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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.

Nota breve

Eu já me importei se o meu blog aparecia nas primeiras páginas do Google, ou não. Escrever para blogs doutras pessoas e empresas, para pagar a licenciatura, viciou-me em mesquinhices de SEO e marketing digital. E funcionou. Hoje em dia, se estiver a calhar, boa. Se não calhar, não forço.

 

Sei que há relativamente poucas pessoas a lerem o que escrevo, mas sei que o fazem por gosto. Voltam, não porque o algoritmo de um motor de busca os encaminhou para aqui, mas porque gostam genuinamente de cá estar (espero eu). Por isso, ao longo dos anos, vejo, muitas vezes, as mesmas caras. É bonito. Obrigada. Para que escreve uma pessoa, senão para ser lida?

 

Não sou a pessoa mais-tudo do mundo, mas sei que tenho as minhas qualidades. Sou muita coisa, mas ultimamente quero aprender a ser mais autêntica e generosa. Quero seguir os meus verdadeiros interesses, e não o que alguém ditou, ou sequer sugeriu, para mim. Em troca, espero também ter tempo e disponibilidade mental para os outros, transmitir serenidade (tanto quanto possível), e isto sem nunca abdicar da minha identidade e daquilo que me interessa. Sei que ambos são compatíveis.

 

No blog, na escrita ou na vida, por agora estou (sou?) assim.

Ainda a despenalização da eutanásia

No outro dia, a minha avó disse-me uma das coisas mais dolorosas de sempre. A minha avó disse-me que, no dia em que se vir sem liberdade de movimentos, sem conseguir garantir a sua independência e autonomia, com dores físicas (e principalmente uma grande dor interior), vai pensar em suicidar-se.


No que toca a esta discussão sobre a despenalização da eutanásia em Portugal, confesso que me poderão faltar argumentos técnicos, médicos ou legais. No entanto, o que não me falta é a sensibilidade de alguém que ama e pretende proteger os seus entes queridos de qualquer dor, até ao fim dos seus dias, não importa quando ou porquê. Quero que vivam por gosto, não por obrigação. Mas não é fácil chegar a consenso nestes assuntos, pois não?


A minha avó é a minha heroína. Quando me faltou uma mãe, foi ela que se chegou à frente para ocupar essa função. É a pessoa mais generosa, abnegada e também senhora do seu nariz e da sua liberdade que conheço. A minha avó tem 78 anos, mas pega no carro e nas suas pernas e lá vai ela a todo o lado, principalmente pelos outros. Claro que a idade pesa e não vai para trás, por isso também sente que a agilidade e a rapidez do corpo de outrora já não são as mesmas. As pessoas não são eternas, o corpo humano é falível.


A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida e eu não quero que a pessoa mais importante da minha vida vá dormir a pensar que, se sofrer um envelhecimento incapacitante, a única solução para terminar os seus dias com a dignidade que acha necessária (o que inclui a sua individualidade, a sua liberdade, a sua saúde e conforto) passará por morrer sozinha e de sabe-se lá que forma, em segredo, por desespero.


E, assim como no toca à minha avó, não quero que nenhum português tenha de ouvir da boca dos seus familiares ou amigos que, um dia que percam as condições necessárias para viver com a dignidade que consideram necessária, por motivos de falta de saúde, pretendam suicidar-se, ou que sequer pensem nisto.
Infelizmente, há outro lado. Eu também não quero que a alternativa a esse fim aconteça sem lei, sem garantias de suporte psicológico, sem consenso entre médicos, sem condições hospitalares, sem fundamentação, sem garantias, sem mecanismos que possam proteger as famílias que assim escolhem. Tomar uma decisão colectiva seria só o primeiro passo: e o resto?


No fundo, o que me preocupa é que a sociedade e o horizonte político do país ainda não estejam preparados para um passo tão significativo como a legalização da eutanásia. Nem a lei, nem as pessoas me parecem ter os recursos e o entendimento necessário para levar esta decisão e respectivas consequências avante. Se eu gostava que estivéssemos protegidos e pudéssemos confiar nas autoridades médicas e legais, caso alguém que amamos já não tenha assegurada a condição humana intacta? Caso esteja em tamanha dor física e/ou psicológica que mantê-lo vivo seria pura crueldade? Gostava muito.


Mas será possível confiar que erros de julgamento e diagnóstico, buracos na legislação e na discussão filosófica e societal não vão ocorrer, mesmo que por acidente? Disso já não tenho a certeza. Por isso, sobra-me pensar que a discussão sobre a legalização da eutanásia nos deveria fazer dar as mãos e unir esforços, em vez de nos colocar nos extremos da bancada. Este não é um assunto de esquerda, de centro ou de direita. É um assunto de humanidade, que pede tolerância, cautela e muita cooperação na procura de respostas. Afinal, não se brinca com a vida (e a morte) humana. Sim, eu sou a favor da possibilidade de eutanásia, mas talvez não num país como o Portugal de hoje. A minha avó merece melhor.

 

***

Entretanto, depois de eu ter escrito este texto, o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida foi divulgado: aqui.

O amor e a loiça

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O João gosta de lavar loiça. Mal acabamos de comer, lá vão os pratos todos para a pia, os talheres retinem no fundo, o lixo é separado. O João recicla. O João não deixa entupir os canos. O João guarda o plástico e o vidro num caixote especial que se leva ao ecoponto mais tarde, mais o lixo comum.

 

Depois, se o abraço e lhe agradeço, o João diz que me ama. Eu aceito sem reservas, e só espero poder compensá-lo para o resto da nossa vida a dois, por tudo e mais alguma coisa - e em particular pela quantidade de loiça que ele há-de lavar, opondo-se convictamente à compra duma máquina, e insistindo que um electrodoméstico não o faria tão bem quanto as mãos dum homem, uma esponja e água quente.


Eu e o João conhecemo-nos numa app de engate. Escrevo “app de engate" porque "app para encontrar o amor" parece demasiado redutor. Ele poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de psicologia positiva, eu poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de realismo imaginário. Trocaríamos impressões sobre estes interesses vagos e aquele chocolate quente nas Picoas teria sido um intervalo bem-vindo durante o meu primeiro dia de trabalho a seguir das férias. A seguir, eu contar-lhe-ia a desculpa do costume: que ele era muito bom rapaz, mas que afinal eu concluíra que ainda estava a recuperar do meu último desgosto, recente; não sentia que fosse justo continuarmos a conversar, não fosse eu, e o meu caos, magoá-lo. Blá blá blá.

 

(Quando lhe disse isto, o João abanou a cabeça e disse “És tão engraçada, e a tua vida parece saída dum filme.” Fiz dele o protagonista, só para aprender a lição.)

 

Ainda bem que o João não quer saber das minhas desculpas.


Nesta vida, tive três namorados e todos eles são donos de casa invejáveis. Há quem atraia malucos. Há quem atraia sacanas. Há quem atraia meninos da mamã. Há quem atraia ricos. Ou pobres. Ou forretas. Há quem atraia homens mais velhos. Eu atraio homens que não suportam uma cozinha por arrumar. Aliás, até vou ao ponto de dizer que adoram fazê-lo.


Eu digo que é sorte ou coincidência; o João diz que é porque eu sou aquele tipo de mulher que atrai esse tipo de homem, um padrão, ponto final. Ora, esta crença dele obriga-me a esforçar-me por merecer o padrão. Tenho de me esforçar por merecer o João, a pessoa que me diz que eu mereço que me lavem a loiça. (Aposto que nunca ouviram uma coisa tão romântica, nem no dia dos Namorados, pois não?)

 

O João é trabalhador. É esforçado e focado. É poupado. É gentil com toda a gente. É expressivo, interessado e bom conversador. O João lê o que eu escrevo e e ainda envia aos pais.

- Tudo isto, e mais a loiça! 


Acredito que haja coisas bem piores na vida, a partir do momento em que confirmo: por trás da atrapalhação partilhada durante a exposição dos sujeitos como que numa montra do talho (idade, check, profissão, check, sem suspeitas psicopatas, check, à procura de relação séria, check, cheira bem, check...), existe de facto uma pessoa que espera um dia partilhar connosco a sua cama, os seus dias, a sua loiça lavada e a sua ADSE.

 

Isto é amor, ou lá o que é, João, não é?

 

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Texto escrito originalmente paraO Primeiro Capítulo de Fevereiro. No dia anterior ao encontro, decidi escrever outro, por ainda não estar contente com este.

Ler as notícias

Nos últimos meses, andei a sentir, mais do que nunca, a redundância das redes sociais e da comunicação social. No ano passado, o excesso de informação chegou mesmo a contribuir para os meus ataques de pânico e para o estado de pânico em que vivia em geral, mas continuei a consumi-la, ou a tentar consumi-la até ao início deste ano.

 

O excesso de informação fez-me sentir insuficiente. Eu queria ler as notícias, queria ler tudo, estar a par de tudo o que me interessava. Nunca achei que fosse FOMO (fear of missing out), porque eu não tinha medo, só tinha pena, antes considerando esta vontade de não estar alheia a nada como uma sede aparentemente saudável de saber mais. Afinal, se eu soubesse mais, também teria mais chances de ter tudo sob controlo.

 

Obviamente, isto não correu bem a longo prazo. A ansiedade constante é o preço a pagar, mas felizmente comecei a olhar em volta. Olhei para duas pessoas como exemplos especiais: o meu namorado só vê o telejornal ou vai ouvindo os canais de informação enquanto come, prepara a comida ou limpa a cozinha; uma amiga que é jornalista assegurou-me que nem ela está a par de tudo, apesar de trabalhar em notícias europeias para o nosso canal público. Nenhum deles é fã acérrimo de redes sociais, nem essa minha amiga, cujo trabalho também passa pela gestão de notícias no Twitter, Facebook, Instagram e por aí fora. Ambos consomem informação de forma equilibrada. Há momentos específicos para o fazer.

 

Aos poucos, apercebi-me da quantidade de tempo que passava com o nariz enfiado no telemóvel. Primeiro, instalei uma app para vigiar a utilização diária. Apesar de parte desse tempo ser gasto a trabalhar ou estudar (marcar aulas, tomar notas, falar com futuros clientes e parceiros, escrever, ler), a verdade é que cheguei marcar recordes inacreditáveis: entre cinco a sete horas por dia.

 

Desculpei-me a médio prazo com o facto de também passar muito tempo a falar com amigos e com o meu namorado por mensagens, e por nem sequer utilizar o computador. Por fim, descobri uma série nova de que gosto muito e concluí que aquelas três horas diárias a devorar episódios provavelmente correspondiam a três horas que eu passava a procrastinar na Internet noutros dias. Ora... Se tinha arranjado três horas para ver uma série, poderia continuar a arranjá-las sistematicamente para tantas outras actividades, certo?

 

Assim foi. Pelo meio, li o livro As Notícias, do meu autor favorito do momento, Alain de Botton. Neste livro confirmam-se as minhas suspeitas. Por exemplo, muitas das notícias que consumimos diariamente não são tão importantes quanto a urgência dos media faz parecer (e quem diz notícias diz conteúdos vários que nos passam pelos olhos avulso). Há uma tendência para a catástrofe, para o voyeurismo e para o que confirma a nossa suspeita de que o ser humano não presta. É normal, porque o nosso cérebro ainda não está formatado para a recepção constante de informação do século XXI, ainda não sabe seleccionar intuitivamente.

 

Enquanto consumidora, acho importante escolher conteúdos úteis e notícias que também sejam positivas, que não mostrem só a face negra da condição humana. Ser humano é saber o que vai mal no mundo, para assim sobrevivermos e sabermos o que há para melhorar, que batalhas lutar. Por outro lado, ser-se humano também é olhar para as conquistas, para feitos alheios e personalidades que admiremos, procurar respostas para o que podemos emular para nos desenvolvermos e crescermos; é regozijarmo-nos pela generosidade e talento alheios, é reconhecermos o valor acrescentado. É lermos e vermos informação graças à qual podemos tomar acção.

 

Em suma: nem sempre é imprescindível ler as fofocas sobre a celulite daquela cantora, nem conhecer os pormenores sórdidos do homem que assassinou a família com um machado, nem destrinçar a falência duma empresa do Japão ou o mais recente escândalo sexual ou político. Tal como no trânsito, podemos questionar-nos: que bem fará eu olhar? Que bem fará eu ler as notícias? 

 

Enquanto andamos distraídos a olhar para o lado - isto é, para as manchetes, alertas de última hora, títulos infindáveis sobre a nova crise da época, últimas descobertas científicas sobre propriedades antioxidantes do abacate colhido em lua cheia - podemos estar a perder algo realmente importante, bonito ou útil.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Se ainda agora chegaram...

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Se ainda agora chegaram... Olá, eu sou a Beatriz e não nego que tenho muito para dizer sobre mim mesma. Aqui vão umas linhas.

 

Estou quase sempre a escrever; quando não estou a escrever, estou a pensar sobre o que vou escrever; quando nem pensar sobre o que escrever consigo, estou a culpar-me porque a vida é curta, e deveria estar a fazê-lo, e não estou. A pior composição que já escrevi na vida deve ter sido a do Tinder/OkCupid (felizmente, temas como "gatos" e "livros" são infalíveis). E, agora, esta.

 

Para ser honesta, decidi que, se não estou a escrever, deveria estar a ensinar. Já dei aulas na casa dos outros, na minha casa, no escritório dos outros, no meu escritório, na Tailândia, em Portugal, para o Vietname, em pijama, em cuecas, em vestido curto, de fato, presencialmente, pela Internet, numa universidade top 10, em cafés, em duas escolas privadas, em empresas, até no carro.

 

Tenho um gato exótico chamado Lord Ennui ("aborrecimento" em francês, com aspiração a ser fino). Tenho outras três gatas sem pedigree, tenho dois cães, tenho uma família que devia estar numa novela escrita por estagiários, tenho uma avó-mãe e tenho um namorado fit e médico que equilibra o meu karma de batata de sofá. Tenho um blog. Tenho um clube de escrita. Tenho dois mestrados pela metade. Tenho sinusite.

 

Gosto de abraços e de mimo. Gosto de ler, de escrever e de comprar livros. Gosto (demasiado) de procrastinar. Gosto de ser professora. Gosto de trabalhar por conta própria. Gosto de estar sempre a estudar. Gosto de ser sempre (que possível) do contra. Gosto de ser bicho, e gosto de ser doce. Gosto de pessoas, por muito que o negue. Gosto que me deixem falar por horas seguidas, tanto quanto gosto que me deixem em paz com regularidade. Gosto dos mil-folhas duma certa padaria portuguesa. Gosto de bandas sonoras e de podcasts.

 

Ufa. Acho que é isso. E por aí?

Ser mulher e artista: Dear Girls (Ali Wong)

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Quando vi os dois especiais da comediante Ali Wong na Netflix, fiquei logo fã. Ela é duma perversidade e duma inocência contraditoriamente claras, e foi ao ler esta autobiografia que as percebi realmente e passei a admirá-las ainda mais. Dear Girls é para as filhas de Ali Wong, mas - quiçá - também se dirige a todas as mulheres.

 

Queria saber de onde vem esta mulher. Queria saber como se complementam os seus legados culturais. E por que é que as piadas dela têm uma linguagem tão conspurcada pela sexualidade exuberante dos seus primeiros anos enquanto adulta, e como é que a família e as restantes pessoas que a rodeiam convivem com esse lado perverso e cru. Como é que o marido lida e as filhas podem vir a lidar com a fama alcançada de tantas das suas histórias privadas? E como é que se constrói uma carreira em stand-up comedy, e que público foi a Ali tendo longo dos anos, partindo do facto de ser mulher e uma minoria étnica nos Estados Unidos, e de os textos que escreve assumirem marcadamente esses pontos de vista?

 

Tantas, mas tantas perguntas; tantas, mas tantas respostas. Ali Wong é frontal e a sua verdade é enternecedora. Acho-a destemida e hilariante.

 

O livro Dear Girls divide-se em capítulos que são cartas às duas filhas, Nikki e Mari, a quem se dirigem as lições, conselhos e histórias de vida contadas pela mãe, mas que são também reconhecidas logo no início como "desculpa" para que o livro exista e tenha sido escrito. Ali Wong acaba por se dirigir, sem pudor, a um público de leitores bem maior. Do que depender de mim, direi: ainda bem!


Ler este livro é um risco, porque nem todos teremos interesse em ler sobre a vida duma mulher aleatória a viver do outro lado do oceano, uma mulher com raízes tão diferentes das nossas, com um trabalho como poucos têm, com uma visibilidade enquanto figura pública que só uma percentagem dos seres humanos tem (felizmente!).


No entanto, as preocupações e detalhes do dia-a-dia da Ali Wong são também os nossos, tão reconhecíveis. À parte a comediante e actriz, ela é mãe, filha, irmã, mulher, amiga, cidadã e parte das suas comunidades. Tanto nos separa como liga, tanto nos afasta como aproxima.

 

Finalmente, a maior prova de humanidade da estrela, que afinal terá sempre o seu alter ego histriónico e público, reside na última carta: um posfácio escrito pelo marido, Justin Hakuta. Justin poderia ser um anónimo, só que é a grande musa da maioria das histórias contadas nos espectáculos da mulher e também neste livro. Por outro lado, é ele quem mantém a família firme e que assegura a estabilidade necessária à sua cara-metade caótica, criativa e sempre na estrada. É ele que, apesar de ter estudado em Harvard, se orgulha em vender merchandise das tours nas bancas dos espectáculos. É ele quem assume tarefas que ainda são vistas como trabalho feminino no lar. É ele quem escreve uma carta de amor e dedicação total ao bem-estar dos seus nesta carta muito especial. A carta dele é a cola que junta todos os pedaços de vida que lemos até este último capítulo.

 

Se gostam de autobiografias e comédia, e se se interessam pela riqueza dos EUA, esta pode ser uma leitura à vossa medida.

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

20 para 2020: acima de tudo, amor, conhecimento e livros

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Já estamos no quarto dia do ano e eu não escrevo no blog há vinte e sete. Regressei, mas não sem uma certa culpa de abandonar a prática da escrita, e do reconhecimento de quem gosta de ler o que se publica por aqui.

Recomecemos.

 

No ano passado, escrevi e disseminei por aí a lista "19 para 2019", ideia que pedi emprestada à Gretchen Rubin. Antes de 2019 terminar, cedi à curiosidade de a revisitar. Foi assim que concluí: excedi-me de formas que nunca imaginei. Claro que a maioria dos pontos relacionados com livros jamais teriam condições para ser concretizados, em doze meses tão ocupados e repletos de reviravoltas. Tive tantas decisões para tomar; doze meses que pensei que não teria energia nem engenho para transformar, mas afinal doze meses em que aconteceu o suficiente para valerem por trinta e seis. Jamais teria tempo para levar a cabo tanta leitura, porque jamais imaginei metade do que acabou por fazer parte de 2019.

 

Dito isto, 2019 foi o ano em que tive como nunca - e em que deixei de me preocupar com - impostor syndrome, porque fui eu que fiz acontecer tudo o que aconteceu e quem fez um esforço por conhecer as pessoas que conheci, por isso vamos lá deixar-nos de tretas! (Momento reservado para uma pequena dança da vitória desta que vos escreve.) Se me tivessem dito em Janeiro que iria abandonar o segundo mestrado, começar um terceiro, ter o meu local de trabalho, ir ao ginásio religiosamente todas as quartas-feiras, tirar quase dez formações, viajar com a minha cara-metade e fazer não só novas amizades, como também liderar um grupo de escrita... eu diria que era mentira, porque não é possível fazer isso tudo em 365 dias.

 

Além disso, destaco esta ideia: foram as pessoas as grandes culpadas do balanço positivo, apesar da minha narrativa pessoal se basear na crença de que sou um bocado bicho. Pela positiva, destaco duas pessoas (sem prejuízo para todas as outras, como a minha família e a família do João, a Inês, a Daniela, o Carlos, a Joana e o Rui). No início do ano, conheci a Elisa. A Elisa (que migrou ontem para os Blogs do Sapo) também se surpreende bastante quando os planos dela lhe correm bem, ou quando algo inesperado surge. Desde que a conheci, no encontro de Março das CreativeMornings Lisboa, sinto que os nossos caminhos se tinham mesmo de cruzar e que fazemos realmente a diferença na vida uma da outra. A Elisa é a parceira ideal e tem preocupações e objectivos que tocam nos meus. Esquece-se facilmente das suas próprias capacidades, mas vai fazendo e acumulando conquistas sem se dar conta. Além dela, destaco o João, que aparentemente nem sequer tinha muito a ver comigo (ele calmo e pragmático, estável; eu caótica e sempre a ruminar, sempre a mudar de ideias), excepto o facto de termos descoberto que fazemos um do outro pessoas muito melhores e mais felizes, e que partilhamos o mais importante, que são os valores e os desejos para o futuro, além da sensação discutivelmente pirosa de já nos conhecermos há muito mais tempo. Ora, estas duas pessoas marcaram 2019, por me fazerem acreditar que tudo é possível, se tivermos a companhia certa.

 

Este ano, ainda estou a fazer a minha lista "20 para 2020". No entanto, não poderei divulgá-la por completo no blog, uma vez que algumas das linhas contemplam planos surpresa com e para outras pessoas que lêem o meu blog. Mas... não poderia deixar de partilhar algumas partes.

Quero começar a aprender Latim ou Alemão.

Quero fazer duas viagens, uma delas à Tailândia.

Quero criar dois cursos presenciais e um online.

Quero terminar o mestrado executivo em Psicologia Positiva Aplicada.

Quero fazer um MBA em Gestão e Coordenação Pedagógica da Formação.

Quero passar a ir ao ginásio duas vezes por semana.

Quero comprar um computador novo.

Quero ver 30 filmes.

Quero conhecer três séries do início ao fim.

Quero ser contida e não comprar mais de 20 livros.

Quero continuar a escrever para o P3, pelo menos uma vez por mês. E para o blog todas as quinzenas.

(E quero ter tempo e dinheiro para concretizar tudo isto.)

 

Esta é uma das épocas do ano em que mais escrevemos sobre balanços e esperanças. É verdade que não funciona para toda a gente da mesma maneira, que há quem prefira ver os anos como uma linha contínua, mas cabe a cada um de nós adoptar os hábitos que mais lhe fazem sentido. Para mim, é este: há quem ache celebrar um novo ano lamechas; eu acho bonito e bem intencionado. Ter e partilhar objectivos é saudável, inaugurar ciclos permite-nos ganhar fôlego e expectativas renovadas. Assim sendo, também vos desejo um novo ciclo cheio de mais e melhor, com um rácio de positividade de 3 por 1, para que possam florescer (diz a Barbara Fredrickson e os outros entendidos da Psicologia Positiva). E prometo voltar a procrastinar mais, escrevendo com regularidade. Sobre livros. Possivelmente sobre livros.

 

Até breve.