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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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A cena de se ser filho único

Ser filha única é moderadamente fixe. Tanto me queixo eu, que não tenho irmãos, como outra pessoa qualquer que os tenha, pois haverão sempre benefícios e desvantagens a apontar por ambos os pontos de vista.
Para mim, ser a menina do papá, da avó e da tia, com quem vivo, implica ter seis olhos atentos a cada passo que dou. O que um não observa, os outros não descuidam. Sei que sou muito mais protegida do que a maioria das pessoas da minha idade ou até mais novas. Se já me atrevi a dar um passo em falso, garanto-vos que correu quase sempre mal. Não há outra opção para mim que não a de continuar a viver consoante as expectativas. Nisso, considero-me uma adolescente submissa (apesar de a minha submissão ter melhores dias que outros, evidentemente… mas também sou uma miúda moderadamente calma).
Contudo, ser filha única não deixa de ser epicamente bom, trazendo as vantagens que traz - tal como sou o centro das atenções para o mal, sou-o igualmente para o bem, o que acaba por “compensar”: o orçamento da casa tem-me unicamente a mim em consideração; se fico doente, correm logo a encher-me de mimos e, se necessário, medicamentos (ou levam-me ao hospital sem se preocuparem com quem fica o resto dos filhos porque… não os há!); quando se trata de dar prendas, não há cá divisões de capital disponível (é tudo para mim, *riso maléfico não convincente*); não tenho de seguir nem de servir de exemplo a ninguém; só têm de se preocupar com uma reunião de pais na escola; “só” têm de pagar doze anos de escolaridade obrigatória; “só” têm de pagar uma universidade; há mais orçamento familiar para ter animais de estimação; morrerei com o coração virgem de sentimentos negativos fraternais; posso ter um quarto só para mim; no Inverno, o aquecedor é só meu; não preciso de partilhar… E a lista de egoísmos continua. Podem crer que sou uma daquelas filhas únicas mimadas até ao tutano.
Ainda assim, reconheço que a experiência de ter irmãos deve ser fascinante, pelo menos nalguns casos (não me refiro, claramente, àqueles que quase se matam durante uma mera discussão sobre peúgas). Na minha opinião, ter um irmão implica, num sentido muito figurativo, ter um coração maior. Afinal, ele é mais uma pessoa que existe para amarmos (e odiarmos, quando calha) incondicionalmente e que faz parte da nossa vida, quer queiramos, quer não. Os irmãos acabam por se compreender e apoiar entre si de uma maneira única: o “inimigo” é o mesmo, os desejos são idênticos e é sempre mais fácil entender e ser entendido por alguém que seja da nossa geração. Ser o irmão mais velho é aprender a ser paciente e generoso; ser o irmão mais novo é ter uma referência fiável sem ser as figuras paternais. Não é preciso ter irmãos para conhecer essa realidade.