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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

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Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

Aos 23

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Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

Fé, questionamento e sentido de humor: Caim (José Saramago)

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Quem é que nunca se zangou com Deus? Quem é que não Lhe fez perguntas que acabam por ecoar no vazio? Quem é que nunca se sentiu endrominado, frustrado, descrente?


Mesmo que não nos identifiquemos com elas, muitos de nós cresceram no meio de referências cristãs, quiçá católicas. Sempre ouvimos falar de Deus e do poder que tem sobre as nossas vidas, das histórias da Bíblia e da sua relação com a História. Este livro é para quem tem muitas perguntas e poucas respostas, crente ou descrente, praticante ou não praticante, desde que consiga encontrar um escape no humor e na exposição do absurdo.


Há quase duas semanas, acabei de ler o livro Caim, de José Saramago. Gostei muito e só tenho pena de me faltar cultura bíblica para entender tudo ainda melhor, para ainda mais me rir. É um livro tão pequeno, mas tão engraçado. E tão polémico. Sei que pode haver quem se ofenda. Ainda assim, ao ler sobre as aventuras de Caim pelas palavras de Saramago, imaginei-o numa discussão acesa com Deus, porque nem todos podemos manter a fé perante tantas dúvidas, porque Deus nem sempre assiste, ao que parece, e porque somos apenas humanos e procuramos sentido em tudo, sem conseguirmos encontrá-lo sempre. Para os crentes, penso que pode ser uma forma de reler a religião, de forma a testar a sua própria fé e... enfim, sentido de humor.


Por ter sido Saramago a escrevê-lo, também imaginei a leitura na voz dum avô resmungão, revoltado contra as injustiças do universo nos últimos anos da sua vida - que provavelmente foi o caso. Por estar cheio de provocações, é daqueles livros de que se gosta muito ou que se odeia, mas é impossível ficar indiferente ao questionamento constante de Deus, cheio de falhas, não só antropomórfico, como também humanizado, rival-amigo de Satanás, chefe dos anjos, vivendo a eternidade a seu belprazer.


Infelizmente, Caim não é um dos meus livros favoritos escritos por Saramago - não pela parte religiosa, mas pela literária. Não lhe encontrei nada de especial, além da indagação e da ridicularização da crença no divino, porque o resto me pareceu vulgar, pouco ambicioso e surpreendente. Além disso, claro que não ajuda a minha falta de conhecimento profundo acerca da Bíblia! De resto, por ser um romance curto e cheio de imprecações que fariam um adolescente corar, recomendo para quando precisarem de uma leitura rápida e bem disposta, mas não menos desafiante.

 

📝 Pergunta para queijinho: qual é o vosso livro favorito de Saramago? E porquê?

Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

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Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

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🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?