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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Estagiar no ensino superior - porquê?

Notícia de segunda-feira: "Governo quer estágios em todos os anos das licenciaturas e mestrados"

 

Muitos são aqueles que criticam os estágios, em geral. Que são a legalização da escravidão. Que se estabelecem contratos manhosos, ambíguos e apologistas da exploração laboral dos estagiários. Que, hoje em dia, se passa a vida a ser estagiário, sem surgirem as oportunidades de progressão de carreira nas empresas ou instituições e sem se ser recompensado espiritual ou financeiramente. Que se contratam estagiários porque fica mais barato do que contratar um profissional com experiência.
No entanto, essas críticas só vêem o lado negativo dos estágios, até porque é o único que temos conhecido ultimamente. Para lá dessa faceta, existe uma outra.
Os estágios, nomeadamente os estágios no ensino superior, não servem para andar a ser feitos para o resto das nossas vidas, mas sim para serem experimentados nos primeiros tempos profissionais. Servem para vivermos um sneak peak do que irá ser, ou poderá ser, o mercado de trabalho onde nos pretendemos inserir através dos nossos cursos. Para mim, estagiar 120 horas no fim do meu 3º ano de licenciatura, e já ter estagiado outras 100 no ano passado, significa colocar-me à prova fora da minha área de conforto. Entrei e entrarei em contacto com opções de trabalho completamente distintas uma da outra, mas ambas relacionadas com o que ando a estudar. Afinal, para que serve o meu curso? A que mercado de trabalho posso chegar com o meu canudinho e todas as competências que adquiri até ao momento? Como aplicá-los? E o que gostaria eu de fazer no futuro?
É para isto que servem os estágios no ensino superior, principalmente no universitário, que - digo eu - não parece acompanhar a evolução do mercado de trabalho e continua a formar indivíduos indefinidamente sem lhes mostrar outra realidade que não a académica. Nem todos viremos a ser professores, nem investigadores. É verdade que, se quiséssemos um curso mais prático, teríamos optado pelo ensino profissional, técnico ou superior politécnico, mas a universidade também deve alargar os horizontes dos alunos. Quem se candidata ao ensino superior universitário fá-lo por desejar o conhecimento. Mas não nos iludamos: o que nos leva a estudar mais sabe-se lá quantos anos e a investir milhares de euros na nossa instrução passa igualmente pela expectativa de virmos a trabalhar naquilo de que gostamos, com um salário mais composto do que se nos tivéssemos ficado com o 12º ano e com melhores condições nos contratos. Para isso, há que sair da faculdade já com alguma visão.
E sim, eu sou a favor de estagiar no ensino superior em todos os anos das licenciaturas e mestrados, desde que com algumas reservas. Se é para ser todos os anos, que sejam estágios de curta duração, uma semana ou duas a tempo inteiro ou parcial, por exemplo. Nada de serem estágios que duram o semestre inteiro e que, mesmo sendo a tempo parcial, obrigam os alunos a faltar a aulas e a sofrer uma sobrecarga horária (como me acontecerá a mim). E, mais importante do que qualquer outra coisa: nada de usar o trabalho dos estagiários para substituir o trabalho dos profissionais, que ou não são contratados exactamente por o trabalho ser assegurado pelos estagiários, ou porque os próprios se aproveitam dos estagiários para trabalhar o que lhes compete. É suposto um estágio constituir um momento de aprendizagem, que implica a presença e a participação constante de alguém com experiência para orientar o estagiário, género job shadowing. Para quê estagiar num festival artístico (muito comum no meu curso), se esse mesmo festival é quase completamente realizável à custa do trabalho desenrascado dos estagiários? O que se aprende? A trabalhar-se sem orientação e à pressão? A ser-se autodidacta?


Espero que esta nova ideia do Governo seja bem aproveitada e que até sirva para apertar a legislação sobre os estágios curriculares, extra-curriculares e profissionais.

As caras-metade das pessoas que não param

Quando alguém conhece uma pessoa que não pára, que se farta de trabalhar, com vontade de comer o mundo com uma só dentada, nunca se lembra daqueles que a rodeiam diariamente - se é que alguém a rodeia. As pessoas que não param parecem nem ter tempo para se coçarem, quanto mais para manterem relações humanas frequentes e duradouras.

Mas a verdade é que, quando se quer, tem-se tempo para tudo. O pior é já não se ter energia para nada ao final de um dia de esforço contínuo e, nisso sim, coloca-se a questão se haverá quem seja capaz de estar do lado de uma pessoa imparável. 

E nisso tenho eu montes de sorte.

Quando o Ricardo me conheceu, diz ele que eu já deixava o cheirinho à criatura non-stop das 7h às 19h (na melhor das hipóteses) que sou hoje. Isto foi há quase 4 anos. No ensino secundário, já eu queria participar em tudo o que houvesse, já não me escapava grande coisa. Já havia Alliance Française, já havia Forum Estudante, já havia prémios literários.

No entanto, o número de actividades em que me comecei a envolver a partir do primeiro ano da faculdade começou a aumentar bastante, em proporção ao tempo que me restava depois de fazer as contas às horas de aulas e de estudo. Comecei logo a trabalhar, continuei a inscrever-me para tudo e mais qualquer coisa.

E o Ricardo, super calmo, continuou a estar disponível para me dar atenção e assegurar-se de que, emocionalmente, nada me faltaria.

 

(Atenção que o Ricardo não é a única pessoa que me apoia, porque, felizmente, tenho um grupo de amigos que, entre workaholics semelhantes ou gente independente que não precisa de estar constantemente em contacto com os outros para lhes dizer o quanto gosta deles, compreende a minha posição. E também tenho a minha avó, que me anda sempre a comprar chocolate, uma espécie de combustível que o meu cérebro não dispensa, e que me deixa dormir na cama dela de vez em quando.

Mas aqui, falam-se de caras-metade, por isso voltemos a elas.)

 

O meu segundo ano de licenciatura tem sido c'os diabos. Ando desmotivada, os professores não sabem realmente o que estão a fazer, fui aceite para um estágio que me rouba demasiado tempo (acaba em três semanas, yes!), continuo a trabalhar que nem uma louca, etc e tal. Chego ao final do dia com as baterias todas fraquinhas. Depois, das duas uma: ou me vou abaixo e fico apática, ou fico com um humor de crocodilo e começo a mandar vir ou começo a chorar desconsoladamente até adormecer ou até alguém resistente me dar um abraço como deve ser.

Pois quem me dá esses abraços é o Ricardo e quem me chama passivo-agressiva, pacientemente, é ele também, como se estivesse a comentar que lindo dia está. "Já estou habituado", diz ele, garantindo-me que não o diz pejorativamente, mas sim que, se já me conheceu como sou, por que haveria de deixar de gostar de mim?

O Ricardo, nesse aspecto, é a luz dos meus dias ou, pelo menos, das manhãs e das tardes em que nos encontramos no comboio ou em casa, quando dou explicações à irmã dele - tudo de raspão, muitos encontros-relâmpago.

Supostamente, os opostos atraem-se. Com isto, não quero dizer que sejamos muito diferentes um do outro, mas a descontracção dele é o catalizador para a minha ansiedade. É sempre necessário um equilíbrio, não é? Alguém que se preocupa demasiado precisa de alguém que não se preocupe com grande coisa (e vice-versa).

 

No outro dia, um professor meu (super jovem) dizia-me que é possível ter-se uma cara metade, sendo-se ambicioso. Contudo, confirmava-me ele que é necessário essa pessoa compreender por que é que nos sujeitamos a tamanhas atrocidades físicas e psicológicas, a contratempos, por que é que ficamos tão cansados, por que é que nos falta tempo, que não é por mal que, à vezes, só nos apetece aninhar para o resto da eternidade (e atestar as reservas de feromonas, acrescento eu). Mas é preciso essa pessoa ser meeeeeeeeeesmo especial.

 

Se algum dia o Ricardo acabar comigo, será porque eu o traí... com os livros e o computador.

A propina de 1000€ (fora o resto)

Vocês perdoem-me a teimosia em falar de universidade, universidade, universidade e só universidade nos últimos dias, mas prometo que esta há-de ser a minha última intervenção acerca do assunto durante os próximos tempos. E prometo ser breve.

 

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(em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=764210) 

 

Não sei qual é a vossa situação, não sei se andam na faculdade, se têm bolsas, se andam a trabalhar para pagar os estudos. Provavelmente, se andam, têm alguma bolsa E trabalham. Porquê? Porque as bolsas da DGES, mesmo aquelas que cobrem a totalidade do custo da propina anual no ensino superior público (entre os 1000 e os 1400€, pelo que sei), não são suficientes. O que são 1400€ de bolsa dos Serviços de Acção Social (SAS), quando há, não só as propinas, mas também o transporte e os materiais de estudo (livros, fotocópias, material técnico) para pagar? Ou o que são 2000€ quando, além desses gastos, ainda nos encontramos deslocados de casa, a viver numa residência para estudantes - ou num quarto, porque não há residências suficientes para tanta procura?

Infelizmente, nem toda a gente pensa assim. Um exemplo desses sujeitos menos iluminados é o reitor da Universidade de Lisboa (onde eu estudo), António Cruz Serra, que acha que usufruímos todos de um excelente SAS, sendo-nos permitido estudar sem nos preocuparmos com mais nada. A entrevista para que vos remeto no início da publicação é apenas o reflexo de uma profunda hipocrisia e autismo quanto à realidade do nosso país, de tantas famílias de Norte a Sul.

O maior problema para as famílias é não ter o rendimento do trabalho de uma pessoa que, em vez de trabalhar, foi estudar, diz ele. Mas eu discordo. Antes de entrarmos para a faculdade, por norma também não trabalhávamos. Já marcávamos presença na equação do orçamento familiar. Seja como for, mesmo quando trabalhamos, os nossos pais não ficam à espera que entreguemos todo o nosso salário, religiosamente. Já que trabalhamos, talvez possamos ajudar numa despesa ou outra, mas, se pudéssemos sequer trabalhar, se encontrássemos um emprego estável e bem pago, mais facilmente sairíamos de casa dos papás e pronto. Por isso, não, o maior problema dos alunos do ensino superior não é não serem economicamente produtivos para as suas famílias.

(...) daí resulta um valor de 1.060 e poucos euros por ano, que não afasta ninguém do Ensino Superior (...), continua. Lembram-se de eu referir que certos professores universitários vivem dentro de uma bolha, onde não são atingidos pelas causalidades do resto do mundo? É isso mesmo que se passa com este reitor, António Cruz Serra. E que sorte que ele teve, pois terminou a licenciatura em 1978 - numa altura em que não se pagava propinas no ensino superior em Portugal! Claro que a mencionada figurinha representa o culminar de toda a estupidez possível, graças a esta saída muito infeliz, e que nem todos os professores, até considerando os mauzinhos, são assim. But still...

Encontramo-nos num país onde há pessoas a passarem fome e frio, onde há pessoas que nem para pagarem a renda ou a comida têm dinheiro. É um insulto um gajo - sim, um gajo! - vir dizer ao pessoal que está tudo bem, obrigada, e que 1000€ (fora o resto) no orçamento familiar anual não representa that big of a deal, que é peanuts! Nem 100€, quanto mais 1000€! Há certos indivíduos nesta sociedade que ainda não perceberam que, numa casa onde se passam dificuldades, onde há desemprego, ou aperto, ou doença, ou cortes nos salários, ou "apenas" aumento de impostos, até 1€ que exceda o orçamento já faz mossa.

Falo por experiência própria: também tive de trabalhar para poder estudar, também tive de procurar bolsas extra-DGES que me ajudassem a colmatar o resto das despesas e para, de vez em quando, poder ajudar a minha família! Agora, em princípio, já estou mais orientada (porque, lá está, trabalhei e estudei para manter a bolsa de mérito), mas não deixo de me sentir solidária para com aqueles que, ao contrário do que o fofuxo do António Cruz Serra diz, são realmente obrigados a deixar de estudar por causa da mísera propina de 1000€ (que, no final de contas, nem nos garante certas condições materiais para o decorrer pacífico do nosso dia-a-dia de estudantes, sendo recorrente os edifícios estarem degradados, o corpo docente envelhecido e em número insuficiente, e por aí fora).

O ensino superior é um dos meios pelos quais se atinge o progresso numa comunidade, numa sociedade, num país. Se os alunos de outros tipos de ensino alternativos não pagam propinas, por que haveríamos nós de ter de as pagar? Temos caras de elite ou quê? Somos menos do que os outros? (E não, não estou a sugerir que os outros as deviam pagar, é apenas e exactamente o contrário.)

Universidade #7 - "quais são as saídas profissionais deste curso?"

Se há coisa que me irrita, de certeza que é a converseta acerca das saídas profissionais dos cursos do ensino superior e profissional e técnico e o raio que o valha. No entanto, ontem estive a representar o meu curso e a minha faculdade na Futurália, no sector da Universidade de Lisboa, e tive de ouvir bastantes vezes a sagrada questão "quais são as saídas profissionais deste curso?". AAAAAAARGH!!!!

Amigos e amigas que querem seguir além 9º ano ou ensino secundário regular, é só isso que vos interessa num curso? É só o que depois dá para fazer? A taxa de empregabilidade e a variedade de empresas que existem onde poderão mais tarde vir a trabalhar? É só isso? Como se os cursos valessem meramente pelas "saídas"?

Então, deixem-me esclarecer-vos sobre determinados assuntos - 3 em particular.

 

1 - Queridos paizinhos obcecados pelas saídas profissionais - e que tal deixarem as vossas crias fazerem aquilo que elas realmente querem, de que elas realmente gostam? Se dependerem demasiado do que se "deve fazer", em vez daquilo que elas "pretendem fazer", vão acabar com os vossos filhos virados ao contrário convosco, potenciais frustradinhos a médio prazo, adultos infelizes e, por conseguinte, pouco propícios a serem bem-sucedidos e a lutarem pela porcaria de futuro que lhes reservaram à força. E não haverá taxa de empregabilidade que os salve! Não haverá ambição que lhes reste! Quando uma pessoa tem os seus próprios objectivos, sente outro alento e, se for necessário, vai buscar forças aos confins do mundo para conseguir o que pretende. (Crias desses paizinhos obcecados - envio toda a minha força para que consigam demovê-los das suas ambições.)

 

2 - As saídas profissionais de um curso são aquelas que o aluno conseguir criar, durante e depois do curso. Se o aluno não for competente em nada que tenha que ver com o curso, nem sequer uma das alíneas aproveitará. Lá por termos um curso do ensino superior ou profissional, não ficamos directamente habilitados a exercer uma profissão na área. Durante o curso, aprendem-se e adquirem-se outras competências menos relacionadas com a matéria leccionada. É durante o curso que se descobre aquilo em que se é bom, seja a falar em público, a escrever, a liderar grupos, a apoiar os colegas, a debitar teses académicas absolutamente brilhantes... De que me valeu dizer ao pessoal que passava por mim e me colocava a maldita questão na Futurália que as saídas profissionais são X e Y? Tudo depende da formação complementar que têm ou passarão a ter, das línguas que falam, se pensam em fazer uma Pós-Graduação, um Mestrado, um Doutoramento, se pensam ficar-se pelo 1º ciclo, depende das suas vocações pessoais, das oportunidades que surgirem, do plano de estudos que criarem em termos de cadeiras opcionais. Percebem? E aposto que isto se aplica à maioria das licenciaturas!

 

3 - O que tem agora "muita saída profissional" não será necessariamente o que terá "muita saída profissional" daqui a uns anos. As indústrias mudam. A economia altera-se. As necessidades, os serviços, os processos da sociedade estão em constante mutação. Não tem de haver um "Ciências é que é bom e Letras é mau", não tem de haver esta distinção no mercado académico, esta estúpida dicotomia. Os mercados académico e profissional são muito, muito mais do que apenas Ciências e Letras; as fronteiras entre certos domínios nem se encontram claramente divididas, empresarialmente falando. Não é tudo "pão-pão, queijo-queijo".

 

Por isso, futuros universitários, ou mesmo outros que estejam à procura da melhor instrução ou formação neste momento, não se deixem levar pela treta de conversa com que nos enchem a cabeça (pais, professores, comunicação social). Somos nós que criamos as nossas saídas profissionais, as nossas aptidões e tendências. A nossa vontade de vencer. Conheci pais de colegas que eram advogados e não era por isso que não estavam desempregados e em dificuldades, mas também sei de pessoas que terminaram cursos de Letras que conseguiram concretizar as suas ambições profissionais em pouco tempo. Também já conheço pessoas (alguns amigos meus) frustradas, por não estarem a estudar aquilo de que gostam (há até quem ainda não saiba do que gosta, mas a quem tão ainda não foi dada a oportunidade de pensar devidamente).

 

Seja como for, boa sorte e felicidades para estas pequenas grandes escolhas! Pensem muito bem antes de gastarem dinheiro e tempo de vida num projecto em que desejam investir, numa ideia que pode ter tudo para correr bem e para correr mal!

Alguma dúvida, disponham. O meu e-mail há-de aparecer algures no blogue.

Pequeno aparte para os meninos "daquelas" praxes

Prometes honrar o traje e os teus padrinhos?

Pretendes honrar a tua instituição de ensino, a tua comissão de praxes e a tua família?

 

Então, estuda, vai às aulas e sê produtivo para o país, em vez de andares para aí com tretas a gastar o dinheiro dos teus paizinhos e dos contribuintes. E o teu tempo. Não sei que porcaria de honra é que se dá ao traje, se não se vai à faculdade para se fazer aquilo a que ela se destina, em primeiro lugar.

 

3, 2, 1, e este comentário vai-me meter num 31.

Procrastinar é viver, mas parar é morrer

Queridos, fofos, simpáticos. Já estou melhor da gripe e já deixei de ver trash TV. Em breve, respondo aos comentários. Obrigada a todos!!!

Falando doutros assuntos...

 

Quem já lê o que escrevo há algum tempo, sabe muito bem que os meus tempos de procrastinação andam muito em baixo desde há um ano e meio para cá. Comecei a trabalhar, depois entrei na faculdade e fui-me metendo em cada. Vez. Mais. Projectos. À maluca. 

Sempre que me sinto a estagnar, preciso de mais estímulos e arranjo-os. Felizmente, nunca me faltaram oportunidades.

Nos últimos tempos, a quantidade de trabalhos de copywriting que me costumam enviar decresceu para aí 90%, sem exageros. Nem 100€ fiz em quase três meses, neste ano de 2015. Por outro lado, também não teria tido disponibilidade para fazer muito mais do que fui fazendo entretanto, ora por causa da carta de condução, ora por causa de formação complementar, ora porque estive doente, ora porque não tenho andado com forças para nada, nem para agarrar num livro e ler (sim, eu sei, é um desespero).

Por isso, como sempre, peguei nesta cabecinha de alho chocho, sempre tão despenteada, e pensei "do que eu preciso é de coisas novas, que já nem a faculdade ou o trabalho de estudo me enchem as medidas". 

E candidatei-me a um estágio extracurricular no Centro de Estudos Anglísticos da faculdade (à maluca, sem reflectir muito nas consequências, como é costume). E fui aceite logo ali, na entrevista.

E, a seguir, caiu-me a ficha. PORRA, MAS ONDE É QUE EU ME FUI METER, QUE JÁ ANDO A BATER MAL DOS CORNOS SEM UM ESTÁGIO COM 12 HORAS SEMANAIS E A PARTIR DA PRÓXIMA SEMANA TEREI MENOS ESSAS 12 HORAS PARA, TIPO, DORMIR, ESTUDAR E ENCHER O TEMPO LIVRE A FAZER CENAS INÚTEIS, TIPO, CONSUMIR SÉRIES NORTE-AMERICANAS DA BERRA??? (Em caso de dúvida, estou realmente a citar-me, sem censuras ou delicadezas.)

Olhem, mas eu quero lá saber. É que não quero mesmo saber. Eu nunca deixei de fazer aquilo que me deu na real gana, nunca! E nunca deixei de dormir sete horas por noite. Nem de ser feliz, namorar ou ter a minha dose semanal de Wareztuga. Além disso, eu sei que também durmo algumas horas absolutamente acessórias à minha sanidade mental e que, nos fins-de-semana, sou capaz de passar um dia inteiro em frente ao computador a fazer refresh de sites e redes sociais de que me devo desapegar um bocadinho.

Se ultimamente ando um bocado deprimida e a sentir-me doente, do género doente de já andar a bater com a cabeça nas paredes às quatro da tarde? Ando, pois. Ando mesmo sem vontade para sair da cama. Contudo, uma vez mais, atribuo a culpa disso à desmotivação e desencanto que a faculdade me tem feito sentir, mais a falta de trabalho. Ou é isso, ou é uma anemiazita estúpida, que também se trata com a ajuda do médico e depois passa.

Parece-me que desperdiçar oportunidades é... um desperdício. Um futuro arrependimento, até. Por essa razão é que eu nunca páro, porque quero engolir o mundo e ter o maior número de experiências antes de deixar de ter idade para as ter sem que me olhem de lado e pensem que já estou acabada (e pronto, porque eu também sei que, quando chegar a altura, me quero dedicar a 200% a criar uma família e que determinados compromissos e oportunidades profissionais ou académicas hão-de ter de ficar para trás, porque criar um lar feliz exige o tempo e disponibilidade emocional das pessoas).

 

Moral da história, temos é de ir "bola p'rá frente", aventurarmo-nos e deixar-nos de grandes tratados de pensamento. Temos é de sair da casca, deixarmos a nossa marca no mundo e contribuir positivamente para ele, ser produtivos - não exclusivamente em termos profissionais, mas mesmo em termos de fazermos aquilo de que gostamos e experimentarmos sair da nossa zona de conforto! Há tempo para tudo, desde que saibamos aproveitar o tempo! Até para procrastinar há sempre uma manhã ou um fim-de-tarde!

 

Sinceramente, depois de saber que fui aceite no estágio (já agora, um projecto em que acredito a nível pessoal, de que falarei noutra altura, quando me inteirar melhor acerca dele), tenho a sensação de que fiquei menos fraquinha, menos anémica, menos a enfiar a cabeça na areia. Bem diz o Ricardo que isto pode muito bem ter uma quota parte de origem no psicológico da pessoa! 

 

Desculpem-me a pregação, mas foi mesmo escrita com boas intenções, como espalhar a boa onda e a motivação :) .]

Vocês nem calculam o que é estar à espera do fim das oito horas do intervalo entre as doses dos medicamentos, tipo agarradinha

Vocês nem calculam o que é ser eu e eu estar doente. É, no mínimo, aterrador. Todo o mundo lá fora a funcionar e eu encafuada em casa, ou mesmo no quarto, entregue a ataques súbitos, ora de calor caribenho, ora de frio antárctico, a sofrer aos poucos o processo de habituação ao Anti-Grippine, depois a enveredar pelo Ben-U-Ron, que me tira tanta febre, quanto as náuseas que me causa, do género "nem com um bitoque/carne de porco à alentejana/empadão de alheira, batata frita e espinafres me obrigam a comer", até que desisto e me resigno a tentar controlar as dores de cabeça resultantes da maldita sinosite e a dormir sobre esta gripe do demo.

Já agora, vocês nem calculam, nem nos vossos sonhos mais recambulescos, o que é só encontraram consolo nas comédias românticas do AXN White e nessa adaptação cinematográfica sobre uma mulher com Alzheimer precoce (QUEM ME MANDA VER DRAMAS SOBRE DOENÇAS QUANDO ME ENCONTRO TÃO EMOCIONALMENTE FRÁGIL, QUEM??? EU JÁ DEVIA TER APRENDIDO COM O FILME SOBRE O HAWKING). E chorarem baba e ranho mas não conseguirem distinguir se estão derradeiramente emocionados ou apenas a piorar da sinosite. A sério, what's wrong with me? Ah sim, 40ºC de febre.

Vocês nem calculam o que é ser uma pessoa normalmente imparável das 6h30 às 19h, como eu sou, e nem sequer terem concentração suficiente para ver o raio dum programa da MTV, com miúdas que namoram com dois rapazes em simultâneo e que depois pedem aos papás para decidirem por elas com quem devem ficar (chama-se Moving In). Ou até aquele programa sobre totós que viajam para destinos da droga e que acabam lá presos por 15 anos por serem cúmplices em negócios da carochinha (National Geographic, by the way).

E eu só penso na quantidade de aulas da faculdade a que estou a faltar!!! Estão a falar com a miúda que teve varicela no 1º ano, teve de faltar à escola durante um mês, mas que continuava a fazer questão de receber os trabalhinhos e as fichinhas para fazer em casa!!! Agora, imaginem isso 13 anos depois!

E eu nem sei como passei no exame de código! Quer dizer, até sei - o Anti-Grippine teve o obséquio de começar a fazer efeito dez minutos antes da coisa começar, o que me provocou um speed durante duas ínfimas horas, o suficiente para eu errar as únicas TRÊS BLOODY PERGUNTAS que poderia errar para ser aprovada, sair de Lisboa e regressar ao lar, doce lar (que anda muito amargo, pois 3 em 4 inquilinos encontra-se num estado idêntico ao meu, sendo que a culpa de eu estar como estou é dos primeiros dois atingidos, em particular do meu pai, que foi quem trouxe a bicheza cá para o burgo, but no hard feelings, pois estamos todos no mesmo barco).

 

Agora, se me permitem, vou deixar-vos a ler este devaneio. Finalmente, o meu Actifed chegou. Dizem que dá uma pedrada do caraças, por isso é melhor dar o hasta e esperar que, regressando ao mundo dos vivos, a sinosite tenha ido com os porcos.

 

Também espero que a lasanha do jantar seja miraculosa, pois tenciono regressar à rotina já amanhã.

 

ADENDA: sim, sim, sinusite escreve-se sinUsite, mas é tarde demais, enganei-me e as minhas dores de cabeça infernais voltaram para... para... me infernizar! Seja como, quem é que faria questão de saber soletrar o nome do seu sequestrador? Exacto, ninguém.

Universidade #6 - quem são os professores do ensino superior?

Decidi regressar ao tema "universidade", desta vez para vos falar acerca dos professores do ensino superior. Aliás, acho que, desta vez, até o faço mais num tom de desabafo pessoal do que num tom explicativo. Peço adiantadamente desculpa se vos parecer que estou a generalizar, mas, convenhamos, é a minha experiência que estou a relatar. Reforço novamente que não me comprometo com todo o universo vivo de professores.

 

Então, cá vai disto...

Encontro-me desiludida com os professores universitários. Dos professores do ensino politécnico já não poderei falar, pois trata-se de outro tipo de ensino e meio académico e de investigação, por isso apenas incluo neste grupo de professores aqueles que ensinam nas faculdades.

E por que é que estou desiludida com os professores (e professoras também) universitários?

Porque é isso que eles são: professores universitários.

Para quem ainda não está familiarizado com esta realidade, os docentes das universidades, com ênfase na faixa etária dos 40 para cima, raramente exerceram outra coisa na vida além do ensino. Alguns deles vêm até de meios sociais privilegiados, de boas famílias ou são até filhos e netos doutros professores universitários. Pelo menos os professores com quem tenho entrado em contacto correspondem a, no mínimo, uma destas características.

Sendo assim, muito poucos são aqueles que saíram da bolha da universidade durante toda a sua vida. Entraram na academia antes dos 20 e nunca mais saíram de lá. Primeiro, foram alunos. Depois, tornaram-se professores, tradutores ou investigadores dos centros de estudos. É essa a única realidade laboral e social que conhecem. 

Durante este último ano e meio, desde que comecei a minha licenciatura em Ciências da Cultura (na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), talvez tenha conhecido apenas dois ou três professores que já trabalharam fora da academia. Nota-se logo a diferença. Trazem ideias muito mais criativas para as aulas, a maneira de falarem e de relacionarem com os alunos é geralmente mais descontraída e acabam por utilizar métodos de ensino mais virados para uma vertente prática.

Quanto aos outros professores, os que nunca saíram da academia, estes começam a parecer-me todos iguais. Lêem quase todos os mesmos livros, as suas referências-chave bibliográficas e cinematógráficas (não só obras, mas também autores) são semelhantes. No entanto, ainda há outro aspecto que me incomoda nestes professores: não compreendem a vida fora da universidade. Não compreendem que nem toda a gente tem disponibilidade total para se dedicar ao estudo e à leitura. Que nem todos conhecem as "obras fundadoras da nossa cultura", seja porque nunca tiveram acesso a essas obras, seja porque simplesmente já têm uma lista infindável constituída pelas obras recomendadas por todos os professores dos semestres anteriores (o quê, nunca leu X ou viu Y??? que crime!!! - epá, pelo amor da santa, eu leio 50 livros por ano!). Que há alunos que trabalham, outros que têm de ajudar a família, outros cuja realidade é menos risonha e menos propícia a divagações "além do necessário" (apesar de o necessário ser relativo e de o conhecimento nunca ocupar lugar). Há até alunos que não vivem no centro de Lisboa (!!!!!!!!).

Contudo, há que sublinhar que, na maioria das vezes, os professores não agem arrogante ou pedantemente de propósito. Nem se apercebem de que é isso que pensamos acerca deles. Acho até que pretendem ajudar-nos de verdade, que querem ser simpáticos e prestáveis... à sua própria maneira. São incompreendidos, tal como nós. As suas intenções correm permanentemente o risco de serem mal interpretadas, mas é a vida. Alunos ou professores, acabamos todos assim.

O problema é esperarem demasiado dos alunos. Enquanto a maioria dos professores do ensino secundário queria era despejar a matéria do sumário e ir para casa o mais cedo possível, os professores do ensino superior conjugam três actividades diferentes, entre leccionar em duas faculdades, escrever e traduzir livros, escrever artigos científicos para revistas de renome, colaborar com centros de investigação, organizar e planear conferências até 2020, assistir a outras tantas e coordenar todo um departamento ou curso. Eles trabalham que nem loucos, dormem mais-ou-menos, não deixam de ler três livros por semana, de ir ao cinema ou de papar todas as suas séries favoritas, ainda têm tempo de se casar e de ter filhos e, por isso, esperam os melhores resultados académicos e todo o esforço desumanamente possível da parte dos seus outros colegas e dos alunos.

Então, a diferença entre os professores universitários e os alunos é que os primeiros têm um orçamento familiar que lhes permite delegar as tarefas "da vida real" noutras pessoas (empregadas domésticas, lavandarias, contabilistas, refeições fora de casa), enquanto os segundos têm de se desenrascar por conta e energia própria. O problema é que grande número dos professores universitários não preenche um formulário para o IRS nem vai a uma repartição das finanças há mais de 15 anos, não lava ou passa a sua roupa há 20 e não tem de contar os tostõezinhos do extracto bancário cada vez que vai ao supermercado (porque também não costuma lá pôr os pés) há 25. E são estas ninharias do quotidiano que fazem toda a diferença entre as realidades de uns e de outros!

 

Para concluir e desanuviar o ambiente, partilho convosco este meme. Os alunos da FLUL irão entender e fazer facepalm.

 

 

 

Nota: Futuros universitários, juro-vos que os professores não são bichos, só são workaholics. Não se assustem!

 

Nota 2: Caros professores que, eventualmente, dêem com esta publicação, seja agora ou daqui a três décadas, quando talvez eu mesma for uma professora universitária (e que bom que seria!)... desculpem-me. A sério, tenho tido professores excelentes, mentes brilhantes, génios subvalorizados neste país pequenino em que vivemos. Não me posso queixar, de todo. Tenho aprendido imenso. Só que, perdoem-me, sinto falta de professores que "vivam cá fora". Que se lembrem do que é estar deste lado. Que se lembrem do que é renovar um guarda-roupa nos saldos de Fevereiro com 25€. Que se lembrem do que é ir ao Lidl comprar barras de chocolate a 50 cêntimos, porque no Pingo Doce e no Continente são 60. Que se lembrem do que é ser mais humano e menos... bem, menos professor universitário. 

Eis que começaram as aulas

Logo no primeiro dia: toma lá 100 páginas para ler numa semana. Mas "meh", não piorou no segundo, nem no terceiro, nem no quarto dia. No segundo, só me mandaram reler O Principezinho - faço-o com ainda mais gosto.

Foi só um susto. Isto é... se não contar com o resto da bibliografia que já foi estabelecida nos programas.

Vou ali "ler de empreitada" e já volto.

Valham-nos os dois dias de Carnaval, aleluia para eles!

 

Já agora, ontem, quarta-feira, antes de entrarmos na aula de Sociologia de Comunicação, uma rapariga que nunca tinha visto, que penso não conhecer, acenou-me, toda simpática. Como eu tenho a mania que sou vedeta (ou vá, é mesmo só para confirmar), a colega lê este blogue ou nem por isso? Caso leia, por favor, que diga alguma coisa, porque eu sei que lhe acenei de volta, mas sou tão distraída e fiquei tão parva que nem lhe perguntei o óbvio: "olha, conheço-te de algum lado?".

Daaah! :(