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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Os homens são de Marte, as mulheres são de Vénus, mas andamos todos à volta do sol

Todos precisam de ver o espectáculo de stand-up Elder Millennial, no Netflix!

 

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Os homens são de Marte, as mulheres são de Vénus. Eles, básicos. Elas, complicadas. O sexo masculino é mais prático e físico, o feminino é fala-barato, verbal, emocional.

 

Poderia passar aqui o dia a debitar estereótipos acerca dos dois sexos que coabitam na nossa imaginação humana como sendo o gato e o rato. No entanto, para quê perpetuar e insistir em estereótipos, quando podemos fazer um levantamento dos ditos cujos e gracejar sobre o seu efeito nas nossas vidas?

 

 

Se gostam de stand-up comedy, são capazes de se rir da vossa própria pessoa e sexo que vos calhou e gostariam de ter algumas luzes extra acerca de como homens ou mulheres pensam quando se envolvem, recomendo-vos este espectáculo, Elder Millennial, da Iliza Shlesinger, uma comediante americana que já conquistou a minha admiração. Aliás, diria que, se gostam da portuguesa Mariana Cabral, aka Bumba na Fofinha, vão adorar esta minha sugestão.

 

Já eu, ri-me que nem uma perdida ao assistir a esta hora a "cortar na casaca" dos dois lados, mas de forma muito educativa e pedagógica. É que, mais estereótipo, menos estereótipo, a Iliza tem razão. Temos de arranjar uma forma de conseguir comunicar, homens e mulheres, para chegarmos a algum lado (nem que seja à perpetuação da raça humana e, vá, para alguma diversão). Há que aprender a falar a língua duns e doutros, meet each other halfway.

 

Além disso, as imitações e exageros da Iliza são duma pessoa se engasgar em gargalhadas. Ele é pavões, rolas, cães, coiotes, ... E, claro, dos homens e das mulheres "à caça".

 

Ora, digam lá que não é um espectáculo engraçado e tão cheio de graça! Promete...

 

(Se tiverem mais recomendações do género, estejam à vontade na caixa de comentários!)

Não falo de política neste blogue: porquê?

Quando comecei este blogue, escrevia frequentemente sobre política, sobre notícias ou sobre assuntos actuais. Deixei de o fazer por alguns motivos, ao longo dos anos. Passei a escrever mais sobre trivialidades e nulidades, deixando as actualidades para quem de respeito e autoridade. Ou coragem.

 

É preciso ter coragem para comentar seja o que for. Há sempre quem leia a nossa opinião e partilhe a sua de forma construtiva e diplomática, há quem perca a noção e entre pelo ridículo de atacar a pessoa que escreve de imediato. Aliás, até a comentar um filme se vê o que espera quem queira escrever sobre seja o que for. É preciso comentar tudo com pés de lã. 

 

Por vezes, sinto que há problemas de interpretação do outro lado. Ou talvez seja eu quem os tem, quem sabe? Há quem não entenda sarcasmo, ironia, piadas, há quem não tenha sensibilidade quando se trata de assuntos sensíveis. Certas pessoas perdem-se no conteúdo. Por exemplo, quando escrevi sobre as minhas primeiras experiências do Tinder (apenas o assunto mais inócuo e engraçado de sempre), há uns meses, emergiram imensos ofendidinhos. Perdiam-se nas entrelinhas, atiravam logo pedrinhas em vez de lerem a totalidade do texto. Até assuntos banais ganham a dimensão de catástrofe social. 

 

E o meu blogue nem é muito conhecido! Sim, tenho alguns leitores habituais (cujos comentários e reacções me deixam muito feliz, obrigada por estarem desse lado ♥), mas também recebo feedback de algumas pessoas que caem aqui de pára-quedas e entram logo na ofensiva. Nem imagino quem tenha blogues com projecção, porque eu bem leio o tipo de comentários que recebem por dá cá aquela palha

 

Desta forma, tento não escrever sobre assuntos sérios, como política ou economia, porque sinto que, além de não ter o conhecimento suficiente para me poder defender em caso de ataque, há sempre o perigo de ser mal interpretada à espreita.

 

Logo eu, que escrevo mais para entreter e deixar as pessoas felizes, do que para causar o caos e o drama!

Desculpem o desabafo. Às vezes, tem de ser.

Fui ver o Mamma Mia! 2 e achei o filme uma parolice

Atenção: risco de spoilers ligeiros, se bem que já conhecemos todos o enredo, por isso é mais uma questão estética.

 

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Sexta-feira à noite, amigos que gostam de musicais e lamechice - qual o melhor plano do que ver o filme Mamma Mia! Here We Go Again? Claro que tínhamos de o fazer. Infelizmente, os boatos que já tínhamos ouvido revelaram-se verdadeiros: o Mamma Mia 2 é uma parolice, um filme bastante mauzinho.

 

Comecemos pelo facto de que, como em todos os franchises, o risco de repetição e enjôo é bastante elevado. O primeiro não é um filme brilhante, mas entretém e é minimamente credível. Tem lógica, princípio, meio e fim, uma premissa que nos envolve no enredo, que nos faz sentir próximos das personagens e das suas histórias.

 

Já este Mamma Mia 2... É só canções e pedaços de passado. Memórias repescadas, actores reformados repescados, cantores reformados repescados, enredo repescado. Tudo em segunda mão. Chocou-me principalmente sentir que todo o filme me causava vergonha alheia, desconforto, #cringiness. A performance terrível da maioria dos actores, a montagem e edição deficientes, a narrativa previsível, o absurdo em todo o lado. Sim, é ficção. Sim, é um filme para entreter as massas, não é suposto ser uma obra de arte. Mas há mínimos olímpicos a cumprir.

 

No final, ficou a sensação de que desenterraram uns quantos ossos e tentaram fazer sopa do cozido com eles. Ficou, claro, um sentimento de enorme desilusão. Se é para se fazer, que se tente fazer qualquer coisa boa, positiva para o mundo, que acrescente. Só os cenários e figurinos me consolaram. Nem sei como tem mais de sete pontos no IMDB.

 

Mamma Mia! 2 é só um filme para ganhar uns trocos e recuperar uns quantos dinossauros, um centro de dia ou caixote da reciclagem para não deixar o franchise ou os artistas cair no esquecimento (sim, Cher e Andy García, estou a olhar para vocês...). Um desperdício. Vejam antes na Internet, se têm curiosidade. Ou quando estrear na televisão.

Teremos sempre o Tejo

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Não admira que Camões tenha pedido inspiração às Tágides, porque um rio com uma luz assim só poderia albergar ninfas e vida fantástica, seres míticos e lágrimas de quem viu os seus ir e regressar ao longo de séculos. O rio Tejo tem, para mim, uma aura mágica. Chamem-me romântica ou pirosa, mas não consigo negar que este rio exerce um efeito libertador, relaxante e criativo sobre mim. Consigo estar sentada à beira-mar durante várias horas - algures numa esplanada, no chão, num banco, num muro ou na relva - a pensar, a ler e a escrever. Sinto-me mais leve, mais feliz e produtiva quando o faço. Aliás, alguns textos aqui publicados tomaram forma perto do Tejo. Trabalho perto quase todos os dias e, por vezes, tiro uns minutos para me sentar a vê-lo, aos cacilheiros, aos veleiros e aos cruzeiros. É frequente lá almoçar ou comer um gelado, se estiver sol - tanto melhor.  A margem Sul do outro lado, o Cristo Rei a despontar no meio das nuvens, uma ponte de cada lado a cruzar o horizonte. O Tejo é o meu sítio especial.

 

Como não amar o Tejo? Nos melhores e nos piores dias, tê-lo-emos, sempre.

Este não é um texto sobre estradas

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Este não é um texto sobre estradas. 

 

Vamos lá ser directos e linguisticamente vagos sobre este tema: acabar uma relação de longa duração é uma... isso. Ficamos virados do avesso. Desorientados. Parece que perdemos uma parte do que (pensávamos que) éramos. É como se, a meio da peça que estamos a representar, nos faltasse subitamente o guião. Não há encenador que nos valha, os dramaturgos ficaram sem material e nós somos meros actores sem linhas para dizer.

 

Os seguintes pensamentos podem surgir aleatoriamente, por isso perdoem-me alguma incoerência ou atabalhoamento, já que a génese deste texto resultou duma conversa igualmente experimental que tive com um amigo (aquele que, ainda por cima, é das psicologias) e também me serve de chuva-de-ideias para o que ando a escrever. Se tiverem algo a partilhar, força!

 

O que senti de imediato, na altura, é que acabar uma relação é vermo-nos obrigados a alterar uma data de hábitos que tomávamos como garantidos, parte fixa dos nossos dias. Podia até ser apenas uma chamada ou uma mensagem antes de dormir. Podia ser um hobbie partilhado que passamos a fazer sozinhos, um nome que já não ouvimos ninguém chamar-nos (nem que seja o típico "oh amor"). Com mais ou menos margem de previsão, passamos a integrar e a adoptar novos ritmos, novos hábitos que substituem os antigos. Quebra-se a rotina.

 

Além disso, numa relação de longa data, ficamos com a sensação de conhecer a outra pessoa melhor do que ninguém e que, por outro lado, essa pessoa nos compreende como nenhum outro consegue. Não é preciso justificarmos a forma como nos sentimos ou comportamos. O outro entende o nosso horário de sono, o gancho das piadas que contamos, a nossa hesitação em situações sociais, com que tipo de pessoas mais simpatizamos, já sabe em que preciso momento vamos esconder a cara num filme de terror, lê as entrelinhas com fluência e é capaz de prever em quem votamos a cada nova época de eleições e porquê.

 

O que me leva àquilo em que desabou a tal conversa:
Quando, finalmente, começamos a ganhar alguma clareza e a tentar conhecer outras pessoas, resta-nos uma situação ambígua: por um lado, olhamos para trás, para esse cenário onde fomos tão felizes e nos sentimos tão confortáveis, mas cujo caminho se tornou uma estrada cheia de buracos que já não dá para retomar; por outro, um caminho virgem de terra batida onde temos de construir estradas a partir do nada, desde o início.

 

E construir estradas novas tem tanto de trabalho meritório quanto de tarefa hercúlea! Mas é uma real estucha, parece que nunca dá em nada e há mesmo caminhos que temos de abandonar, porque não há alcatrão que pegue nesses terrenos lamacentos onde chove e deslizam solos constantemente. E quando há rios (quiçá, mares) pelo meio e é preciso erguer pontes? Só de pensar, já me sinto exausta. Sim, é uma aventura, que lindo que é admirar a obra feita no final, mas ninguém nos oferece garantias de que aquela estrada alguma vez vai ser funcional! Ou que, no final, não se revela uma via estreita onde se anda de bibicleta com canteiros de flores (o que não é nada mau, mas e o investimento já levado a cabo em materiais para as infraestruturas rodoviárias?). É que uma pessoa até guarda na memória algumas noções de como ir dum sitio ao outro e de como desbravar caminho, vai olhando para a estrada antiga em busca de inspiração, mas o método é sempre diferente, são novos tempos, novos terrenos, novos veículos em circulação. Assim sendo, dá vontade de ficar antes em casa, criar gatos e viver as aventuras dos livros, que é mais económico e polui menos.

A minha história de amor-ódio com o ginásio (quem não tem uma é um ovo podre)

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Este blogue tem andado ora muito lamechas, ora muito intelectualóide, por isso vamos lá agitar as procrastinações com um tema mais levezinho (menos para mim, que sofro com ele): a minha história de amor-ódio com o ginásio. E quem diz ginásio diz qualquer tipo de actividade física que peça deste corpinho mais do que os movimentos levantar-sentar numa cadeira, num sofá ou numa cama.

 

Por causa dum golpe de sorte, consegui na roleta russa da genética uma tendência a parecer magra sem me esforçar muito. O pior é que isto se deve à ausência de massa muscular, i.e., eu sou mesmo uma trinca-espinhas sem bife para amostra, mas não deixo de ter massa gorda que tem de ser controlada. Seja como for, tenho a resistência duma galinha, a força dum espantalho e um problema nas costas que me há-de atormentar até ao final dos meus dias, por isso não tenho alternativa senão fazer qualquer coisa - pronto, fazer tudo, desde cardio até musculação, passando por pilates.

 

Assim sendo, pelo menos três vezes por semana, lá me levanto ainda mais cedo ou marco as minhas aulas para mais tarde, porque ir ao ginásio tem de ser das primeiras coisas que faço depois de acordar, ou então vou arranjando desculpas até regressar a casa. Não devia custar muito ir ao ginásio, porque fica mesmo ao lado da estação de comboios, por onde eu tenho inevitavelmente de passar todo o santo dia de semana e até alguns feriados e fins-de-semana (#miúdasuburbana #margemsulwayoflife #fertagusforever). Infelizmente, custa sim, nem eu sei bem como.

 

Isto de ir ao ginásio é um tormento!

 

No entanto, quando saio do ginásio, sinto-me toda uma nova pessoa, mais feliz, satisfeita com o grande feito de ter levado a cabo uma tarefa que acredito ser indispensável ao bem-estar mental e físico sem lhe ter voltado costas, por ser uma couch potato por natureza, obrigada a contrariar os seus instintos básicos de viver ao grande estilo dum canguru bebé. Penso que ainda é esse sentimento de missão cumprida e libertação de endorfinas que me faz ir voltando. Passo por fases em que pago a mensalidade para lá pôr os pés uma ou duas vezes num mês inteiro, mas também há alturas em que me consigo aguentar com pelo menos duas vezes por semana. 

 

Em geral, tento ver as idas ao ginásio como sendo tão importantes quanto tomar um medicamento que me tenha sido prescrito, e que a longo prazo me há-de fazer bem, mesmo que não seja possível ver resultados imediatos; ou tão essencial quanto comer um pequeno-almoço completo todas as manhãs. Tem de fazer parte da rotina. Se não fizer, ninguém morre, mas eu não quero chegar entrevada aos 30.

 

Por um lado, adoro ir ao ginásio e fazer exercício. No fundo-fundinho, sei que é necessário e que acabo por ficar sempre mais em paz comigo e com o mundo. Por outro, não há forma de contornar este assunto, sendo feliz e saudável sem precisar dum fardo extra, pois não? É pena.

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

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Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

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Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!

Terceira semana a tentar escrever um livro, e ainda não abandonei o barco

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Estou há quase três semanas a tentar escrever um livro, ou o que se possa tornar um, de volta do mesmo projecto, um recorde pessoal que não quero agoirar de forma alguma, mas que, contra todas as probabilidades e hábitos prévios, tenho conseguido levar a bom porto. São só nove páginas no Word, mas fui eu que as escrevi, de forma cuidada, e não simplesmente a pensar "aqui vai disto". Tem pés e cabeça e estou a tentar tranformá-las, um dia de cada vez, no livro que eu gostaria de ler. 

 

Mas tentar escrever um livro custa, como quase tudo o que é bom de alcançar na vida. Esta semana, em particular, cheguei à parte em que, depois de brevemente apresentada a premissa inicial, tenho de começar a dar dimensão às personagens. Já não podem ser só indivíduo X e indivíduo Y, têm de ser pessoas credíveis. Se as encontrássemos na rua e elas nos contassem a sua vida, poderíamos acreditar no que nos contariam acerca da sua família, dos seus amigos e do seu passado. Poderíamos visitá-las no seu local de trabalho e observar as suas rotinas diárias. Poderíamos convidá-las para jantar e notar que X poria a faca entre os dentes do garfo para cortar o bife antes de o molhar na gema do ovo e que Y seria vegetariana por razões médicas, mas não recusaria o paté de sardinha das entradas.

 

Todos os dias, antes de abrir o documento e retomar a releitura ou a escrita, sofro duma fobia que me aterroriza constantemente: e se hoje for o dia em que eu perco o interesse nesta história? Ando nisto há dezassete dias, passeio o computador para todo o lado (costas sofrem), ou seja, tive que enfrentar pelo menos umas dez ou doze oportunidades de insucesso e dissatisfação (houve dias em que nem consegui ligar o computador, preferi ficar a pensar na história sem lhe acrescentar nada). Conheço tão bem essa sensação, a sensação de que ainda não vai ser dessa vez que levo um projecto a bom porto, que há mil e uma desculpas pelas quais o terei de abandonar, ora porque a escrita revela imaturidade, ora porque as personagens são aborrecidas, ora porque o enredo há-de chegar a uma estrada sem retorno, ora porque já centenas de autores que admiro já criaram coisas tão boas, e o que poderia eu trazer ao mundo que se comparasse minimamente, merecedor da sua própria existência...? É toda uma logística mental que me vejo obrigada a equilibrar, antes de entrar em paranóia e deitar tudo a perder, três (quatro, cinco,. .. cem) semanas de luta e conquista pessoal sem resultado.

 

Ainda por cima, ando a tentar escrever um livro ao mesmo tempo que outro texto, para submeter a um concurso em Agosto, cujo tema e rumo tem de ser totalmente diferente e cuja finalidade é mais palpável (um prémio monetário muito atraente, diga-se de passagem). Dito isto, há que ser perseverante. Lutar contra os bloqueios e as desculpas. Pássaro por pássaro, palavra por palavra, página por página. É fácil desistir quando não estabelecemos metas, mas tenho tentado ver a escrita como o meu novo emprego a part-time. Quando não estou a dar aulas, estou a escrever, ou a pensar no que escrever. A minha meta é levar esta empreitada com tanta seriedade quanto for humanamente possível. A criatividade também deve ser disciplinada e treinada, como outras ferramentas de trabalho. Tive sorte, inspiração e pouca auto-censura há uma década e foi assim que comecei, mas agora vejo-me a braços com a necessidade de fazer mais e melhor, tal como fiz quando o copywriting me pagou a licenciatura - escrita disciplinada, com método e um fim prático à vista. Eu até posso não escrever um livro brilhante aos 23 anos, mas, se o terminar, isso significará que serei capaz de o fazer mais vezes, com mais experiência, prática e - muito importante - fé e confiança.

 

Já agora, obrigada a quem deixou dicas no último texto que partilhei sobre o tema! Todas elas são óptimas e, se tiverem mais, avancem e partilhem-nas! 

Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou

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Depois do livro Essays in Love (em português, Ensaios de Amor), de Alain de Botton, li o outro que tinha comprado ao mesmo tempo quando estive na Escócia, que se chama The Course of Love (ou O Curso do Amor). Parece mais do mesmo, chover no molhado, mas não. Os ensaios foram o primeiro livro escrito pelo autor - aos 21 anos. Por outro lado, o segundo título é o seu romance mais recente. 

 

Mas vamos lá ver o que mais me agradou nesta leitura, de forma breve e sucinta.

 

Não deixando totalmente de parte a minha adoração pela pirosice que o amor pode trazer quando vivido em pleno, acho que inevitavelmente me tenho tornado um bocado mais céptica e cautelosa no que toca a este tópico tão sensível. Já dizia o ditado popular que gato escaldado... Além disso, deixei de me convencer com histórias de amor medíocres, cópia a papel químico das anteriores, boy meets girl, e depois já se sabe como todo o enredo se desenvolve - após um conflito lá pelo meio, acabam felizes para sempre, mas de forma muito irreal (a sério que nem uma discussão acerca de quem vai levar o lixo...?). Assumo-me uma enorme fã, por exemplo, da reflexão da voz narrativa acerca das complexidades humanas. É principalmente isto que mais me tem fascinado nos livros de Alain de Botton.

 

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Assim sendo, este é o segundo livro escrito pelo mesmo autor, sobre a mesma questão do amor como ele é na vida real, para pessoas reais, que me conquistou - uma lufada de ar fresco. Desta vez, no lugar do amor na idade jovem, pouco maduro, que termina numa separação efusiva, The Course of Love leva-nos a conhecer quase duas décadas vividas em conjunto pelos protagonistas (Rabih e Kirsten), desde o dia em que se conhecem, até ao momento em que, ao fim de tantos-tantos-tantos anos de casados, atingem uma dita maturidade e se começam realmente a compreender e a aceitar que o amor é mais do que uma emoção forte e que pode ser, por exemplo, os mundos que construíram em conjunto, o companheirismo, a família, os pequenos pedaços de vida diária, as memórias partilhadas.

 

Mais uma vez, este é, não só um romance, não só uma história de amor "baseada na vida real", como também uma espécie de ensaio filosófico e ainda uma exposição sobre temas ligados à psicologia. Muito destaque é conferido à dimensão interior, aos pensamentos, recalques, passado traumatizante das duas personagens principais e à forma como a relação com as respectivas figuras parentais afecta o seu comportamento na sua relação adulta, enquanto namorado e namorada, marido e mulher.

 

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Finalmente, tenho alguns comentários adicionais que gostaria de partilhar convosco.

 

Em primeiro lugar, acho que vou passar a oferecer este livro a todos os noivos para cujo casamento eu seja convidada. Aliás, tenho uma amiga que se vai casar no fim do ano e que vai ser a minha cobaia (nem que seja porque ela já manifestou vontade de ler este livro, quando publiquei uma passagem no Instagram). Ficam servidos com uma belíssima história de amor real e munidos de algumas reflexões que toda a gente deve ter em mente quando decide embarcar num compromisso sério ou mesmo para a vida

 

Em segundo lugar, tenho de recomendar este livro não só aos recém ou brevemente casados, como ainda com igual urgência a qualquer pessoa que precise de reflectir no que significa apaixonarmo-nos, aproximarmo-nos e levarmos uma relação amorosa a bom porto.

 

É uma leitura leve, descontraída (não obriga a um esforço mental desmesurado), mas após a qual não sentimos ter desperdiçado o nosso tempo. Alain de Botton é tudo em um: escritor, filósofo, psicólogo, sociólogo, amigo.

Um tipo de pessoa muito especial

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Há pessoas que passam despercebidas a vida inteira. Há pessoas que precisam de se esforçar para se fazerem ver. Há pessoas que entram numa sala e a iluminam. E há pessoas que, sorrateira, humilde e discretamente, conquistam toda a gente à sua volta em todas as salas do mundo.

 

A Inês é o melhor exemplo deste último tipo de pessoa. A existência deste perfil na Inês é tão icónico que ela nunca foi minimamente gozada no colégio nem na escola. Partindo do princípio de que os dois melhores amigos dela eram "gordos" e passaram a infância a ser achincalhados (eu incluída nesse par), de que a Inês teve dentes de tubarão até aos doze ou treze anos e de que não é uma super-modelo (apesar de ser elegante, gira gira tipo helicóptero, ter estilo e ter uns olhos clarinhos, uns caracóis maravilhosos e pele de bebé), a Inês poderia, no mínimo, ter aguentado umas bocas infantis no colégio.

 

Mas não.

 

Não conheço uma única pessoa que alguma vez tenha dito mal da Inês nas costas. Não conheço uma única pessoa que não goste dela. Em vinte e três anos, isto é um feito. Nem no auge das intrigas do sexto ou sétimo ano a Inês foi vítima do quotidiano "não sei quem gosta de não sei quem". Nunca ouvi rumores, boatos ou comentários maldosos sobre ela. Nunca, nunca, nunca.

 

A Inês emana uma calma que até pode não ser a que ela sente por dentro, mas que deixa os que a rodeiam muito impressionados (deixa-me a mim, pelo menos). A Inês é capaz de entrar calada e sair muda dum sítio qualquer, mas de certeza que, passados dez minutos, já tem no mínimo três pessoas à volta dela. A Inês não precisa de falar para ter o mundo aos pés dela. Perguntem ao resto dos amigos dela... Todos a têm como referência, seja qual for a crise em que estejam. A Inês é aquela amiga que tem sempre solução para todas as neuras dos que lhe pedem ajuda.

 

A Inês tem este poder sobre os outros de os fazer sentir parvos, tontos, mas sem os humilhar. Cada vez que me chateio com ela, até posso espernear, mandar vir, ter dúvidas existenciais... mas fico sempre com a sensação de que a Inês me vai levar a melhor e vai acabar a ter razão (em dezassete anos de amizade, ela só não teve razão uma vez, que aconteceu para aí há um mês, vocês vejam).

 

Ainda por cima, além de todos estes atributos invejáveis, a Inês é intelectual e emocionalmente inteligente e tem um coração do tamanho do mundo. Estão a ver aquelas pessoas "que nunca fariam mal a uma mosca" se o puderem evitar? A Inês é uma delas. Nunca diz asneiras (e repreende quem as diga ao lado dela), não grita no trânsito, diz o que tem a dizer directamente a quem o tem de dizer, a coisa mais violenta que já a ouvi gritar em quase duas décadas é o ocasional "OH BEATRIZ!". A Inês é tão boa pessoa, que passou dois meses a mediar o fim duma relação entre dois dos melhores amigos, que lhe andaram a esfregar o juízo constantemente, cada um a puxar para um lado, até aquilo ter mesmo dado as últimas. Mas ela fê-lo, como faz tudo na vida, com uma graça, paciência e bom senso que a maioria de nós perde ao fim de dois dias numa situação de tensão.

 

Não, nem sempre concordo com o que a Inês diz ou faz. Por vezes, sinto que andamos repetidamente às avessas por causa dos mesmos problemas. No entanto, não conheço ninguém com a cabeça e o coração tão no sítio, com valores morais e éticos tão definidos e tão correcta para com os restantes seres humanos do mundo.

 

Tenho uma sorte enorme por a Inês, calma, discreta e muito (muito, muito, muito, muito) mais calada do que eu, fazer parte da minha vida. 

 

Parabéns, Inês! Este é o teu postal de aniversário, porque os de papel são caríssimos e não dá para os ler a muitas pessoas ao mesmo tempo. Até já, que estou atrasada para o nosso almoço.

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