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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

não gosto!

Inspirado na crónica com o mesmo nome de Margarida Rebelo Pinto




   Não gosto! Não gosto de acordar antes das oito, não gosto de me deitar antes das onze, não gosto quando não tenho margem de tempo para ficar a pensar e a repensar em inúmeros pensamentos estapafúrdios antes de adormecer, porque tenho de me levantar cedo na manhã seguinte. Não gosto que me venham acordar à cama, mesmo com sussurros carinhosos e suaves (avó) e ainda gosto menos que me tentem arrancar de lá  antes das nove, aos fins-de-semana, contra a minha vontade.


   Não gosto de sentir que não tenho motivação para escrever, nem que me chantageiem emocionalmente para ler o que escrevo – se eu quiser, mostro-o de imediato, de livre vontade; se não quiser, se eu própria não vos passar o papel/computador para a mão, mais vale nem se atreverem a pedir.


   Não gosto de dormir com peluches e não me lembro de alguma vez ter gostado. Não gosto de sentir o pó que largam, uma vez que sou alérgica (limpezas também não são comigo, apesar de gostar de arrumações), e também não gosto da sua textura contra o meu corpo, mãos, cara.


   Não gosto de discussões, sejam elas familiares, entre amigos, com amigos, nos livros, nas séries ou nos filmes, na casa dos vizinhos ou comigo mesma. Não gosto quando as pessoas com quem me relaciono não sabem resolver os (nossos ou seus) problemas através da comunicação verbal, preferindo calar-se e absorver tudo, até que, um dia, rebentam, nem quando me culpam pelo que tenho a certeza não ser culpa minha. Não gosto quando não me sinto valorizada pelos que me são próximos e pelo que faço por eles, não gosto de chegar à conclusão de que dou mais do que recebo.


   Não gosto de praia sem dar um mergulho, de Junhos chuvosos, Fevereiros de bater o dente ou vésperas de Natal sem abrir os presentes até duas horas depois do jantar (meia-noite é para os fortes, eu sou fraca  e a curiosidade é mais que muita).


   Não gosto das sombras dos olhos que saltam para as pestanas sem aderir à pálpebra, não gosto do lápis preto que não se aguenta no olho durante mais de cinco minutos. Não gosto de glosses com textura peganhenta que me prendem os cabelos aos lábios em dias de maior ventania. Não gosto dos vernizes que saem das unhas menos de quarenta e oito horas após a aplicação.


   Não gosto de não ser levada a sério, não gosto que pensem que não tenho maturidade suficiente (mesmo que eu saiba que não a tenho), não gosto que façam jogos psicológicos comigo, não gosto que me enganem, não gosto que me preguem partidas (na verdade, DETESTO), não gosto que me deixem pendurada numa conversa na Internet, sem me darem uma justificação, um “até já” ou que demorem três vidas a responder porque estavam a fazer outra coisa qualquer.


   Não gosto de finais não felizes na ficção, excepto quando devidamente fundamentados, porque me habituei aos clássicos infantis, em que as princesas e os príncipes acabam “felizes para sempre” e porque, para tristezas, já nos chega a realidade, muitas das vezes.


   Não gosto de procrastinar, apesar de o fazer imenso, ao ponto de ter incluído essa palavra no título do meu blogue, não gosto de ter daqueles momentos iluminados em que me apercebo que passo mais tempo no computador ou a olhar para o infinito do que a ler, escrever, passear os cães ou estar com a família.


   Não gosto de dizer “gosto muito de ti”, “adoro-te” ou “amo-te” sem que mo respondam de volta, seja de que maneira for, tal como também não gosto de me sentir emocionalmente presa a alguém ou de me sentir sozinha, quando, na verdade, tenho óptimos amigos do meu lado (figurativamente, como é óbvio, pois seria uma seca andar com todos eles atrás de mim durante a minha vida quotidiana).


   Não gosto de bloqueios criativos, não gosto de fazer o que não gosto, não gosto de ter má nota a Filosofia quando, no final de contas, até aprecio bastante a matéria, não gosto de professores que não representam exemplo nenhum para os alunos, não gosto de alunos que não sabem ser alunos, não gosto de colegas que de colegas não têm nada, mas, acima de tudo, não gosto de nadas que se acham grandes tudos.

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