Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Quando um livro nos desilude

pexels-photo.jpg

 

Recentemente, li um livro que me desiludiu. Não é, de longe, um mau livro. Muitos poderão defender que não só é um bom livro, como é um óptimo livro, na verdade. 

 

O problema talvez tenha sido esse. Eu queria que o livro fosse maravilhoso, à semelhança do que toda a gente à minha volta parecia dizer. Tanto me foi recomendado. Não tirei a pulga da orelha enquanto não o li. Também eu queria sentir o que os outros sentiram. Espero que não seja ganância literária, este desejo. 

 

Neste momento, o dito romance está classificado com uma média de 4,21 estrelas (o que acontece a muito poucas obras) no Goodreads, essa ferramenta que promete ilusões e que por vezes semeia desilusões, como a que me estava reservada sem eu saber. Comprei-o, o romance, comecei a lê-lo de imediato e gostei. Gostei, apenas.

 

De facto, é uma narrativa cativante, não se prolonga por demasiadas páginas, não enfada, dá-nos a conhecer um momento muito relevante da História nacional a partir dum ponto de vista curioso, emprestando voz a um protagonista por quem a maioria dos leitores consegue nutrir um certo carinho. Terminei-o em poucos dias, sem me sentir esgotada ou entediada.

 

A minha desilusão é nada disso ser suficiente. Mas eu queria adorar o raio do livro, queria mesmo! Infelizmente, encontrei-lhe algumas falhas e carências que destruíram qualquer possibilidade de o achar fora de série. Sim, é um bom livro. Um livro bom. Não deixo de o recomendar, mas não sinto que farei campanha ferrenha pela sua posição nas minhas preferências. Mas eu queria que ele fosse logo parar à minha lista de favoritos. Mas, mas, mas...

 

Alguma vez vos aconteceu tal desfeita? Alguma vez sentiram indiferença por um livro que pensavam inicialmente estar destinado a vôos mais altos? Alguma vez um livro vos desiludiu?

 

Quando um livro nos desilude, encolhemos os ombros e partimos para a próxima leitura. Ainda assim, fica um desconforto inexplicável no ar. Nem sequer há, como na cena dum crime, alguém a quem apontar o dedo. Nem há crime, criminoso ou vítima. Há, somente, um livro que nos passou ao lado.

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

IMG_25610721_203046.jpg

 

Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

IMG_20180721_231905_913.jpg

IMG_20180721_231907_791.jpg

 

Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!

Sem literatura portuguesa na biblioteca local?

Tenho lido bastante, principalmente autores portugueses e livros de ciência popular e escrita criativa em inglês. Na verdade, já li quase todos os livros que tinha por ler nas minhas estantes, excepto aqueles com histórias mais pesadotas, de fazer chorar corações empedernidos (estou a olhar para vocês, Vitorino Nemésio e Harper Lee). 

 

Por isso, ontem decidi ir à biblioteca local, da vila onde moro e onde estudei. Costumava ir lá e encontrar sempre um livro qualquer com o qual me conseguisse entreter. Chegava a levar à meia dúzia de livros para casa. Mesmo que não lesse todos, havia sempre um ou outro que me chamava a atenção (por exemplo, os escritos de Martin Luther King Jr., os romances de Murakami, Vasco Graça Moura...). Há alguns anos, até cheguei a trabalhar para a versão de jardim dessa biblioteca local, durante as férias, por isso, depois dalguns anos sem a visitar, tinha na cabeça uma ideia satisfatória do que lá poderia procurar. 

 

Ontem, visitei essa biblioteca local, porque fiquei sem material de leitura em casa que me entretivesse, sem me massacrar a cabeça com tristezas irremediáveis (como aconteceu com dois dos últimos livros que li) mas que também não me fizesse perder tempo. Ia à procura de literatura portuguesa, em particular, talvez Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, os vencedores de prémios Leya ou APE (todos lidos por imensos portugueses, famosos, com tiragens relativamente altas por edição), ou um autor ainda desconhecido que por lá tivessem.

 

Não tive sorte nenhuma nesta dita biblioteca local. Entre Saramago (cuja obra já vive em grande peso cá em casa), Margarida Rebelo Pinto, Gustavo Santos na prateleira de Psicologia (!!!!!!!), Tiago Rebelo (não faz o meu estilo) e um ou outro Eça, restavam poucas opções. Aliás, os que restavam já eu li durante o ensino secundário, durante a época em que ia à biblioteca todas as semanas. Mesmo as estantes de literatura traduzida pareceram-me, de súbito, insuficientes. Nicholas Sparks, J. D. Robb, Stephanie Meyer, Emily Giffin...

 

Obviamente, saí de lá desiludida. Ficou a sugestão de procurar o que queria na biblioteca municipal (que fica a 20 km de distância, muito perto). É suposto esta biblioteca local, da junta de freguesia, servir pelo menos 25 mil habitantes. No entanto, não sei como poderá esta selecção limitada - e limitativa - de livros suprir as necessidades duma população em aumento constante, e com níveis de literacia também crescentes. 

 

Fica o desabafo. Tenho saudades de estudar na FLUL para poder usar a biblioteca da faculdade. 

Vencedora do livro "Hoje é Melhor Do Que Para Sempre"

Depois de alguma reflexão (com procrastinação pelo meio, claro está!), depois de ficar indecisa entre dois ou três grupos de respostas e de me ter rido com algumas delas (obrigadinha, Srª D. Quadrada!), a minha decisão foi finalmente tomada. Não foi fácil, muito pelo contrário, que a coisa estava renhida e eu não queria que ninguém ficasse a pensar que eu sou uma pessoa muito injusta, terrível, péssima, e que não mereço sequer me leiam o blogue, JAMAIS!

Assim como assim, foi inevitável seleccionar uma vencedora e ela foi a... Sara Santos! Parabéns, querida Sara, por tanto entendimento acerca da procrastinação! Desde que em doses moderadas e que não te dêem cabo do miolo ou da vida, estás à vontade para o fazer a qualquer altura, com o meu devido consentimento (como se alguém precisasse dele, cof cof). Já te envio um e-mail ou, se vires esta mensagem antes, manda-me logo a tua morada.

Para quem tiver curiosidade, as respostas da Sara encontram-se no final desta publicação.

 

 

 

Ao resto das participantes, o meu agradecimento pela sua boa vontade em partilhar a sua experiência de procrastinação e qualquer dia há-de haver mais oportunidades para mais passatempos - isso vos garanto! (Já agora, contarei na próxima publicação, ainda hoje, por que é que vos lancei este desafio.)

 

Até à próxima, com muito boas leituras nos entretantos! :)

 

 

 

***

 

RESPOSTAS DA SARA:

 

1 - Procrastinas muito?
Mais do que devia, menos do que queria...

2 - Por que é que achas que as pessoas procrastinam? E tu, por que é que o fazes?

Tenho um livro para dar!!! (até 25 de Junho)

Já ouviram falar do livro Hoje é Melhor do Que Para Sempre, de uma autora portuguesa cujo pseudónimo é "S. D. Gold"? Este livro conta a história de um homem e de uma mulher que partilham uma tensão sexual estupidamente elevada, apesar de andarem sempre às turras. Na volta, só se entendem na cama, excepto no final, em que parece que aprendem a lição e deixam de ser picuinhas um com o outro, demonstrando os seus mais honestos sentimentos de amor e carinho. Pessoalmente, não foi o meu livro preferido, já li coisinhas melhores, dei-lhe uma avaliação um bocadinho baixa no Goodreads, mas - lá está - a literatura erótica não é o meu género preferido (apesar de haver passagens em que upa, upa, aquilo até está engraçadito).

 

 

Acabadas as introduções, o que vos quero realmente dizer é que... vou dá-lo a um de vocês! Acho que, quando não apreciamos os livros e não os queremos deitar fora, ou os vendemos ou os oferecemos. De qualquer maneira, como não me apetece vender pelo preço da uva mijona um livro que saiu no mês passado e que está novinho em folha, ainda por cima tratando-se de um dos best-sellers do momento em Portugal, passou-me pela cabeça que alguém por estas bandas o poderia querer genuinamente.

 

Então, aqui vai a única contrapartida: para se habilitarem a ganhar o livro Hoje é Melhor do Que Para Sempre, só têm de responder a umas perguntas que vos faço, através da caixa de comentários desta publicação:

 

 

1 - Procrastinas muito?

2 - Por que é que achas que as pessoas procrastinam? E tu, por que é que o fazes?

3 - As pessoas que te rodeiam procrastinam muito?

4 - O que é "procrastinar demasiado" para ti?

5 - Como te sentes depois de "procrastinares demasiado"? Frustrad@, irritad@, satisfeit@, descansad@, ainda mais cansad@...?

6 - Procrastinação = preguiça?

 

A dimensão das respostas é livre e, para quem quiser, todas elas podem ser agrupadas num único texto. No entanto, tenham calma, que eu não pretendo uma dissertação universitária de 5 páginas, ok? Expliquem apenas o que têm a explicar e pronto, é o suficiente! :D

Todas as respostas serão avaliadas por mim e pela minha equipa de consultores ultra especializados em procrastinação (vulgo namorado, amigos e talvez família). O grupo de respostas que melhor exponha a procrastinação tem direito ao livro enviado por correio para qualquer região em Portugal Continental e Ilhas. 

Para concorrerem, solicito-vos apenas o vosso e-mail/Facebook/qualquer coisa, principalmente se não tiverem conta Sapo, para que vos possa contactar eventualmente.

 

DATA LIMITE: 25 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA, ao meio-dia.

O vencedor ou vencedora será divulgado até quinta-feira, 26 de Junho.

 

Mais tarde, se tudo correr bem, explico qual a razão de vos pedir que me respondam a estas 6 questões (além da mera curiosidade) e por que é que o peço aqui e não no outro blogue.

Agradeço-vos imenso que colaborem, caso não tenham nada de mais importante para fazer, e que aproveitem o pretexto para procrastinar mais um tanto!

 

Boa sorteeeeee!

Publicar o Nobel português não é para meninos

A Leya (e, por conseguinte, a Editorial Caminho) vai deixar de publicar as obras de José Saramago. Uma triste notícia, mas espero que, quem quer que venha a comprometer-se a publicá-las, lhes dê o devido valor. Estamos a falar do Nobel português! Ou só gostam é de pontapé na bola e Carnaval em Ovar?

 

Diz assim o artigo:

«O administrador da fundação [Saramago] diz que a instituição está a fazer “diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e a quem Saramago sirva”, “uma editora ao nível da grandeza do homem e da obra”.»

 

É uma vergonha uma das maiores editoras em Portugal ter terminado o contrato de publicação de um dos grande vultos (ou vulto) da sua literatura contemporânea. E nem me digam que o problema é não ser rentável, porque é óbvio que tinham ali uma grande fonte segura de rendimento! É só o que tenho a dizer. Que desgostos, este Portugal e estes portugueses...

Dos outros #37

"Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Dos outros #36

"Acaso alguém seja melhor nalguma coisa que os outros, a regra portuguesa é pedir-lhe que tenha a polidez e o espírito de solidariedade para agir tão mal como o pior. Assim todos, maus ou bons, podem gozar do privilégio reconfortante e demoracrático de dizer: «Ouve lá, se eu quisesse, fazia melhor... mas, para quê, se são todos tão mauzotes, coitados...?» A incompetência portuguesa nada tem de natural: é um conluio maciço, um autêntico contrato social. Quantas vezes perguntamos, atónitos diante de qualquer produção colectiva, cultural, económica ou político: “Como é possível que tantas pessoas, tão inteligentes e talentosas, tenham conseguido fazer tamanha cegada"


Miguel Esteves Cardoso, "Mediocridade", in A Causa das Coisas

E foi assim que conheci o José Luís Peixoto

Cada vez que leio um livro e investigo quem o escreveu, tento distanciar-me da real figura do autor, em comparação à figura narrativa, a quem pertence a voz das palavras, que formulo mental e inevitavelmente. Por vezes, destoam uma da outra. Podemos nem sequer ficar agradados pela imagem física do sujeito, ou pelo seu percurso pessoal - não vamos com a cara dele, e depois? - enquanto a beleza e simpatia do escritor imaginado nos encantam.

Já me cruzei com alguns autores assim que, ao fim duma fila para autógrafos, se revelam uma autêntica desilusão. Arrogantes, inacessíveis, apressados, de palavra difícil. A custo, combato as péssimas impressões que me deixam, recalcando a experiência, tanto quanto possível. Normalmente, sou bem-sucedida nesse processo. Afinal, todas as pessoas têm defeitos. Portanto, por que não haveria aquele ser humano - que, por acaso, escreve livros de que gosto - de ter?

Contudo, felicidade das felicidades, algo incrível, um dos meus escritores favoritos - se não o favorito - correspondeu, em carne, pele e osso, às expectativas que o seu "eu" literário tem depositado em mim ao longo dos últimos (quase) dois anos. 

Hoje, José Luís Peixoto, vulto-maior - de acordo com a minha humilíssima opinião de leitora seguidora - da literatura portuguesa do século XXI, provou que a escrita pode, realmente, reflectir o carácter do seu autor. O JLP é um bacano, cheio de carisma e piada, um excelente orador. E juro que não estou a exagerar, justifica-se toda a minha admiração pelo seu trabalho.

O JLP a falar sobre a escrita de viagens na minha faculdade... Eu, cheia de coragem para, no final, lhe colocar questões (e aos outros dois convidados, Tiago Salazar e Loïc Pedras), e para lhe pedir que me autografasse o seu "Abraço", e para lhe pedir que tirasse uma fotografia comigo. Eu a dizer-lhe que estou a fazer um trabalho para Cultura e Sociedade, cujo ponto de partida é um livro dele.

Quanto ao JLP-pessoa e ao JLP-escritor, não os separarei na minha cabeça. Um coincide com o outro, são unos na sua personalidade, são os dois o mesmo indivíduo.

Tive muito gosto em conhecê-lo.

 

 

 

 

Dos outros #35

"De repente, Fernando Pessoa abriu os olhos, sorriu, Imagine você que sonhei que estava vivo, Terá sido ilusão sua, Claro que foi ilusão, como todo o sonho, mas o que é interessante não é um morto sonhar que está vivo, afinal ele conheceu a vida, deve saber do que sonha, interessante é um vivo sonhar que está morto, ele que não sabe o que é a morte, Não tarda muito que você me diga que morte e vida é tudo um, Exactamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam [...]."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis