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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Como ficar dependente (ou largar a dependência) das apps: Hooked, de Nir Eyal

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Continuo nesta saga de descobrir mais sobre como funciona o cérebro humano e como processa informação. Não é a minha área de estudo, mas é tão interessante!

 

Desta vez, roubei o presente de Natal que encomendei para a minha amiga Inês, o livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, do investigador e consultor Nir Eyal. Ela tinha-mo pedido pelo Natal, mas a encomenda atrasou-se imenso e demorou um mês a chegar. Então, mal ele chegou cá a casa, acabei por lhe pegar e só o larguei depois de o terminar (e porque, enfim, tive de o devolver à destinatária original).


Por coincidência, li o Hooked num momento em que me estou a des(a)pegar das redes sociais. Apesar de muitas das actividades do meu dia-a-dia ainda serem feitas a partir do telemóvel, como questões de trabalho ou escrever no blog, tenho tentado reduzir o uso ao essencial, eliminando tanto quanto possível as redes sociais e as apps que consomem muito tempo. Mesmo que seja um par de minutos aqui e outros ali, o tempo de uso vai-se acumulando ao longo do dia e gera-se uma certa dependência através do hábito de desbloquear o telemóvel, visitar o Instagram, o Facebook, o WhatsApp, o Goodreads, até o extrato do PayPal.


Estar Hooked é estar, de certa forma, preso a qualquer coisa, é vermo-nos envolvidos num processo, imersos num estado de constante curiosidade quanto ao que nos pode revelar a cada instante. É exactamente o hábito que nos leva à dependência, prevista pelos criadores dessas apps, para chamar a atenção de tantos utilizadores quanto possível.


O processo que percorremos até nos sentirmos "enganchados" tem quatro passos: um gatilho (primeiro interno, depois externo), que por sua vez nos leva a uma acção, que gera uma recompensa variável e que nos incentiva a um investimento, voltando ao início do ciclo e do gatilho - uma "comichão" reflexo da necessidade de usar o produto, a app, de novo. Desta forma, criamos um hábito, isto é, um comportamento executado sem pensar.


Agora, perguntam vocês: mas isto de se trazer para o mercado produtos que brincam com a mente dos clientes e que têm em conta o cultivo de hábitos não é manipulação? De facto, o próprio Nir Eyal aborda esta vertente ética. Segundo ele, nos negócios não há maneira de evitar "entrar na mente" dos clientes, e que deve ficar à consciência e responsabilidade dos empreendedores fazê-lo para o "bem" ou para o "mal" - o que mais deve interessar é pensar se o produto melhora ou não a vida dos utilizadores e se o próprio empreendedor também o usaria. Se se responder afirmativamente a essas duas perguntas, tanto melhor!


Por agora, com algumas reservas, acho que concordo com esse método de avaliação ética. Ler este livro foi uma boa experiência, tanto colocando-me do lado dos empreendedores, quanto dos utilizadores. Além disso, ver desconstruído o processo que leva à dependência das tecnologias também me motiva a largá-las, dado que agora conheço a tal "manipulação" e os truques usados para incentivar ao uso a que me encontro sujeita. Devemos usar seja que produto for como vitaminas, não como analgésicos (jargão farmacêutico do autor!).


No que toca a aspectos mais estruturais do livro, primeiro tenho de apontar uma falha: o subtítulo induziu-me ao erro de pensar em "produtos" em geral, mas, na verdade, os produtos discutidos são sempre apps e websites, não propriamente escovas de dentes ou lençóis. Por fim, é de louvar todo o livro Hooked enquanto um produto ele mesmo: não existe edição em paperback, a capa dura vem envolta numa sobrecapa colorida, a impressão é feita em papel daquele que nos leva a enfiar o nariz lá dentro, o tipo de letra é grande e há algumas imagens, tabelas e resumos de ideias aqui e ali, fazendo parecer que a leitura segue escorreita e rápida... É um produto muito eficaz a chamar e a prender a atenção do leitor!

 

Terminado o Hooked, continuo a agradecer sugestões de livros sobre temas afins.


Boas leituras! 📚🤓

Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos

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A Internet também me traz ansiedade. A volatilidade da informação e da forma como circula assusta-me: a rapidez vertiginosa com que as regras são alteradas, o tipo de discurso, as mil e uma artimanhas que surgem todos os dias para se ter o blog ou site mais lido ou o produto mais popular.


Como dizia Bauman, é tudo tão líquido. Quando sinto que estou, finalmente, a habituar-me a um tipo de linguagem e objectivos na Internet, eis que o jogo dá outra vez a volta. Também não sentem que, muitas vezes, vivemos submissos ao poder dos algoritmos e da manipulação da mente dos outros? Temos de ter as fotos de Instagram mais XPTO, definir uma paleta de cores pessoal, as palavras-chave certas, os títulos que causam mais sensação... E onde ficam a honestidade, simplicidade e autenticidade nisto tudo?


Já não nos representamos a nós mesmos. Representamos uma marca - agora, somos uma marca. Temos de investir em branding, porque, dizem, há que mostrar aquilo que nos distingue de todos os outros, mas, atenção, sempre seguindo regras estéticas, e de marketing, e de linguagem, e de não sei o quê que tem de ser feito, senão nunca sairemos da cepa-torta da produção caseira e amadora.


Como se houvesse mal nisso!


Para mim, alguns blogs e perfis continuam a ser um reduto do que eu esperava que toda a Internet continuasse a ser. Felizmente, nem toda a gente foi contaminada pelo jargão empresarial que retira a alegria de criar um projecto pessoal desinteressado.


A gestão de redes sociais fascina-me e, ao mesmo tempo, faz-me sentir pequenina. Fascina-me enquanto negócio, fascina-me que as empresas tentem acompanhar o ritmo dos dias e que tenham de se reinventar para sobreviver no mercado. Mas, então... e as pessoas? As pessoas também têm de se vender como se fossem empresas? Eu sei que há quem, realmente, seja uma empresa (o seu ganha-pão assim o determina), mas, então... e os outros?


Há dez anos que crio blogs só porque sim, porque gosto de escrever, de partilhar, de desabafar. Este foi criado há sete anos e meio e por aqui fiquei, e pode ter mudado muita coisa deste lado, mas o que não mudou foi a intenção de escrever mais e melhor enquanto desafio pessoal e de superação, sem olhar demasiado a números. Embora os números me digam quantas pessoas andam por aqui (o que é gratificante) continuo sempre a manter este espaço por gosto e não por quaisquer expectativas ou contrapartidas mercantilistas.


Um dia, pode ser que engula estas palavras e me renda a parcerias, estatísticas, dividendos. Quem sabe...? A verdade é que até o meu trabalho e ambições profissionais futuras dependem um pouco da Internet. No entanto, hoje não é esse dia. Por enquanto, o meu blog, Instagram e Facebook são meros passatempos, nos quais invisto sem ter em vista mais do que a diversão que me permitem ter e, quiçá, oferecer. São o meu laboratório de experiências, ocupam o tempo que não gasto a olhar para as paredes ou a consumir-me em aborrecimentos vários. Há quem faça miniaturas, há quem coleccione moedas, há quem catalogue passarinhos. Eu ando por aqui a debitar sobre coisas aleatórias que me interessam.


Os meus blogs e perfis preferidos continuam a ser aqueles que têm "gente dentro", e que não se vendem por tuta e meia. Não julgo quem se vende, mas sim o facto de que, hoje em dia, sinto que estão todos a vender-se e que é tudo mais do mesmo.


No outro dia, dizia um professor meu que "as tendências estão a mudar, ser-se criativo começa a ser exactamente não ter criatividade". E eu não digo que tenhamos de deixar de ser totalmente criativos, mas neste momento já me é muito difícil acompanhar tanta "criatividade". Fico cansada, desgastada pela produção constante, pela urgência das mensagens, pelo conceito de storytelling a ser usado para tudo e mais alguma coisa, em nome da popularidade e da tal "identidade única" que procuramos. Na esperança de estabelecermos um monopólio sobre a nossa auto-imagem, gritamos que somos diferentes de todos os outros, mas depois fazemos quase o mesmo, andamos pelas modas.


Estes são alguns motivos pelos quais me tenho tentado afastar das redes sociais. O desfile de histórias inspiradoras que vendem e que se vendem, do networking, da luta pelo primeiro lugar num mural de rede social alheio pedem de mim energia que não tenho. Até duma perspectiva empresarial e profissional, por mais quanto tempo aguentaremos tamanhas avalanches? Ainda será possível viver e ser-se relevante offline?


Serve este texto como desabafo e reflexão da própria.

De volta à literatura em português: Luanda, Lisboa, Paraíso (Djaimilia Pereira de Almeida)

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Já imaginaram um mundo de homens sem mulheres? Sei que o Murakami e o Hemingway têm uns livros de contos com um título parecido, mas desta vez ficamo-nos por bem mais perto do que as paisagens nipónicas ou americanas. Ficamo-nos, mais particularmente, por Lisboa, começando em Luanda, em direcção ao Paraíso.

 

Hoje, escrevo sobre Luanda, Lisboa, Paraíso, o romance mais recente da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida (que me despertou a atenção, curiosamente, por se ter doutorado num dos programas que me interessam na FLUL). Li-o este mês de propósito, para Uma Dúzia de Livros, criado pela Rita da Nova, cujo objectivo de Janeiro é ler "um livro escrito por uma mulher".


Antes de prosseguir, gostaria de partilhar já que o adorei. Luanda, Lisboa, Paraíso é um daqueles livros que parece ter sido escrito palavra a palavra, com todo o cuidado, nenhuma delas aleatória. Todas têm um sentido e um lugar. Cheguei a ler a mesma página várias vezes, para aproveitar todos os bocadinhos que poderia não ter saboreado à primeira, segunda ou terceira vez. Na minha opinião, é isto que faz um óptimo livro, seja qual for o género.


Os protagonistas desta história são pai e filho, Cartola e Aquiles, que vivem num mundo pouco justo e onde a desilusão é o prato do dia, acompanhados pelos seus amigos Pepe e Iuri. São homens que, embora não tenham aprendido a viver sem mulheres, têm de aprender a sobreviver sem elas. Claro que também há mulheres na história, mas as que existem estão bem longe, ou são figurantes das vidas dos homens que, por algum motivo, assombram. Os protagonistas são homens desorientados, as restantes são as mulheres que lhes dão norte ou que os denorteiam.


Apesar da dimensão aparentemente redutora sobre as personagens femininas que possam retirar das minhas primeiras impressões, a verdade é que um romance semelhante poderia ter sido igualmente escrito do ponto de vista dessas mulheres, porque também elas vivem sem homens. Esta foi a minha leitura, mas talvez outras pessoas consigam ler Luanda, Lisboa, Paraíso de forma diferente. Às mulheres, é concedida uma aura mística, superior, sensual, como se, tal como os deuses, fossem capazes de revelar o melhor dos homens quando uns e outros se amam.


Por vezes, os mundos dos homens e das mulheres convergem, e essas são provavelmente as únicas partes em que Luanda, Lisboa, Paraíso se tornou um pouco menos triste para mim. É uma história bonita, mas mesmo triste. Raramente encontro histórias felizes na boa literatura, já que tem de haver, pelo menos, algum conflito que interesse ao leitor. No entanto, tirando a promessa do amor e da família que vão sentindo de longe, Cartola e Aquiles raramente vivem, limitando-se a sobreviver.


E mais não digo, para não vos estragar com spoilers!

 

Luanda, Lisboa, Paraíso passou a ser um dos meus livros de ficção preferidos dos últimos tempos. Foi o primeiro deste ano, escrito por uma mulher (já que li tão poucas em 2018), e ainda bem que o escolhi para iniciar o desafio Uma Dúzia de Livros. Além disso, hei-de dar mais oportunidades aos livros da Djaimilia Pereira de Almeida. 

Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu

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É muito mais fácil escrever sobre livros cujos autores dificilmente conseguirão ler as nossas críticas ou interpretações. Se escrever sobre um livro dum autor americano, francês, chinês, com uma tiragem considerável e/ou uma língua diferente, a minha opinião será uma em muitas, terá palavras irreconhecíveis ao olho estrangeiro e distante.


Tenho sempre um certo receio de escrever algo que não faz sentido ou que não vai ao encontro das intenções originais do autor. Esta sensação é um prolongamento da minha mania de imaginar o que os outros acharão do que eu digo, que costuma ser uma sensação útil e produtiva, só que nem sempre conveniente à reflexão livre e pública. Ultimamente tenho reconhecido - eu gosto de agradar. No fundo, todos gostamos, em graus distintos, ou não?


Isto aplica-se particularmente a autores portugueses ou lusófonos que, ao procurarem (se procurarem!) textos sobre as suas obras, se deparem com o que os seus leitores escreveram. Sei que pode acontecer, porque já me aconteceu (do ponto de vista de quem escreve sobre o que se escreveu). O país é pequeno, a língua atravessa fronteiras, a Internet liga-nos. Felizmente, este blog vai crescendo e aparecendo, o que é uma alegria com alguma responsabilidade (pelo menos, na minha cabeça), mas igual ingenuidade. Às vezes, penso "sou nova, vão-me dar o desconto se escrever algum disparate", mas os anos também passam por mim, não vou ficar nos vinte-e-poucos para sempre é há pessoas de todas as idades e meios a visitarem o blog (mais uma vez, uma honra que implica juízo, criação cuidadosa de conteúdo, o meu hobbie idóneo, o meu exercício intelectual que se estende ao Outro que eu não sei quem é).


No entanto, enquanto escrevo este texto, relembro pela enésima vez: os livros (e os blogs) são o que cada um tiver escrito ou lido. Ou que quiser escrever, ou que quiser ler. Para mim, isto. Para ti, aquilo. Não deve haver muitas formas de contornar a variedade de olhares. Talvez o autor não tenha esperado certos modos de ler a história que criou. Talvez o leitor veja cortinas onde só existiam janelas e paredes. Talvez os dois devam, exactamente, dialogar.


Finda esta voltinha inesperada pelo meu constrangimento e pudor, aviso que só vinha aqui escrever sobre um livro do qual gostei muito, acabado de ler há menos duma hora, mas com tanta tagarelice esse texto vai ter de ficar para o próximo post. Retomemos depois deste curto atalho.

Todos juntos nos #19para2019!

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Quando desafiei algumas pessoas para a lista de "19 para 2019", não pensei que realmente fossem pegar na ideia e entrassem na brincadeira.

 

Menos de nove dias depois, todos os desafiados cumpriram e... contagiaram. Parece que a equipa dos Blogs do Sapo até instituiu a tag #19para2019 e alargou a brincadeira a toda a comunidade.

 

Portanto, até agora temos estes participantes:

 

(E a lista vai aumentando um pouco todos os dias!)


Resta-me agradecer toda a partilha celebrada no início dum novo ano, por darem a conhecer os vossos objectivos e ideias e pela simpatia gerada.

 

No entanto, não se esqueçam: estas listas são apenas referenciais, não são mandamentos gravados em pedra. O que interessa é fazer por cumprir alguns, "enjoying the view", sem ressentimentos no final do ano por eventuais "falhas".

 

Obrigada e feliz continuação de #19para2019!

Política americana no feminino: Dear Madam President (Jennifer Palmieri)

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Há livros que esperamos que nos inspirem e nos informem, deixando um call for action ou um testemunho arrebatador. Este era um desses casos: Dear Madam President: an open letter to the women who will run the world, da autora Jennifer Palmieri, antiga directora de comunicações da campanha eleitoral de Hillary Clinton  à presidência dos EUA e profissional com várias décadas de experiência na Casa Branca. Tinha tantas expectativas para este livro!


No entanto, não estava escrito. É que não estava mesmo. Apesar do testemunho que foi sem dúvida interessante para mim, que nunca pisei solo americano e que sigo a vida política dos Estados Unidos a partir da comunicação social portuguesa, redes sociais e apenas algumas páginas estrangeiras online, sinto que Dear Madam President ficou aquém do que eu esperava. Não é um testemunho muito técnico acerca da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA, nem um tratado sobre política americana no feminino, mas sim uma data de memórias desorganizadas acerca desses temas e doutros eventos da vida pessoal e profissional da autora.


A exortação do título Dear Madam President, dirigida a uma hipotética futura presidente - mulher - dos Estados Unidos acaba por funcionar como manobra publicitária, mas não me convenceu, pareceu-me forçada. Ainda assim, retirei algumas lições de perseverança e reflexões acerca da presença feminina num mundo criado, definido e adaptado por e para homens ao longo dos séculos, principalmente que há um paradigma implícito acerca do que se espera dum homem que se candidata a um cargo como o da presidência dos EUA, mas que continua a ser difícil perceber o que esperar duma mulher nesse contexto, por ser novidade, pela biologia diferente, pelo comportamento, forma de estar e reagir. Nota-se uma certa desconfiança. Ainda é esperado que a mulher preencha os mesmos requisitos esperados dum homem, e mais qualquer coisa que inevitavelmente lhe faltará ou que também se espera dela por ser... mulher.

 

Com tanto que eu esperava aprender de alguém que teve um papel central na Sala Oval de mais do que um presidente, concluo que Jennifer Palmieri partilhou o suficiente, mas que poderia partilhar muito mais e com mais coerência e coesão. A escrita é muito corrida, eloquente, fácil de entender sem entediar, mas cem páginas cheias de conselhos generalistas para se ser uma mulher numa posição de poder nunca chegariam para me encher as medidas. Contudo, atenção: quem me dera que todo o livro tivesse sido como foram as últimas vinte páginas! Aí sim, penso que foi atingido um bom equilíbrio entre o que é um livro de memórias, uma reflexão política/social e uma confidência entre alguém com muita experiência e os seus leitores.


Tenho a certeza de que há melhores livros sobre isto, que me ensinem mais, embora este não tenha sido um mau começo. Afinal, cem páginas lêem-se rapidamente. Dear Madam President foi uma leitura agradável, apenas pouco surpreendente ou construtiva.

 

The generations of women before us, who made countless, mostly anonymous, sacrifices in the struggle for equality, paved the way for real change. In spite of the long odds against them, they went after the impossible. It is up to us—the women in America today—to finish the job. It’s a thrilling challenge. Go show us what a woman leading us in this new world looks like. We can’t wait to see.

 

Eu, Inês

 

No quinto ano, passei a ter vários professores. Era uma novidade para mim, mas fiquei muito entusiasmada. Todos os dias, as caras e as matérias rodavam. Havia vários estilos de ensino, pessoas diferentes, livros que se retiravam da mochila, que se punham dentro, que se passavam para a prateleira debaixo da mesa, que se confundiam com os do colega do lado.


Também foi no quinto ano que descobri que me chamava Inês - ou assim julgavam os professores que se esqueciam do meu nome. Eu só pensava que, tal como eu tinha vários professores, também eles tinham vários alunos - aliás, muitos mais. Então, desculpava-os e esquecia o assunto.


Os anos passaram e cheguei ao fim da escola secundária como começara o quinto ano: obviamente, Inês. Ao longo deste tempo todo, foi esse o meu nome. Até vim a descobrir que os professores sabiam realmente que eu me chamava Beatriz - mas era normal olharem para mim e sair-lhes "Inês". Já me conheciam há mais dum ano ou dois e não o conseguiam evitar.


Depois, segui para a universidade, mais especificamente para a Faculdade de Letras. Foram três anos bastante felizes, durante os quais tive imensas disciplinas enriquecedoras e essenciais para a definição dos meus interesses até à actualidade. Quanto ao meu nome, metade dos professores acertava ao fim dum par de vezes e nomes aleatórios. A outra metade chamava-me, obviamente, Inês.

 

No fim da licenciatura, fui trabalhar e estudar para Banguecoque. Por acaso, nunca ninguém me chamou Inês - seria no mínimo estranho, dada a fonética estrangeira e falta de equivalente claro em inglês ou, Buda nos livre, em tailandês.


No ano passado, voltei a Portugal e tenho continuado a trabalhar e a estudar maioritariamente com estrangeiros, excepto numa empresa, onde tenho dado aulas de inglês há alguns meses. Penso que todos sabem que eu me chamo Beatriz por esta altura, mas ontem confirmou-se a perpetuação da saga: uma das alunas chamou-me, obviamente, Inês.


O mais engraçado disto tudo é que uma das coisas que me lembro de a minha família me ter dito quando era criança é que eu era para me chamar ou Beatriz... ou Mariana... ou, obviamente, Inês.


E, por acaso, tenho tido muita sorte com quem se chama Inês na minha vida. Há coincidências felizes! Isto é coisa de Inês.


Se eu já vivi outra vida, só poderei ter sido, obviamente, Inês. Se houver outra vida depois da morte, a minha única expectativa é que eu me chame, obviamente, Inês. 

Ainda o ano novo: 19 PARA 2019

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Ontem, ouvi mais um episódio do podcast Happier, apresentado pela escritora Gretchen Rubin (devem conhecê-la à conta do seu livro The Happiness Project) e pela sua irmã Elizabeth Craft. Este último chama-se "Plan Your 19 for 2019" e incita os ouvintes a fazer isso mesmo, criar uma lista de 19 desejos, objectivos ou ideias para concretizar neste novo ano.

 

Eu, que adoro listas, comecei logo a delinear a minha, ainda nem o episódio tinha acabado.

 

No início de 2018, partilhei convosco uma lista de palavras. Agora, partilho os meus "19 para 2019", que fazem imenso sentido para mim. Acho que vai ser um ano mais equilibrado que o anterior, à partida já não há desculpas para a falta de concentração que me governou em 2018 e fiz questão de apontar tudo o que me apetece fazer (e que espero realizar) desta vez, tanto no meu Bullet Journal quanto aqui. A primeira parte é constituída por objectivos gerais ligados a projectos pessoais e a segunda foi reservada para os literários.

 

19 PARA 2019

  1. Tirar três cursos de formação 
  2. Criar um curso, presencial ou online - dar uso à formação de formadora e à experiência que tenho adquirido como professora e explicadora, e ao incentivo que alguns alunos me têm dado para o fazer
  3. Concorrer a um concurso literário 
  4. Voltar ao ginásio e/ou ir pelo menos uma vez por semana ao pilates
  5. Fazer duas viagens, ao estrangeiro e/ou dentro de Portugal
  6. Começar o podcast que já planeei e publicar um episódio por mês 
  7. Pedir equivalências para as disciplinas do mestrado em Linguística que deixei a meio em Banguecoque 
  8. Continuar o Bullet Journal
  9. Vender ou dar todos os livros que já seleccionei
  10. Ler 35 livros
  11. Não comprar mais de 10 livros
  12. Reler Essays in Love + The Course of Love
  13. Ler 17 autores portugueses/lusófonos
  14. Ler 15 autoras mulheres
  15. Conhecer mais dois Nobel da Literatura 
  16. Ler um autor russo
  17. Ler um autor asiático 
  18. Ler um autor da América do Sul
  19. Ler um livro com mais de 400 páginas

 

E por aí, mais alguém gostaria de fazer um 19 para 2019? Já agora, em jeito de brincadeira, desafio os Blogs do Sapo, a Carolina, a Rita, a  Patrícia e a Joana a participarem na elaboração desta lista e a publicarem-na nos seus blogs. Ainda outra sugestão: também pode ser uma lista de 19 itens sobre blogs, livros, filmes, eventos...

 

Boa sorte!

Bioliderança: Porque seguimos quem seguimos? (Paulo Finuras)

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O título Bioliderança poderá suscitar algumas dúvidas ao leitor absolutamente leigo, mas o subtítulo deixa pouco espaço para que elas persistam: Porque seguimos quem seguimos?


Ultimamente, tenho-me interessado por muitos temas relacionados com a psicologia humana, muito em parte devido a uma disciplina do mestrado em que me inscrevi como opcional, Cognição e Criatividade. Tenho gostado muito de aprender como é que os nossos cérebros funcionam, seja em termos de emoções, processos cognitivos, percepção, recepção de estímulos, reacções, e ainda como é que ele evoluiu desde os tempos ancestrais até ser o que se pensa ser hoje em dia.


Há algumas semanas, acabei por encontrar uma série de entrevistas sobre psicologia evolutiva do podcast Quarenta e Cinco Graus, apresentado por José Maria Pimentel, e um dos convidados foi o Prof. Paulo Finuras, autor deste livro. Eu nem sabia que em Portugal se faz investigação nesta área, nomeadamente ligando-a às ciências políticas, sociais e à gestão. Fiquei muito interessada na conversa com este convidado e acabei por comprar o Bioliderança.

 


Bioliderança é um livro curto, mas assertivo. Na Introdução, é logo explicado: a maioria dos capítulos rege-se pelo sistema pergunta-resposta, alongando-se por poucas páginas de cada vez, facilitando a leitura e aguçando a curiosidade. Algumas dessas perguntas são:

  • Por que razão nos deve interessar o tema da Liderança? (capítulo 1)
  • Por que razão a maioria dos líderes são homens? (capítulo 7)
  • Por que motivo falham os líderes e a liderança? (capítulo 9)
  • Por que razão continuamos a seguir líderes autoritários e dominadores? (capítulo 11)
  • Qual a relação entre a genética e a liderança (capítulo 15)


Parece muito interessante, não é verdade? Aconselho particularmente a quem ocupa posições de liderança a nível profissional, quem se encontra desagradado com a forma como é liderado e a quem quer perceber melhor como elegemos os nossos políticos/gestores/chefes e como fazê-lo melhor.

 

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A transdisciplinaridade e a fácil transferência deste conhecimento para diferentes áreas e mercados de trabalho é uma das vantagens mais significativas de Bioliderança. Quem diria que poderíamos colocar - entre outros - biologia, psicologia, gestão de recursos humanos e política num só tema?


Entre tantos motivos e conclusões que cada um de nós poderá encontrar para ler um livro assim, destaco alguns que foram centrais para mim. Entender quais as diferenças entre ter poder e ter autoridade; perceber algumas das origens da desigualdade entre homens e mulheres em posições de liderança; quais os vários tipos de líder; qual a razão de haver um perfil físico mais ou menos transversal aos chefes políticos; como é que o nosso cérebro, programado pelas circunstâncias ancestrais, se deixa enganar por esses moldes "desactualizados" no século XXI; quais os desafios resultantes dessa disparidade e como atenuá-los - são estes alguns dos tópicos que mais me suscitaram a atenção.

 

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No entanto, depois de tanto elogio a este livro e ao trabalho do Prof. Paulo Finuras, não posso deixar de apontar algumas falhas que talvez possam ser colmatadas noutras edições ou livros. Por exemplo, a pontuação, as incoerências e as gralhas. Sei que nem todos temos de ser excelentes escritores, mas um livro com tanto potencial para fazer divulgação científica ao grande público poderia ter sido sujeito a uma revisão e edição cuidadas. Ainda por cima, sendo um livro tão curto, nem seria um processo muito demorado ou, quiçá, dispendioso. Posso estar a ser demasiado picuinhas, mas um texto bem elaborado e corrigido é meio caminho andado para uma leitura prazerosa e sem solavancos.


Se também ficaram curiosos, eu encomendei o meu exemplar de Bioliderança pela Wook, demorou alguns dias a chegar, mas leu-se rapidamente. Fica a sugestão!


Boas leituras e procrastinações!

Sítios que me fazem feliz #1: Biblioteca da FLUL

Tirem-me quase tudo, mas não me tirem a possibilidade de voltar aos sítios onde fui feliz. De boas memórias está o coração cheio, poderia ser o ditado. Por isso, lembrei-me de começar esta colecção de textos, apenas um exercício de registo e partilha sobre os sítios dos quais eu gosto, não só em Lisboa como à volta do mundo, para mais tarde ler e recordar.

 

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Este é o primeiro.


Sem surpresa, um dos meus sítios favoritos é a Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde devo ter passado metade do tempo da minha licenciatura. Enquanto estudei no estrangeiro, o que eu não daria por tê-la de volta! Teria sido muito mais feliz nesse mestrado, se pudesse ter estudado na minha biblioteca preferida. Poderia ter sentido um pouco mais de motivação. Ter-me-ia sentido menos perdida .


A primeira vez que entrei na Biblioteca da FLUL foi no início de 2013. Na altura, já calculava que a probabilidade de ir parar à FLUL alguns meses mais tarde era elevada e quando houve um Dia Aberto decidi ir conhecer a faculdade, na Cidade Universitária.


Quase três anos depois, talvez estas sensações sejam idealizadas à distância, mas vivi os anos mais felizes da minha vida enquanto estudei na FLUL. Vivi uma combinação de circunstâncias muito felizes nessa altura e, obviamente, teria de haver sempre uma biblioteca pelo meio da equação.

 

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Li bastantes livros da Biblioteca da FLUL, fotocopiei uns tantos, li partes doutros, raramente não encontrei lá os livros de que precisava (e principalmente aqueles de que não precisava). Esta biblioteca acolhedora, aparentemente sem fim para quem decide aventurar-se pelas suas estantes, iluminada como muito poucos sítios ainda são, com luzes de tom amarelado e através dalgumas janelas e janelinhas por onde até nos esquecemos de olhar, só contribui para aumentar o meu amor pelas letras. Um dia, gostaria de lá levar alguém sem inclinação para os livros e observar a sua reacção. Imagino que não resistisse a pegar num ou noutro, nem que por mera curiosidade.

 

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As fotografias não fazem justiça à grandiosidade da Biblioteca da FLUL. A quantos alunos dará abrigo a cada nova época de exames? Quantos cérebros a bulir em uníssono? Não é por acaso que é o poiso preferido de alunos de Medicina e Direito, que vêm doutros lados da alameda para ali trabalharem. Por vezes, os cartões de visitante esgotam. É normal. Não existe quem resista à Biblioteca da FLUL, um dos melhores investimentos da Universidade de Lisboa nas últimas décadas.

 

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É um local calmo, de silêncio, de paz, de respeito, de homenagem ao conhecimento. Não se fala lá dentro, sente-se a pressão para ler ou produzir texto num ciclo analógico de criação e leitura. Sente-se o bafo dos antigos e dos novos a emanar das capas. Coabitam séculos de gerações nas mesmas cotas. Apercebemo-nos da nossa insignificância e aprendemos uma lição de humildade, sem perder a vontade de mais lombadas nas mãos que nos domestiquem a rebeldia dos pensamentos voláteis.


Se puderem, passem por lá um dia destes, como ao sábado de manhã, quando a faculdade se encontra mais vazia. Qualquer pessoa pode entrar, pedindo um cartão de visitante em troca dum documento de identificação. Infelizmente, só ainda não é possível requisitar livros bem o cartão de aluno. Boa visita!