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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

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Ler sobre a morte

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Há alguns dias, no clube de leitura do Sapo24, "É Desta que Leio Isto", falámos com a convidada Inês Maria Meneses sobre um dos livros que mais gostei de ler na vida, mas também dos que mais me custaram: The Year of Magical Thinking, de Joan Didion.

 

Neste encontro, uma das participantes comentou que recomendaria o livro a qualquer pessoa, que todos o deveriam ler. Quanto a isto, tive de discordar sem hesitação. Eu cá não recomendo livros sobre a morte e sobre o luto a qualquer pessoa. Diziam depois outros participantes: mas é preciso lidar com a morte, conhecer as histórias, não é por não lermos sobre a morte que ela desaparece, ou que deixa de existir.

 

Continuei a defender o meu ponto de vista. Claro que não é por evitarmos leituras sobre a morte, como em obras autobiográficas, que ela deixa de existir. Não é por isso que a perda de um ente querido não vai acontecer. No entanto, um livro não é uma vacina. O papel de um livro não deve ser preparar-nos contra os males do mundo, em doses pequenas, aqui e ali, até criarmos imunidade a partir das ideias, das palavras e das experiências dos outros. Depois desta argumentação, quase ninguém concordou comigo.

 

Penso que jamais recomendarei um livro como o de Joan Didion a qualquer pessoa. Só eu sei a angústia que senti ao lê-lo. Adorei lê-lo, mas foi uma leitura sofrida. Nessa altura, andava muito ansiosa, e bem sei que o leitor também sofre, o leitor também chora, e há momentos em que não é indicado ler certos livros. Não está certo martirizarmo-nos. Enquanto lia The Year of Magical Thinking, só me passavam pela cabeça cenários hipotéticos de perda de alguém que amo, não só pela morte, mas também pelo desaparecimento dessas pessoas da minha vida, em geral e em abstracto. De vez em quando, continuo a folheá-lo, e essas releituras breves, ainda que as continue a achar belas, só servem para o voltar a pousar na estante. Ler não é indolor, nem é sempre feliz. Ler sobre a morte não é um passeio no parque, como se diz em inglês.

 

Ontem, recebi alguns livros novos. Um deles é Agora e na Hora da Nossa Morte, da jornalista e escritora portuguesa Susana Moreira Marques. Li-o em poucas horas, entre o intervalo da tarde e o pós-jantar. Tudo o que leio desta autora parece ser suficiente, e simultaneamente incapaz de preencher um qualquer vazio que permanece depois de terminarmos os seus textos ou livros.

 

Mas lá está: fui para a cama angustiada. É uma angústia que não é totalmente negativa, e ainda assim relembrou-me do que já referi: há temas sobre os quais devemos ler só, e apenas, quando estamos preparados para sentir o que inevitavelmente vamos sentir. Podemos escolher certos livros pela experiência - literária, estética... - mas não pelo prazer em si mesmo. Não pelo entretenimento. É preciso saber escolher as nossas batalhas, e também os livros.

Todos gostamos de colo

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Adoptei o ilustre Lord Ennui quase da noite para o dia, faz em Maio quatro anos. Após alguns meses a viver sozinha em Banguecoque, senti necessidade de ter companhia. Senti necessidade de ter alguém à minha espera em casa.

 

Passando muitas horas fora, e sendo a minha casa dessa altura um estúdio com 29m2, um cão não seria opção; mas um gato, animal mais independente e que, tendo os brinquedos e acessórios necessários, não precisa de muito espaço horizontal, seria o novo companheiro ideal. Depois, informei-me sobre raças de gatos que tivessem tendência a ser mais silenciosos. Sim, eu sou céptica quanto à compra de animais, mas aos 21 anos, a viver do outro lado do mundo há quase um ano, a querer dar uma passada maior do que a perna, a precisar desesperadamente de companhia e a viver num condomínio que não permitia seres que não os humanos, eu não tinha muita margem de manobra.

 

A verdade é que manifestei, a todos quantos me quisessem ouvir, que pretendia adoptar um gato de raça. Mas eu não tinha dinheiro para essa aventura - o equivalente a 500-1000€ - pelo que teria de esperar. Foi a desafiar todas as probabilidades, expectativas e reviravoltas do destino que, cerca de dois dias depois, Lord Ennui apareceu na minha vida.

 

Sempre me pareceu um gatarrão, apesar de nas fotos e na memória da minha avó, que esteve connosco durante esse Verão, ser sempre mais pequeno do que é agora. Lord Ennui é um gato exótico de pêlo curto, apesar de ser um engano. Tem pêlo bastante longo, em comparação a outros gatos, e está sempre a largar novelos por todo o lado. Por isso, grande parte do seu tamanho é, realmente, pêlo. Adoptei-o com onze meses, supostamente resgatado de um criador que tratava mal os animais, e recebido numa clínica veterinária nos subúrbios mais subúrbios de Banguecoque, onde o fui buscar numa noite em que chovia o céu inteiro com muita força. Ao sair do táxi para a veterinária, enterrei os pés na lama e fiquei encharcada, uma das mil vezes em que isso aconteceu durante a minha estadia na Grande Manga.

 

Lord Ennui sempre foi um gato bom companheiro. Quando era mais novo, gostava de brincar à apanhada com os meus pés, que fugiam debaixo do edredom, e ele ficava por cima a saltitar e a espetar as unhas fininhas até alcançar a presa. Sempre gostou de se sentar perto de mim, de ficar onde me conseguisse ver, de mirar o movimento e as pessoas da casa. Mesmo quando nos mudámos para Portugal, eu regressada e ele cá pela primeira vez, as suas preferências continuaram a ser as mesmas. Nunca quis colo, nunca se mostrou muito carente por maior proximidade do que a sua simples presença na mesma divisão que os donos. Nunca se deixou abraçar por mais de um ou dois minutos. Nunca se deitou nas minhas pernas, nem sequer chegadinho ao meu lado, apesar de ter apetite sexual e gostar de o mostrar com frequência em relação aos meus braços. A maior prova de proximidade física talvez tenha sido dormir costas com costas comigo, nos primeiros tempos a seguir à adopção.

 

No entanto, o meu pai contou-me há alguns meses que Lord Ennui se punha no colo dele. Suspeitei, mas era verdade. Algumas semanas depois de vir morar com o João, o Lord Ennui e a Coffee Bean para Vila Viçosa, o gato também se deixou ficar algum tempo nas pernas do João, por iniciativa própria. Uns dias depois, foi a minha vez de saborear essa vitória, mas foi sol de pouca dura. Não ficou muito tempo.

 

Finalmente, este fim-de-semana, Lord Ennui não só se enroscou na manta por cima do meu colo, como lá passou pelas brasas e a ronronar. Foram cerca de vinte minutos em que temi mexer-me um único milímetro, não fosse incomodar e espantar sua excelência. Acabou por se levantar para se ir esticar na carpete, mas ninguém me tira o gozo de finalmente ter sido mais ou menos escolhida pelo meu próprio gato para servir de cama humana. Como diz a Rita, foi um occupy, um belo de um occupy.

 

Lord Ennui demorou quase quatro anos a gostar do meu colo. Talvez ainda nem goste dele, mas, no final de contas, pode ser que ele já perceba que o meu colo é um lugar seguro, onde pode vir ronronar sempre que lhe apetecer. Afinal, todos gostamos de colo.