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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Uma nova voz

22.04.22 | BeatrizCM

 

Tenho lido cada vez mais poesia. Voltei a ler poesia, principalmente por sentir que me traz uma mistura de harmonia e de reflexão, uma espécie de estado meditativo, que eu nem sabia que me faltava. Preciso de parar, de ouvir as palavras, de as apreciar e de desfrutar delas com atenção plena, delicadeza, curiosidade. Ao fim de vários anos sem ler (nem escrever) poesia, sem me interessar, devolvo-lhe o espaço que merece nas minhas estantes e na minha cabeça.

 

Uma das responsáveis por este interesse renovado é uma jovem poeta: Alice Neto de Sousa. Ouvi-la falar já é regalo suficiente (que voz tão gentil, tão clara!), mas ouvi-la declamar poemas, tantas vezes de cor, é uma prenda que desembrulhamos com cuidado, para de repente sermos arrebatados.

 

Espero que figuras jovens na literatura e cultura portuguesa, como Alice Neto de Sousa, consigam convencer a nossa geração a descobrir ou a redescobrir as palavras. Que continuem a enriquecer a língua, a experimentá-la, a criar novos trilhos. Que a preservem, sem baixarem a fasquia.

 

Além do vídeo lá de cima (gravado na tomada de posse do novo governo), no qual vemos Alice declamar um poema que escreveu para a comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, também recomendo esta conversa num dos meus podcasts favoritos, A Beleza das Pequenas Coisas, com Bernardo Mendonça. Foi com este episódio que fiquei a conhecer a Alice, que me pareceu logo uma pessoa maravilhosa e interessante, com tanto para partilhar.

Desejo que encontremos, nas letras, a tal Liberdade.

 

Epá, que convencida!

07.04.22 | BeatrizCM

Talvez por causa da terapia, talvez por causa de procurar o que escrever, vou-me lembrando de coisas que aconteceram na minha infância. Pergunto-me: que experiências me terão moldado? Na maior parte das vezes, só me lembro de bocados desconexos e sem valor narrativo. De vez em quando, lá me ocorre qualquer coisa relevante. Ou curiosa, que me faz indagar.

 

Nunca gostei muito dos momentos de auto-avaliação no final de cada período no colégio. Sempre os achei desnecessários e causa para grande ansiedade. Se, por um lado, marcavam o final de mais uma fase de trabalho (missão cumprida!, que alívio, a seguir vinham as férias), por outro representavam um real suplício.

 

Não, não era um suplício pela nota. Eu não ficava ansiosa pelos resultados. Eles eram invariavelmente bons. Mas era de facto nesse ponto que o problema começava, que eu deixava de gostar do momento em que os professores perguntavam:

 

- Então, que nota achas que vais ter?

 

Até ao secundário, eu nunca estudei. Retirava prazer em ler por diversão, aprendia montes de coisas pelos livros, pelos filmes e séries, pelos documentários, em casa. Fazia os trabalhos na véspera e muitas vezes nem os fazia, mas chegava às aulas com as respostas na ponta da língua. Apesar de ter passado o oitavo e o nono ano de fones num ouvido, com o olho num livro, e o outro ouvido e o outro olho nos professores, os resultados nunca mudaram. De certa forma, eu fazia trabalho invisível e tinha muitas oportunidades para aprender fora da escola. Só não era 5 quando era 4. Só não era Muito Bom, quando era Bom+, com a excepção de Educação Física (sempre fui coerente).

 

Por isso, no final de cada período, eu devia responder, de forma confiante: eu vou ter um 5, porque fiz as contas e a matemática não mente.

 

Só que, quando eu (ou qualquer outro colega) respondia que merecia nota máxima, a turma caía-me em cima.

 

 

- Epá, Mendes, que convencida!

 

Eu podia retaliar. Podia apontar para as evidências. No fundo, eu nem sabia por que tínhamos de ter aquela conversa, porque não lhe encontrava nenhum benefício. No final, teria de fingir humildade. Um quatrozinho, por caridade. Afinal, eu não devia esfregar as minhas boas notas, interesse e diversão honesta perante a plateia que não conseguia tais resultados, nem proveito durante o processo (o que, com frequência, se justifica, porque já sabemos que nem todos aprendemos da mesma forma).

 

Ora, com doze ou treze anos eu era parva, mas não tanto, e nem sempre. Alinhava em responder que merecia um 4 na pauta, mesmo que estivesse ciente de que não era verdade. Só para dar o jeito...

 

Esta podia ser só mais uma memória aleatória de uma idade longínqua. Claro que sim. Podia tê-la deixado lá atrás e seguido com a minha vida. Contudo, mal me passou pela cabeça recentemente, não pude evitar analisá-la e escrever sobre ela. É o que eu faço, escrever.

 

Surgiram-me várias perguntas. Por exemplo, será de episódios assim que nasce a falsa modéstia? Ou, mais do que isso, será daqui que nasce a baixa autoestima? Tanto uma quanto a outra têm terreno fértil, já que só resta uma sensação de indiferença perante resultados positivos.

 

E, depois, o elogio à mediocridade. Quando se é tão novinho, isto marca. Se eu não tivesse alguém em casa que me repetisse, todos os dias, que o melhor é sermos nós mesmos e valorizar todas as nossas características únicas, o nosso esforço, as nossas qualidades, provavelmente teria pensado que a norma devia ser respeitada e que eu devia manter-me na média, se queria ser bem sucedida.

 

Por fim, também me pergunto: onde estavam os adultos, quando nesta e também noutras ocasiões, eu só obtinha reacções hostis ao reconhecer as minhas capacidades e interesses? Não acuso ninguém (até porque eram outros tempos, houve excepções, e a minha memória pode falhar), mas tenho de apontar que a falta de intervenção me deixava bastante espantada. Gostava que mais adultos tivessem dito "olhem lá, se ela fez as contas e tudo somado dá 93%, queriam o quê, que ela tivesse um 3 no final?!"

 

É como se, ao chegarmos à idade adulta, tivéssemos qualificações e experiência para ganharmos 1000€, mas só nos quererem pagar 800€. Ou os nossos colegas ou clientes acharem que sim, que é o que merecemos. Este gaslighting não nos é totalmente estranho, pois não?

 

Reconhecermos o nosso valor justo não é sermos "convencidos". Não é sermos arrogantes. Não é acharmo-nos melhores do que os outros. É acreditarmos no que merecemos, no que trabalhámos, no que sabemos fazer, no que conseguimos atingir. Acredito que devemos dizê-lo mais vezes às crianças. E também acredito que o devamos dizer aos adultos, caso eles se tenham esquecido.

 

Hoje em dia, continuo a fazer a minha auto-avaliação. Não dá sempre nota máxima, mas raramente dá menos do que o valor justo. Menos do que isso não é negociável.

Nota 5, pela confiança.

Considerações sobre ser escritora

01.04.22 | BeatrizCM

annpatchett.jpg

 

Uma das minhas escritoras favoritas é a Ann Patchett. Escreveu para revistas, escreveu ficção, escreveu não-ficção, escreveu ensaios, fala muito bem em podcasts. Não tem televisão e usa pouco o telemóvel (também acho que é dos antigos). Já mencionei Ann Patchett várias vezes por aqui, e agora só venho mencioná-la mais uma, para vos apresentar, especialmente, este ensaio: "The Getaway Car".

 

Já o li três vezes (fora as notas que vou tirando) e tenho-o em formato ebook, para ler no Kobo, mas também o podem encontrar na colectânea This is The Story of a Happy Marriage (um dos meus livros preferidos).

 

E, perguntam vocês, de que carro de fuga está Ann Patchett a falar? A resposta é simples e pouco floreada: o primeiro romance que escreveu e publicou, The Patron Saint of Liars (Patchett é a chefona dos títulos). Aos 26 ou 27 anos, se não me falha a memória, agarrou-se à escrita deste livro como se a sua vida dependesse dele, porque, na verdade, dependia.

 

Uma coisa é escrever por desporto, outra é escrever por profissão. À semelhança de todas as profissões que existem, a escrita não existe sem aprendizagem, sem prática e sem estudo. É disso que Ann Patchett fala, é disso que nos relembra. Há uma dose de sacrifício necessária para conseguir chegar ao fim de uma maratona que é escrever um livro. Escrever um livro... não, não é um sprint, como muitos "escritores" fazem parecer. Escrever é um compromisso a longo prazo.

 

"The Getaway Car" é o testemunho dos primeiros anos de escritora que Ann Patchett viveu. Desde ter sido uma aluna entusiasmada de escrita criativa na licenciatura e ter dado aulas numa faculdade, até ter trabalhado como empregada de mesa, passando por um divórcio e um mestrado (o famoso Iowa Writer's Workshop), é impossível não retirar uma ou duas lições sobre perseverança e crença inabalável em si mesma. Neste ensaio, encontramos os ingredientes para escrever: família e amigos que acreditam tanto quanto nós, muitos anos de prática, muita disponibilidade para aprender, alguma falta de dinheiro, os altos e baixos, a rejeição, o optimismo e não se levar demasiado a sério.

 

Deixo-vos um pedacinho:

"I can't write the book I want to write, but I can and will write the book I am capable of writing. (...) I remember complaining one night on the phone to my mother that we spent too much of our time worrying about love and money. "Think of it as research," she said. "Thats what everybody writes about."

 

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