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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

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20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

19/30 (blogs, livros e a liberdade de expressão)

Demoramos cinco minutos a criar um blog, talvez mais dez a escrever a primeira publicação. Podemos opinar, deitar cá para fora as nossas postas de pescada, bastando clicar no botão azul que permite que o nosso texto vá para o ar. Nas redes sociais, idem; aliás, nelas é ainda mais rápido e intuitivo escrever e dizer o que quisermos, mesmo quando ainda não pensámos muito no assunto, ou mesmo quando o que escrevemos ou dizemos não faz sentido, ou atenta contra alguém, ou quando não era bem aquilo que queríamos comunicar.

 

Assim é a liberdade de expressão em 2021, em Portugal. Qualquer pessoa dispõe de recursos, ferramentas e conhecimentos para, em curtos minutos, contar ao mundo o que lhe vai na mente. Desde o acesso universal à educação, até ao poder de nos fazermos ouvir quando, onde e como queremos, passando pela generalização do uso das tecnologias da informação, a liberdade é um dado adquirido.

 

Sabiam que, na Tailândia, o livro 1984 é proibido? Na altura em que vivi em Banguecoque, fui ver uma peça de teatro baseada na obra, e todos naquela sala, numa das melhores universidades do país, sabiam que faziam parte de um acto colectivo de rebelião contra as amarras da ditadura militar e da monarquia absoluta, inquestionável. Antes de entrarmos, apontava-se e murmurava-se para um jovem. "Ele já foi preso por ter ido ler passagens do 1984 para a porta da Embaixada dos Estados Unidos".

 

A certa altura, não sei se antes ou depois de ir ver essa peça encenada por alunos da Universidade Chulalongkorn, comprei o 1984 para o ler pela primeira vez, encontrado na minha livraria de eleição, de livros usados em inglês, a Dasa Books, na avenida Sukhumvit. Eu sabia que, sendo estrangeira, esse estatuto poderia beneficiar-me ou, infelizmente, colocar-me em maior perigo se fosse apanhada com o livro nas mãos. Decidi não arriscar, e envolvi a capa em papel branco.

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, seria impossível ter um blog livre, que não fosse detalhadamente escrutinado (se os houvesse, é claro), tal como seria impossível ler qualquer livro que se quisesse (se se soubesse ler e escrever), ou obtê-lo ou trazê-lo para Portugal, tal como na Tailândia, em 2017. A minha avó conta-me que o meu avô ia à Livraria Barata comprar livros proibidos, por exemplo. Já se imaginaram a viver num mundo em que há leituras e obras proibidas e censuradas? Eu não.

 

Quando alguém recusa ou desvaloriza a importância de vivermos em democracia em Portugal, é impossível não sentir a profunda injustiça dessa sua tomada de posição. Eu, mulher, que nasci num país em paz, que não dependo do poder patriarcal para sobreviver e tomar as decisões da minha vida, que jamais vi o que escrevo, digo ou crio censurado, que nunca me senti perseguida por ter opiniões (sejam elas mais ou menos acertadas, mais ou menos reflectidas), sinto-me privilegiada. Escrevo e estudo sobre o que quero e me apetece, vivo com um homem com quem não estou casada, beijo em público, dou a mão em público, sinto-me livre e os meus actos, se não lesarem ou magoarem ninguém, podem mesmo nem sequer ter quaisquer consequências. O mesmo não puderam dizer mulheres como as Três Marias, e mesmo a minha avó ou a minha bisavó.

 

Quem viveu a ditadura e o 25 de Abril está a envelhecer. A cada nova celebração do Dia da Liberdade, temos cada vez menos testemunhos na primeira pessoa prontos a refrescarem-nos a memória. Dentro de duas gerações, os pais e os avós dos filhos da madrugada (pegando na canção de Zeca Afonso ou no título do programa de Anabela Mota Ribeiro) não estarão cá para contar que Portugal era esse. Pode tornar-se cada vez mais difícil recordar como era viver no nosso país antes de 1974, ou acreditar que vivemos realmente num país melhor. A memória pode atraiçoar, o enviesamento é inevitável. Resta-nos cuidar do legado e preservar o que for possível da memória de grande parte do século XX, ainda tão recente, mas mais distante a cada dia que passa.

 

Não, a democracia como a conhecemos hoje não é perfeita, longe disso. Muitas desigualdades continuam a existir, tal como corrupção, pobreza, desemprego, desespero, falta de oportunidades. Mesmo assim, não tenhamos ilusões: a vida é melhor agora do que há 47 anos. Tratemos de acrescentar qualquer coisa, dentro das nossas possibilidades, a essa liberdade que outras gerações não tiveram.

18/30 (escrever sobre as falhas)

Se há algo que tenho aprendido ultimamente sobre a escrita, isso será sem dúvida que o mais difícil de escrever é aquilo que mais tem de ser escrito.

 

As palavras não são presas fáceis. Devemos saber manipulá-las, chamá-las à nossa teia, enredá-las em relações inesperadas e mesmo forçadas. Aquilo que mais sinto necessidade de escrever é aquilo que não sai. Talvez não saia porque, inconscientemente, eu sei que será doloroso ler o que está na folha, será um confronto com a minha imperfeição e a imperfeição do meu pensamento, mas principalmente com a imperfeição do mundo que eu ainda não consigo comunicar.

 

Sobre o que queres escrever, Beatriz? Quero escrever sobre as falhas. Todos nós temos falhas, somos resultados de falhas e não temos outra hipótese senão ir navegando todo o falhanço que nos rodeia. Penso que é para isso que a literatura serve, para deixar um registo do que mais nos incomoda, assim como aquilo que, por contraste, mais desejamos.

 

Catarse. Escritores e leitores procuram a libertação através da explicação da ordem do mundo, esse mundo cheio de falhas e, por isso, todo ele imperfeito. É impressão minha, ou os escritores procuram, com os recursos que têm ao dispor, racionalizar o que é irracional?

 

É por isso que me custa tanto escrever. Eu tenho muito medo de encarar a falha, quer a que materializo, quer a que fica por materializar. No fundo, eu sei que faço parte e que quero contribuir activamente para um processo que nunca terá fim, quiçá anti-catárctico.

17/30 (se me tivessem dito)

Se me tivessem dito o quão difícil seria, eu nunca teria saído do meu lugar. Se me tivessem dito o quão doloroso seria, eu teria antes continuado a minha vida de todos os dias, uma vida com certeza mais pacata e facilitada. Se me tivessem dito o quanto eu me iria arrepender (para no segundo seguinte só ter espaço para me orgulhar dos meus feitos), eu jamais escolheria cegamente continuar a estudar enquanto trabalho, pelo quase oitavo ano consecutivo.

 

Não sei o que é a vida sem trabalhar e estudar ao mesmo tempo. No máximo, talvez tenha passado seis meses sem o fazer em simultâneo, desde os 18 anos. O que é meio ano, principalmente quando se sabe que é apenas um interregno, umas pequenas férias de fazer imenso, fazendo só muito?

 

Se me tivessem dito o quanto me custa não poder terminar o dia de trabalho e ir fazer o que quer que me apeteça, eu nunca teria decidido ir avante com o primeiro mestrado, aulas ao Sábado e ao Domingo, e a ter por vezes jornadas de 9 horas de aulas para dar nos dias úteis. Mas ninguém me disse, e foi assim que me transformei de estudante-trabalhadora em trabalhadora-estudante. Depois disso, nunca mais parei, antes pelo contrário. Acumulei sempre o trabalho e os estudos pós-graduados, ora mestrados ora uma pós-graduação, e também formação profissional. E tantas outras coisas, que o povo pode chamar de "sarna para me coçar". De qualquer forma, há qualquer coisa assustadora na adrenalina obtida que me obriga a realizar matrículas ano após ano.

 

Fico tão contente quando me aceitam e quando me lançam notas e emitem diplomas, mesmo quando desespero em noites de sexta-feira, achando que não deveria estar a ler sobre teoria da literatura, mas sim a ler outra qualquer literatura numa ocasião como esta. E, antes de adormecer, confirmo: eu gosto mesmo disto, não gosto? Disto que é estar sempre a aprender estruturadamente, de saber que tudo o que sei é imperfeito, e que consigo passar a ser e pensar melhor se a tal me propuser.

 

Se me tivessem dito que aqui continuo, não acho que fosse acreditar. Ainda assim, assim é. Lá vou eu atrás da cenoura da minha montada. Nesta etapa, já não consigo parar a corrida.

16/30 (detesto chuva)

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Eu detesto chuva e sinto o desconforto que a humidade me traz fisicamente. Há uns anos, sempre que a humidade aumentava, mesmo que ainda não estivesse a chover, eu ficava com umas dores de cabeça que apareciam de surpresa, até eu ter percebido o que se passava e passar a estar psicologicamente preparada para a depressão externa e interna.

 

Por isso, estou a detestar estas semanas, ainda por cima semanas em que não me faltam actividades nas quais deveria estar a ocupar a cabeça. Já não sofro com as tais dores de cabeça, mas fico desprovida da quantidade mínima de energia para conseguir pensar. Aliás, estou a escrever este texto em cima da hora, isto é, pouco antes da meia noite. Não sei se já notaram, mas já falhei um dos dias do desafio, então acho que pode compensar escrever qualquer coisa hoje, só para não perder o ritmo (um dos princípios que James Clear defende no seu livro Hábitos Atómicos é não deixar de praticar o "show up").

 

Tem estado a chover, e a chuva deixa-me ainda mais exausta, ansiosa e deprimida. Não admira que, quando eu morava em Banguecoque, estivesse muitas vezes a sentir-me eu mesma na sarjeta, apesar de me ter habituado um pouco. Será comum, esta sensação de impotência ou cansaço associados aos fenómenos meteorológicos?

 

Curiosamente, a minha cidade favorita é capaz de ser Edimburgo, onde chove bastante e faz frio, mas quando chove e faz frio enquanto estou em Edimburgo, eu gosto. Acho encantador. Inspirador. Acolhedor. Mal posso esperar por lá poder voltar, assim que seja seguro viajar só porque sim. Quero conhecer mais sítios na Escócia, mesmo que esteja a cair um dilúvio.

 

Por agora, no Alentejo, quero o sol quente de volta. Preciso de escrever e de trabalhar nos próximos dias e não me posso dar ao luxo de aturar a escuridão e estas cores horríveis no horizonte.

 

Na foto: eu a apanhar chuva na Escócia, em Maio de 2018, e a achar muito bonito e pitoresco.

15/30 (a lição que a Coffee me ensinou)

Ver um cachorrinho crescer é uma lição. Provavelmente, há-de ser parecido a ver um bebé crescer, mas ainda não tive essa experiência. Por agora, escrevo sobre aquela que conheço.

 

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Ver um cachorrinho crescer é uma lição, escrevia eu. Neste caso, ter acompanhado o desenvolvimento praticamente ao segundo da minha Coffee Bean, desde que tinha seis semanas, ensinou-me mais do que eu estava à espera.

 

A Coffee fez seis meses no dia 17. Têm sido meses muito interessantes, porque não é todos os dias que temos a oportunidade de estar praticamente 24 sobre 24 horas com os nossos animais de estimação pequeninos.

 

Fazendo justiça ao nome que lhe demos, a Coffee tem muita energia. Além disso, é teimosa, ardilosa e sabe fingir que não percebe montes de coisas (como ordens ou regras), porque não lhe apetece.

 

Esta personalidade vincada também me tem oferecido muito entretenimento, principalmente quando ela era bebé. Vocês já assistiram a uma criança, humana ou não humana, a aprender algo novo? Um ser indefeso, sem conhecimento do mundo ou do seu funcionamento, é capaz de ficar horas e horas a repetir a mesma façanha. Pensei muito nesta repetição e agitação natural ao ensinar a Coffee a descer de camas e sofás, ou a subir e descer escadas. Ela demorou quatro meses a desfazer um par de pantufas, mas chegou inevitavelmente ao resultado pretendido.

 

É daí que surge a lição que a Coffee me tem ensinado: a da perseverança. Não sabes, aprendes. Não consegues, mas hás-de conseguir. Degrau a degrau. Patada a patada. Uma tentativa de cada vez, a partir da ignorância e da incompetência totais, em direcção à perfeição ou mestria. Enquanto aprendemos ou descobrimos o desconhecido, não devemos pensar demasiado ou ficar a lamentar-nos sobre a infelicidade das nossas circunstâncias. Ou talvez devamos ser, simplesmente, mais compreensivos com o processo.

 

Logo eu, que sou tão perfeccionista, que fico tão facilmente frustrada quando tenho de enfrentar a inexperiência para alcançar a experiência, tenho passado quase todos os minutos dos meus últimos meses a observar um novo ser a descobrir o mundo. Cheia de paciência e muita curiosidade, a Coffee já consegue fazer o que lhe apetece. O que ela não souber, vai ficar a saber.

 

E eu também. Basta que me lembre disto.

14/30 (ainda a saúde mental)

Este texto é uma continuação do anterior, porque há tanto para dizer sobre a desvalorização da saúde mental! Em primeiro lugar, não preciso de relembrar números, mas deixo-vos alguns aqui de qualquer forma. E aqui também.

 

Acima de tudo, apareço hoje para vos relembrar que a saúde mental não é uma certeza para todos e, por arrasto, da importância de cuidarmos de nós e de acreditarmos que o que sentimos é legítimo, mesmo quando a sociedade e mesmo quando as pessoas que nos são mais próximas descredibilizam ou menosprezam o que é uma simples "ansiedade" ou "angústia". Neste texto, também quero expressar um agradecimento a todas as pessoas que têm sido generosas com o que escrevo, em particular com o número 13. Muito obrigada.

 

O acesso aos cuidados de saúde mental é nulo no SNS (do qual sou apoiante indiscutível, o que não me impede de lhe apontar falhas). O mais próximo que tive de apoio psicológico pelo SNS foi algumas consultas na clínica da Universidade de Lisboa, com preço mais baixo por ser alumna da FLUL, depois de me terem submetido a um teste de diagnóstico para ver se podia entrar para a lista de espera prioritária, na qual não entrei - até ter enviado um e-mail a suplicar à psicóloga que me desse consultas, à conta de um evento específico que me deixou de rastos nessa altura. (E não, a profissional que me seguiu não me ajudou em quase nada. E eu não podia escolher quem me seguia.)

 

Por isso, todas as semanas pago 60€ para ter consultas de psicoterapia com uma psicóloga maravilhosa, com clínica privada, desde Junho do ano passado. É este o preço de alguma clareza, entendimento, auto-conhecimento, auto-cuidado, equilíbrio. Vale cada cêntimo, mas sou uma privilegiada, porque ainda posso escolher pagar. Não tenho mais nenhum luxo, corto noutras despesas para pagar a psicoterapia, vou tendo ajuda da família, mas não há dúvida de que eu pago por algo que deveria ser de acesso universal e gratuito, ou pelo menos subsidiado.

 

Este é um dos primeiros indícios de que a saúde mental é extremamente desvalorizada em Portugal. Quando temos uma gripe, podemos ir ao centro de saúde ou ao hospital e queixar-nos. Somos tratados, dão-nos medicação e conselhos sobre como ficar melhor. Se trabalharmos, dão-nos baixa para apresentar ao empregador. Quando temos uma crise de ansiedade, ou pânico, ou tudo junto... há médicos que não só não têm formação para lidar com a situação, como nem sequer têm bom senso, nem tacto. Nem o SNS tem meios para nos ajudar. É preciso mostrarmos que estamos profundamente deprimidos, basicamente que somos um perigo para nós mesmos ou para os outros, para que façam algo. Senão, dir-nos-ão que somos jovens/saudáveis/sortudos/mal-agradecidos.

 

Eu tenho muita sorte, muita, muita... imensa. Tenho uma pós-graduação num ramo da Psicologia, sei onde encontrar informação, tenho meios e recursos materiais e imateriais para me ir acalmando e ter sempre a certeza de que saúde mental é saúde. Tenho acesso a profissionais que me ajudam. O João é médico e, além disso, fui muito bem tratada no centro de saúde da nossa zona de residência - antes e depois. Não fui totalmente descredibilizada, tenho quem olhe por mim. Mas e as pessoas que não têm esta rede de apoio? E o privilégio que eu tenho por poder, com mais ou menos sacrifício, """esbanjar""" em cuidados de saúde mental?

 

Apesar de tudo isto, sou optimista. O médico sobre quem escrevi ontem é doutra geração. Estamos em tempo de pandemia e ele disse-me que estava a fazer turnos de 24 horas por esses dias. Talvez, noutro contexto, com médicos mais novos, o tratamento - ou o trato - seja outro. Por exemplo, eu sei que o João jamais desvalorizaria um paciente que lhe chegasse à consulta como eu cheguei. Eu sei que ele vai ser - e já é - um excelente médico de família, verdadeiramente atento a todas as queixas, desde a dor no mindinho até à crise de pânico espontânea. O paradigma vai ter de mudar, neste que já é descrito como um "século da saúde mental".

 

Seja como for, aproveito para abrir, como sempre, a minha caixa de comentários, e mesmo o meu e-mail e redes sociais a quem precise ou apenas queira partilhar experiências ou ideias. Estamos todos a passar por tempos muito estranhos, não vai ficar tudo bem, mas resta-nos cuidar de quem pudermos - a começar por nós e pelos que nos rodeiam.

 

Por fim, mais um lembrete: o facto de sentirmos a nossa saúde mental fragilizada não significa que estejamos maluquinhos. Ter ansiedade não é um traço de personalidade. Mas não estarmos sempre a 100% e queixarmo-nos de dias maus não é birra. Não é normal aceitar sintomas de mal-estar psicológico como uma coisa menos séria. E não é vergonha pedir ajuda!

 

Mais outra nota: há linhas telefónicas e entidades que prestam apoio psicológico cujos contactos devem procurar. Principalmente durante a pandemia, câmaras, juntas de freguesia e universidades têm disponibilizado ajuda. Alguns desses contactos estão aqui. Se tiverem conhecimento de mais, partilhem nos comentários.

13/30 (nas urgências de um hospital)

No mês passado, fui atendida nas urgências do hospital de Évora. Há dois ou três dias que estava com dificuldade a respirar, tinha um peso no peito como se fosse uma alergia a causar-me expectoração que não saía, tinha perdido a voz e sentia-me em esforço só por andar cem metros. A Primavera estava a começar e eu pensei mesmo que poderia ser essa a causa do desconforto.

 

Quando os anti-histamínicos não funcionaram e não me conseguiram encontrar a causa para o meu quadro no centro de saúde, tive de ir às urgências. Depois de esperar três horas, fui atendida numa sala improvisada e apinhada, a que chamavam o balcão das mulheres. Só uma parede e um par de cortinas separava o balcão das mulheres do balcão dos homens. A equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares dividia-se entre os dois.

 

O espaço parecia demasiado pequeno para tanta gente, e eu imaginava a constituição do ar que todos respirávamos como uma massa invisível, mas saturada de partículas disto e daquilo. E o vírus, oh, o vírus. Evitei pensar no assunto. Outras pacientes acamadas urinavam em arrastadeiras, outras vomitavam a sopa que acabavam de comer à hora de jantar. 

 

Senti-me desamparada, sozinha, no meio de tanta gente, no meio de um hospital enorme, mesmo sabendo que no parque de estacionamento estava o João; e, à distância, os meus amigos e família.

 

O médico obrigou-me a falar, apesar de eu estar afónica, apesar de eu ter um relatório dos médicos do centro de saúde dentro de um envelope que ele só usou para rabiscar as suas próprias notas. "Uma coisa é o que o colega escreve, outra coisa é o que o paciente tem para dizer, e eu gosto de ouvir os meus pacientes, tenho todo o tempo do mundo. O paciente é como um cliente, e eu tenho de ouvir o meu cliente", defendeu-se esse médico (e eu, sem voz, fôlego ou energia anímica para lhe explicar que o relatório não tinha sido elaborado por um, mas sim por dois médicos, um dos quais a pessoa com quem vivo, e que o que ele estava a fazer demonstrava um enorme desrespeito para com os colegas; e que, já agora, eu sei como se trata um cliente, porque tenho um negócio e, por isso, sei como funciona um, muito obrigada, dispenso sermões).

 

No final, após eu ter finalmente explicado o que se passava comigo (de forma obviamente incompleta e imprecisa, a chorar, dos nervos e da impotência); depois de exames, raio X, análises, veias e artérias picadas até à nódoa; horas sentada à espera em cima duma maca dura partilhada com outra pessoa, com as costas contra a parede; a ouvir as dores, queixas, gemidos de mais cinquenta mulheres naquele espaço tão pequeno... No final, recebi um diagnóstico de ansiedade.

 

"Vocês, os jovens, têm de ser fortes. Têm a vida toda pela frente." Esse médico esteve uns bons cinco minutos a dizer-me o quanto eu tinha de ultrapassar essa ansiedade, porque era jovem. Não fez mais perguntas. Não pôs sequer em causa que aquele não seria o território dele, não lhe caberia a ele fazer julgamentos. Em vez de me consolar, fez-me sentir culpada pela minha própria ansiedade - ansiedade que eu ainda nem sabia que, nessa altura, poderia ter atingido um nível tão alarmante. Eu só a sentiria, psicologicamente falando, alguns dias depois. Com aquele discurso imprevisto e indesejado, este médico fez-me sentir que estava a mais na urgência, como se saúde mental não fosse saúde, como se eu não tivesse razões para ali estar. 

 

Depois dessa sexta-feira à noite tenebrosa, a minha ansiedade acabou por se manifestar. Tive um ataque de pânico tão grande, que estive umas quantas horas no que me pareceu um estado delirante. Tive de parar de trabalhar durante uns dias. Depois desse episódio, também tive de criar outros hábitos na minha vida profissional e pessoal em geral, procurar outra ajuda e tentar fazer as pazes com o evento. Ainda assim, quero acreditar que quem me atendeu nas urgências de Évora faz parte de um grupo que é a excepção e não a regra no que toca ao tratamento de doentes com sintomatologia que não sejam tão visíveis quanto um ataque cardíaco, um AVC ou um braço partido. Cuidar da saúde mental não é uma mimalhice.

 

Nem todas as feridas deitam sangue ou deformam o corpo.

12/30 (a mulher do doutor)

Passeio a Coffee e as vizinhas sentadas ou encostadas a meio da rua falam comigo. São senhoras com setenta ou oitenta e tal anos, que procuram a sombra para confraternizar aos pares, com máscara e tudo, e também uma ou outra tem cães que passeia pelos mesmos caminhos que eu. Estas são vizinhas a quem me apresento, sou a Beatriz e vivo desde Dezembro naquela casa ali (aponto), perto das esplanadas.

 

As vizinhas acham que sim, que já sabem quem sou. Sou filha daquela senhora que se mudou há pouco tempo, ou sou filha da senhora que trabalha na Câmara, ou sou filha de alguém, pronto. E insistem, sou filha daquela senhora, aquela senhora sobre a qual nem conseguem concordar entre si, sim, mesmo quando digo que não, não, não.

 

Finalmente, consigo cortar-lhes a palavra: o meu namorado é o novo médico do centro de saúde, o Dr. João, que está a trabalhar com o Dr. David. Ah, então o seu marido é o novo médico...? É, sim, confirmo. Nos últimos meses, vim a aprender que não vale a pena negar o estado civil que nos passam ainda sem copo d'água, então eu mesma começo a casar-me só com palavras, o meu marido isto, ou a retorquir sem relação, o meu João aquilo.

 

As pessoas vêem-me todo o dia, ora com as portadas da sala abertas, ora no terraço do telhado, ora a sair e a entrar. Trabalho em casa, gosto de sol e gosto de janelas escancaradas. Raramente vêem o João, que trabalha do outro lado da vila e que raramente é avistado. Não sabem quem ele é, mas sabem quem eu sou, e pedem confirmação à dona do café que existe por baixo da nossa sala. Eles têm uma menina, é aquela menina de óculos, não é? Eles serão o novo médico e uma mulher hipotética. Divertida, a D. Dália responde que a menina é a mulher do doutor, ri-se e vem-me contar sobre o engraçado que é eu parecer tão nova que confundo as vizinhas.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.