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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Newsletter procrastinada #1

30.01.22 | BeatrizCM

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Procrastinadores e simpatizantes...!

 

Janeiro foi um mês em cheio. Parece-nos sempre um mês demasiado longo, mas para mim teve o tamanho ideal. Li muito, escrevi muito, pensei muito, fiz muito.

 

Apeteceu-me congelar a matrícula do mestrado, apeteceu-me esganar algumas pessoas com quem trabalho, apeteceu-me deitar-me no sofá e dormir eternamente, sucumbindo de cansaço mental. No entanto, também tive toda a certeza, mais do que nunca, de que estou a fazer aquilo de que mais gosto e que estou a levar a minha vida pelo melhor caminho possível. De facto, adoro dar aulas, estudar e escreer. Está tudo bem! E tive a certeza de que estou eu a mandar nisto tudo, que não me deixo só andar por aí a vaguear e a saltitar entre as mil actividades a que me dedico, qual robot em piloto automático.

 

É difícil. Não sei se é por ser o primeiro mês do ano, se é por aí da ter as resoluções muito frescas e a energia renovada por elas, se é por andar a falar muito com os meus amigos, se é por andar a conhecer pessoas incríveis... encontro-me optimista.

 

Este jeito mais informal de dizer olá serve para vos informar da criação de uma espécie de newsletter mensal, que só podia ser uma Newsletter Procrastinada. É verdade que ando a partilhar muitas sugestões de leitura, podcasts e até bebidas quentes no Instagram e no Twitter, mas que as devia ir registando por aqui e aproveitar ideias, lá isso devia. Só não encontro valor em criar uma mailing list de propósito, quando já podem subscrever o meu blog, anonimamente, por e-mail (versão desktop: procurem na coluna à direita, por baixo da minha fotografia; versão mobile: façam scroll até ao final da página para encontrarem a mesma coluna).

 

Por isso, em meia dúzia de categorias, deixo algumas sugestões do que andei a ler, ouvir e ver.

 

Um filme:

 

Thank You and Good Night, documentário autobiográfico cheio de artifícios metafóricos, que acompanha a doença e a morte da avó da realizadora (Jan Oxenberg), assim analisando o tema da morte, em geral, dos nossos entes queridos, aquilo que reprimimos e o que pescamos das nossas memórias, os conflitos intergeracionais. O documentário é relativamente curto (~80 minutos) e, apesar de já ser de 1991 e ter caído no esquecimento por mais de 20 anos, foi recuperado. Ainda bem! Ando a estudar a autobiografia, tanto na literatura quanto no cinema, e a revelação do privado transformado em público - um tema que me fascina cada vez mais. (Para variar, tenho de agradecer a recomendação ao Rui, que vos recomendo a seguir no Twitter, caso se interessem por assuntos variados, tais como cinema, música, literatura e economia).

 

Um podcast: 

 

A segunda temporada de The Happiness Lab, particularmente numa época tão conturbada e preocupante quanto esta. Esta temporada, que estreou no início do ano, é dedicada às emoções negativas. Agora pensam vocês "oh Beatriz, mas de emoções negativas já temos que chegue!". Claro que sim. Mas, como eu aprendi na pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada e ao longo de ano e meio de terapia, as emoções são sempre úteis e devem ser tomadas em conta, sentidas em pleno, e devem ser analisadas. Nelas, podemos ler informação útil. A chave é sabermos lidar com elas e responder-lhes, sem as evitarmos nem exaltarmos. Se quiserem ouvir um episódio só para experimentar, comecem pelo que vos deixo acima, acerca da ansiedade.

 

Um livro:

 

Dos (quase) cinco livros que terminei este mês, destaco não um, mas dois: Esforços Olímpicos (que li na sua edição brasileira, em ebook) e Grit (requisitado na Biblioteca Pública de Évora). Durante estas semanas, debati-me imenso com tomadas de decisão, obrigando-me a mim mesma a prosseguir no mestrado, a prosseguir na escrita e a sacrificar-me conscientemente, de certa forma, para atingir os meus objectivos. O primeiro é um ensaio ficcionado, tendo como protagonista uma candidata a doutoramento que enfrenta o pânico do falhanço e a ansiedade da estagnação, nomeadamente num contexto académico. O segundo é não-ficção, apresentando os resultados da investigação de Angela Duckworth quanto à medição e à promoção da perseverança e da paixão nos indivíduos. Com a Prof. Duckworth, sinto que me recordei de que é feito o "talento" e do quanto compensa ser consistente e coerente face às metas que estipulamos, para que sejamos bem-sucedidos, isto é, para que sintamos que alcançamos aquilo a que nos propomos no nosso trabalho, para que correspondamos às expectativas, mesmo no meio da adversidade, seja qual for a nossa idade. Quem tem filhos leva deste livro umas lições valentes sobre como cultivar a persistência!

 

Mas vá, recomendo só mais um livro, porque não há dois sem três (e mais uns quantos de arrasto): A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te, de Rosa Montero (que também escreveu A Louca de Casa, um dos meus preferidos de 2021). Este livro é do género de Levels of Life, de Julian Barnes, no sentido em que também retrata o luto pela perda de um companheiro de vida, mas a propósito de qualquer outra coisa, com uma grande vontade de celebrar a vida, apesar da morte. O pretexto é a vida de Marie Curie, com um foco especial sobre a sua relação com Pierre Curie, de quem ficou prematuramente viúva; assim como da garra e paixão pelo trabalho e pela sua emancipação desde jovem. O resto da minha review está no Goodreads. Aliás, para lerem as minhas reviews a todos estes livros, basta carregarem nas hiperligações por cima dos títulos! 

 

Um álbum/música:

 

O João raramente me mostra o que anda a ver e a ouvir. Quando o faz, confirma-se: afinal, até partilhamos gostos, porque eu acabo de adorar o que ele propõe e que acabamos por ver juntos. Na semana passada, vimos este filme, que é um espécie de mega-videoclipe do álbum K-12, de Melanie Martinez. Prestem atenção às letras e ao enredo do filme: feminismo, sexualidade, censura e opressão política, pedofilia, corrupção e nepotismo são apenas alguns dos assuntos. Gosto muito de tudo o que ouvi - as músicas são catchy, com ritmos interessantes e desconcertantes.

 

Ainda que não se trate de um álbum, recomendo a plataforma e app de streaming IDAGIO. Nela, só encontram música clássica, gravações, intérpretes e artistas contemporâneos, playlists para todas as medidas e disposições, e um interface agradável e amigo da exploração. (Obrigada, Alexandra, pela recomendação!)

 

Um motivo para procrastinar:

Há uns anos, uma amiga assegurava-me de que não devemos ter pressa, que devemos fazer a nossa vida, mas confiar no ritmo natural das coisas e na espontaneidade dos acontecimentos imprevistos. Foi ela quem me ensinou o conceito de "serendipity" (obrigada, Joana Miranda!). É óbvio que quem me conhece bem sabe que eu tenho feito, desde que me lembro, um esforço enorme para não deixar a minha vida nas mãos do acaso. Ainda assim, tenho tentado abrir cada vez mais espaço para improvisar e deambular, sem culpa. Pode ser nas leituras, nas músicas, nos planos, nas conversas, nos pensamentos, nas redes sociais. É assim que tenho interpretado os meus momentos de procrastinação e é esta a lógica que lhes encontro, porque... procrastinar também é viver. A liberdade de movimento e raciocínio trazem sempre combinações e associações interessantes.

 

Espero que, em Fevereiro, procrastinem muito e bem! 

Aqui

29.01.22 | BeatrizCM

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Pedi ao João para subir ao terraço, só para me tirar esta fotografia. Claro que tem o seu quê de ensaiada (eu até costumo sentar-me virada para a avenida), mas talvez seja ensaiada porque eu quis que lá estivesse tudo aquilo que costuma estar: os não sei quantos livros que vou lendo em simultâneo, o diário, a caneta, o telemóvel, até as pantufas. É o que levo sempre para cima, quando me apetece apanhar sol e ar fresco. São os meus companheiros quando quero ver o dia a cair, a partir do meu camarote favorito.

 

Espero, um dia, relembrar todos os elementos que fizeram parte da minha vida nestes anos. Quando as memórias se tornarem mais nebulosas e confusas, fotografias como esta irão ajudar-me a reconstituir os factos.

 

A nossa vizinha diz que os ares do Alentejo me fazem bem, que estou cada vez melhor. Apesar de eu acreditar que, em grande parte, isso se verifica porque deixei crescer o cabelo e o passei a pintar de tons rosa (o que me favorece e realmente me reflecte), aceito e concordo. Sou muito feliz aqui.

 

Não duvido de que pudesse ser feliz em qualquer lado, porque o meu "aqui" passou a ser o João, a Coffee, o Lord e os meus livros preferidos. Neste caso, sou especialmente feliz, porque também temos uma casa grande com escritório, uma sala com portadas enormes viradas para sul e nascente, e um terraço no telhado.

 

Neste terraço, é provável que eu tenha das vistas mais bonitas sobre Vila Viçosa. Sempre adorei os rooftops de Banguecoque, então arranjei um só para mim no interior alentejano. Este fica a uma altitude menos significativa, mas continuo a fascinar-me com o bulício da rua, os turistas que passam, os vizinhos que se cumprimentam, os carros que aceleram. Tenho um miradouro secreto, de onde observo a vida a acontecer, de onde penso na minha.

 

Há muitos dias e muitas noites em que acordo e adormeço a repetir ao João: que sorte que temos - por nos termos e por vivermos aqui.

Os poetas passam recibos verdes

24.01.22 | BeatrizCM

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No belíssimo livro Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, os poetas são comprados como bens de consumo, como quem adquire um aspirador. Acabam por ser uma mistura de animais de estimação e escravos, usados para bel-prazer dos seus proprietários - que, por um lado, não os entendem e chegam a troçar deles; mas que, por outro, se apropriam das suas gracinhas (dos seus versos e dos seus pensamentos) para fazer brilharetes perante outros humanos.

 

A sensibilidade e talento dos poetas e o seu contributo para a sociedade são, desta forma, menosprezados. Os poetas não passam de macaquinhos, uma espécie de bicho raro e extravagante sem nada para oferecer ao mercado e que, ainda por cima, causam despesa a quem os tem. A certa altura, uma personagem diz que uma experiência a faz sentir "Como se fosse lucrativo". Ela queria dizer que se sentia bem. Só o lucro importa.

 

No pequeno livro de Afonso Cruz, os poetas são seres marginalizados, equiparados a papagaios. Todo o livro é triste, incluindo a nota do autor, no final. Ainda assim, há esperança.

 

E é com uma nota de esperança que também escrevo este texto. Porque paguei parte da faculdade e pequenos luxos da adolescência e do início da idade adulta a escrever, ora com prémios literários que fui ganhando, ora com um trabalho a escrever para blogs através de uma agência de marketing. Porque quero continuar a escrever, por ser o que mais gosto de fazer, e a ser paga por isso. Porque quero que as minhas competências sejam valorizadas. Porque não quero ser vista apenas como um bicho raro, como o são os poetas da história de Afonso Cruz.

 

A ideia de talento ainda é limitada no nosso inconsciente colectivo, como se ter talento, ou ter jeito, fosse uma característica adquirida à nascença. Não é possível contabilizar o que aprende ou como pratica um artista (sublinhemos: um profissional da arte), dado que nada disso é mensurável. Por isso, mantemos a ideia de "talento", que por sua vez forma a ideia de que escrever, pintar, desenhar, tocar um instrumento ou fazer artesanato são "gracinhas", passatempos.

 

E podem ser. Mas, para muitos, estas actividades são o seu trabalho. Aliás, para muitos, o passatempo dos outros é uma fonte de rendimento extremamente interessante, sem esforço. É o que concluo, cada vez que alguém me envia um e-mail ou uma mensagem a pedir para divulgar isto ou aquilo, para lhes escrever reviews de livros que publicaram, até para escrever para sites profissionais e cheios de amor pela arte e cultura... a custo zero. Lá pelo meio, mencionam que os temas e a abordagem ficam ao critério da autora. Dizem-no com orgulho, até, o orgulho de quem não quer maçar muito, e de quem ainda se prontifica a tratar da promoção do texto ou trabalho nas suas redes sociais, provando como todos podem tirar dividendos deste acordo. A anedota faz-se sozinha... a bendita exposição não nos compra a casa, enlatados ou consultas no dentista.

 

No fundo, eu sei de quem é a culpa. A culpa é desses indivíduos, empresas ou entidades, mas também pode tornar-se facilmente culpa de quem o faz de graça, sem cobrar. Estas duas partes alimentam-se mutuamente. Porque os primeiros precisam de arte e engenho, e os segundos precisam que a sua arte e engenho sejam vistos. Eu sei, porque também já o fiz. Também já escrevi para o P3 do Público, cheia de boas intenções e motivação, até que reparei que o acesso às minhas crónicas começou a ser barrado pela paywall. Ou seja, eu escrevi conteúdo gratuitamente, mas esse conteúdo nem sequer está disponível para que eu e outras pessoas sem assinatura leiam. Nem sequer pode ser usufruído pela comunidade, que era o que eu mais queria. Aprendi a minha lição.

 

É muito chato pagar a quem escreve ou faz umas coisas. Afinal, o discurso público sobre a arte é, insistentemente, que é uma coisa gira que uns tipos fazem, esquecendo-se de que, se é uma coisa gira assim tão insignificante, pode muito bem ser feita por qualquer pessoa, como lavar a loiça ou cuidar de suculentas. E por que não o fazem?

 

Escrevo este texto cheia de esperança, mas a partir de um sítio de grande revolta, enquanto profissional das humanidades e das artes. Escrevo com indignação, em nome uma carreira que começo a construir de forma cada vez mais sólida e reflectida, com formação superior e profissional à altura. Estou a frequentar, nomeadamente, um mestrado em Estudos Comparados e uma pós-graduação em Escrita de Ficção, enquanto escrevo dois livros e concorro a vários prémios literários por ano. Com toda a minha vida a girar em torno das Letras (incluindo o facto de ser formadora certificada, professora de Português e Inglês, e ter formação em edição e revisão de texto), o mínimo que peço é que tenham a noção e decência de não tomar o que faço como uma palermice ou um passatempo.

 

Sim, eu tenho um blog. Muita gente tem blogs. Não somos pagos por isso, mas assim é porque o determinamos. Para mim, este blog é uma espécie de diário ou caixa de apontamentos sobre a vida, sobre as pessoas de quem gosto, sobre os livros que leio e os filmes que vejo, sobre aquilo que penso. Sobre quem sou. E é o espaço em que, simplesmente, pratico. Por isso é que me recuso a escrever sobre outras coisas e assuntos além dos que me apetece, por apetecer.

 

Fora deste blog, sou uma trabalhadora independente que tem contas para pagar e uma vida para desfrutar. Passo recibos verdes, pago impostos e pago Segurança Social.

 

Se gostariam de trabalhar comigo, contactem-me. Prometo profissionalismo, seja porque precisam de alguém que escreva para um blog ou para outro tipo de publicação, opine sobre um manuscrito, edite ou traduza um texto, ensine Inglês ou Português.

 

E depois disto, ainda querem comprar um poeta?

 

***

Na imagem: a autora no seu local de trabalho, o escritório, onde dá aulas, assiste a aulas, envia e-mails, escreve, passa recibos verdes, emite declarações, paga contas e procrastina.

Sobre estar a ler um livro, e de repente chega outro

(assim, qual deles leio?)

17.01.22 | BeatrizCM

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Eu não quero ler outro livro senão este. Estou a ir a um ritmo tão bom. A cada página segue-se outra, sem sequer pensar no movimento do dedo indicador, que começa a puxar a folha da direita desde a lombada até ao vértice do canto, e depois essa folha passa a ser a da esquerda quando a transporto para o lado oposto. O ritmo mantém-se, o dedo trabalha como uma batuta.

 

Gosto tanto deste livro. E só de pensar que passei tantos anos a vê-lo de longe nas estantes e nos catálogos das livrarias, sem nunca lhe ter dado qualquer valor, e só me ter decidido a trazê-lo da biblioteca na semana passada...!

 

Estou eu a ler o adoradíssimo manual de psicologia popular, quando, de repente, tocam à campainha. Vem aí correio. Abro a janela do escritório, mesmo ao lado da porta da rua, para receber o carteiro. Lá me traz ele uma caixa de papel da Almedina.com, bem arrumadinha, bem selada.

 

Outro livro! Viva!

 

Desato à procura da tesoura, corto todas as amarras aos diários e apontamentos de Susan Sontag, acabadinhos de sair, que ainda na semana passada descobri o pré-lançamento, quero ler tudo, quero devorar, tenho tanta curiosidade, e é tão excitante bisbilhotar os escritos alheios mais íntimos e espontâneos…

 

Mas, de facto, ainda não consigo ler dois livros ao mesmo tempo. Isto é, não consigo ler um livro com um olho, enquanto leio outro livro com outro olho. Seria óptimo, mas o meu estrabismo é ligeiro e não dá para tanto.

 

Fico a matutar no assunto enquanto almoço. Por um lado, já só me faltam quarenta páginas para terminar o livro sobre perseverança e paixão. Por outro (outro lado, não outro olho), sinto-me encantada com a possibilidade de ler um novo livro, meu, a cheirar a novo, com a encadernação intacta e as páginas ainda resistentes ao polegar que se imiscui entre folhas.

 

Almoço rapidamente, antes das aulas. Depois, passo quase três horas a dá-las - constantemente a pensar como me saberia tão bem estar, em vez disso, a ler os diários.

 

Por fim, as aulas chegam ao fim, e eu tenho uma fome danada. Lancho de pé e penso "é agora que vou ler, e vou mas é terminar o Grit, antes de adicionar mais um livro às três pilhas de livros para ler que tenho espalhadas pela casa!".

 

Depois do lanche, lembro-me que seria mesmo bom ler, mas só depois de dobrar a roupa lavada. Quero paz de espírito enquanto leio a Susan (sim, a Susan, que eu não penso em títulos honoríficos enquanto arrumo cuecas e pijamas).

 

E, quando termino aquele monte de roupa e liberto os alguidares, já é hora de ir ao veterinário. Vou ao veterinário. A Coffee está lá para dentro a levar a vacina, mas quem sente que precisa de uma sessão de terapia orientada para a perseverança sou eu. Até porque, depois de regressar a casa, ponho-me a conversar com as vizinhas e nem dou pelo tempo passar.

 

Pronto, finalmente, já não tenho nada que me impeça de terminar o primeiro livro ou de começar o segundo. Pronto, finalmente, sento-me com uma mantinha pelas pernas e a cadelinha aos pés. Afinal, apetece-me terminar o livro de psicologia. Quero sentir que termino qualquer coisa. Quero praticar o que diz o livro.

 

Claro que, exatamente quando me decido, me lembro de que tenho de começar a escrever este texto*.

 

 

*Escrito como exercício de aula da pós-graduação.

Agradecimentos

09.01.22 | BeatrizCM

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Adoro as páginas de agradecimentos dos livros. E adoro as dedicatórias, ainda no início. Ultimamente, dou por mim a imaginar como serão os agradecimentos, caso apareçam no final (o mais comum), enquanto leio o livro. Tento imaginar quem serão as pessoas que contribuíram, directa ou indirectamente, para que a obra como ela é, como eu a vejo, existisse.

 

Penso em tudo o que escrevo como uma folha de acetato entre mim e o leitor. Não é bem assim, mas há sempre uma parte do meu raciocínio que me faz acreditar que deixo transparecer tudo o que sou através da minha escrita. Por isso, imagino que os leitores prevejam facilmente quem serão os protagonistas dos possíveis agradecimentos num hipotético livro que eu publique um dia destes.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, mas com uma vida interior rica. Demasiado rica. Demasiado barulhenta. Extravagante? Extravasa para o papel, como é inevitável. É o que tenho aprendido ao ouvir a quantidade de podcasts que ouço e a ler a quantidade de textos autobiográficos que leio. Ainda assim, os escritores têm amigos e têm família. Têm editores e colegas de profissão. Têm montes de gente a torcer para que aquilo que escrevem seja bem recebido.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, por isso é natural que sejam permeáveis às vidas que os rodeiam. São influenciados e influenciáveis. A página de agradecimentos é que o confirma.

 

Quando também for altura de eu escrever uma página de agradecimentos, quase não precisarei de agradecer a quem tenho de agradecer. Só será uma formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

Sou a pessoa que pega nisso tudo, enfia na máquina da roupa e fica à espera do chocalhar do tambor. As fontes de inspiração, chamemos-lhes assim, saberão qual o agradecimento que lhes cabe, a partir de que parte. Finalmente, quando terminar o ciclo, terei uma mistura de pedaços daqui e dali que perfazem o meu trabalho (o trabalho de montar retalhos, portanto). Haverá, até, quem reivindique agradecimentos indevidos e imerecidos, mas até a esses eu direi: com certeza, agradeço a quem quiser que eu agradeça, que agradecimentos, renovada paciência e generosidade nunca faltarão a quem, por fim, consegue trazer uma obra ao mundo.

 

Mas os agradecimentos escritos vão lá estar, seja como for. Serão comprovativos daquilo e das pessoas que realmente interessam. Serão a tal formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

...

 

Na fotografia: a dedicatória em This is Going to Hurt, de Adam Kay.

 

Mais dedicatórias e agradecimentos interessantes aqui.

O fim de um ano sem resoluções

02.01.22 | BeatrizCM

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No início de 2021, não escrevi nem fiz resoluções de ano novo sérias. Penso que foi a primeira vez em muitos anos, uma vez que sempre adorei listas, fazer apontamentos e fazer planos. Fazer planos tem sido a minha forma de vida desde que me lembro, motivada pela minha avó a sonhar e a pensar nas opções para o futuro de amanhã ou para o futuro das próximas décadas - lembro-me de falar com ela todos os dias, quase em monólogo, sobre possibilidades e estrutura.

 

Ainda assim, não planeei o último ano. 2021 podia ser tudo e podia ser... nada. Pareceu-me demasiado arriscado, talvez despropositado, visto que 2019 já tinha sido, para mim, um ano absolutamente improvável, e que 2020 jamais faria parte dos nossos sonhos, pesadelos ou cenários colectivos imaginados mais rocambolescos. Sabia lá eu o que poderia acontecer em 2021!

 

2021 foi um ano improvisado. Eu sabia que não havia alternativa, senão contar com uma dose considerável de aleatoriedade. Aceitei a abundância de variáveis. Aceitei que seria um ano com muita necessidade de fé, sobre o qual eu pudesse encolher os ombros com frequência.

 

Mudei-me para Vila Viçosa, comecei a viver com o João e abandonei convictamente (com todo o gosto) qualquer ambição de voltar a trabalhar ou estudar em Lisboa nos próximos anos. Encontrei uma rede de apoio e carinho nos nossos vizinhos, habituei-me à calma e às dinâmicas de viver numa vila pequena, ganhei tempo (e lentidão) para escrever como nunca escrevi na vida, para deixar de me sentir ansiosa a toda a hora e para ser só eu, no meu espaço.

 

Finalmente, o meu espaço. 2021 foi o ano de fazer duma casa nova um lar, o nosso primeiro lar a dois - ou a quatro. Agora, é um lugar de paz. Depois de termos adoptado a Coffee Bean no final de 2020, vimo-la crescer de cachorrinha mais activa e teimosa de sempre, para jovem adulta esperta, querida e companheira. Lord Ennui continuou a ser o gato mais carismático, falador e impaciente (mas paciente com a Coffee) que nos poderia calhar. Os dois fizeram as delícias de quem passava por baixo dos nossos varandins.

 

Li 42 livros, entre os quais se encontram algumas releituras, vi poucos filmes e vi mais séries do que esperava. Quase não saí de casa, procrastinei imenso e decidi cometer a loucura de fazer uma pós-graduação ao mesmo tempo que o mestrado. Concorri a três prémios literários; ganhei o 3º lugar num e fui finalista noutro, que tive a oportunidade de apresentar num evento especial. Escrevi quase um livro inteiro, um sem número de contos e desafiei-me a publicar mais no blog. Dei aulas a pessoas extremamente interessantes, com os meus alunos aprendi muito sobre a língua portuguesa.

 

Descobri que trabalho demais e que preciso de ser mais branda nas expectativas sobre mim mesma. Descobri que me esqueço de descansar.

 

Comecei o ano a matar plantas e acabei o ano a gostar de as manter vivas. Passei o verão a fazer mantas em crochet para as minhas sobrinhas emprestadas, descobri que sou daquelas pessoas que sabem cozinhar por puro acaso, sem esforço, e ouvi montes de podcasts enquanto me dediquei a essas actividades. Fiz terapia semanalmente, remendei muitos buraquinhos na minha cabeça e aceitei que o que faz sentido para mim é viver numa espécie de caos organizado (e contido pelo João).

 

Pelo meio, conheci imensas pessoas (algo surpreendente para quem ficou muito tempo em casa). Fiz amigos e mantive amigos. E tanta coisa se passou na vida dos meus amigos, tal como na minha! Emocionei-me tantas vezes!

 

2021 não foi planeado. Fiz tudo de improviso e por intuição. Por isso, 2022 vai ser um ano um pouco mais regrado e pensado, que é para haver equilíbrio. Claro que já fiz uma lista e preparei o espaço para outras. 2022 tem de se tornar um ano com estrutura.

 

Estes são alguns dos meus 24 desejos para 2022:

1. Escrever um daily log;

2. Ver 30 filmes;

3. Ler 40 livros;

4. Fazer uma viagem sozinha;

5. Fazer escalada interior;

6. Começar a escrever a tese de mestrado;

7. Criar o podcast que tenho na cabeça há quase 2 anos.

 

Terminou um ano sem resoluções. O próximo será diferente, completamente diferente.