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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Cabeça de COVID

21.06.22 | BeatrizCM

Eu vivia angustiada à conta das minhas inseguranças. Cada pensamento que me surgia na cabecinha era esmiuçado, torcido e escamoteado mil vezes antes de ter efeito no mundo. Ou em vez de ter efeito no mundo.

 

Agora, vivo angustiada porque, depois de apanhar COVID, tudo mudou. Agora, já não vivo angustiada à conta das minhas inseguranças. Já não sou refém do pensamento. Libertei-me!

 

Isto é... porque, depois do COVID, deixei de ter pensamentos. Eu sei que ainda só passou uma semana desde os primeiros sintomas e que só hoje poderei voltar a sair à rua, mas não caibo em mim de surpresa: estou leve, sem o peso do pensamento constante, algazarra chata, com que devo ter nascido. E sem mais nem menos, as inseguranças desapareceram, simplesmente porque deixei de ter como as articular! Não consigo regressar ao meu remoinho obsessivo habitual, porque não consigo manter a atenção no mesmo assunto por mais de dois minutos.

 

Muitas foram as pessoas que me avisaram: o sintoma a médio e longo prazo mais comum é a lentidão mental. Cada célula arrasta-se para se fazer ouvir e para fazer o meu ouvido interno funcionar. Cai um talher lá dentro, faz tlim tlim, é como se mil brindes se anunciassem. Mas não há ninguém nesta festa, ninguém foi convidado, e as músicas brega são sempre as mesmas.

 

Não demoro a perceber que, na verdade, o que eu oiço é uma nova versão de white noise. Ruído de fundo. São palavras soltas. Conceitos abstractos. Raciocínios a prestações, somas em liquidação total, substrações mancas, divisões de frases em morfemas, multiplicação de fragmentos, o pó das palavras tipo Maizena do córtex frontal. Refrões de músicas, poemas coxos, frustrações e queixas batidas em repeat.

 

Foi assim que comecei a escrever este texto. Só para provar que algo vindo do meu miolo infectado ainda pode fazer sentido.

 

(Fujam do bicho tanto quanto possível.)

(É provável que eu só esteja cansada.)