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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O trabalho, o tempo, a produtividade e o capital (entre outros)

Quando decidi estudar Línguas e Humanidades na escola secundária, ouvi muitas vezes a ameaça-feita-pergunta "que emprego é que vais ter? Professora?" seguida de sugestões de cursos muito mais proveitosos, como ir para Economia e depois tirar Finanças ou Gestão na universidade, tornar-me solicitadora ou vir a trabalhar numa multinacional tipo Deloitte e ganhar dinheiro (muiiito dinheiro, pelo menos mais dinheiro do que se me tornasse, Deus nos livre, professora).

 

A ditadura do capital e da produtividade esteve presente na minha vida desde cedo. Sempre que expressava as minhas inclinações mais criativas, literárias e artísticas, era incentivada, mas não se isso me impedisse, por exemplo, de seguir Direito, ou mesmo Antropologia, as últimas tentativas de argumento do meu pai. "Porque são disciplinas com nome, não são uma coisa inventada", como quem quer dizer que ficariam bem num currículo.

 

Felizmente, arranjei sempre maneira de fazer valer a minha licenciatura com cheirinho a artes liberais, o meu interesse pelas letras, a minha paixão pela escrita, a minha recusa veemente em ter a cabeça a prémio no jogo da empregabilidade. Apesar de o objectivo inicial ter sido o jornalismo, em breve percebi que a profecia alheia era mesmo uma das minhas paixões: aos 21 anos, fiz-me professora sem dramas ou espinhas, porque, acima de tudo, fui proactiva, fui esforçada, trabalhei,  estagiei e fiz formação profissional durante a licenciatura, e tive boas notas que me puseram um pé na porta nalgumas situações.

 

Desde a infância, a geração dos millennials ouve a ladainha "é pelo teu bem" ou "é pelo teu futuro". A matriz cristã católica está bem enraizada nestas crenças, porque sofrer e fazer sacrifícios só pode ser igual a obter a salvação, ou sucesso. É isso que interessa. Claro que todos os pais querem o melhor para os filhos, mas por que tem de ser este "o melhor" que conseguem imaginar?

 

Hoje, estou em paz por ter decidido não carregar nenhuma cruz. Pessoas felizes são bem-sucedidas e rodeiam-se de pessoas bem-sucedidas - seja lá o que isso do sucesso possa significar.

 

Para mim, sucesso é ocupar-me do que me faz sentir útil e apreciada, não é ganhar montes de dinheiro, mas sim ter tempo, saúde mental e oportunidades de crescimento constante. Tive-o no meu primeiro e único emprego como leitora numa universidade em Banguecoque; quando voltei para Portugal, sempre soube que só o conseguiria nos meus termos se criasse o meu próprio emprego.

 

E assim foi. Não há dinheiro que pague o tempo que tenho para continuar sempre a estudar, a fazer trabalho criativo paralelo, coleccionar projectos profissionais simultâneos e decidir quando tenho férias (na verdade, acabo por ter menos dias de férias, mas isso é porque também posso ter meios dias de trabalho e outras regalias). Tudo isto, sem ter um esgotamento.

 

Para mim, ter sucesso é ter tempo para pensar, experimentar e criar - ou simplesmente não ser produtiva. É ter tempo para estar com as pessoas que amo, conhecer novos sítios, ler, escrever, passear.

 

A ditadura da produtividade é a melhor amiga da ditadura do capital, como se o ser humano só se concretizasse plenamente pelo seu volume de trabalho. E o que é esse trabalho? Muitas vezes, nada muito edificante, como contribuir para o fluxo de burocracia e entropia já existente. Parecer ocupado é o que mais interessa na sociedade que preza a produtividade, não é ocuparmo-nos de algo significativo.

 

Fica mal dizer-se outra coisa que não "tenho estado tão ocupada, que mal consigo respirar". Mais uma vez, temos de provar e alimentar o sacrifício diário. Claro que há pessoas ocupadas, eu mesma também passo por períodos mais cheios de trabalho (como nos próximos meses), mas estar ocupada é diferente de me fazer parecer ocupada.

 

Esta é apenas uma reflexão sobre o modo como vemos o mundo do trabalho. Gostava que as próximas gerações, ou mesmo quem se candidata este ano ao ensino profissional e superior, pudesse ver o seu futuro activo além dos títulos, das horas de trabalho, do prestígio e do dinheiro. Aviso-vos de coração: tenho amigos e colegas mais velhos que passaram anos e anos a trabalhar em indústrias e sectores que não lhes acrescentavam nada à vida, e que, chegados a uma certa idade, acabaram por repensar as suas prioridades, escolhendo o que deveria ter sido sempre escolhido: ser feliz e realizado.

 

Claro que o dinheiro é imprescindível: o bem-estar material precisa de estar minimamente assegurado para que outros objectivos surjam. Claro que o prestígio é importante, desde que seja aquele que nos motiva e permite continuar a evoluir.

 

Ainda assim, acredito que apareçam ambos na quantidade necessária como consequência de um sentimento de plenitude e preenchimento, de espírito de missão de que nos imbuímos quando descobrimos a profissão (ou profissões, ou ocupações) que nos fazem sentir que estamos a contribuir para o mundo da melhor forma, aquela que nos compete e melhor se ajusta, de acordo com os nossos interesses e talentos.

 

É com estas cores que vejo o mundo aos 25. Não digo que jamais mude de ideias, mas não custa ser idealista por um bocadinho.

 

***

 

A ler: How to Do Nothing, Jenny Odell