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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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O meu Natal

   Quando eu era (ainda mais) pequena, recebia montes de prendas. Até podiam não ser caras, podiam ser simplesmente brinquedos a que eu daria uso até se partirem, até se desgastarem, até pedirem a reforma. Eram bonecas, eram chocolates, eram CDs de música, eram filmes, eram livros, eram jogos, eram castelos, eram nenucos, eram roupas para os nenucos, e eu só ia dormir no final da noite da véspera de Natal quando já soubesse de cor tudo o que planeava fazer com tanto presente.

   Agora, sei que não eram assim tantas prendas, aquelas que me davam, mas foram sempre as suficientes para me terem deixado boas memórias dos meus primeiros Natais: o Pai Natal que me apontavam no céu ou na chaminé, mas que eu não via; montes de embrulhos rasgados, uma onda de cor amarfanhada por tudo quanto era sítio; eu, sentada no chão, em êxtase perante os meus novos brinquedos; a presença da minha família em redor, três ou quatro adultos, se a minha bisavó passasse as festividades connosco, não mais do que nós os cinco, a encher um apartamento pequeno como aquele em que vivíamos na altura, mas com muito chão para eu brincar; a minha avó sempre a ralhar-me, para me sentar antes em cima de um tapete, por causa dos azulejos gelados; o Natal em que recebi um Game Boy sem jogo e fiz uma birra, porque um Game Boy sem jogo não serve para nada, para depois me arrepender e pedir desculpa.

   A todas as minhas prendas era dado um significado. Não foi por ser mimada no Natal que me tornei uma criança materialista, que deixei de entender o espírito da época. As crianças devem ser mimadas, digo eu. Em certos aspectos.

   Tenho pena que a maioria das crianças de hoje em dia, pouco mais novas do que eu, não tenham a oportunidade de criar lembranças como as que eu criei. Só querem prendas caras. Pedem tablets e computadores e o último grito das consolas de jogos, e o diabo a quatro, e os pais dão-lhos. Já nascem com as porcarias tecnológicas na mão, já não exploram, já não criam histórias, já não vivem o processo de espera e expectativa. E, atenção, no tempo dos nossos pais e avós o Natal ainda era mais diferente do que os da nossa geração, da geração dos que são, neste momento, jovens adultos, que começam a questionar-se acerca das tradições e a reflectir no que realmente elas nos transmitem.

  Não digo que os meus Natais tenham, agora, menos significado, muito pelo contrário, mas sinto-os ligeiramente mais vazios. Não tenho irmãos, a minha família é pequena, os tempos não são tão felizes quanto aqueles que se viviam há uma década atrás. O próprio brilho que a minha visão de criança dava à realidade também não volta, aquela sensação de que o mundo era feito ao meu tamanho e medida. Contudo, o importante será sempre não faltar comida na mesa (DOCES!) e algum carinho para partilhar. À parte os normais desejos materiais de cada um, não é preciso partilharem-se presentes caros, desde que sejam escolhidos com boas intenções e a pensar no seu destinatário.

   Não sei qual será a minha posição quando, um dia, tiver filhos. Provavelmente, hei-de tentar incutir-lhes o mesmo espírito natalício que me incutiram a mim: muitos presentes, sem serem muito caros, daqueles que lhes permitam dar largas à imaginação, sem nenhum guião previamente formatado. Afinal, o Natal também é isso: o que nós quisermos.

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