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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

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Procrastinação em tempos de pandemia

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Este podia ser apenas mais um texto com uma data de dicas sobre como lidar com a procrastinação enquanto temos de ficar em casa a trabalhar. Mas não é, e acho que devo prevenir a leitora ou leitor de que é provável que eu não escreva nada que já não se saiba. Ainda assim, se tiver um par de minutos para gastar e não sabe como, fique comigo aqui a procrastinar.

 

Então, de que se trata este texto afinal? Respondo já, antes que me apeteça ir lavar a loiça do almoço em vez de me concentrar na escrita: trata-se de não-ficção, é claro. Aspira principalmente a ser crónica, mas acho que é capaz de ficar mais aproximado a um queixume de café (se os cafés estivessem abertos nesta altura, claro está). Em geral, a qualidade literária não é muito melhor do que a já comprovada nas linhas anteriores, as ideias ficarão pela rama, e o leitor guardará sobre mim a impressão de que sou daquelas pessoas irritantes que gosta de se queixar de barriga cheia (e talvez eu seja obrigada a dar-lhe razão).

 

Portanto, vamos ao que interessa. No dia 16 de Março, celebrei um ano de teletrabalho a tempo inteiro. É uma maçada, porque eu gostava mesmo de estar com outras pessoas cara a cara. Por outro lado, aprendi a gostar de estar com elas ecrã a ecrã, e temo ser tarde de mais para me voltar a habituar ao primeiro cenário, até porque me mudei para longe de toda a gente e fica caro e demorado voltar a ir para Lisboa todos os dias. 

 

O único senão desta situação à qual me fui acomodando é ter mais liberdade para passar uma inesculpável parte do dia a fazer coisas que, apesar de úteis no fim de contas, mormente empatam. A minha preferida é preparar comida e comer. Descobri uma grande paixão nestas duas tarefas, que me consomem mais tempo do que eu lhes quero destinar quando acordo de manhã e penso que a jornada tem uma quantidade muito satisfatória de horas para aproveitarmos - se ao menos o soubermos fazer.

 

Mas não sou esquisita com as actividades procrastinatórias a que me entrego de alma e coração.

 

Na verdade, em geral, todas as tarefas domésticas me parecem apelativas, apesar de eu as detestar nas horas vagas, ou seja, aquelas que não estão pré-destinadas ao trabalho. Consequentemente, acabo a ter de trabalhar nessas mesmas horas vagas, e não me queixo, porque é essa a belíssima vantagem em ser trabalhadora independente - o que não me impede de sentir uma dose de culpa desmesurada, que me consome a paciência e a tolerância que reservo para as minhas neuras. Só é lamentável acabar por me aborrecer a mim própria, apesar de conscientemente não me desejar outra coisa senão tudo do bom e do melhor. Como se costuma dizer: por bem fazer, mal haver... e tudo na primeira pessoa.

 

A auto-sabotagem é bastante angustiante. Porque raio insisto em sabotar a minha paz de espírito, em prol dumas trocas e baldrocas no meu horário? Haverá algo mais profundo a analisar, do que o simples ímpeto para a procrastinação? Não será defeito, apenas feitio? Ou vice-versa? Seja como for, esse é um tema para outras incursões e discussões.

 

Como é óbvio, escrevi este texto para procrastinar não sei o quê que tinha de fazer depois de almoço há uns dias, mas seguindo o modelo sugerido pelo nome deste blog, não se esqueçam de que procrastinar também é viver. E que estranha forma de vida é...!