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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

Há sortes que não se fazem, que só se têm

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Há sortes que não se fazem, que só se têm. Talvez criemos as condições para as recebermos da melhor forma possível, mas no final do dia o que é fascinante é vê-las chegar, assentar arraiais e criarem raízes na nossa vida, bafejada por ventos com certeza soprados por trevos de quatro folhas. Que sortes são!

 

Saiu-me a sorte grande no amor. Aliás, sai-me a sorte grande todos os dias, no presente do indicativo, repetidamente. Não há hesitação. Não conheço um abundância de amores assim, acho que são poucos, o que sinceramente é uma pena. Felizmente, acho que vários amigos meus lá encontraram sortes semelhantes, mas gostava muito que mais pessoas as pudessem ter.

 

No outro dia, dizia a outra amiga: "quando começa, quando nos estamos a conhecer, não sabemos, e até pensamos que há alguma coisa errada, pensamos que parece tudo muito estranho". De facto, foi isso que me deu toda a certeza de que eu não ia deixá-lo fugir-me entre os dedos, mal conheci o João. Era tudo novo, tudo me parecia novo, sentia tudo de novo e como novo. Fiz bem em acreditar nessa estranheza. Surpreendia-me constantemente e tinha de contrariar o hábito e as crenças de que tudo o que não fosse como eu achava que havia de ser estava mal, porque era exactamente isso que estava bem.

 

Mas, em geral, só pode ter sido sorte, só pode ser sorte. Só preciso de ter encontro marcado com ela no dia-a-dia.

 

E resta-me desejar que todas as pessoas cheguem a encontrar-se numa relação que é de facto uma parceria, onde não há pretensiosismo, falsidade, necessidade de perfeccionismo, nem receios e medos, dúvidas, demasiados dias maus aos quais se perca a conta.

 

É tão bom viver num estado de paz e calma, onde existe uma rede para cair quando se tropeça; e onde há um projecto comum, sonhos comuns, vontades comuns e, por isso, um espaço e um ambiente propícios aos projectos, sonhos e vontades individuais; e onde nos sentimos em família, ligados a alguém que nos rega de amor, humor e fé.

 

Por mais namoros, casamentos, uniões de facto, relações amorosas mais ou menos temporárias ou estáveis assim...!

As dores do trabalhador independente

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Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.