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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

A história de uma mulher (e do homem que ela ama)

15.05.22 | BeatrizCM

Ontem, fui a uma cerimónia receber uma menção honrosa que ganhei num concurso literário. O livro que submeti chama-se Histórias de Mulheres (e dos Homens que Elas Amaram), uma antologia de contos da minha autoria que não recebeu o primeiro prémio, mas sobre o qual foram ditas palavras muito elogiosas, nomeadamente acerca da representação de mulheres com histórias variadas, narrando as suas relações com homens com os quais vivem em tensão (violenta, apaixonada, ambígua). Sinto-me bastante orgulhosa por, aos 26 anos, tais palavras se aplicarem ao meu trabalho e por destacarem exactamente o que eu pretendia mostrar pela escrita. Graças a elas, sei que estou num bom caminho.


No final da sessão de apresentação dos premiados desta edição e do lançamento dos livros agora publicados dos premiados da edição anterior do concurso, houve um beberete e momento de confraternização, que aprecio sempre.


Nessa circunstância, fui interpelada por um homem. Estaria na casa dos cinquenta e tal ou sessenta e poucos anos, enérgico, bem parecido e bem falante. Mais palavra, menos palavra, tivemos a seguinte conversa:
- Foste tu que escreveste o texto das mulheres?
- Sim, fui.
- Pois, os homens são uns malvados.
- São, mas nem sempre. Aliás, a minha obra chama-se Histórias de Mulheres (e dos Homens que Elas Amaram). Estão os dois lados bem representados.
- Claro, porque, atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher.
- E vice-versa, também. Atrás de uma grande mulher, há sempre um grande homem - não acha?


Infelizmente, não obtive mais nenhuma resposta. Serviu esta curta interacção para me obrigar a concluir que escolhi o título certo para a antologia de contos. Haverá sempre quem o leia em tom provocatório, e eu aprecio uma boa provocação, mesmo que a considere anacrónica e, num mundo ideal, desnecessária.


Disse-me a amiga que me acompanhou que, na verdade, até chegar a mim, este homem andou a perguntar a várias mulheres se tinham sido elas a autora das Histórias de Mulheres. Será que procurava o confronto, ou uma oportunidade para contar a graçola e validar a sua opinião? Investiu um esforço... admirável, até ter encontrado a pessoa certa.

Agora, permitam-me divagar.
Em 1928, Virginia Woolf proferiu as conferências que se tornaram A Room of One's Own, "um quarto só para si". Segundo Woolf, esse quarto é um espaço onde se reúne o tempo, o dinheiro e a liberdade para a fruição e produção intelectual, que as mulheres nunca haviam tido. Aprisionavam-nas o trabalho doméstico, os maridos, os filhos, a casa, as exigências da sociedade, as expectativas familiares e os papéis de género. Não tinham independência financeira, nem independência de pensamento. E será que, quase um século mais tarde, não continuamos aprisionadas pelas mesmas convenções?


"Eram inúmeras tais dificuldades materiais; mas muito piores eram as imateriais. A indiferença do mundo que Keats, Flaubert e outros homens de génio acharam tão difícil de suportar, era no caso delas não só indiferença como hostilidade. O mundo não lhes dizia, como a eles: escrevam se quiserem. Pouco me importa. O mundo dizia-lhes num tom de mofa: escrever? Para que serve a vossa escrita?" (Capítulo III)


O João não pôde estar presente na cerimónia de ontem, mas tem estado presente em todas as outras desde que nos conhecemos. Esta manhã, reparei que hoje é Dia da Família, um pretexto muito propício ao balanço que tenho a fazer desta experiência. No final de 2020, escolhi o João para ser a minha família. Ele é o protagonista da história desta mulher, porque é o homem que ela ama. Este não é um conto isento de tensão entre personagens, sem os pequenos conflitos e contrariedades de que uma boa história carece. Não sendo um homem perfeito, tem sido o melhor parceiro que tem conseguido, que me acompanha, que me aplaude e que tenta falar a mesma língua que eu. Assim, é verdade: atrás de uma grande mulher está um grande homem.

 

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Se eu posso fazer da minha vida escrever, ler e estudar, é devido às condições materiais e imateriais que o João me concede. O João não entende muito sobre o trabalho criativo, mas entende a parte prática, oferecendo-me, todos os dias, um quarto só para mim, tanto dentro da nossa casa (o meu escritório), quanto dentro da minha cabeça.

E eu, também lhe dou um quarto só para ele? Com certeza: atrás de um grande homem, está sempre uma grande mulher. Admiração e apoio com admiração e apoio se pagam. Cá em casa vivemos como um corpo movido a duas pernas: primeiro, uma atrás e outra à frente; e depois trocamos, apoiando o próximo passo. Só assim é que o corpo se poderá erguer, como na obra performativa Untitled (2010) de Helena Almeida. É isto a família. 

 

 

E eu dou por mim a escrever histórias em que as mulheres são protagonistas para que todo o espectro de experiências possa encontrar o seu próprio espaço, num espaço que não deve ser só privado, como também público: a página.

Como falhar

09.05.22 | BeatrizCM

Estudei Humanidades e depois Letras. Colecciono pós-graduações não relacionadas. Abandonei o trabalho dos meus sonhos. Deixei a meio dois mestrados em universidades de excelência. Nunca consegui poupar (excepto para estudar e comprar um carro). Passo mais de quatro horas diárias com a cara no telemóvel. De vez em quando, caio no buraco negro do LinkedIn. De vez em quando, espreito o que andam a fazer os colegas da escola secundária. Tenho preguiça de fazer exercício físico. Como lacticínios em quase todas as refeições. Esqueço-me com frequência de pôr protector solar. Ouço as mesmas músicas e artistas que ouvia há dez ou quinze anos, ou sigo cegamente as recomendações do Spotify.

Tenho falado muito com amigos sobre a impressão de que estamos constantemente a falhar. E, no final, parecemos todos partilhá-la. Olhamos para o lado, para os nossos pares, e achamos que os outros sim - os outros é que sabem tudo o que devem fazer, como o fazer. Mas, quando discutimos isto entre nós, concluímos que estamos todos no mesmo caminho de questionamento e experiência.

Na maior parte do tempo, sinto-me muito orgulhosa do que faço e de quem sou. As falhas são falhas e as vitórias são vitórias de acordo com a forma como as narramos. Ainda assim, tendo a pensar que os meus amigos estão a ter mais sucesso, porque são tão inteligentes, são tão divertidos, são tão bonitos e charmosos, ganham mais do que eu, tiraram formações mais rentáveis para o mercado de trabalho, conhecem mais pessoas, têm filhos maravilhosos, organizam melhor o tempo, lêem melhores livros, vêem melhores filmes e ouvem melhor música, viajam mais.

No entanto, no final de contas, o que concluo é que podemos admirar outras pessoas sem as pôr num pedestal nem, por outro lado, diabolizar o nosso percurso.

Dito isto, os podcasts voltam a salvar a sanidade de uma pessoa em momentos de dúvida. Um dos que mais recomendo chama-se, precisamente, How to Fail. Comecei a ouvi-lo por causa do episódio com Alain de Botton, um dos meus autores preferidos e um excelente orador. Não ouço todos os episódios, mas vou ouvindo uns aqui e outros ali, nos últimos três anos. Ajuda muito saber que toda a gente falha, alguma vez na vida, até quem nós mais admiramos e que tem, objectivamente muito sucesso (escritores, actores, activistas, artistas e outras figuras mais públicas).

 

 

Há tantas formas de falhar quanto de ser bem-sucedido. Eu até diria que, se achamos que estamos a falhar e temos consciência das nossas falhas, já temos metade do caminho percorrido para as contrariar e arranjar soluções, escolhendo caminhos e narrativas alternativos. Há sempre tantas versões da mesma história.

 

Aproveito para recomendar outro episódio que ouvi recentemente e de que também gostei:

 

 

E mais um:

 

Gutenberg, Adamastor e Florbela Espanca entram num blog e...

02.05.22 | BeatrizCM

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Gutenberg inventou a imprensa. Alguns séculos depois, alguém terá inventado os ecrãs. Estamos rodeados de papel e de ecrãs. Eu, pelo menos, estou rodeada de papel e de ecrãs. São eles que dominam a minha secretária e o meu escritório. Uns e outros fazem parte da minha vida desde que me lembro, não fosse eu uma millennial nascida mesmo a meio dos anos 90. Vivemos num mundo que muito deve a Gutenberg, mas que, em simultâneo, tem disponíveis tecnologias electrónicas inimagináveis.

Depois desta conversa fiada, perguntam vocês: o que têm Gutenberg e os ecrãs (de televisão, telemóvel, tablet, computador...) em comum? Têm quase tudo, sem surpresa. Aliás, já devem ter ouvido falar do projeto Gutenberg, uma biblioteca online que disponibiliza ebooks, de forma 100% gratuita (normalmente, obras que já se encontram no domínio público), com uma boa edição. Se a impressão de livros em série democratizou o acesso ao objecto e à leitura, o que diremos dos livros electrónicos? Lá voltaremos.

Entretanto, é caso para dizer: andou Gutenberg a inventar a imprensa, e cá andamos nós a armazenar e a ler centenas de livros e documentos sem precisar de impressões ou papel! Mas tudo uma por uma boa causa, e uma causa sustentável e acessível a todos.

Há alguns dias, fui contactada pelo Ricardo Lourenço, responsável pelo Projecto Adamastor, um projecto sem fins lucrativos semelhante ao projecto Gutenberg, mas para literatura lusófona. Também se trata de uma iniciativa dedicada à disponibilização, em formato digital, de obras literárias em domínio público. Nunca tinha ouvido falar dele, mas fiquei muito contente por saber que existe.

Tenho lido cada vez mais mulheres, primeiro de forma consciente, e agora só porque calha, porque me identifico e porque faz sentido. Nisto, até já ando a ler o último ebook lanaçado pelo Projecto Adamastor: Vozes Femininas, uma antologia de contos e novelas de escritoras do séc. XIX e início do séc. XX (e o que eu adoro ler e escrever ficção breve...?!).

Não conheço a maioria das autoras publicadas nesta antologia, mas não posso deixar de mencionar que, com todo o mérito, lá encontramos um conto de Florbela Espanca, "O Regresso do Filho". Ando a preparar um artigo sobre os contos de Florbela para a revista cultural e académica de Vila Viçosa, por isso tem sido uma figura muito presente, por quem acabo por nutrir um carinho e admiração cada vez mais especiais. Espero sentir algo parecido pelas suas colegas de "voz".

Felizmente, o acesso a bons livros e outros recursos escritos encontra-se cada vez mais facilitado pela existência de ebooks e ereaders (como o Kobo e o Kindle, assim como tablets e computadores). Fico cheia de esperança que cada vez mais pessoas o consigam ver e começar a utilizá-los.

Segundo este relatório da empresa OverDrive (distribuidora de conteúdo educativo), 38 000 escolas em 71 países triplicaram o uso de ebooks e áudiolivros desde 2019. Não admira! Afinal, são excelentes formas de fomentar o interesse dos alunos, trazendo-lhes facilmente os recursos necessários para as mãos. Se onde moro, em Vila Viçosa, só se arranjam livros no posto dos CTT e numa ou noutra papelaria (livros manhosos e edições desactualizadas e desinteressantes, maioritariamente), o que dizer de sítios muito mais remotos do país, da Europa, do planeta?

Isto faz-me lembrar, imediatamente, da saga dos computadores Magalhães. Claro que muitas pessoas tinham dúvidas sobre a sua eficácia. Claro que foi um projecto com muitas falcatruas por trás. No entanto, imagino que para muitos alunos tenha sido esse o primeiro contacto com um computador, com a Internet e os recursos digitais. Foi uma iniciativa louvável. Ainda espero, um dia destes, um novo plano de distribuição de tablets e ereaders, por exemplo, para que mais pessoas possam aceder ao livro, sem terem medo dele, sem acharem que o livro é só para uns e não para outros.

Devemos apoiar projectos nacionais que, tal como o Projecto Adamastor, fomentem a literacia, a literacia digital e o dispobilização gratuita de livros. Tornar a cultura acessível e interessante é uma missão ambiciosa, mas que apoio inteiramente.