Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Ser feliz longe de Portugal

IMG_25600518_212530.jpg

 

Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

IMG_25600624_105511.jpg

Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

IMG_25600624_112845.jpg

 

(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

IMG_25600520_104414.jpg

 

Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

A viver há um ano na Tailândia

IMG_25600520_104628.jpg

IMG_25600520_104414.jpg

IMG_25600617_175423.jpg

IMG_25600518_212530.jpg

 

Viver na Tailândia é uma aventura. Sei que o deve ser para quem vive longe dos centros urbanos ou turísticos, ou povoados de farangs (estrangeiros) e viver em Bangkok também é uma aventura, porque esta é a capital, vivem milhões de pessoas em apenas 600km2, é uma cidade de contrastes, gente muito rica e gente muito pobre, gente de todo o mundo enfiada em condomínios fechados, apartamentos decrépitos, complexos de moradias, casas de madeira ou alumínio à beira dos canais ou torres de quarenta andares - todos a conviverem no mesmo espaço.
Se é um caos?
É.
Mas é um caos a que nos habituamos e que acaba por nos dar a experiência das nossas vidas.

Não existe um único português a viver em Bangkok (que eu conheça) que não goste de cá estar, mesmo que todos tenhamos saudades de Portugal. Temos saudades de Portugal, mas na Tailândia é quase sempre possível levar uma vida muito mais descontraída, mesmo dentro duma selva de cimento e filas de trânsito infinitas.

Pessoalmente, adoro a comida de rua. Ou comida, em geral, barata e fácil de encontrar em qualquer lado. A chave para a minha felicidade é intercalar os meus cozinhados sofridos com a comida tradicional tailandesa. Esta última é rica em vegetais e, à parte os fritos, livre de gordura. Há muito açúcar pelo meio, mas a quantidade e variedade de fruta a que temos acesso servem para equilibrar a nossa alimentação.

As rendas, tal como o preço dos imóveis, é muito mais baixo do que em Portugal. Pago o equivalente a 200€ por um estúdio com kitchenette, num condomínio com piscina, ginásio, sala comum, guardas em peso e estacionamento. Caso quisesse comprar um destes estúdios no meu condomínio (construído em 2013), pagaria cerca de 50 mil euros.

Não me canso de dizer que os tailandeses são uns amores, boas pessoas e com integridade. Muitos dos crimes cometidos na "land of smiles" têm autoria estrangeira. Sinto-me segura a andar na rua à noite. Os tailandeses até podem corresponder aos estereótipos de "mal ou sub-escolarizados, materialistas, vaidosos, taxistas exploradores de turistas", mas raramente ouvirão falar dum tailandês que não tente comunicar convosco num Inglês desafiante, amanhado no momento, e principalmente cheio de boa vontade. Adoram falar com estrangeiros, dar indicações e, se trabalharmos com eles, pagar-nos o almoço.

Viver na Tailândia é um desafio, mas um que vale a pena aceitar. Viver em Bangkok é recorrer ao Google Maps, levar sempre um mapa dos transportes públicos connosco, descobrir onde nos levam os autocarros (com ou sem ventoinha, com ou sem ar condicionado, quase todos dos anos 70/80), fazendo sightseeing autónomo, é aceitar que Bangkok é uma cidade de turismo de compras e que não há assim tanto para visitar. É aceitar que há muita gente e que quem é dado a claustrofobia deveria viver nos subúrbios (eu).

Viver em Bangkok é como viver debaixo da chuva inglesa, misturada com temperaturas lisboetas em Julho, a humidade da Amazónia... Viver em Bangkok é viver em vários sítios ao mesmo tempo!

Por tudo isto e mais uns tostões, há piores sítios para se emigrar...

O quanto eu odeio corrigir exames

Adoro o meu trabalho. Adoro assistir à evolução dos meus alunos, de caras de incompreensão à iluminação final, a diferença que posso fazer na cabeça, na vida deles, no mundo, as vidas que posso tocar, as conversas que posso gerar, pagarem-me para ter audiência (uma que seja obrigada a ouvir-me, pelo menos). 

Adoro sentir que estou a fazer a minha parte em prol das futuras gerações, a nível global. Sinto-me a maior sortuda por ter merecido este trabalho de sonho. 

 

O que eu dispensaria mesmo é aquela fase em que tenho que corrigir 180 exames e trabalhos e lançar as notas numa semana. Só de pensar, até fico enjoada, e tomara eu que esta fosse só "uma expressão ".

Viver em Portugal e viver na Tailândia - 5 diferenças!

  

Estão a pensar em mudar-se ou visitar outro sítio na ponta oposta do mundo? Viver na Tailândia ou viver em Portugal são experiências nada parecidas!

Como já se devem ter apercebido no decorrer dos últimos anos neste blogue, eu sou da Margem Sul e estudei e trabalhei em Lisboa até meados do ano passado. Depois, em Junho, mudei-me para outra capital, beeeeem longe: Bangkok, Tailândia. Era suposto ser uma mudança temporária, por três meses, mas acabei por decidir ficar cerca de três anos, em princípio até ao início ou meados de 2019.
Assim sendo, tenho reunido algumas ideias acerca do que significa viver em Portugal ou viver na Tailândia. Há tantas diferenças! Afinal, estou a mais de 10 000km de distância.
Aqui vai disto, Evaristo!

1. Calor, humidade, chuva
Não há cá ar fresco para ninguém. O ar não circula, pelo menos em Bangkok. Não há vento, só há um enorme calor, humidade e chuva a rodos 10-11 meses por ano. Eu detesto o frio, ou costumava detestá-lo, mas com frio ainda se respira qualquer coisinha, com calor e humidade ficamos afogueados e cansados antes de tempo, sem fôlego. Só se está bem debaixo do ar condicionado.

2. Esplanadas VS Street food
Em continuação do ponto 1. Na Tailândia come-se muitas vezes na rua, por causa da cultura da street food, mas é impossível ficar-se confortável por muito tempo. O calor e a humidade são insuportáveis 11 meses por ano, lá está. Ficamos peganhentos. Tenho saudades das esplanadas de Portugal, de apanhar ar fresco e sol. De ficar a ler ou a conversar com amigos e a beber uma bica com cenários agradáveis na paisagem. Sem trânsito pela frente. Sem ar condicionado ou temperatura artificial. Sem paredes. Ai, que saudades da cultura da esplanada!

3. Bangkok tem 10 milhões de habitantes, sem planeamento urbano
Nas aulas de História e Geografia em Portugal, estamos sempre a falar da evolução das cidades. Antes, não havia planeamento, a construção de ruas era desorganizada. Na época medieval, a igreja ficaria no centro e tudo o resto organizar-se-ia em modelo concêntrico, numa espécie de estrela. Mais tarde, pensadores como o Marquês de Pombal acharam que se deveria pôr as ruas em linhas paralelas e perpendiculares. Bangkok é uma cidade tecnológica, inovadora, ligada ao mundo... Mas ainda ninguém ensinou aos tailandeses o que são rotundas ou planeamento urbano, ainda estamos na primeira fase aqui na Ásia. É o típico "tudo ao molho e fé em..." - neste caso, fé em Buda.

4. As mulheres funcionárias públicas não costumam usar calças
No que toca ao dress code, a Tailândia ainda é um país conservador. Quanto à roupa para homem, tudo é bastante semelhante a Portugal. Já as mulheres arranjam-se "muito finas" para irem trabalhar: vestidos e saias em maioria, calças são evitadas, ombros à mostra nem pensar, quanto mais decotes. No entanto, atenção: os homens também se arranjam bem. Não há ténis nem calças de ganga para ninguém!

5. Ler no espaço público é em Portugal
Apanhem um qualquer comboio ou metro em Portugal e verão no mínimo 30% das pessoas à vossa volta com um livro na mão (mesmo que sejam as 50 sombras). Na Tailândia, a tendência parece ser mais o telemóvel ou o primo tablet. Na verdade, ler nos transportes públicos é algo muito português (segundo as minhas aulas de Gestão Cultural em 2015). Pelas Ásias, também se lê, mas em casa, não no café ou na fila do autocarro.

Para mais comentários, dêem uma olhadela no vídeo que vos apresento aí em cima!

5 desafios de ensinar no estrangeiro

IMG_20170502_165904_373.jpg

Com os meus 117 alunos deste semestre, 1º e 2º ano da licenciatura em Artes Liberais, major em Inglês.

 

Viver fora de Portugal já é suficientemente difícil, mas ensinar no estrangeiro é ainda mais desafiante.

Em primeiro lugar, tenho de vos alertar desde já que adoro ensinar na Tailândia. Esta é uma experiência que está a mudar a minha vida a cada dia que passa.

Tirando as saudades que tenho de casa, da família, do namorado, dos amigos e de Portugal, sinto que só tenho retirado boas energias e um desenvolvimento pessoal e profissional bastante positivo.

No entanto, ensinar no estrangeiro tem também muitos desafios e é preciso ter-se um não sei quê de perseverança e coragem para os resolvermos.

 

1. O passado educativo dos alunos é, inicialmente, uma incógnita para nós

Por muitos livros que nos informem acerca dos sistemas de ensino do país onde vamos trabalhar, a forma como os alunos se comportam vai provavelmente revelar-se... apenas na sala de aula, no terreno. Por exemplo, eu já sabia que a educação na Tailândia não dá lugar ao pensamento criativo e à discussão livre entre professores e alunos, que is professores têm quase sempre a última palavra. Na verdade, todas as palavras. Os alunos são motivados em direcção à passividade. Mas sabia lá eu que eles iam detestar que lhes dessem a possibilidade oposta! (Entretanto, os meus já levaram um tratamento de choque e muitos já dizem que gostam das minhas infindáveis perguntas. Eu também levei uma chapada sem mão e deixei de stressar por não ter muitos potenciais participantes.)

 

2. Os alunos são diferentes, as burocracias idém

Outro desafio de ensinar no estrangeiro é lidar com os documentos de legalização e de ter de o fazer com o staff da escola/instituto/universidade. No meu caso, achei tudo muuuuuito lento, as pessoas complicadinhas até mais não e cheguei a chorar de desespero, já pensava em deportação, problemas com a lei, os oficiais da imigração virem à minha faculdade passar-me uma multa por ainda não ter o visto ou a licença de trabalho regularizados. A outra parte também foi levada às lágrimas, não fui só eu. Afinal, os desentendimentos são bilaterais e precisamos todos uns dos outros.

 

3. A barreira linguística. Perdão, não é barreira, é um muro. Com vidro partido em cima. E arame farpado.

Imagino que ensinar num país cuja língua materna seja parecida às que falamos ou que nós dominemos acabe por facilitar a nossa adaptação. No entanto, imaginem que não falam nenhuma língua próxima, quanto mais a língua local, o alfabeto é incompreensível, o staff administrativo fala um inglês macarrónico, ninguém se entende... Pois, é como voltar à Torre de Babel. Ainda bem que a maior parte dos meus alunos são "English Majors" e que os meus colegas também são professores de Inglês.

 

4. Os alunos cresceram num país diferente, logo pensam distintamente

Desde a questão da falta de pensamento crítico que já não me agradava "a conversa" (ou falta dela). Só quando começarem a conhecer os vossos alunos e a falar com eles diariamente é que os vão realmente entender, mas penso que haverá sempre alguns que simplesmente se fecham em copas e depois esperam que tenhamos poderes telepáticos para lhes ler as razões, os quês e os não sei quês. Estas diferenças poderão estar relacionadas com tabus culturais, estruturas familiares e organizacionais, expectativas a nível pessoal e profissional, linguagem corporal, expressões faciais, registo de língua... You name it!

 

5. A posição e reputação dos professores no país

No que toca à Tailândia, os professores não são os profissionais que são recompensados mais justamente, mas são provavelmente das classes mais respeitadas na sociedade. Um professor é um chefe, uma figura da autoridade e quase omnisciente. As vénias (ou wais) que recebia no início pareciam-me uma tolice desnecessária. Contudo, aprendi a apreciar este tratamento e a negociá-lo com os meus alunos. Tive de lhes ensinar que professores e alunos devem aprender mutuamente. Que temos de trabalhar juntos em direcção a um objectivo comum. E que o respeito deve ser merecido e que eu estou sempre a tentar merecê-lo. Também eu demonstro o respeito que tenho pelos meus alunos, com vénias (a saudação tradicional), palavras de encorajamento ou com simples conversas e confidências. Por outro lado, outros professores terão experiências opostas.

Preparem-se sempre para serem mais ou menos respeitados no vosso país de acolhimento e para as respectivas consequências. Preparem-se para serem tratados com mais ou menos deferência, de acordo com a perspectiva dos vossos alunos, superiores e colegas em relação aos estrangeiros.

 

E vocês, têm mais sugestões? Até agora, estes são os maiores desafios que encontro ao ensinar num país estrangeiro, mas certamente haverá mais listas por aí. Que tal as vossas ideias?

O meu primeiro apartamento

Indo eu, indo eu...não é a caminho de Viseu, mas sim a caminho doutro apartamento.

Estive quase cinco meses neste, mas está na hora duma pessoa se pôr a andar de frosques.

 

 

Últimos dias por aqui! #firstapartment #movingout

Uma foto publicada por Beatriz Canas Mendes (@beatrizcanasmendes) a

 

Este foi o apartamento onde tive de me armar em adulta à séria pela primeira vez. Onde tive de aprender a cozinhar mais do que o "suficiente" pela primeira vez. Onde chorei cheia de saudades da família pela primeira vez. Onde me ri ao perceber a sorte que tenho em viver em Bangkok. Onde me ralei imenso com os problemas do visto, do work permit e dessas burocracias todas. 

Foi muito empolgante viver no centro da cidade, mas o lixo, o trânsito, as infestações e o barulho levaram a melhor. Esta foi a minha casa de sonho em Bangkok, mas não foi suficiente. Podem tirar a pessoa dos subúrbios, mas não tiram os subúrbios da pessoa.

Descobri que viver no centro da cidade não é para todos. É preciso ter-se orçamento para se viver num bairro muito específico e o meu só me permitiu viver num condomínio novo, com piscina, ginásio, jardim e biblioteca, mas com mau isolamento e entre duas auto-estradas, num local onde começa a surgir um bairro de lata (nem é pelas pessoas, que são muito queridas, mas sim pela porcaria que deitam para o chão e a falta de condições de higiene).

Adorei viver no 21º andar, mas nunca me senti em casa, mesmo com uma vista magnífica para duas zonas nobres de Bangkok. Andei sempre a tentar arranjar desculpas para me ir embora: primeiro, era porque a agência que me alugou o apartamento é super ineficiente; depois, era porque o condomínio não permite animais de estimação; a seguir, foi ainda estar a 10 ou 15 minutos a pé dos transportes (não parece muito, mas todos os dias a atravessar, no meio do calor ou da chuva tailandeses, estradas cheias de trânsito com a tralha toda das aulas, o almoço e os lanches na mala acaba por cansar); finalmente, o cheiro e a falta de cuidado da nova administração em manter as instalações e as zonas à volta do condomínio em condições... habitáveis.

 

Portanto, aqui vou eu de volta aos subúrbios (ou, pelo menos, para fora da confusão do centro da cidade), esperando melhores dias sem companhias rastejantes a tentarem comer o meu jantar - que foi mesmo a gota de água que me fez abrir os olhinhos para a necessidade de sair daqui. 

 

(Tenho saudades de entrar em casa e só ouvir... nada! Ouvir só os passarinhos é o máximo de ruído que quero encontrar!)

Somos todos doutorados em relações à distância

20161219_162952.jpg

Quando decidi vir para o outro lado do mundo, preocupei-me com muita coisa: as saudades de casa, o preço dos vôos, tornar o meu apartamento acolhedor, assegurar meios de subsistência suficientes, mentalizar-me de que estar sozinha não significa estar só, conseguir tratar do visto e da permissão de trabalho - e, dentro desta lista infindável de tarefas físicas e mentais, ainda outra...

Apalpar terreno para uma relação à distância.

 

O Verão mais longo da minha vida

Biologicamente, tenho-me sentido super confusa.

Para mim, tem estado calor non-stop desde Junho. Há quase seis meses que vivo num Verão eterno.

É o que dá ter vindo morar para um país de clima tropical. Há a estação seca e a estação molhada; ora faz um calor abafado, ora faz calor. Conseguem imaginar o puzzle que aqui vai dentro quando escrevo uma data de Novembro e estou de vestido de manga curta e lá fora estão 30ºC, com sol? E quando, depois do trabalho, chego a casa e vou para a piscina??

Ainda por cima, eu detesto frio... e há uns dias fui ao IKEA e, no meio dos artigos de decoração para a sala, trouxe uma manta, para pôr o ar condicionado a bombar e fazer de conta que estou no Inverno europeu... ou, no máximo, no Outono. E a existência de artigos de decoração natalícia nos centros comerciais (sim, até num país budista)? E fazer videochamadas com gente embiocada em cobertores e camisolas de lã, quando nem calças eu consigo vestir?

Tenho, mais ou menos, saudades da estação fria. Fria, tipo 10ºC (também não exageremos, não é?). Esta experiência da pseudo-imigração está-me a subverter os meus valores e preferências! HELP!

 

 

A importância dos bastidores na vida real (ou a questão do mérito invisível)

Gosto de pessoas agradecidas pelo que têm na vida, por isso eu mesma gosto de dar graças pelo que tenho, material e imaterialmente. O Dia de Acção de Graças americano já passou, mas todos os dias são dias de reconhecer que, muitas das vezes, o que nos acontece de bom pode ter tanto de mérito pessoal quanto de mérito colectivo, ainda que não se veja de imediato até que ponto isso acontece.

O que eu quero dizer é que não vim parar a Bangkok só porque sim. Na altura em que fui aceite como estagiária, não tinha verba nem para as viagens, nem para a comida do primeiro mês e muito menos para andar a conhecer a cidade. A minha família aconselhou-me a não desistir e que, se fosse necessário, alguma coisa haveria de surgir até ao último momento para que eu pudesse sustentar-me. Bem dito, bem feito: mesmo antes de ter de comprar as viagens, recebi um prémio simbólico por ser a melhor aluna do meu curso, caído do céu. No entanto, continuava a precisar de mais dinheiro. E a minha família, com enormes sacrifícios que só eles saberão o quão custosos foram, disponibilizou-me o restante.

Quando fui contratada como leitora na universidade onde estava a estagiar, tive de escolher deixar o país para viver a 13 000 km de distância. Antes de mais, eu podia ter escolhido não aceitar o convite, agradecer educadamente e seguir a minha vida. Poderia ter pesado os prós e os contras de deixar a minha família, o meu namorado poderia não ter aceite bem a ideia, podia ter dado ouvidos a alguns dos nossos amigos que acharam que me estava a precipitar, e eu poderia até ter ficado cá a trabalhar com todas essas condicionantes, logo sem qualquer apoio. 

Contudo, depois de mil e uma conversas à distância e presenciais quando estive em Portugal por três semanas, depois de chorarmos e de nos preocuparmos por antecipação com aquilo que poderia vir a suceder, os três núcleos mais importantes da minha vida (família, namorado, amigos) ficaram em paz com a minha decisão. Principalmente, eu fiquei em paz com a minha decisão.

 

No primeiro mês depois de me mudar definitivamente para Bangkok, tive imensos problemas a pagar a renda e o depósito do apartamento, de repente surgiram três milhões de despesas imprevistas ligadas à emssão dum visto e à minha legalização na Tailândia e eu, que já tinha um orçamento curto para os primeiros tempos, entrei em desespero. Felizmente, quem é que mais me ajudou na altura? A minha família. Sem eles, eu teria passado muito mal - ou não tratava dos meus assuntos ou não comia. Foi também um período de adaptação para o meu namorado e houve alturas em que a nossa relação e a nossa amizade foram testadas, por isso tivemos de estabelecer novas maneiras de nos mantermos à distância. Mas, no final do dia, a nossa relação continua saudável, não há discussões nefastas, não há dramas, só muita compreensão. Por outro lado, os meus amigos não se queixaram da minha falta de vontade para conversar e só agora é que começo a dar-lhes atenção outra vez. O que mais poderia eu desejar?

 

15032406_1428420163851995_240740781_n.jpg

 Faculty of Liberal Arts, King Mongkut's Institute of Technology Ladkrabang

 

Mas por que é que eu senti necessidade de escrever isto?

 

Quando me dão os parabéns pelo que consegui, a maioria das pessoas só vê o que está à frente, que sou eu a ser convidada para trabalhar noutro país a fazer aquilo que tinha estebelecido como meta para a próxima década, só que logo que acabei a licenciatura. Só me vêem a ser leitora numa universidade aos 21 anos.

A maioria não vê que muito do que consegui só se tornou possível por causa do trabalho dos bastidores. Por uma questão de justiça divina, decidi partilhar a minha (a nossa) situação, para que outros se possam sensibilizar quanto à importância das pessoas que nos rodeiam.

Raramente é possível fazermos seja o que for sozinhos, por nossa conta. Se enchermos a nossa vida de gente positiva e que nos faça bem, acabamos por criar uma rede por baixo dos nossos pés, que nos há-de amparar as quedas e fazer-nos saltar mais alto. Se não for a família, que seja a cara-metade. Se não for a cara-metade, que sejam os amigos. Se não forem os amigos, que sejam os colegas de trabalho. Provavelmente, falo de boca cheia, mas falo de boca cheia com muita gratidão e humildade perante a minha condição.

Trabalho todos os dias para provar que mereço o emprego que me deram, tenho sempre tido uma dose de sorte e felizes acasos que me dão uma ajudinha, e calhou-me ter nascido numa família cheia de vontade de me ajudar a concretizar as minhas ambições e ter conhecido os professores, os amigos e o namorado certos ao longo dos anos.

Sinto que quando me elogiam também elogiam, sem saberem, quem está por trás a manter tudo em ordem. Poder partilhar a minha felicidade e os meus feitos com outras pessoas é uma bênção. O "meu" mérito é de muita gente em simultâneo.

 

Espero que também vocês tenham quem vos apoie desta forma e a quem possam agradecer por serem parte da vossa identidade. Rodeiem-se de amor, esqueçam o que é tóxico e acreditem no que são capazes de fazer, tanto quanto quem vos garante que sim, vocês são capazes. Não tenham vergonha de ter falhas nem de pedir ajuda, desde que mais tarde possam pagar na mesma moeda, caso seja necessário. É para isso que as comunidades, desde os mais pequenos núcleos familiares até às sociedades e às nações, existem - para que nos possamos ajudar mutuamente.

Pode parecer que vos estou a encher a cabeça de clichés, que daqui a nada este blogue vira página lamechas, mas não me levem a mal: neste momento, sinto que tenho motivos de sobra para assumir a voz mais pseudo-motivacional de sempre. Não se preocupem, isto passa.