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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Coisas que subvalorizei por demasiado tempo

(e que tornam a vida muito mais fácil, simples, agradável)

16.03.22 | BeatrizCM

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Uma tábua de engomar mais comprida e larga
A ferramenta para ditar controlos de voz ao telemóvel
Papas de aveia com canela
Copos de arroz instantâneo
Papel de desenho para escrever cartas
Sacos de pano
Notas adesivas
Google Keep e Google Docs
Desumidificadores
Meia dúzia de mantas espalhadas pela sala, de diferentes tamanhos, materiais e agasalho
Amigos como extensão da família
Luva de borracha para escovar cães e gatos
Base em pó compacto (maquilhagem)
Retratos fotográficos de qualidade superior
Mesa grande para trabalhar
Monitor grande para trabalhar
Tirar notas das aulas e do progresso de cada aluno
Ter uma página profissional no Facebook e no Instagram
Manter um diário
Escrever e receber postais e cartas
Beber chá quando preciso de dormir, beber chá quando preciso de despertar, beber chá quando tenho frio, beber chá quando tenho calor
A paz e o descanso de viver no interior de um país como Portugal

Ansiedade, labiríntica ansiedade

04.03.22 | BeatrizCM

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Viver com ansiedade é viver várias vidas em simultâneo. É viver várias linhas de tempo. A linha de tempo presente, a linha de tempo mental 1, a linha de tempo mental 2 (e a 3, a 4, a 5 e por vezes a 6), a linha de ontem, a linha do outro dia e a linha daquele tempo do qual já nem há memória mas que, ainda assim, causa angústia.

 

Viver com ansiedade não é tê-la como colega de casa. Ela não vive sempre aqui. De vez em quando, aparece, nem sempre previsivelmente. A minha ansiedade, por exemplo, é mais como um vizinho intrometido que se faz de convidado para tomar café, exactamente nos dias em que dá menos jeito. E este vizinho é surdo, fala alto, grita, gesticula, abre as janelas todas e deixa portas a bater com a corrente de ar. Dá vontade de perguntar "mas o senhor não tem casa? não tem mulher? não tem cão? não tem assuntos para tratar?". Arre. Saia daqui p'ra fora, pelo amor de deus! Tenha piedade!

 

Viver com ansiedade é viver cansada, até exausta. Parece que a cabeça é um poço sem fundo, através do qual se ouvem vozes subterrâneas que questionam, provocam, ditam, julgam:

 

E se eles me entenderam mal? E se eles já não quiserem ser meus amigos? E se deixam de gostar de mim? E se eu inseri a referência de pagamento errada? E se eu não apanhar a roupa da corda antes de anoitecer, e a roupa apanhar humidade e o fumo das lareiras? E se Portugal também entrar em guerra? E se eu nunca conseguir comprar uma casa, publicar um livro ou terminar o mestrado? E se, em 2040, eu ainda não tiver terminado as cinco tarefas que tenho pendentes para esta semana?

 

Viver com ansiedade é sentir a obrigação de chegar primeiro, mas sentir que não se aproveitou a experiência até lá chegar. É sentir culpa porque há quem nunca o consiga fazer, e eu consigo, e tenho tanto privilégio na minha vida; e sentir culpa porque sinto tudo. Só que estou tão habituada a sentir tudo que, quando não sinto nada, fico ainda mais ansiosa, porque devia sentir qualquer coisa. Viver com ansiedade é pensar sempre que se fez de menos, excepto quando se pensa que se fez de mais, e agora vão achar que sou exagerada, dramática, histérica. 

 

Viver com ansiedade não é divertido, não é artístico e boémio, não é ter manias e ter material criativo, grátis, para escrever umas cenas. Viver com ansiedade é mais sobre ter de tomar umas cenas (decisões, um duche quente, chá, Victan). E, mesmo assim, sentir que nada, coisíssima nenhuma, alguma vez, vez nenhuma, mudará o que eu sinto e como eu me sinto.

 

E, quando nos dá um aperto no peito, ouvimos a voz do povo: o teu mal é sono. Eu durmo, mas sonho que estou a ter - precisamente! - o ataque de pânico que não tive enquanto estive acordada, e o ataque de pânico no sonho provoca um dia de pânico depois de acordar, mas não posso voltar a adormecer, porque já é de manhã. 

 

Enfim, a vida continua e, no final de contas, o que vale é que ser ansiosa é patológico e possivelmente crónico; porém, eu sou ansiosa e optimista, então ainda acredito que, todos os dias, posso entrar neste labirinto e sair pelo meu próprio pé, até o aprender de cor.

 

É por isso que eu acredito que, todos os dias, ganho o jogo. A ansiedade também pode ser um labirinto de onde já sei fugir, arranhada mas vitoriosa.

 

📷 Lá em cima: eu, aos 3 anos, e a minha avó. Eu, agitada, e a minha avó a ver ao longe com binóculos, a observar (a esconder que também ela tem a sua própria agitação?). Acho esta fotografia ilustrativa de tudo e mais alguma coisa. E acho que foi o meu pai quem a tirou.