Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Emigrar = desistir de Portugal?

Quando me propuseram ficar definitivamente a trabalhar em Bangkok, tive muitos momentos de dúvida que, obviamente, continuam a aparecer-me de vez em quando. O contexto: ao regressar a Portugal em Setembro, teria a possibilidade de frequentar um dos melhores mestrados da Europa, numa universidade de referência, possivelmente conseguiria até assegurar alguma bolsa de mérito, continuaria a dar explicações ou arranjaria trabalho (até já tinha tido uma proposta no fim do segundo ano de licenciatura, mas na altura não conseguiria conjugar estudos e actividade profissional e a relação salário-esforço não era relevante o suficiente), teria a minha base familiar sólida, o meu namorado e os amigos que guardo há largos anos, uma das minhas amigas vai ter um bebé e eu iria com certeza acompanhar a gravidez dela de perto, continuaria a viver na minha zona de conforto, debaixo da asa da avó, no meu quarto cor-de-rosa e cheio de tralha, numa casa de dois andares com quintal, onde continuaria a brincar com os meus cães e gatos sempre que me apetecesse.

No que toca às oportunidades que Portugal me proporcionou, tenho a dizer que poucas foram. Pessoalmente, recebi a bolsa de estudo da DGES por dois anos. A minha bolsa de mérito foi-me sempre atribuída durante os três anos de licenciatura por uma associação privada. A bolsa de mérito da DGES nunca chegou e ainda estou à espera dos três anos que me devem. Idém, para a bolsa de melhor finalista atribuída pela Caixa Geral de Depósitos. Tenho apenas a sublinhar que, não fossem os professores excelentes que tive e que representam Portugal e a função pública, ainda menos aspectos positivos teria para enumerar. Não me sinto amargurada por ter tido sempre que trabalhar ao longo dos últimos anos para pagar a faculdade, mas a verdade é que o sentimento com que me identifico é que fui eu que trilhei o meu caminho sem grande ajuda dessa grande entidade chamada "Portugal".

Portanto, quando me falaram pela primeira vez a trabalhar em Bangkok, logo na minha primeira semana na Tailândia, eu fiquei confusa. Obviamente que adoro Portugal, o sol de Lisboa, a minha casa fora dos centros urbanos, as pessoas que me rodeiam, ouvir a minha língua todos os dias. Mas, caramba, quando surgiu a oferta de trabalho concreta em Bangkok, fiquei sem desculpas para não aceitar. Apenas 12 horas de trabalho lectivo obrigatório, fora horas extraordinárias pagas devidamente, um salário irrecusável para alguém da minha idade numa cidade tão acessível quanto Bangkok, a possibilidade de continuar os meus estudos em simultâneo, montes de pessoas a apoiarem a minha candidatura e com quem estabeleci uma relação extremamente carinhosa desde o primeiro dia (incluindo a melhor chefe de sempre) e... o meu trabalho de sonho e que eu não pensava conseguir nos próximos cinco a dez anos - ser professora numa universidade.

Como pode uma pessoa lembrar-se dessa miragem linda e maravilhosa, solarenga, quente, emocionalmente segura que é Portugal, quando lhe oferecem estas condições todas?

Não, nem eu desisti de Portugal nem Portugal desistiu de mim. A Tailândia foi simplesmente mais rápida, pelo menos por agora. Sou um caso que provavelmente seria bem sucedido em Lisboa ou Bangkok, mas que pendeu mais para um lado do que para outro. É como terem a possibilidade de comprarem uma casa no local dos vossos sonhos mas que demora imenso tempo a fazer, ou uma casa que vai ter de ficar noutro terreno, mas que já está pronta e até traz um sistema de fornecimento de energia solar.

Emigrar, ou ir estudar para outro país, pode não ser apenas sobre desistir do nosso. Hoje em dia, acho que a nova geração se considera cidadã do mundo e que pertence, ou pode vir a pertencer, a muitos sítios diferentes. Infelizmente, a ideia principal a que eu quero chegar com todas estas linhas de texto é Portugal não está a ser rápido do suficiente para a mão-de-obra qualificada que educa e forma. Mais rapidamente esta mão-de-obra é arrebatada para outros sítios. Nem sequer falo de mim neste exemplo específico (eu nem tive tempo de estar em Portugal à espera, por isso nem posso imaginar o que um jovem formado e frustrado deve sentir), mas ouve-se falar de cada vez mais jovens formados que acabam por emigrar, porque mais fácil e rapidamente são valorizados do lado de fora.

Não chega os Velhos do Restelo andarem para aí a apregoar que nós desistimos do país sem mais nem menos, que somos uns cobardes, desistimos rapidamente... Amigos, tentem romper assim com a vossa vida como os emigrantes fazem para ver o que é bom para a tosse.

Os tempos do elevado patriotismo já lá vão. Esta é mais a era chamada "o patriotismo não paga contas nem nos providencia a realização de objectivos e sonhos pessoais ou profissionais". Se gosto do meu país? Claro que sim, adoro Portugal. Se gosto mais da Tailândia? Não necessariamente. Estou cheia de saudades do céu sem nuvens ou poluição, dos enchidos, dos pastéis de bacalhau, dos rissóis e das pizzas do supermercado a 1,50€, mas a Tailândia concretizou-me uma data de objectivos a todos os níveis duma assentada, as pessoas são doces e genuínas aqui, o trânsito é caótico mas estranhamente seguro, a rede de transportes públicos é eficiente, tenho o meu próprio apartamento com uma vista esplêndida para o centro da cidade, a roupa é muito mais barata, as ruas estão cheias de gente de noite e de dia, há vida a passar-se. Se me mandassem para cá a minha família, o meu namorado e os meus amigos e me assegurassem que poderia realmente ficar na Tailândia para o resto da minha vida como professora e a ser aumentada todos os anos (o que acontece com os professores efectivos da função pública), teria muita dificuldade em recusar.

 

Para mim, emigrar ou ir viver para outro país não significa desistir de Portugal. Antes significa não desistir de mim e dos meus projectos.

Último dia na FLUL

Acabei de assistir à última aula da minha licenciatura na FLUL. Resta-me apenas vir cá no dia 20 de Junho apresentar o meu relatório de estágio.

Acho que ainda não me tinha apercebido da importância deste acontecimento, dado que a tarde foi marcada pelas pressas em terminar o dito relatório de estágio, entre paralisias inesperadas do meu computador, detalhes que tinham sido esquecidos e ficaram para o atar das feridas*, e a grande excitação de saber que dentro de três semanas já estarei eu própria a dar aulas do outro lado do mundo.

 

Acabei de assistir à última aula da minha licenciatura na FLUL. Então, brindemos mentalmente a um possível regresso, dessa feita estando eu do outro lado da mesa!

 

*Mas olhem que ficou tudo bem bonito e organizadinho, estou uma babadona pelas minhas 111 páginas!!!

Universidade #9 - Pasta de finalista + bênção das fitas

Como em tudo no que toca às pseudo-tradições académicas, escolhi experimentar estas duas, com receio de me arrepender mais tarde caso não tivesse fazer parte delas. Tenho para mim que é sempre melhor "ver para crer", em vez de nos pormos com peneiras e falsos orgulhos, mesmo que, à partida, aquilo com que nos deparamos nos pareça uma mariquice.
Foi com isto em mente que comprei e mandei fazer a minha pasta de finalista, mais as fitas azuis timbradas da minha faculdade, e me inscrevi na benção das ditas cujas. Provavelmente, quem me conhece e me ouviu falar sobre estes assuntos desde o primeiro ano no ensino superior acabou por se surpreender. Ah e tal, que eu sou uma vendida, uma troca-tintas, uma Maria vai com as outras. Se calhar sou, porque a certa altura eu achei que isto dos finalistas era tudo uma gravíssima lamechice e que gastar um sábado inteiro ao sol numa cerimónia com milhares de pessoas, mais uma pequena fortuna na pasta, nas fitas e no bilhete era duma pessoa se atirar da ponte. Afinal, se tudo correr pelo melhor, ainda hei-de ser finalista mais duas vezes.
Só que, quando chegou o momento da verdade, aquele em que me defrontei com a possibilidade de fazer ou não fazer o que estou prestes a fazer... Aí é que foram elas! Deixar passar a oportunidade e ficar na ignorância é que não! Por isso, encomendei a pasta de finalista e cá tenho eu andado a distribuir as minhas fitinhas pelo pessoal, à espera que me escrevam, desenhem e desejem coisas bonitas, dignas de ser abençoadas pelo Cardeal Patriarca no dia 21.

Depois, conto-vos como foi.

 

 

 

A dita cuja! #ciênciasdacultura #flul #ulisboa #senioryear #bênçãodosfinalistas

Uma foto publicada por Beatriz Canas Mendes (@beatrizcanasmendes) a

A discriminação positiva não deixa de ser discriminação

Ando um (grande) bocado desiludida com a discriminação positiva. Ele é os refugiados que têm os direitos cívicos garantidos até antes de serem inseridos no mercado de trabalho, ele é a bolsa que permite a jovens ciganos estudar, viver, comer e manter uma vida confortável a nível universitário sem ajuda dos pais, ele é os alunos que estão em colégios e institutos de ensino superior privados e que continuam a usufruir de ajuda económica do Estado. Percebo que o nosso instinto seja sempre tentar ajudar as pessoas, o mais possível, com o coração, principalmente quando se tratam de minorias étnicas e culturais ou indivíduos com dificuldades económicas. 

No entanto, a discriminação positiva não deixa de ser descriminação. Para cada caso de descriminação positiva, forma-se um caso de discriminação negativa, do qual praticamente nos esquecemos, mas que não deixa de existir. Vejamos: por cada bolsa de estudos atribuída a um jovem porque ele é cigano, quer estudar e a família não o apoia, um jovem que não é cigano, quer estudar e cuja família não o apoia fica a olhar para as moscas. Por cada refugiado que Portugal acolhe e sustenta através de fundos da Europa ou da própria Segurança Social, um desempregado português em risco de perder as condições mínimas de sobrevivência fica sem qualquer ajuda, porque chegou ao fim dos três anos de subsídio de desemprego e, daí em diante, fica sem tecto e comida na mesa e/ou, na melhor das hipóteses, dependente de subsídios miseráveis de "inserção". Por cada aluno inscrito numa instituição de ensino privada, mas que usufrui de subsídios para financiar os seus estudos fora de instituições públicas, porque os pais declaram parcos rendimentos, um aluno que até para frequentar uma escola pública apresenta os mesmos ou piores obstáculos é remetido para segundo plano. 

Contudo, ainda mais importante do que qualquer consequência que se possa enumerar, estes indivíduos contra quem a dita discriminação positiva actua involuntariamente passam a sentir-se colocados de parte pelo sistema. Por um lado, compreendo que o objectivo da descriminação positiva seja compensar certos desequilíbrios na sociedade ou promover a ajuda a grupos desfavorecidos, só que, por outro lado, não me sinto completamente fã da discriminação negativa que é passível de produzir. Para se ajudar uns, deixamos de ajudar outros. Muitas vezes, nem é que essas pessoas não mereçam, mas não merecemos todos, não devemos ser todos avaliados a partir de lupas semelhantes? 

Correndo o risco de ser mal interpretada, sublinho que estas são apenas ideias soltas e em desenvolvimento, porventura algo generalizadas, mas certamente muito sinceras. Como sempre, reservo-me o direito de estar errada, de mais tarde descobrir incoerências na minha opinião ou de, não estando realmente errada, poder vir a alterar o meu ponto de vista.

Queridos professores,

Venho, por este meio, solicitar que deixem os alunos escolher o estilo de citação nos seus trabalhos (Chicago, APA, MLA, Harvard... who the hell cares???), porque eles existem em número superior à quantidade de neurónios na minha cabeça às nove da noite.

E, já que estamos por aqui, vamos falar a sério. Parem, de uma vez por todas, com isso do "20 é para Deus, 19 é para o professor e 18 é para o Stephen Hawking". Por causa dessa brincadeira forreta, despenteiam-me a média. Que eu saiba, a avaliação possível vai de 0 a 20, não de 10 a 17. E não, 18 não é uma "nota boa", é uma nota real e ponto final, tal como o 19 e o 20 - que, já agora, também constam da minha pauta, graças a professores menos bota de elástico. #ficaadica

 

Saudações esquentadamente cordiais,

Beatriz

Universidade #8 - Ciências da Cultura (diz que é uma espécie de review final do curso)

Foi-me pedido que escrevesse uma apreciação acerca da licenciatura em Ciências da Cultura (na FLUL), como trabalho de casa na cadeira de Seminário de Estágio. Já agora, publico-a aqui, caso haja alguém interessado em saber ainda mais sobre o meu curso. De qualquer forma, eu e os meus colegas da Comissão de Ciências da Cultura estaremos na Futurália, de 16 a 19 de Março, para promovermos a licenciatura e a faculdade, assim como para retirar todas as dúvidas aos futuros universitários e curiosos!

 

IMG_20160303_103110_558.JPG

 

***

 

Ciências da Cultura foi a licenciatura que mais me despertou a atenção desde o 8º ano, quando comecei a pensar no que gostaria de estudar no ensino secundário e, consequentemente, no ensino superior.
Apesar de, entretanto, a minha atenção ter deambulado por outras alternativas, fico feliz por ter seguido em frente com a minha primeira ideia e até de não ter tido uma nota suficiente no exame de Português, o que me daria a hipótese de seguir Ciências da Comunicação na FCSH.
Em geral, as razões pelas quais me sinto mais satisfeita com a licenciatura que escolhi estão particularmente relacionadas com o prestígio da FLUL em certas áreas disciplinares. Sinto que, para mim, o ensino da Literatura e da História são os "pontos fortes" do curso, pois todas as cadeiras de cultura que tive focaram-se bastante nelas na sua abordagem (por exemplo, lendo as epopeias e tragédias gregas e romanas em Cultura Clássica, Beowulf em Cultura Medieval e O Elogio da Loucura em Cultura Renascentista). Já tendo em conta estes "pontos fortes" da FLUL, escolhi como cadeiras opcionais no 2º ano Ficção Científica e Fantasia de Expressão Inglesa e História, Memória e Literatura. De facto, além das cadeiras de Cultura, estas foram as minhas favoritas na FLUL.
Por outro lado, as cadeiras que menos me despertaram o interesse ou cujos professores não corresponderam às minhas expectativas pertencem área de Linguística. Por ter sido a primeira cadeira do género e por a professora me ter cativado, gostei muito de Linguagem e Comunicação, mas sinto que o plano curricular de Produção do Português Escrito foi redundante e que não aprendi muito, apesar de a ter terminado com uma boa nota. Apesar de ter gostado de ambas, Teoria da Comunicação, Sociologia da Comunicação e Análise do Discurso também foram semelhantes em vários pontos do programa.
No que toca às cadeiras de Inglês, desde o início do curso que me parece desnecessário empregar 36 créditos na aprendizagem de uma língua com que os alunos já terão - pelo menos - entrado em contacto no ensino básico e secundário. No meu caso, concluir três níveis de C2 não me irá beneficiar tanto quanto possa parecer.
No 1º semestre do 3º ano, tive a oportunidade de frequentar a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, através do Programa Almeida Garrett, uma vez que me foi impossível fazer Erasmus noutro país, por razões económicas e de trabalho. Felizmente, esta experiência não poderia ter sido melhor. Além de ter entrado em contacto com outros docentes (muitos deles, antigos alunos e professores da FLUL) e métodos de trabalho, também achei que as matérias leccionadas vieram complementar perfeitamente o que já tinha estudado na FLUL. Na FCH, escolhi como opcionais a cadeira de Escrita Criativa, por curiosidade e gosto pessoal, e Estudos de Cinema, por conveniência de horário. No final, o balanço das duas foi muito positivo, mesmo em Estudos de Cinema, pois permitiram-me estudar novas matérias e autores, muitos deles de forma inesperada.
Penso que a maior desvantagem de Ciências da Cultura enquanto curso de Letras é não estar organizado de maneira a permitir a candidatura à maior parte dos Mestrados em Ensino.
Contudo, uma das maiores vantagens de Ciências da Cultura na FLUL é preparar os seus alunos com conhecimentos diversos, que poderão ser aplicados em muitos contextos de trabalho (o que se confirma, dada a lista de entidades de acolhimento para os estágios curriculares), assim como nos prepara para a frequência de mestrados em áreas distintas, não só na área de Letras ou Ciências Sociais e Humanas.

Adeus, 5º semestre!

E pronto, já só me falta um semestre de licenciatura. Algumas pessoas que conheço ficam muito admiradas. "O quê, já está a acabar?" Pois estou! "Mas que idade é que a Beatriz tem??!"
Ontem, contei a um dos meus explicandos que vou começar a "dar aulas" (estágio) daqui a menos de um mês a turmas de sétimo ano (alunos da idade dele!). O rapaz abriu muito os olhos, disse que não acreditava. "Não vai nada!" Pois vou! E esta é a incredulidade de quem só levantou a negativa a Inglês porque eu estudo com ele, lhe ensino quase tudo como se nem sequer passasse pelas aulas.
A minha avó já brinca: "Senhora doutora, como está a Senhora doutora?". É só para me picar.
Alguns dos meus professores da faculdade começam a interessar-se e a perguntar-me o que é que pretendo fazer depois da licenciatura. Alguns sugerem mestrados e percursos académicos futuros.
E daqui a seis meses serei uma miúda de 21 anos licenciada em Ciências da Cultura! Vejam só! Eu, que ainda passo por quinze e dezasseis e a quem os meus explicandos de doze, treze e catorze têm dificuldade em não tratar por "tu" (alguns tratam-me mesmo) - eu terei já estudado durante esses ditos quinze anos! E, mesmo assim, ainda me faltarão, no mínimo, 5 para estudar até onde quero!
Com 21 anos, como se já não bastasse namorar há uma eternidade com a mesma pessoa, também terei um canudo! E já terei dado explicações a pelo menos 6 alunos do ensino básico e secundário!!!! E dinamizado aulas com 4 turmas! E trabalhado em para aí 5 empresas e entidades diferentes! E viajado para pelo menos 4 países estrangeiros no espaço de 36 meses!
Acho que os números são extremamente curiosos. Eles falam por si, enquanto eu mal acredito que falam igualmente por mim. Aliás, eu é que falo por eles, não é? Eu é que os faço...
Nem dá para crer na quantidade de acontecimentos que couberam nos últimos dois anos e meio.

O bicho de ensinar

Eu gosto de ensinar. Aliás, adoro ensinar. Acho que, no fundo, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Antes, desculpava o bicho, porque pensava que ele só era alimentado pelo contacto quotidiano com os professores. Durante muitos anos, quase toda a minha vida, a escola foi a única realidade que conheci. A escola, os livros, os meus colegas alunos, eu aluna, os professores.
Então, tentei desmistificar o meu bicho. Pus-me a explorar outros interesses, a procurar o gosto pelo jornalismo, pela escrita, pela cultura, pela literatura. Mas cheguei sempre à mesma conclusão: o melhor mesmo seria poder ensinar todos esses outros bichos, ser professora de qualquer forma.
Quando ensino alguém, quando ajudo alguém com os trabalhos da escola, quando sinto que transmito algum tipo de conhecimento; esse é o momento em que me sinto mais realizada. Estou a contribuir para o mundo, estou a dar a minha parte. Sem o meu bicho, outras pessoas, crianças, jovens, quem quer que seja, não conseguiriam alcançar o que alcançaram. Não conseguiriam encontrar aquele texto especial que lhes levei e que nunca leriam num dos seus manuais, não aprenderiam a conjugar o verbo "conseguir" tão depressa, não passariam a perceber outras línguas de forma tão rápida, nomeadamente a língua do estudo eficiente e a língua da curiosidade.
Neste momento, só aspiro a professora algumas horas por semana. Contudo, já contornei obstáculos que se julgavam insuperáveis. Ressuscitei o Inglês, semeei o Francês e tornei o Português menos pandoresco. Neste momento, são só crianças e adolescentes, mas quem se seguirá no futuro?
Como inimigas, tenho as metas curriculares. São inimigas agridoces, que tanto permitem aferir o "conhecimento" contabilizável, como impedem o aproveitamento de outras competências tão importantes como o crescimento pessoal do aluno, a responsabilidade ou a curiosidade na aprendizagem. "Ah e tal, se o aluno obtiver essas competências, conseguirá aprender, logo terá melhores notas." Por muito que o desejemos, a situação não é assim tão linear. Há quem demore mais a chegar ao "conhecimento" contabilizável do que outros. Há quem simplesmente não se adapte ao sistema de avaliação como ele é imposto. Há quem seja apenas um aluno brilhante a Ciências Naturais e deteste Espanhol. É assim tão inédito?
E depois há outro papel de "professora de 7 horas por semana": o de colmatar o que os professores de 40 horas por semana não são capazes de transmitir: justificar o conhecimento, explicar para que é que serve a matéria, atribuir-lhe uma vertente útil. De que é que serve aos alunos estarem a empilhar Os Lusíadas durante seis meses, se não lhes explicam em que é que eles ficam a ganhar? Somos todos tão bons a escrever cartas de motivação para arranjar empregos de sonho, em empresas de sonho, e abafando a competição... Porque é que não escrevemos também uma carta de motivação em nome da escola e do saber e da matéria, que convença as nossas criancinhas, e os nossos adolescentezinhos, e os nossos adultinhos de que aprender não é uma seca e de que para tudo o que aprendem há um intuito?

 

 

5 argumentos contra quem estuda no Natal (entre outros)

Ao longo destas duas últimas semanas de Natal e de Ano Novo, tenho-me admirado imenso com os queixumes que, de resto, são já muito frequentes e conhecidos de quem tenha amigos a estudar no ensino superior.
"Véspera de Natal, todos a desfrutarem e eu a estudar."
"Não percebo porque é que dizem que estamos de férias de Natal, se temos de estudar para os exames de Janeiro e fazer trabalhos."
"Todos a comerem que nem uns abutres, todos a irem para as festas e ver os foguetes, e eu aqui a ler Descartes."

 

Nº1 - caros amigos, não sei se sabem, mas quem corre por gosto não cansa e quem quer um canudo tem de malhar nos miolos;
Nº2 - a sério que já estão no terceiro ano da licenciatura e ainda não estão habituados a ter exames e trabalhos para entregar logo no início de Janeiro? Hummm, interessante...;
Nº3 - ser estudante do ensino superior é a melhor ocupação que há no mundo OU eu devo ter entrado no curso mais fácil de sempre para não sentir outra pressão que não a da minha procrastinação (tenho 4 exames e um trabalho para entregar nas próximas três semanas, e não fiz um rabinho de 18 de Dezembro até 3 de Janeiro, abençoadas férias!!!);
Nº4 - aprendam a organizar-se, tirem um curso em e-learning de gestão do tempo, mas não me venham dizer que tiveram MESMO de estudar nos dias de Natal e de Ano Novo;
Nº5 - ainda que tenham de suar as estopinhas de Setembro a Junho, ainda que sejam alunos de Medicina ou de Engenharias, lembrem-se que os alunos do ensino superior devem ser os únicos seres humanos em Portugal a ter direito a (pelo menos) dois meses de férias, interregnos de Natal, Carnaval e Páscoa, todos os feriados e todos os fins-de-semana por sua conta. Daqui a uns anos, hão-de chorar muito, quando só tiverem direito a 22 dias úteis de férias e trabalharem das 9h às 17h30, ou por turnos e escalas, até aos 65 anos.

 

Digam lá que esta não é uma vida loka??!

2016 e o pós-licenciatura

O meu maior objectivo para 2016 é conseguir fazer as escolhas que mais me deixem satisfeita, sendo o maior desafio descobrir o que é que me deixaria mais feliz, porque eu adoro todas e cada uma das minhas alternativas pós-licenciatura.

Fazer um voluntariado internacional de longa duração (mais de 6 ou 9 meses), género Serviço Voluntário Europeu. Sim, eu quero muito saber como é viver noutro país, entrar em contacto com pessoas diferentes e desenvolver competências "fora da caixa".

Ser assistente de português em França. As probabilidades de ser admitida no projecto do CIEP são elevadas, uma vez que sou quase fluente em Francês, teria boas recomendações de professores da faculdade e vou ainda estagiar na área da educação e do ensino. Além disso, iria receber mais de 700€ de salário (depois dos descontos), só trabalharia 12 horas por semana e o calendário de actividade é fixo (1 de Outubro de 2016 a 30 de Abril de 2017).

Começar o mestrado. Gostaria de tirar Sociologia (especialização em Conhecimento, Educação e Sociedade, na FCSH-UNL, em cujo primeiro ano só pagaria 200€ por causa da média de 17 na licenciatura) ou Estudos de Cultura (na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, o terceiro melhor do mundo na área, mas para o qual preciso de arranjar um emprego ou uma bolsa de investigação, para pagar mais de 7000€ de propinas em dois anos).

O possível segundo mestrado que eu poderia tirar simultaneamente ao de Sociologia é Estudos da Língua Portuguesa - Investigação e Ensino (na Universidade Aberta), porque é em regime de e-learning e a carga horária não é muito exigente. Em alternativa, não seria mal pensado conjugá-lo com a tal estadia em França como assistente... de português! Ou até com um voluntariado!

 

E agora??? Eu sei que me daria bem qualquer que fosse a minha escolha, por isso é mesmo esperar e ver o que acontece, como é que as circunstâncias se apresentam. A história do pós-secundário repete-se.