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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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é Bel-Ami, mas podia ser outro

Serei eu capaz de deixar um livro a meio?   

 

   É engraçado como vim a ganhar, de há uns tempos para cá, a tenebrosa mania de não acabar de ler livros. Às tantas, não sei se é do livro, se é de mim. E por que não dos dois?! Se calhar, nem eles me cativam nem eu sou de cativar. Ficamo-nos pelo cinquenta, cinquenta. No entanto, a única que acaba por se sentir culpada no fim destes divórcios litigiosos (o livro a pedir mais uma oportunidade, eu a tentar ser feliz) sou eu. É que custa-me largar uma história que já me acompanhou durante, pelo menos, algumas horas. Mas acontece e não é pouco.

   Um dos melhores exemplos que posso dar é o romance francês Bel-Ami, de Guy de Maupassant - sim, aquele que foi convertido num filme com o Robert Pattinson como protagonista. Tivemos um namoro fugaz, ainda que eu tenha estado indecisa durante muito tempo depois do noivado. Porém, a pressão social para ler o maior número de clássicos da literatura acabou por me fazer ceder e aceitei. A princípio, foi um casamento deveras feliz, comigo muito empenhada para que resultasse, quase tanto como ele [o livro]. Comecei a tratar as personagens por "tu", já sabia percorrer os cenários extremamente bem descritos pelo autor como se também lá vivesse. Criei inimizades e amizades, senti-me feliz. Até que o período de lua-de-mel terminou, quando eu me apercebi que a personagem Bel-Ami era, nada mais, nada menos, que um otário que menosprezava as mulheres e que, estando muito bem casado com a mais inteligente das senhoras da alta sociedade, andava a comer várias ao mesmo tempo, porque sim, elas mereciam, devido à sua condição... de lixo! Um ultraje.

   Ao fim de algumas páginas após essa revelação, não tenho a certeza se algum dia retomarei a leitura. Fiquei-me pela página trezentos e tal e a vontade de continuar é pouca. Acho que, por agora, terei de fazer olhos cegos ao livro que repousa na estante, abandonadinho, coitadinho, porque Guy de Maupassant se lembrou de criar um personagem estúpido, calculista e adúltero. Se eu não simpatizar com quem me acompanha nas narrativas, a coisa dá para o torto.

 

Respondendo à questão inicial, "serei eu capaz de deixar um livro a meio?", confesso que sim, sou capaz de ser dura com certas histórias. Já não conto pelos dedos as relações tempestuosas que já terminei na literatura.