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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Os livros certos que surgem na altura errada

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Tenho tentado lembrar-me da noite em que o meu pai me ofereceu Walden ou a Vida nos Bosques, de Thoreau. Esse é um dos livros certos da minha vida que surgiu na altura errada. Sei que o meu pai mo ofereceu quando eu era muito nova, algures entre os 9 e os 12 anos, porque ele já confiava que eu poderia ler livros grandes, mas também me lembro de achar aquele livro tão fascinante (um livro de adultos!) quanto impossível de ler. Eu era demasiado pequena, imatura para entender o tema, ou mesmo a não-ficção, muito menos um livro de memórias com um cariz político, ambiental, económico, social. Além disso, os parágrafos apertados assustavam-me, havia demasiadas palavras por página.

 

Voltei a ler Walden aos 20 anos. O papel amarelou e ficou cheio de manchinhas, mas não ficou por ler. A curiosidade aguçou-se com os anos e, afinal, recusei-me a ter uma licenciatura em Letras sem conhecer uma obra fundamental para o pensamento contemporâneo como esta. Li-o com o carinho de quem tem um livro que guardou até se sentir preparada, sempre por ali, à espera, paciente. Espero relê-lo ainda este ano, cinco anos depois.

 

Tal como Walden, fui arranjando outros livros, principalmente nos últimos dois anos, que sei que hei-de ler um dia, quando sentir que tenho o conhecimento e a profundidade para os apreciar. Por agora, sei onde os posso encontrar e isso chega-me. Há um tempo certo para todas as leituras. E para o tsundoku.

 

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Quero escolher menos

 

Less is more, dizem os gurus da moda. No entanto, cada vez mais percebo a sua centralidade, quiçá omnipresença, em todo e qualquer cantinho da minha vida - da nossa vida. Quando era mais nova, sonhava com carreiras bem-sucedidas, reconhecimento, estatuto, liberdade, viagens, conhecer tudo, todos e o mundo inteiro... Ter a possibilidade de fazer o que me apetecesse, ter os meios para escolher o que quer que fosse.

 

Depois, aprendi que mais escolha não significa mais felicidade. À medida que os meus princípios e valores se solidificaram, à medida que acumulei mais alguma experiência e tive tempo para pensar, percebi que o mais importante é simplificar. Deixei de querer as mesmas coisas e de ter as mesmas ambições, porque ter mais opções não oferece mais conforto ou liberdade, mas sim desconforto acrescido e a sensação de aprisionamento.

 

Paradoxalmente, o mundo actual oferece cada vez mais opções para tudo: planos de saúde, apps, livros, lojas, entretenimento, telemóveis, computadores, cursos, filmes, comida, até marcas de água e interesses amorosos (vejam-se as redes sociais de matchmaking)... Acabamos por viver o paradoxo da escolha, sem sabermos muito bem para onde nos devemos virar e vivendo assombrados pela inacção perante um tão alargado número de hipóteses, paralizados, assombrados pelo fardo das escolhas erradas, quando parece que temos todos os motivos para não nos enganarmos. No meio de tantas alternativas, errar parece impossível; é imperativo acertar. Temos mais escolha, mas retiramos menos satisfação.

 

O passo seguinte do meu crescimento, aquele que estou a viver neste momento, é a aceitação de que escolher o simples em detrimento do complicado é bastante menos simples do que parece. Eu só quero reviver, ou ressuscitar, um estado de graça cheio de paz e facilidade. Só quero aprender a apontar e saber que "é este" o caminho a seguir, seja na decisão dum mestrado ou na compra dum biquíni.

 

Quanto a isto, tenho aprendido novos hábitos: ir ao supermercado e trazer sempre os mesmos artigos; fazer sempre as mesmas actividades todas as semanas, repetindo rotinas; escolhendo antecipadamente uma selecção de artistas e podcasts que me interessa ouvir; apostar numa alimentação baseada nos mesmos ingredientes e combinações; ter uma lista limitada de opções de actividades para fazer no tempo livre. Ainda não acho que estas decisões me surjam automáticas, mas confio que as hei-de tornar mais intuitivas ao longo do tempo. Não quero sofrer por ter de escolher quem sou, o que faço e o que penso a cada segundo. Não quero que a minha identidade dependa tanto de escolhas fugazes e sempre novas.

 

Quero escolher menos e fazer mais. Quero sentir-me leve. Para isso, pede-se equilíbrio e menos ruído mental, menos esforço até em decisões mais rotineiras. Mais leveza.

 

E, já agora, ouçam ou leiam o que Barry Schwartz tem para dizer sobre o assunto.

"Não se queixem, criem!"

 

Às vezes, passo por fases de queixume agudo. Preciso - precisamos todos - de verbalizar, de explorar, de mandar tudo cá para fora. No entanto, nem sempre consigo recuperar e admiro quem recupera (quem não procrastina o resto da vida, por exemplo, depois destes momentos emocionalmente intensos).

 

Claro que não sou sempre assim, ou não andasse a estudar o que ando a estudar, ou não andasse a fazer as mil e uma coisas que faço, mais ou menos bem feitas. Consigo recuperar, seguir em frente, encontrar novas razões de queixa. Nesses "entretantos", gosto de pessoas que me inspiram com ideias e histórias sobre como passar à acção, contrariando a lamentação (não desvalorizando a verdade universal de que é mais fácil falar do que fazer).

 

Assim, hoje venho só dizer que gosto de ouvir a Tina Roth Eisenberg, de quem a Elisa me tem falado imenso. TRE, a criadora das Creative Mornings, descobriu falhas ou faltas no mundo à sua volta e, em vez de se queixar, diz que acabou por criar ela as soluções para os seus problemas. Vejam a palestra que vos deixo aí em cima. 

 

E, na mesma onda, quero partilhar um dos episódios do podcast "The Happiness Lab" (clicar nesta hiperligação), da investigadora Laurie Santos (professora da disciplina mais concorrida de Yale, também no Coursera, "The Science of Well-Being"), episódio no qual se discutem os efeitos dos queixumes no nosso bem-estar, e como modificar esses padrões de comunicação negativa/agressiva, nomeadamente nas redes sociais.

 

A par destas recomendações, deixo outra absolutamente diferente: um compositor português chamado Rui Massena, que tem feito as delícias do meu Spotify. Dos três álbuns disponíveis, o mais recente, III, é o meu favorito.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

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Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.

Um elogio à Internet (já agora, este blog completou ontem 9 anos)

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Terminada uma relação, a primeira começada numa idade adulta, reconheci em mim a necessidade de voltar a sentir-me vista. Apreciada. Amada. Desejada. Queria sentir que alguém poderia olhar para mim e pensar "que maravilhoso exemplar feminino da espécie humana", "quanta inteligência e formosura numa só jovem" ou mesmo "comia" (este era o meu grau de exigência, infelizmente, mas melhores dias vieram).

 

Como qualquer millennial dedicada ao seu trabalho, trabalho esse mais solitário, uma millennial que odeia festas e encontros com mais de cinco pessoas, e que já tinha a piscina de "oportunidades imediatas" esgotada, virei-me para o fiel online dating. Cenário familiar do ano anterior, em que, perante o fim duma relação muito mais longa e com um fim três mil vezes mais doloroso do que a presente, as redes sociais para conhecer pessoas com fins de interesse mais ou menos exclusivo já não eram território estrangeiro. No entanto, desta vez descarreguei e experimentei todas as aplicações relacionadas, qual estudo de mercado, o que não me impediu de acabar a usar apenas a do costume, a favorita, aquela que eu recomendo até às pedras da rua: OkCupid.

 

Acredito ferozmente que a Internet e as ferramentas que nos oferece têm o poder de mudar a nossa vida para melhor. Muito melhor. Basta saber seleccionar o que interessa e fazer valer o que nos é oferecido. Ficarei eternamente agradecida a quem teve a brilhante ideia de criar redes sociais, as de matchmaking também. 

 

Se não tivesse sido pela Internet, eu não conheceria pelo menos três amigas a quem cheguei por algum evento que, apesar de ocorrer offline, se divulgou online; e não conheceria o meu ex-namorado, de quem fiquei amiga, e cuja convivência me tem enriquecido emocional e intelectualmente; e não conheceria o meu actual namorado, sobre quem tenho escrito imenso, que me inspira todos os dias e que tem todo o potencial para ser, também, o meu último namorado de sempre ou, pelo menos, por muito tempo.

 

Fico maravilhada ao enfrentar os factos: qual a probabilidade de conhecer estas pessoas que são, hoje, praticamente indissociáveis da identidade que projecto para mim própria? Qual a probabilidade de acordar ao lado dum sujeito chamado João, com quem partilho muito poucos interesses, que cresceu a cinquenta quilómetros de mim? Qual a probabilidade de o João e eu nos termos cruzado, porque estudámos a menos de quinhentos metros durante três anos, mas nada nos ligava à partida, excepto o nome da universidade que ambos apresentamos no currículo?

 

Qual a probabilidade de termos começado a conversar, não fosse eu ter terminado uma relação umas semanas antes dele achar que se deveria concentrar para o grande exame, quase a tornar-se médico e a mudar-se para outra cidade? E se o João não tivesse esperado mais umas semanas, como os pais lhe andavam a recomendar? E se eu tivesse continuado a insistir na minha relação anterior, mesmo que por apenas mais uma quinzena?  E se eu não tivesse ressuscitado a minha conta do OkCupid? E se eu não tivesse publicado uma fotografia com o meu gato que o João veio a comentar, e se o João não tivesse tido uma segunda chance de tentar chegar à fala comigo, apesar de rezar a lenda que eu já ignorara uma mensagem dele antes de apagar a minha primeira conta?

 

A abrangência da Internet e a probabilidade dum grande amor, ou de grandes amizades, convergem aleatoriamente em narrativas que poderiam ter acontecido doutra forma qualquer. Doutra forma qualquer. Mas não assim. É com este pensamento que me permito invadir por uma gratidão infinita pelo efeito borboleta que me trouxe até ao momento presente. Talvez até me sentisse agradecida por outros resultados, se fosse o caso, mas permitam-me questionar: como é que é possível melhorar? Não existe melhor, pois não? Gosto tanto desta realidade como a conheço.

 

A Internet contém uma vida de possibilidades. Tivesse eu nascido uns anos antes, não me identificaria como nativa, não navegaria tão bem os mares da tecnologia que me trouxeram o João e outras pessoas de quem gosto tanto. Sem preconceitos ou amarras, uso ferramentas apenas visíveis através de um ecrã de seis polegadas para construir o mundo como ele é para mim, agora. Porque sei que tenho, de facto, um mundo nas minhas mãos. Um mundo abstracto que se materializa num mundo palpável. Um mundo onde podemos conhecer o amor da nossa vida, onde podemos conhecer amigos que nos trazem tanta bonança, onde podemos encontrar o emprego dos nossos sonhos, onde podemos partilhar as nossas obras, onde podemos aprender e partilhar conhecimento ao qual não teríamos acesso há duas décadas.

 

Estamos a meio de 2020, no meio dum pandemia. Estamos a meio duma vivência crescentemente digital, fugindo do mundo físico e dos encontros cara-a-cara, alimentando uma existência por mensagens escritas e conferências em vídeo. E que existência poderosa pode ser, se aprendermos a retirar o melhor que a Internet tem para nos sugerir! Afinal, considero que o melhor do mundo online é ter o condão de enriquecer o mundo offline, se soubermos orquestrar a transição e a complementaridade. Esta é uma época instrumental para testarmos mais modos de ser e estar num contexto único.

 

Quando abraço o João, lembro-me frequentemente do quão frágil esta realidade - esta, assim - será sempre. Oh, os pequenos acasos que nos fizeram finalmente cruzar - se não na Cidade Universitária, pelo menos num "não-lugar" chamado OkCupid. Um pequeno "se", nada deste abraço. Nada de ter conhecido o João. Nada de tudo o que surgiu. Nem, na verdade, este dia 1 de Julho de 2020 em que me sinto tão satisfeita com o que a Internet me tem dado - incluindo este blog e toda a partilha e procrastinação proporcionadas em - fez ontem - 9 anos.

 

No topo, fotografia tirada ontem, 30 de Junho de 2020, às 21h50 (em jeito de celebração de mais um marco na existência do Procrastinar Também é Viver). A minha janela e o pôr-do-sol estival, tardio, claro. Quase parece anunciar o bem que há-de chegar.