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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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o detergente

 


   De repente, senti-o por perto. Dei por mim a procurar a suposta origem do cheiro, aquele peito, aquela camisa. Lembrei-me do padrão do tecido - vermelho, preto, branco, muitas listas, formando, entre si, inúmeras perpendiculares e paralelas. Mas onde se escondiam?


   Olhei em volta do quarto, analisando cada canto. Não. Decididamente, ele não se encontrava ali. Afinal, já não nos víamos há algum tempo.


   No entanto, o odor prevalecia e despertava todos os meus sentidos. Conseguia imaginá-lo tal e qual como era na realidade, o seu toque, o seu desejo e a respiração ofegante. Envolvi-me num abraço, apesar de estar completamente sozinha, arrepiada, no meio do meu próprio quarto, onde, excepto eu, apenas a minha família entrava.


   Instantes decorridos, mentalizei-me de que seria impossível estar mais alguém em casa. Deitei-me em cima da cama e, então, entendi. Os lençóis lavados eram a fonte do aroma familiar que, outrora, inspirara vezes sem conta. A explicação para toda aquela confusão sensorial encontrava-se num mero frasco de detergente - o detergente da roupa. Tive a certeza de que a mãe dele usava o mesmo que a minha avó passara a comprar.


  Mas, tal como aconteceu com certos pormenores dessa outra vida, com essas memórias, também o aroma floral dos lençóis desvaneceu. A minha avó encontrou um detergente mais barato, eu nunca mais o vi ou abracei, enterrando o nariz na sua roupa lavada, e as nossas vidas desencruzilharam-se. 


   Daí em diante, ficou somente a certeza de que o detergente nunca mais seria o mesmo.