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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Ser uma eterna estudante

Quando me pedem uma descrição sobre mim mesma, hesito sempre. O que devo incluir, o que é mais importante, o que pode dar um toque divertido ou diferenciado, o que melhor me define, o que me torna eu?

 

Hesito em quase tudo o que teria para mencionar, porque há tanto que eu tenho feito, faço e quero fazer, há ainda mais para contar sobre quem fui, sou e quero ser... Como é que se define uma pessoa que se conhece tão bem, como nos conhecemos a nós mesmos (idealmente)? E como é que se define alguém em poucas linhas, como se de uma fotografia se tratasse, quando essa pessoa está, como todos os organismos vivos, em constante mudança, inquietação, transformação e desenvolvimento?

 

Estas são algumas das questões que me preocupam em tal cenário. No entanto, de uma única coisa tenho sempre a certeza: sou uma eterna estudante. Ultimamente, tenho-me apercebido de que essa linha nunca pode faltar na minha nota biográfica. Sou professora, e escrevo sem me considerar escritora, mas não é de menor relevância mencionar que estudar é, por agora, outra parte indispensável da minha actividade, mas também da minha identidade.

 

É verdade que as circunstâncias da vida e as escolhas dos últimos anos me levaram a não concluir nem o primeiro, nem o segundo mestrado que comecei. Em 2020, comecei mais outro, e este é aquele que hei-de concluir - seja daqui a dois, três ou quatro anos, nem que chovam aranhas a partir de amanhã... prometo. Aliás, é o mestrado por onde devia ter começado desde sempre, porque não há muito que faça mais sentido para mim do que estudar Literatura. Andei a evitar o inevitável, e agora vejo-o ainda mais claramente.

 

Por outro lado, enquanto tirei algum tempo para pensar no que gostaria mesmo de continuar ou vir a fazer profissional e academicamente, como se fosse uma espécie de intervalo ou interregno num caminho que andava a levar demasiado a sério, decidi fazer algo completamente diferente. Faz agora dois anos que decidi inscrever-me na pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada, no ISCSP (Universidade de Lisboa). Foi uma experiência de um ano que me relembrou como é gostar de estudar só pelo prazer de estudar e aprender, porque me apeteceu. Além disso, foi um momento de introspecção, de clareza, ora pelas experiências que a pós-graduação me proporcionou (tive professores e colegas maravilhosos, e as matérias estudadas eram fascinantes), ora pelo que aprendi e que é tão útil na vida de todos os dias.

 

Desde então, tenho-me esforçado para manter essa atitude descontraída quanto aos estudos. Actualmente, não preciso de mais credenciais ou diplomas para continuar a trabalhar naquilo em que trabalho, por isso resta-me estudar por diversão, porque é preciso sonhar, e porque sinto que este pode ser o único momento certo para fazer aquilo que me agrada, por puro luxo e privilégio momentâneo, porque posso e porque o devo a mim própria. As condições podem não se repetir, os astros podem não se voltar a alinhar desta forma, outros desafios poderão aparecer...

 

Dito isto, no próximo ano lectivo, estarei a frequentar a pós-graduação em Escrita de Ficção, da Universidade Lusófona! A eterna estudante também é uma estudante inquieta. 🙂

 

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30/30 (recomendar livros)

Nunca pedi a um livreiro que me recomendasse um livro. Revelar desejos e expectativas a um desconhecido, cuja única ligação a mim é, em abstracto, o livro, parece-se demasiado com a confissão católica, numa versão mais intelectualizada.

(Valeria Luiselli, em Deserto Sonoro, p. 104, edição da Bazarov)

 

É difícil descrever os livros de que precisamos, tanto mais se o tivermos de dizer a um desconhecido. Para recomendações, procura-as junto dos meus amigos. Só uma vez pedi ajuda a uma livreira (na Bookshop Bivar, em Lisboa), por me ter sentido acolhida, o que, regra geral, é difícil em livrarias massificadas e de compra impessoal, despachada. Para as leituras futuras sobre as quais tenho a certeza, compro nessas últimas. Para quando não sei realmente o que quero, prefiro as livrarias pequenas, com gente, apesar de me sentir invariavelmente acanhada, apesar de até ter o hábito de trocar meia dúzia de palavras com os livreiros, apesar de desperdiçar quase sempre a simples pergunta:

Tem algum livro que isto e aquilo?

 

Ou ainda:

Que livro mais tocou a Senhora Livreira ou o Senhor Livreiro?

 

Ora, poderão os livreiros ser uma espécie de confessores dos crentes na religião das palavras?

 

Não sendo eu livreira e ainda não tendo o tal à-vontade para abordar os livreiros, vejo nas trocas informais na Internet um lugar de partilha que pode ecoar pelo mundo fora, às vezes seguindo esse eco sem encontrar parede onde bata, outras tropeçando nesta e naquela. Tenho pouca fé no bookstagram e noutros canais já viciados pelos números, pelas parcerias e pelos egos, mas vou tirando proveito do Goodreads, de alguns blogs e das opiniões de pessoas específicas nas quais confio. Por isso, continuo a escrever sobre livros, textos e escritores. Faço-o desinteressada, troca por troca, prazer por prazer. Porque valorizo a generosidade e a disponibilidade que temos uns para os outros, entre pessoas que nem se conhecem, ou umas que, mesmo assim, conhecem outras um bocadinho melhor. Porque é tão bom partilhar impressões espontâneas sobre aquilo que nos alegra, estimula, faz viver, dá alento. Acredito em recomendações extremamente personalizadas que são feitas por acaso, mesmo que nunca cheguemos a saber que as fizemos.

 

Dito isto, aqui vos deixo as minhas últimas leituras preferidas, com a nota de que ando muitíssimo interessada no processo criativo, e até logístico, dos escritores, principalmente de escritoras mulheres, assim como das suas circunstâncias familiares e sociais:

 

A propósito, cumprindo-se os primeiros seis meses de 2021, esta é a minha lista completa de leituras terminadas neste período:

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***

 

Com este texto, termino o desafio mil vezes interrompido de escrever 30 dias seguidos, que de seguidos pouco tiveram,  tal qual uma relação imberbe, a primeira doutras seguramente mais comprometidas. Além de ter sido um desafio interessante, por me ter obrigado a escrever e a treinar a desenvoltura na escrita, e por me ter obrigado a esmiuçar o que só a mim me atormenta ou alimenta os dias, também o acabo com a sensação de que servirá de retrato instantâneo, como uma fotografia de polaroid, dos meus interesses e pensamentos actuais.

 

Doravante, encontrarão todos os textos sob a etiqueta 30 em 2021. Quem sabe... poderei repeti-lo em anos futuros!

29/30 (semear e cuidar)

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Durante os últimos meses, tenho-me apercebido do interesse por plantas que muitas pessoas têm, principalmente quando se mudam para uma nova casa. À minha volta, tal como arranjam gatos, também arranjam plantas.

 

Eu, que também adoptei um gato quando vivia sozinha, e que adoptei uma cadela quando me mudei para esta casa há meio ano com o João, reconhecia-me na primeira parte, mas nunca me tinha passado pela cabeça ter plantas, nem que fosse pela naturalidade com que a minha família cuida do jardim da casa onde cresci. Para mim, as plantas quase apareciam por geração espontânea, e nunca me demorei a pensar nelas.

 

No meu aniversário, no ano passado, a minha amiga Daniela deu-me um vaso. Disse que era para me incentivar a ter plantas, um interesse que ela também havia descoberto algum tempo antes, e que lhe trazia muita alegria. Ela e outras amigas começavam a falar-me de plantas pelos seus nomes pomposos em latim, sabiam quais eram as venenosas para os animais domésticos, e quais eram as esquisitinhas, que morriam ao primeiro descuido. Enquanto isso, eu ia enchendo o meu novo vaso com tralhas várias, tralhas inanimadas, como comida do gato, moedas soltas ou clips perdidos que por algum motivo não cabiam em cima da secretária. Algum tempo depois, outra amiga convertida às hortas urbanas, a Elisa, ofereceu-me um vaso de malaguetas, mas deixei-a no parapeito da cozinha, e até hoje ficou a pertencer à minha avó, acolhido entre ervas aromáticas.

 

Os meses passaram, eu mudei de casa, mudei de distrito, mudei de região, mudei de vida. Ainda por cima, mudei-me para um dos sítios mais floridos onde alguma vez estive. Em Vila Viçosa, há poucos parapeitos sem flores, seja Verão ou Inverno. Todas as casas, caiadas: pintalgadas de todos os tons que se possam imaginar, como numa Primavera perpétua, debaixo de chuva ou de sol.

 

Antes, já tinha lido um texto de Jia Tolentino a discorrer sobre este interesse súbito por plantas, por pessoas da minha geração. Mas acho que fiquei realmente convencida depois de, com os parapeitos dos meus vizinhos no horizonte, ter lido o ensaio "The Rosary", de Alexander Chee.

 

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Após essa leitura, e certamente influenciada pelos canteiros alheios, não demorei muito até comprar uns vasos de flores (cuja espécie desconheço) no Lidl. Custavam 4€, quatro vasos pequenos, e parecim ser daquelas "rafeiras" que aguentam com intempéries e falta de rega. Achei-as capazes de aguentarem a minha potencial negligência, e assim foi. Ao fim de duas semanas, imbuída da confiança de as ver sobreviver e florir ainda mais, comprei um saco de terra e sementes para mais flores doutras espécies, isto é, das que vêm nos saquinhos mais baratos que encontrei.

 

E, dias mais tarde, fui de férias, por isso não semeei nada nessa altura. A minha vizinha, com a qual partilho o meu parapeito, virado para a sua esplanada, cuidou das minhas flores, que acabam por ser um bocadinho "nossas". Voltei e, apesar de ligeiramente queimadas pelo sol, continuam a crescer. Foi mais um desafio que superaram, as fortes.

 

Por isso, lá decidi dar uma oportunidade às tais sementes. Semeei-as na segunda-feira, num impulso, sem vasos mas dentro de canecas decorativas que tinha no escritório. Levei muito tempo a fazê-lo, por achar que não seria uma actividade "produtiva", ou útil, como se semear e cuidar de uma planta, de um animal, ou de uma pessoa não fosse uma tarefa com valor. Lá deixei de pensar em perdas de tempo, porque a maior perda seria não ter parapeitos floridos, que me animem a mim e a quem mais olhar para eles ao passar. Resta-me esperar que germinem. No final, é só isto: a beleza.

28/30 (deixar coisas a meio)

Deixar de sentir culpa. Abandonar quando deixa de fazer sentido, retomar quando chega o momento. Aprender a escolher, ser sensata, prestar atenção. Apanhar-me desprevenida a meio de complicações. Não usar métricas aleatórias, nem olhar para o lado. Não espreitar, nem nada.

É como se ficasse sempre a dever alguma coisa a alguém, mas quem será o credor?

 

Na escrita, tem-me acontecido isso, e noutros interesses também. Mesmo assim, com a chegada do Verão, com a vida em velocidade de cruzeiro, com o fim do semestre, com o trabalho assegurado, com as férias tiradas, regressa a expectativa de fazer um melhor malabarismo que me permita não ficar em dívida, porque a verdade é que tenho sempre as contas em dia. Ninguém está, sequer, a contar. Então, porque é que eu teria de me preocupar tanto com as matemáticas de números imaginários, frutos da ansiedade, do tal lado tirano que a minha psicóloga me manda adormecer? Ainda por cima, são tudo letras, senhores, são tudo letras. E palavras, tanto as que me maçam, como as que sinto, constantemente, faltarem.

 

Deixar coisas a meio não é falhar. Também não tem de ser sinónimo de sucesso, mas talvez consista, acima de tudo, em parar para respirar e recuperar o fôlego, para olhar e observar o que se passa à nossa volta, para olhar para o mapa - uma tomada de decisão muito necessária quando o caminho é longo. Deixar coisas a meio não nos impede de lá voltar.