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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Nota breve

Eu já me importei se o meu blog aparecia nas primeiras páginas do Google, ou não. Escrever para blogs doutras pessoas e empresas, para pagar a licenciatura, viciou-me em mesquinhices de SEO e marketing digital. E funcionou. Hoje em dia, se estiver a calhar, boa. Se não calhar, não forço.

 

Sei que há relativamente poucas pessoas a lerem o que escrevo, mas sei que o fazem por gosto. Voltam, não porque o algoritmo de um motor de busca os encaminhou para aqui, mas porque gostam genuinamente de cá estar (espero eu). Por isso, ao longo dos anos, vejo, muitas vezes, as mesmas caras. É bonito. Obrigada. Para que escreve uma pessoa, senão para ser lida?

 

Não sou a pessoa mais-tudo do mundo, mas sei que tenho as minhas qualidades. Sou muita coisa, mas ultimamente quero aprender a ser mais autêntica e generosa. Quero seguir os meus verdadeiros interesses, e não o que alguém ditou, ou sequer sugeriu, para mim. Em troca, espero também ter tempo e disponibilidade mental para os outros, transmitir serenidade (tanto quanto possível), e isto sem nunca abdicar da minha identidade e daquilo que me interessa. Sei que ambos são compatíveis.

 

No blog, na escrita ou na vida, por agora estou (sou?) assim.

Ainda a despenalização da eutanásia

No outro dia, a minha avó disse-me uma das coisas mais dolorosas de sempre. A minha avó disse-me que, no dia em que se vir sem liberdade de movimentos, sem conseguir garantir a sua independência e autonomia, com dores físicas (e principalmente uma grande dor interior), vai pensar em suicidar-se.


No que toca a esta discussão sobre a despenalização da eutanásia em Portugal, confesso que me poderão faltar argumentos técnicos, médicos ou legais. No entanto, o que não me falta é a sensibilidade de alguém que ama e pretende proteger os seus entes queridos de qualquer dor, até ao fim dos seus dias, não importa quando ou porquê. Quero que vivam por gosto, não por obrigação. Mas não é fácil chegar a consenso nestes assuntos, pois não?


A minha avó é a minha heroína. Quando me faltou uma mãe, foi ela que se chegou à frente para ocupar essa função. É a pessoa mais generosa, abnegada e também senhora do seu nariz e da sua liberdade que conheço. A minha avó tem 78 anos, mas pega no carro e nas suas pernas e lá vai ela a todo o lado, principalmente pelos outros. Claro que a idade pesa e não vai para trás, por isso também sente que a agilidade e a rapidez do corpo de outrora já não são as mesmas. As pessoas não são eternas, o corpo humano é falível.


A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida e eu não quero que a pessoa mais importante da minha vida vá dormir a pensar que, se sofrer um envelhecimento incapacitante, a única solução para terminar os seus dias com a dignidade que acha necessária (o que inclui a sua individualidade, a sua liberdade, a sua saúde e conforto) passará por morrer sozinha e de sabe-se lá que forma, em segredo, por desespero.


E, assim como no toca à minha avó, não quero que nenhum português tenha de ouvir da boca dos seus familiares ou amigos que, um dia que percam as condições necessárias para viver com a dignidade que consideram necessária, por motivos de falta de saúde, pretendam suicidar-se, ou que sequer pensem nisto.
Infelizmente, há outro lado. Eu também não quero que a alternativa a esse fim aconteça sem lei, sem garantias de suporte psicológico, sem consenso entre médicos, sem condições hospitalares, sem fundamentação, sem garantias, sem mecanismos que possam proteger as famílias que assim escolhem. Tomar uma decisão colectiva seria só o primeiro passo: e o resto?


No fundo, o que me preocupa é que a sociedade e o horizonte político do país ainda não estejam preparados para um passo tão significativo como a legalização da eutanásia. Nem a lei, nem as pessoas me parecem ter os recursos e o entendimento necessário para levar esta decisão e respectivas consequências avante. Se eu gostava que estivéssemos protegidos e pudéssemos confiar nas autoridades médicas e legais, caso alguém que amamos já não tenha assegurada a condição humana intacta? Caso esteja em tamanha dor física e/ou psicológica que mantê-lo vivo seria pura crueldade? Gostava muito.


Mas será possível confiar que erros de julgamento e diagnóstico, buracos na legislação e na discussão filosófica e societal não vão ocorrer, mesmo que por acidente? Disso já não tenho a certeza. Por isso, sobra-me pensar que a discussão sobre a legalização da eutanásia nos deveria fazer dar as mãos e unir esforços, em vez de nos colocar nos extremos da bancada. Este não é um assunto de esquerda, de centro ou de direita. É um assunto de humanidade, que pede tolerância, cautela e muita cooperação na procura de respostas. Afinal, não se brinca com a vida (e a morte) humana. Sim, eu sou a favor da possibilidade de eutanásia, mas talvez não num país como o Portugal de hoje. A minha avó merece melhor.

 

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Entretanto, depois de eu ter escrito este texto, o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida foi divulgado: aqui.

O amor e a loiça

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O João gosta de lavar loiça. Mal acabamos de comer, lá vão os pratos todos para a pia, os talheres retinem no fundo, o lixo é separado. O João recicla. O João não deixa entupir os canos. O João guarda o plástico e o vidro num caixote especial que se leva ao ecoponto mais tarde, mais o lixo comum.

 

Depois, se o abraço e lhe agradeço, o João diz que me ama. Eu aceito sem reservas, e só espero poder compensá-lo para o resto da nossa vida a dois, por tudo e mais alguma coisa - e em particular pela quantidade de loiça que ele há-de lavar, opondo-se convictamente à compra duma máquina, e insistindo que um electrodoméstico não o faria tão bem quanto as mãos dum homem, uma esponja e água quente.


Eu e o João conhecemo-nos numa app de engate. Escrevo “app de engate" porque "app para encontrar o amor" parece demasiado redutor. Ele poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de psicologia positiva, eu poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de realismo imaginário. Trocaríamos impressões sobre estes interesses vagos e aquele chocolate quente nas Picoas teria sido um intervalo bem-vindo durante o meu primeiro dia de trabalho a seguir das férias. A seguir, eu contar-lhe-ia a desculpa do costume: que ele era muito bom rapaz, mas que afinal eu concluíra que ainda estava a recuperar do meu último desgosto, recente; não sentia que fosse justo continuarmos a conversar, não fosse eu, e o meu caos, magoá-lo. Blá blá blá.

 

(Quando lhe disse isto, o João abanou a cabeça e disse “És tão engraçada, e a tua vida parece saída dum filme.” Fiz dele o protagonista, só para aprender a lição.)

 

Ainda bem que o João não quer saber das minhas desculpas.


Nesta vida, tive três namorados e todos eles são donos de casa invejáveis. Há quem atraia malucos. Há quem atraia sacanas. Há quem atraia meninos da mamã. Há quem atraia ricos. Ou pobres. Ou forretas. Há quem atraia homens mais velhos. Eu atraio homens que não suportam uma cozinha por arrumar. Aliás, até vou ao ponto de dizer que adoram fazê-lo.


Eu digo que é sorte ou coincidência; o João diz que é porque eu sou aquele tipo de mulher que atrai esse tipo de homem, um padrão, ponto final. Ora, esta crença dele obriga-me a esforçar-me por merecer o padrão. Tenho de me esforçar por merecer o João, a pessoa que me diz que eu mereço que me lavem a loiça. (Aposto que nunca ouviram uma coisa tão romântica, nem no dia dos Namorados, pois não?)

 

O João é trabalhador. É esforçado e focado. É poupado. É gentil com toda a gente. É expressivo, interessado e bom conversador. O João lê o que eu escrevo e e ainda envia aos pais.

- Tudo isto, e mais a loiça! 


Acredito que haja coisas bem piores na vida, a partir do momento em que confirmo: por trás da atrapalhação partilhada durante a exposição dos sujeitos como que numa montra do talho (idade, check, profissão, check, sem suspeitas psicopatas, check, à procura de relação séria, check, cheira bem, check...), existe de facto uma pessoa que espera um dia partilhar connosco a sua cama, os seus dias, a sua loiça lavada e a sua ADSE.

 

Isto é amor, ou lá o que é, João, não é?

 

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Texto escrito originalmente paraO Primeiro Capítulo de Fevereiro. No dia anterior ao encontro, decidi escrever outro, por ainda não estar contente com este.

Ler as notícias

Nos últimos meses, andei a sentir, mais do que nunca, a redundância das redes sociais e da comunicação social. No ano passado, o excesso de informação chegou mesmo a contribuir para os meus ataques de pânico e para o estado de pânico em que vivia em geral, mas continuei a consumi-la, ou a tentar consumi-la até ao início deste ano.

 

O excesso de informação fez-me sentir insuficiente. Eu queria ler as notícias, queria ler tudo, estar a par de tudo o que me interessava. Nunca achei que fosse FOMO (fear of missing out), porque eu não tinha medo, só tinha pena, antes considerando esta vontade de não estar alheia a nada como uma sede aparentemente saudável de saber mais. Afinal, se eu soubesse mais, também teria mais chances de ter tudo sob controlo.

 

Obviamente, isto não correu bem a longo prazo. A ansiedade constante é o preço a pagar, mas felizmente comecei a olhar em volta. Olhei para duas pessoas como exemplos especiais: o meu namorado só vê o telejornal ou vai ouvindo os canais de informação enquanto come, prepara a comida ou limpa a cozinha; uma amiga que é jornalista assegurou-me que nem ela está a par de tudo, apesar de trabalhar em notícias europeias para o nosso canal público. Nenhum deles é fã acérrimo de redes sociais, nem essa minha amiga, cujo trabalho também passa pela gestão de notícias no Twitter, Facebook, Instagram e por aí fora. Ambos consomem informação de forma equilibrada. Há momentos específicos para o fazer.

 

Aos poucos, apercebi-me da quantidade de tempo que passava com o nariz enfiado no telemóvel. Primeiro, instalei uma app para vigiar a utilização diária. Apesar de parte desse tempo ser gasto a trabalhar ou estudar (marcar aulas, tomar notas, falar com futuros clientes e parceiros, escrever, ler), a verdade é que cheguei marcar recordes inacreditáveis: entre cinco a sete horas por dia.

 

Desculpei-me a médio prazo com o facto de também passar muito tempo a falar com amigos e com o meu namorado por mensagens, e por nem sequer utilizar o computador. Por fim, descobri uma série nova de que gosto muito e concluí que aquelas três horas diárias a devorar episódios provavelmente correspondiam a três horas que eu passava a procrastinar na Internet noutros dias. Ora... Se tinha arranjado três horas para ver uma série, poderia continuar a arranjá-las sistematicamente para tantas outras actividades, certo?

 

Assim foi. Pelo meio, li o livro As Notícias, do meu autor favorito do momento, Alain de Botton. Neste livro confirmam-se as minhas suspeitas. Por exemplo, muitas das notícias que consumimos diariamente não são tão importantes quanto a urgência dos media faz parecer (e quem diz notícias diz conteúdos vários que nos passam pelos olhos avulso). Há uma tendência para a catástrofe, para o voyeurismo e para o que confirma a nossa suspeita de que o ser humano não presta. É normal, porque o nosso cérebro ainda não está formatado para a recepção constante de informação do século XXI, ainda não sabe seleccionar intuitivamente.

 

Enquanto consumidora, acho importante escolher conteúdos úteis e notícias que também sejam positivas, que não mostrem só a face negra da condição humana. Ser humano é saber o que vai mal no mundo, para assim sobrevivermos e sabermos o que há para melhorar, que batalhas lutar. Por outro lado, ser-se humano também é olhar para as conquistas, para feitos alheios e personalidades que admiremos, procurar respostas para o que podemos emular para nos desenvolvermos e crescermos; é regozijarmo-nos pela generosidade e talento alheios, é reconhecermos o valor acrescentado. É lermos e vermos informação graças à qual podemos tomar acção.

 

Em suma: nem sempre é imprescindível ler as fofocas sobre a celulite daquela cantora, nem conhecer os pormenores sórdidos do homem que assassinou a família com um machado, nem destrinçar a falência duma empresa do Japão ou o mais recente escândalo sexual ou político. Tal como no trânsito, podemos questionar-nos: que bem fará eu olhar? Que bem fará eu ler as notícias? 

 

Enquanto andamos distraídos a olhar para o lado - isto é, para as manchetes, alertas de última hora, títulos infindáveis sobre a nova crise da época, últimas descobertas científicas sobre propriedades antioxidantes do abacate colhido em lua cheia - podemos estar a perder algo realmente importante, bonito ou útil.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.