Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

IMG_20190815_132435.jpg

 

A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

LRM_EXPORT_11601660460937_20190813_224228010.jpeg

 

Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Uma questão de escolha e concentração: Essencialismo (Greg McKeown)

O que é que podemos fazer para simplificar as nossas vidas e torná-las mais fáceis de navegar? (E, já agora, que livro é que vos recomendo para as férias?)

 

LRM_EXPORT_342957494485015_20190808_123518252.jpeg

 

Quando não tenho respostas para algum problema, costumo ir procurá-las nos livros. Com os devidos riscos, não me costumo sair muito mal, já que uma incursão a uma livraria qualquer nos dias de hoje nos oferece uma variedade enorme de títulos simpáticos para todos os gostos e necessidades. Fez ontem uma semana que andei à procura de livros que me tirassem do marasmo intelectual, profissional, pessoal e mesmo de leituras que andava a sentir no ar. Estava para chegar, mas eu não o queria. Lá está, fui procurar nas estantes, antes que me apanhasse.

 

Por acaso, descobri umas promoções engraçadas para alguns livros com títulos interessantes sobre desenvolvimento pessoal. Na maior parte dos meus dias, não acredito em auto-ajuda, mas no último ano tenho-me interessado cada vez mais por temas ligados à psicologia e à cognição, por isso começo a ter um fraquinho por livros sobre produtividade, bons hábitos, tomada de decisão, bem-estar, felicidade no trabalho e empreendedorismo. Foi nesse montinho de livros pré-seleccionados para uma avaliação superficial na sala de leitura que se encontrava Essencialismo - aprenda a fazer menos mas melhor, do consultor Greg McKeown.

 

Suspeito imenso de livros de desenvolvimento pessoal com títulos tipo "catch phrase". Essencialismo quase podia ser o nome de um culto millennial, e eu nem sou nada fã de coisas da onda da Marie Kondo, arrume a sua casa, arrume a sua vida, ou de minimalismo, ou propósito, projecções para o futuro e etc. No entanto, este Essencialismo revelou-se ser mais do que o título. É, de facto, um bom resumo para uma teoria engraçada, a de que às vezes desenvolvemos tantos interesses e ocupações ao mesmo tempo, que nos dispersamos. Fazemos listas de prioridades com 10 itens, mas quão prioritária é uma lista com 10 itens? Por onde devemos começar? Disparamos para todos os lados?

 

Confesso que me tenho sentido assim a minha vida toda. Quero fazer tudo, chegar a tudo, ter todas as experiências, esticar o tempo, ter vários interesses, objectivos para agora e para depois, e ultimamente tenho reconhecido que isso não é produtivo. Enquanto fazemos X, não nos concentramos em Y, e vice-versa. Então, Greg McKeown defende que o melhor é fazer a coisa certa, pela razão certa, no tempo certo. É um pensamento tão simples, mas tão eficiente, não é? Faz bem recordarmos o mais óbvio, quando não o conseguimos ver no meio da confusão.

 

IMG_20190808_112340.jpg

 

Além de apresentar uma série de premissas muito cativantes (e tudo devidamente fundamentado segundo estudos científicos), este livro é a típica leitura de Verão - li-o em dois ou três dias, intercalado com outros. Letra grande, parágrafos espaçados e não muito longos, informação disposta visualmente para ilustrar o texto, capítulos curtos e sempre assentes num conselho ou problema, o livro em si responde a problemas dos comuns mortais... Ou seja, é uma leitura prazerosa para quem tira agora férias e procura fazer reset antes de voltar ao trabalho, com uma nova maneira de pensar e agir.

 

🏖️ E desse lado, que leituras de Verão não andam a procrastinar?

Como se chamam as ruas do futuro?

No seu último livro, Não Respire, Pedro Rolo Duarte conta-nos sobre o entusiasmo que sentiu ao ouvir que a uma rua se tinha dado o nome de alguém que ele tinha conhecido e respeitado. A vida começa e termina, mas há quem ganhe uma espécie de segunda existência quando um rádio de taxista pede um "móvel" para a Rua Helena Vaz da Silva, a senhora que ele conheceu - jornalista, fundadora do Expresso -, que muitos outros não saberão quem é, por muitas vezes que lá passem; ou para a Rua Ana de Castro Osório, que o autor só soube que era escritora quando já nem morava nessa rua.

 

Isto pôs-me a pensar: que nomes terão as ruas do futuro? Quem dos dias de hoje será eternizado através do seu nome na geografia nacional (quiçá internacional)? Alguém que eu conheça? E - a questão mais egocêntrica de sempre - serei eu parte dessa paisagem? Imagino-me daqui a cinquenta anos - haja saúde! - a reflectir nas duas primeiras décadas dos anos 2000. E nas personalidades que fazem parte dos meus dias, da minha geração, da minha formação contemporânea.

 

Terão as ruas nomes de actores? Políticos? Escritores? Apresentadores de televisão? Humoristas? Ou nomes de plantas? Ou nomes conceptuais, como um bairro perto da minha casa com nomes como Amor, Amizade, Paz, Sossego e Vitória?

 

No que toca às personalidades eternizadas (ou reduzidas) com o seu nome numa pedra suja ou placa enferrujada de rua, muita água há-de correr nas próximas décadas. Quando ganharmos objectividade sobre os tempos que vivemos actualmente, o que será tido como prioridade a transmitir aos que virão? Que gente, eventos e valores recordaremos?

Viver sempre como se fosse o último ano: Não Respire (Pedro Rolo Duarte)

LRM_EXPORT_55029711417356_20190801_094638991.jpeg

 

Eu já quis ser jornalista e pensei mesmo que o seria desde os tempos de secundário até ao segundo ano de licenciatura (correspondente ao período de negação sobre o prazer que ensinar me dá). Por isso, até agora, ainda não fui jornalista, pois não. Mas uma coisa é certa: aquilo que eu mais gosto é de escrever (e de saber que há quem leia o que escrevo), continuo a ter o mesmo interesse, assim como de ler, e de ensinar, e de aprender. A recomendação que vos trago hoje relembrou-me por que é que o jornalismo fez parte dos meus planos no passado e, acima de tudo, por que motivo a escrita dificilmente deixará de ocupar um lugar prioritário no meu presente e futuro.

 

Por ter sido um livro tão falado à minha volta, que emocionou tanta gente, não esperava que Não Respire, de Pedro Rolo Duarte, também me engolisse como engoliu. Sou ligeiramente do contra, quase que espero sempre não ser conquistada pelo que conquista os outros. Além disso, mantive as expectativas baixas, principalmente porque me prendia o generation gap e as referências ao passado recente e a círculos profissionais e sociais que desconheço, e porque o autor marcou uma geração e um público que não tinha a certeza de que seriam os meus.

 

Afinal, talvez sejam, mas comecei muito a medo. Aliás, finalmente dei-me por vencida sobre se haveria de comprar o livro quando o encontrei na venda de livros em segunda mão da Rua da Anchieta (e o vendedor me fez um desconto), no dia 1 de Maio, e estive mais de dois meses com ele na estante a ganhar fôlego.

 

Ainda bem que assim foi. Se não me tivesse rendido à curiosidade acumulada, não teria lido as memórias de alguém que ainda tem tanto para ensinar e contar aos mais novos, enquanto recorda a sua infância, juventude e uma idade adulta cheíssima com que outros se identificarão directamente. Sinto que, esteja onde estiver, Pedro Rolo Duarte continua a sua obra por cada leitor que revisitar os seus trabalhos realizados em vida. O legado continua enquanto ainda houver quem o leia.

 

E este livro não é sobre o cancro, não é sobre Pedro Rolo Duarte estar doente e pensar que pode morrer. Antes pelo contrário, sem clichés, é uma celebração do que viveu, um esboço de autobiografia e uma menção especial às pessoas com quem se foi cruzando, pelo bem e pelo mal, sem vergonha ou arrependimento. Até às últimas cinco ou dez páginas, quando finalmente surge alguma preocupação acerca duma cirurgia arriscada, não existe sinal de derrota ou desânimo.

 

Entre textos escritos e publicados no passado, textos inéditos, a homenagem constante ao filho, à família e aos amigos, e notas curtas sobre o dia-a-dia, Pedro Rolo Duarte concentra-se no privilégio que é ter uma vida completa, fazendo-se aquilo de que se gosta e rodeando-se de pessoas inspiradoras e igualmente enérgicas, tudo com uma paixão admirável que transborda livro fora (e que me deu muita vontade para ir procurar mais sobre o seu contributo para o jornalismo português recente, seja na televisão, na imprensa (destaque para o DNA) ou mesmo no blog pessoal. Pelo que escreveu durante o seu último ano de vida e pelas crónicas repescadas, consegui ser contagiada pelo seu bom carácter, ética de trabalho e gozo pela mera possibilidade de estar vivo, não só quando soube que tinha cancro, mas em geral durante os seus cinquenta e três anos de vida. E conseguiu acabar o livro antes da história acabar.

 

Se querem ser ou são jornalistas, têm de ler este livro. Se gostam de bom jornalismo, também têm. Se vos interessam vidas cheias que vos deixem inspirados, força. Este Não Respire é tudo: memórias pessoais e profissionais de alguém que viveu intensamente as primeiras décadas pós-25 de Abril, é um pedaço de história do jornalismo recente em Portugal, na primeira pessoa, pelos olhos e palavras dum agente dessa realidade; é um elogio à vida e ao amor em todas as suas facetas. E vai-se lendo, uns textos mais desafiantes que outros, curtos e longos, bocadinhos de sabedoria de quem a foi acumulando pela experiência.

 

📚 Que outras histórias reais vos têm inspirado? 

As dores de um blog

IMG_20190519_113516.jpg

 

Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

LRM_EXPORT_344244564176851_20190710_094520012.jpeg

 

Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?

As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

LRM_EXPORT_139386637283631_20190619_201432082.jpeg

 

Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

Aos 23

InFrame_1560781347138.jpg

 

Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.