive amigos. E tanta coisa se passou na vida dos meus amigos, tal como na minha! Emocionei-me tantas vezes!

 

2021 não foi planeado. Fiz tudo de improviso e por intuição. Por isso, 2022 vai ser um ano um pouco mais regrado e pensado, que é para haver equilíbrio. Claro que já fiz uma lista e preparei o espaço para outras. 2022 tem de se tornar um ano com estrutura.

 

Estes são alguns dos meus 24 desejos para 2022:

1. Escrever um daily log;

2. Ver 30 filmes;

3. Ler 40 livros;

4. Fazer uma viagem sozinha;

5. Fazer escalada interior;

6. Começar a escrever a tese de mestrado;

7. Criar o podcast que tenho na cabeça há quase 2 anos.

 

Terminou um ano sem resoluções. O próximo será diferente, completamente diferente.

Sugestões de livros para cabeças cansadas

 
 
 
 
 
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Uma publicação partilhada por BeatrizCM (@beatrizcanasmendes)

 

Há dias em que, realmente, não há pachorra. O cérebro não obedece, os olhos teimam em fechar-se, ou só vêem formigas no papel. Vai na volta que as vozinhas cá de dentro começam a divagar, a fazer contas à vida, a lista do supermercado e o inventário de moscas na parede. Nisto, o livro que temos na mão ou no colo passa a ser objecto decorativo, aspiracional, mas nada inspirador. Como contrariar esta maldita preguiça mental?! Ou como conciliar o cansaço do dia com uma biblio-reanimação, coisa leve (só em peso e papel, claro), mas não menos agradável e enriquecedora?



Foi a pensar em tais momentos de pasmaceira intelectual que elaborei este simpático montinho de livrinhos (e outros mais a atirar para o calhamaço). Aqui encontram principalmente livros de crónicas, ensaios e contos, mas também romances curtos e/ou divididos em capítulos e subcapítulos minúsculos, que são excelente companhia para quem não nasceu endinheirado e/ou desocupado, e já maçou e matou os neurónios noutras actividades necessárias à sobrevivência, ainda assim amando boa literatura. Bem sei o que isso é.



Neste montinho, também incluí alguns dos meus livros favoritos, sobre os quais já escrevi no blog.



Dito isto, espero que apreciem a presente publicação, que é a mais elaborada do meu perfil de Instagram até à data. Mais sugestões semelhantes agradecem-se (já estou a esgotar o meu próprio stock e o meu limiar de atenção continuará curto, e cada vez mais curto).



Nota: os livros que recomendo não são sempre leituras fáceis. Estão escritos, sim, de forma a podermos ir lendo um bocadinho agora e outro bocadinho daqui a dez minutos. Os temas nem sequer são sempre os mais divertidos ou levezinhos (até são bastante sérios). Ainda assim, acredito que estas são boas sugestões para quando nos falta traquejo para ler romances e tratados de física que nunca mais acabam. Contos, crónicas e capítulos mais curtos mantém o ritmo da leitura.

 

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Comprar livros para as pessoas que somos hoje

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Quem gosta de comprar livros (novos ou em segunda mão, não importa) sabe muito bem do que venho escrever.

 

Muitas vezes, compramos livros que não são realmente para nós. Muitas vezes, compramos livros para a pessoa que queremos ser ou que esperamos ser no futuro, em vez de os comprarmos para a pessoa que somos agora, que tem estes gostos, estas preferências de leitura, estes interesses, capacidades e disponibilidade mental.

 

Ultimamente, tenho tentado diminuir as vezes em que compro livros a pensar que, um dia, os lerei. Deixei de ser tão optimista ou de levar a futura leitora, a leitora que serei mas que ainda não sou, tão a sério. Claro que eu quero ser uma pessoa melhor, cheia de tempo e energia para ler em quantidade e em qualidade. Ainda assim, comecei a apanhar-me em flagrante. É bastante difícil ser essa pessoa. Talvez até seja impossível.

 

Apesar de eu ser uma acérrima fã dos conceitos de tsundoku e de anti-biblioteca, comecei a ficar mais triste, por não conseguir ler tudo o que adquiro, do que ficava feliz nos momentos da compra e de contemplação da estante.

 

Na primeira vez em que tive dinheiro para ir à Feira do Livro para esbanjar na Hora H (penso que teria 18 ou 19 anos), comprei muitos livros de História e de Política. Acabei por dar ou vender quase todos sem nunca os ter lido. Apesar de os ter tido por alguns anos, nunca senti vontade de os ler, nem uma curiosidade mínima. Só mantive uma esperança vã de que um dia ainda acordasse com vontade de ser a tal pessoa com vontade de os devorar. Nunca aconteceu.

 

Nos últimos meses, deixei de comprar o que não planeio ler de imediato (sem falar dos livros de estudo e consulta, para o mestrado ou para a pós-graduação).

 

Nas últimas semanas, passei a ler mais livros "leves" e curtos, para me distrair, sem culpa por não estar a ler nada intelectualmente desafiante, diferente, enriquecedor ou particularmente ambicioso.

 

Por um lado, estas foram escolhas sensatas tendo em conta o orçamento limitado para adquirir livros ou outros produtos e experiências culturais. Por outro, os novos critérios estão a funcionar. Acabo por ler em quantidade e até qualidade, sem o fazer de propósito. Além disso, não fico desgostosa ou ansiosa por não estar a ler o que compro, a maldizer o gasto supérfluo ou a lamentar as minhas fracas capacidades para corresponder às expectativas que eu mesma teria estipulado.

 

Agora, compro livros para a pessoa que sou, que consigo ser. Por agora (só por agora), não compro livros para a pessoa na qual gostaria de me tornar.

 

Entretanto, aproveito este texto para recomendar a plataforma Kobo, que tem uma subscrição mensal, o Kobo Plus (de 5,99€, para quem só quer ler ou para quem só quer ouvir, e de 7,99€ para quem quer os dois tipos de produtos). O Kobo Plus dá acesso a imensos livros e audiolivros do catálogo. Em língua portuguesa, penso que os catálogos da Leya e da Cultura Editora se encontram totalmente disponíveis para os subscritores. É com esta subscrição que vou alimentando a minha sede de literatura mastigável, que me apetece ler sem ter de ocupar espaço nas estantes cá de casa ou gastar dinheiro numa compra. Vou lendo no Kobo, às vezes no telemóvel. Funciona, e até ajuda a poupar.

Ser jovem - mas a que custo?

Jovens. Hoje em dia, chamam-nos jovens até termos 40 anos. A partir dos 40, começamos a dizer "os 40 são os novos 30", e por aí fora. Jovens, para sempre, até que esse sempre se acabe.

 

Há alguns meses que ando a escrever uma data de crónicas sobre dores várias, sendo uma delas inteiramente dedicada esta inquietação (que é minha, e que talvez também seja vossa):

- Ser "jovem", mas a que custo?

 

Por um lado, queremos ser jovens à força (se os outros indivíduos, a sociedade e as instituições querem que o sejamos, como não haveríamos de o desejar de igual forma?), seja jovem de idade, de condição física, de aspecto, de leveza. Mas, repito, a que custo?

 

Pessoalmente, vejo-me a braços com uma frequente infantilização e frequente desdém por ser nova, e por parecer ainda mais nova. Por ser jovial. Como quase tudo na vida, é coisa que não mata, mas que mói. E dói. É coisa que, paradoxalmente, envelhece, se não o rosto, talvez a alma. Algum dia serei um ser humano pleno de direitos e de presença?

 

Sou incapaz de perdoar a condescendência e a displicência com que tantos sujeitos (homens e mulheres, sem distinção de nota) tratam a minha geração. A sobranceria. A superioridade. A irresponsabilidade com que se dirigem a nós, que temos agora 20 ou 30 anos. Caramba, até 40.

 

Ora somos a promessa para o futuro, os derradeiros arautos iluminados, nascidos para curar o sofrimento da humanidade; ora somos bebés de colo, irredutivelmente inábeis e carentes de cuidados, mas imerecedores de atenção, porque ainda não somos parte desse grupo selecto de "crescidos". Eles é que sabem. Nós vamos comendo na mesa do canto. Nós, "jovens", somos, para tantos, homens e mulheres pela metade. Rapazes e raparigas. Miúdos. Crianças.

 

Ser "jovem" pode tão rapidamente ser um elogio (tão jovem e já alcançou tanto!) ou pode ser desprezo (é jovem, sabe lá da vida!).

 

Parece resmunguice, mas de um ponto de vista social, da organização da vida em comunidade, a infantilização crónica de uma determinada geração é grave. Atrasar o "crescimento" dos indivíduos no jargão partilhado é nocivo, porque, se somos "jovens", não somos humanos plenos de direitos e com acesso ao kit mais básico de dignidade - nomeadamente, um salário que condiga com as nossas qualificações (e com a condição humana), autoridade no nosso meio académico e profissional, respeito por parte de entidades de serviço público com os quais temos de lidar para, simplesmente, viver (bancos, hospitais, mercado imobiliário, instituições políticas...). Afinal, um dia acordamos e somos "velhos" que nunca tiveram a chave para a existência plena. E, mais uma vez, somos descartados. É essa uma face do meu medo.

 

Somos "jovens", portanto não somos adultos. Aos 26, começo a acreditar que, aos olhos de algumas pessoas com quem me venho cruzando, talvez nunca chegue aos 15. Talvez passe directamente para a terceira idade.

 

E por isso é que guardo sentimentos ambíguos quanto aos chavões "Qualquer Coisa para os Jovens". Estarão mais próximos duma benção ou duma maldição?

Professores, sempre e para sempre

No princípio, era o verbo.

Assim se poderia criar o mundo, assim se supõe que possa ter acontecido.

Já eu suspeito que, no princípio, tenha sido o verbo, mas que logo a seguir terá certamente aparecido um professor ou orientador para ensinar os limites e a aplicação do verbo, para garantir que todos saberiam de que se tratava, como o tratar, como o transformar em mais mundos - em mais verbos.

 

Na minha cabeça, só assm é que pode funcionar a continuação do mundo. Só com professores.

 

Escrevo este texto porque acabei de me aperceber de que a maior parte das mensagens e comentários de apoio que me foram deixando nas redes sociais durante os últimos dias, a propósito da minha participação na Mostra Nacional de Jovens Criadores, são da autoria de professores que fui tendo ao longo da vida, assim como de familiares, amigos e colegas que também são professores.

 

E eu, enquanto professora, não poderia deixar de sentir um orgulho imenso em sê-lo e em me sentir acompanhada - desde que pus os pés na pré-primária com cinco anos, até ao último e-mail que troquei anteontem com o coordenador do meu mestrado - por professores que vêm contribuindo incessantemente para o meu crescimento. São pessoas a quem só é possível agradecer.

 

Sentados nos ombros dos professores, conseguimos ver o mundo - vi por aí um desenho que retrata algo do género. Eu tive muita sorte, é claro, porque também tive o privilégio de frequentar um colégio por nove anos, um colégio feito por pessoas que nunca desprezaram que eu escrevesse, que eu tivesse o meu espaço, que todos pudessem estar em contacto com as artes e interesses distintos. No ensino secundário, na escola pública, também tive sorte com alguns professores, que faziam por nos motivar e amar as várias disciplinas. E, de resto, tenho gostado quase sempre do meu percurso académico no ensino superior, por onde me tenho cruzado com professores que me inspiram a ler mais, a explorar mais, a tentar mais, a desviar-me dos caminhos previstos, a ver outras possibilidades, a amar ainda mais o estudo.

 

Além disso, um professor não tem de ser só o professor que se encontra na escola ou num percurso de educação formal. Pode ser um mentor, um tutor, um formador, um orientador. Alguém que nos ensina qualquer coisa nova e que nos indica por onde ir e o que fazer. Alguém que nos ajuda a pensar, a ser, a estar e a fazer, mesmo que não seja propositado. Alguém que acabamos por relembrar.

 

Oxalá fosse uma profissão muito mais valorizada e reconhecida, pessoal e publicamente. E oxalá mais professores entendessem a dimensão da responsabilidade que têm (porque, afinal, há quem o seja sem perceber muito bem o que implica). Pouco se faz sem eles.

 

É inevitável reconhecer que, mais uma e mais outra vez, é dos professores que surge e se vai criando o mundo. O verbo não é suficiente, tem de haver alguém para o conjugar.

 

***

 

Adenda: entretanto, deixo-vos ainda mais um texto que escrevi há uns anos sobre ser professora, aqui.

Finalista no Concurso Nacional de Jovens Criadores 2021 (categoria Literatura)

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É com muito orgulho e satisfação que venho partilhar esta novidade. Soube esta semana que sou finalista no Concurso Nacional de Jovens Criadores 2021, promovido pela Fundação da Juventude e pelo IPDJ. Alguns dos escritores portugueses que mais admiro receberam este prémio no início das suas carreiras, por isso não caibo em mim de entusiasmo!

 

Este reconhecimento é um alívio, uma confirmação de que vale a pena continuar a escrever. É um momento muito sério para mim, tanto quanto é uma alegria. Tenho estudado e trabalhado muito para conseguir melhorar todos os dias. Ou todas as semanas. Ou sempre que é possível dar um salto. É difícil contrariar a inércia, a falta de confiança ou a falta de qualidade dos rascunhos e primeiras versões. Ainda assim, começo a ver alguns resultados.

 

No dia 5 e 6 de Novembro, a próxima 6ªf e Sábado, estarei na Mostra Nacional de Jovens Criadores 2021. Na Mostra, os trabalhos das 15 categorias serão expostos, promovidos, encenados e visualizados. Ainda não sei quais são os contornos exactos do Café Literário onde discutiremos os trabalhos da categoria Literatura, mas espero ter notícias em breve.

 

Se vos apetecer ler algo relacionado com o tema deste conto, também podem consultar o ensaio As Mulheres ao Espelho, que publiquei há alguns meses.

 

Já agora... Obrigada por continuarem desse lado, apesar de eu não ser tão assídua quanto merecem a responder aos vossos comentários!

Cansada de opiniões

Deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião. E mais: deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião e achar que esta é a mais correcta de todas. Uma opinião-verdade, indiscutível, infalível, do género "como é que não conseguem todos ver isto, que é tão claro, tão óbvio?".

 

À hora de jantar, estava a ouvir um segmento de notícias sobre o Orçamento do Estado e, em vez de conseguir realmente perceber qual a celeuma do momento, passaram a emissão para o comentário não sei de quem, isto é, de um comentador profissional. Acabei por não entender perfeitamente qual era o tema do Orçamento que pretendiam destacar (só apanhei uns minutos da ministra da Saúde a falar sobre autonomia de contratação), não fiquei minimamente informada, e enfiaram-me um tipo de fato, com voz grave e tom solene, pelos olhos e pelos ouvidos adentro. Um tipo sério. Um opinador de profissão, entenda-se.

 

Nos dias que correm, tanto me faz quem é o opinador. Soa-me tudo a bitaites de tasca. Estou cansada do chico-espertimo-achismo, da opinião que todos parecem ter sobre tudo, quer no mundo real, quer nas redes sociais. No Twitter e no Facebook, então, é uma cascata de gente inteligentíssima, que só peca por lhe faltarem credenciais, moderação e bom senso, porque de resto são exímios na arte das postas de pescada. Na televisão, preferem pôr o Zé-Não-Sei-das-Quantas (que pode ser um reformado antecipado da política, do jornalismo ou de coisíssima nenhuma) a deitar umas larachas frequentemente mal informadas e pouco informativas. Noticiar à hora das notícias, no canal das notícias, 'tá quieto. Tanto, tanto ruído.

 

(Caramba, eu só quero saber o que se passa no país e no mundo, não pretendo que me tentem endoutrinar após trinta segundos de breve e incompleta notícia!)

 

Como vêem, este não é um blog de opinião. Opiniões, tenho uma ou outra sobre alguns livros, porventura podcasts, filmes ou séries, mas nem essas partilho em barda. Eu cá sou mais de sugestões, o que talvez denote que nasci no tempo errado e que vivo contra a corrente. Isto não implica que eu deixe de ter princípios. Alto lá! Sou uma moça às direitas que vota sempre à esquerda, defendo certas causas e visões do mundo e, apesar de não gostar de atritos, não hesito quando é necessário ter uma discussão acesa porque me chegaram as mostardas e os vinagres ao nariz.

 

Ainda assim, tenho tantas dúvidas sobre quase tudo que me abstenho, por vezes nem por falta de vontade de me insurgir, mas sinceramente por me sentir assoberbada contra as Grandes Certezas dos outros, por sentir que gastarei o meu português a falar para a parede, porque discutir para eles não tem sentido pedagógico, mas sim apenas mostrar que sabem mais e melhor (do quê, porquê e como é que me escapa). E eu sei que eles devem estar cansados, mas estou cansada eu também, provavelmente ainda mais.

 

Escrever este texto deixou-me cansada, mesmo exausta, por isso não me alongo mais com a minha opinião sobre opiniões, despedindo-me apenas com duas - lá está - sugestões que me parecem modestamente sensatas e largamente geniais. São elas o podcast Quem Lê Tanta Notícia e o programa Dados Contados (da RTP). Sinto que, graças a estes minutos semanais, finalmente compreendo qualquer coisa sobre a actualidade. E, como até as sugestões podem ser tendenciosas, aviso desde já que a primeira tem a participação da minha ídola Tati Bernardi e que o segundo é produzido pela minha amiga Daniela Ferreira Pinto, duas mulheres que admiro arregaladamente, uma escritora e outra jornalista, mas ambas autoras e produtoras de cenas divinais que vemos e ouvimos por aí.

 

Por ora, este será um blog pouquíssimo insurgente, sempre cheio de dúvidas sobre se tem sequer algo para acrescentar ao espaço público, mas confiante de que faz apenas o barulho necessário para espicaçar as ideias de quem por aqui aparece, sem as moer. (Confirmando que tal é possível, note-se que nas caixas de comentários deste blog existem leitores que discordam de mim, e que mo escrevem, mas que o fazem com uma elegância e uma delicadeza, que eu quase penso estar numa realidade paralela. Obrigada por estarem desse lado, que é como quem diz, voltem sempre!)