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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O bicho de ensinar

Eu gosto de ensinar. Aliás, adoro ensinar. Acho que, no fundo, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Antes, desculpava o bicho, porque pensava que ele só era alimentado pelo contacto quotidiano com os professores. Durante muitos anos, quase toda a minha vida, a escola foi a única realidade que conheci. A escola, os livros, os meus colegas alunos, eu aluna, os professores.
Então, tentei desmistificar o meu bicho. Pus-me a explorar outros interesses, a procurar o gosto pelo jornalismo, pela escrita, pela cultura, pela literatura. Mas cheguei sempre à mesma conclusão: o melhor mesmo seria poder ensinar todos esses outros bichos, ser professora de qualquer forma.
Quando ensino alguém, quando ajudo alguém com os trabalhos da escola, quando sinto que transmito algum tipo de conhecimento; esse é o momento em que me sinto mais realizada. Estou a contribuir para o mundo, estou a dar a minha parte. Sem o meu bicho, outras pessoas, crianças, jovens, quem quer que seja, não conseguiriam alcançar o que alcançaram. Não conseguiriam encontrar aquele texto especial que lhes levei e que nunca leriam num dos seus manuais, não aprenderiam a conjugar o verbo "conseguir" tão depressa, não passariam a perceber outras línguas de forma tão rápida, nomeadamente a língua do estudo eficiente e a língua da curiosidade.
Neste momento, só aspiro a professora algumas horas por semana. Contudo, já contornei obstáculos que se julgavam insuperáveis. Ressuscitei o Inglês, semeei o Francês e tornei o Português menos pandoresco. Neste momento, são só crianças e adolescentes, mas quem se seguirá no futuro?
Como inimigas, tenho as metas curriculares. São inimigas agridoces, que tanto permitem aferir o "conhecimento" contabilizável, como impedem o aproveitamento de outras competências tão importantes como o crescimento pessoal do aluno, a responsabilidade ou a curiosidade na aprendizagem. "Ah e tal, se o aluno obtiver essas competências, conseguirá aprender, logo terá melhores notas." Por muito que o desejemos, a situação não é assim tão linear. Há quem demore mais a chegar ao "conhecimento" contabilizável do que outros. Há quem simplesmente não se adapte ao sistema de avaliação como ele é imposto. Há quem seja apenas um aluno brilhante a Ciências Naturais e deteste Espanhol. É assim tão inédito?
E depois há outro papel de "professora de 7 horas por semana": o de colmatar o que os professores de 40 horas por semana não são capazes de transmitir: justificar o conhecimento, explicar para que é que serve a matéria, atribuir-lhe uma vertente útil. De que é que serve aos alunos estarem a empilhar Os Lusíadas durante seis meses, se não lhes explicam em que é que eles ficam a ganhar? Somos todos tão bons a escrever cartas de motivação para arranjar empregos de sonho, em empresas de sonho, e abafando a competição... Porque é que não escrevemos também uma carta de motivação em nome da escola e do saber e da matéria, que convença as nossas criancinhas, e os nossos adolescentezinhos, e os nossos adultinhos de que aprender não é uma seca e de que para tudo o que aprendem há um intuito?

 

 

Doutores: a saga

Que vivemos num país flagelado pelos títulos... Isso já nós sabemos! Qualquer criatura com um bacharelatozito candidata-se a um "doutor" ou "senhor doutor" prefixado ao seu nome. É incrível a importância que atribuímos aos Drs. deste nosso Portugal, o país dos Drs.. Ironicamente, a minha experiência indica que quem menos se parece importar com essas cortesias são os Doutores (por extenso e tudo) legítimos. E já nem precisamos que nos relembrem dos Engenheiros, ou Engs. para poupar espaço.
No entanto, a geração de quem nasceu a partir dos anos 80 já não se importa tanto com a miscelânea titulária que a estrutura hierarquizada da sociedade portuguesa acarreta. Tornou-se relativamente comum tirar-se um curso superior, razão à qual atribuo a inversão do dito fenómeno.
Além disso, quem mais se vê a dispor do Dr. (isto é, sem contar com os médicos) são os políticos. Uma alegria!, saber que a governação se encontra entregue a indivíduos com estudos, especialistas nas respectivas áreas!!! Só que não; muitas das vezes, é só letras de vista.
Mas ainda não cheguei ao cerne da questão que desejo escrutinar. Calma...
Então e uma mulher? Pode ela ser Drª, à semelhança dos seus pares? Claro que sim: temos a Drª Maria de Belém, a Drª Maria Cavaco Silva e até a Drª Júlia Pinheiro (juro que este exemplo é verídico)!
Então e se for mulher E de esquerda? Bem, essa é outra realidade. A Mariana é tão novinha que nem os quase três graus académicos em Economia lhe valem. E a Catarina, cruzes credo, alguma vez se viu uma Drª como deve ser em Linguística?
Aiiiii, os paternalismos, senhoras e senhores! Ai, os debates da SIC Notícias e Companhias Ilimitadas, em que qualquer badameco é logo Senhor Doutor, Senhor Professor, Senhor e Deus do comentário semanal! Já a Marisa, coitada... É só marisa2016.net. Nem o doutoramento em Sociologia e a actividade de investigadora lhe valem.
Num país tão preocupado com os títulos, não será coincidência que a fome se junte à vontade de comer, e à gulodice também. Forte Tradição Hierárquica + Títulos + Paternalismo = BFF, citando um antigo jornalista da nossa praça.

Já tardava: refugiados

Palavra de honra que tenho procrastinado este tema a valer. Refugiados para ali, refugiados para aqui, mas são migrantes ou são refugiados, com que teorias devemos concordar, quem tem razão, primeiro nós ou primeiro eles, seremos todos farinha do mesmo saco, e os direitos humanos...???

Consegue-se perceber a minha indecisão desse lado, não é verdade?

Entretanto, o meu ano lectivo iniciou-se. Isto até poderia não vir nada ao contexto, mas olhem que vem mesmo, não estudasse eu Comunicação e Cultura e não andasse a tentar perceber há quase três anos o que nos torna quem somos, o que forma a nossa identidade, o que nos torna tão diferentes mas tão iguais. E há quase três anos que me sinto cada vez mais inquieta, mas é normal - é isso que se pretende do estudo, deixar-nos cada vez mais inquietos, a interrogar o mundo com insistente curiosidade.

E, ao fim de quase três anos, surge uma questão concreta que urge ser resolvida na minha cabeça, que vem colocar em causa a minha ética pessoal e o meu sentido de respeito pela humanidade: os refugiados-barra-migrantes devem ser alojados na Europa? Ou devemos arranjar maneira de os voltar a enviar para o país deles? Com tanta pobreza na Europa, com esta crise maluca (económica, financeira, mas também social), é sensato acolhermos mais pessoas, milhares delas, correndo o risco de criar ainda mais instabilidade e insustentabilidade? (Uma só questão multiplica-se em várias.)

Portanto, como eu dizia, comecei as aulas na semana passada. Este semestre, tenho até uma cadeira chamada Comunicação Intercultural. A relevância de tudo isto é que foi a ler os primeiros documentos para esta disciplina que me apercebi de que a resposta que consigo arranjar até ao momento pode ser alcançada com algum discernimento. Ler avivou-me a memória e o raciocínio.

Queridos leitores deste blogue, o meu dilema encontra-se cada vez mais próximo de uma resolução: sem dúvida que todas estas pessoas têm vindo a sofrer muito. Claro que merecem ser tratadas consoante as premissas da Declaração dos Direitos Humanos, têm direito a viver onde quiserem e a receberem um tratamento digno (água, comida, alojamento, ensino and so on). O problema é que - estejamos muito conscientes disto - é incomportável acolher tantos indivíduos no seio de uma cultura tão diferente da deles. É incomportável para os que acolhem, mas também para os que são acolhidos. 

O entendimento entre comunidades será difícil, muito difícil. A médio prazo, podemos "ter" de vir a acolher números astronómicos de pessoas que não falam a nossa língua, que não partilham dos nossos princípios, que não vieram ali de França ou da Eslovénia (comunidades com raízes culturais próximas das de outros países europeus). E o problema não se resume a nós adaptarmo-nos a eles. Também se resume a eles adaptarem-se a nós. Entendem que nenhum dos partidos se encontra preparado para conviver, certo? Ou, se se encontra preparado apenas mentalmente para uma grande mudança em termos do que chamam a "mentalidade", até todas as mudanças serem operadas ainda hão-de ser precisos alguns anos, talvez gerações, até que a assimilação seja completa, até que possamos todos viver em relativa paz uns com os outros.

Entretanto... Entretanto, corremos riscos. Calculo que os problemas imediatos se venham a transformar em problemas sérios a médio e a longo prazo. O racismo e a xenofobia de certos contingentes da população que acolhe também podem ser sentidos pela população que é acolhida, já pensaram nisso? Será que ambos se saberão acomodar mutuamente? Porque, se não souberem, verificaremos outros problemas de "segunda geração" ligados à exclusão social (insustentabilidade das instituições de apoio, desemprego, fraco rendimento escolar dos mais jovens, aumento da quantidade de guetos e bairros sociais, aumento da criminalidade).

Atenção, não estou a dizer que os indivíduos refugiados são criminosos. Estou a dizer que "a ocasião faz o ladrão" em determinadas circunstâncias - querer alimentar um filho, exigir o cumprimento dos seus direitos, reagir à hostilidade de quem não os vir com bons olhos...

Porque foi isso que vi nalgumas reportagens que passam diariamente na televisão: os migrantes refugiados a imporem-se perante funcionários das fronteiras (nomeadamente, da Húngria), que apenas faziam o seu trabalho. Os migrantes refugiados a trazerem famílias numerosas e a exigirem quase os funcionários das fronteiras lhes dêem uma mãozinha, um copo de água e um prato de caviar, em vez de os tentarem parar de entrar em território onde, oficialmente não é permitido entrarem (mais uma vez, cumprindo o seu dever). Pois, há direitos e também há deveres.

É-me muito difícil pensar sobre este tema, expor a minha opinião, sem sentir que continuo a não saber a história toda, que só estou a ver o cenário parcial de todo este frenesim, sem sentir que nenhuma opinião - quanto mais a minha - conseguirá resolver este problema que calhou nas mãos da humanidade nos últimos meses.

Continuo a achar que todas as pessoas são cidadãs do mundo, independentemente da sua cor de pele e da sua origem cultural, que todas têm direito a viver com dignidade e estabilidade, que todas têm direito a procurar as melhores condições de vida, onde quer que seja. Mas isso é impraticável nas circunstâncias que se apresentam, não é? Quase parece que estamos a ser invadidos, só que por pessoas que, tal como nós, não têm (em princípio, acredito eu de maneira inocente) a intenção de nos causar prejuízo de maneira alguma. Já vimos isto anteriormente, tanto com a emigração portuguesa transversal a tantas das últimas décadas, quanto com as comunidades do antigo Ultramar que procu(ra)ram refúgio em Portugal, quanto com qualquer outro tipo de migração (à sua maneira, todos os migrantes procuram refúgio, quer migrem dos Açores para os EUA, quer migrem de Aveiro para Braga).

 

Deixo um apelo aos leitores deste texto: não tentem interpretar mal a minha opinião. Esta é a minha opinião literal e eu abro espaço para tentar compreender outros pontos de vista. Estou receptiva aos vossos comentários. Este é um tema polémico, cada um tem tentado atirar a sua posta de bacalhau, a sua acha para a fogueira - tal como eu. E reservo-me ao direito, como todos os opinadores de bancada, a alterar a minha perspectiva acerca do assunto, mesmo depois de ter escrito um texto enorme sobre ele. Lá está: escrevi-o hoje, dia 14 de Setembro de 2015, mas no dia 17 de Outubro de 2020 ou no dia 30 de Fevereiro do ano de São Nunca, à tarde, já poderei considerar o tema com outro olhar.

A minha terra nas notícias

É quase surreal ver aquela que considero ser a minha terra nas notícias, pelos piores motivos. Sei que, há uns anos, era conhecida pelo tráfico de droga. Agora, todos ouvimos falar dela por causa de um triplo homicídio. Para mim, toda esta mediatização simplifica a essência de uma localidade, reduzindo-a ao palco de um crime.

O que estas reportagens sensacionalistas non stop não referem é que o local que mencionam todos os dias também é habitado por outras pessoas, a maioria pacata e honesta. 

Porque esse local cujo nome lançam inconsciente e persistentemente em rodapés e cabeçalhos das notícias foi onde eu estudei durante três anos, onde já trabalhei, onde conheci alguns dos meus melhores amigos e o meu namorado, em cujos parques brinquei imenso quando era pequena e quando ainda nem pensava que algum dia viria a ter muitos dos momentos mais importantes da minha adolescência nas redondezas. É o local por onde passo todos os dias antes de ir para a faculdade e aquele onde me vejo a viver daqui a uns anos.

É surreal ver um sítio que adoramos nas notícias, reduzido a terra de crime. Vive lá mais gente, passam-se lá mais coisas, é onde as crianças ainda podem brincar na rua e onde os vizinhos e os que não são vizinhos se conhecem todos.

Não sou contra o aborto

Não sou contra o aborto.

Sei que há vidas que não podem ou que não devem vir ao mundo, sei que há potenciais pais sem condições económicas e/ou psicológicas para apoiar uma criança, sei que há violações, sei que permitir que nasça um bebé doente ou incapacitado não é uma alternativa. Sei que há acidentes todos os dias e que qualquer comum dos mortais os pode ter - nunca dizer nunca. Sei que os centros de saúde e as farmácias nem sempre conseguem garantir os contraceptivos (em três anos a tomar a pílula, a minha já esgotou três vezes no centro de saúde durante várias semanas, e nunca a encontrei nas farmácias senão em caixas mensais). Sei que há mesmo quem não esteja devidamente informado acerca dos contraceptivos disponíveis no mercado e sobre como os utilizar (infelizmente, nem sempre a culpa é dessas pessoas).

Não sou contra o aborto, sou muito a favor do aborto! Mas não em demasia. Também há quem abuse e escolha o aborto como quem toma a pílula do dia seguinte e isso está errado. Estas mulheres sim, a partir de um determinado número de interrupções voluntárias de gravidez registadas, é que deviam ser submetidas a médicos objectores de consciência, e a longas entrevistas, e à mais alta taxa moderadora possível - não aquelas a quem aconteceu um imprevisto, e que, por muito que tenham em mente a sua responsabilidade sobre o apagar de uma existência em formação, devem ter sempre nas suas mãos o pleno direito de veto sobre a sua vida, sobre o seu futuro e sobre o seu corpo. É macabro que as queiram sujeitar a mais dor e a mais dilemas e a mais sentimentos de culpa impostos, calcados na sua mente. Nojentos! 

 

Já agora: ah e tal, a abstinência é o melhor contraceptivo? Mas quem são os outros para ditar como uma mulher conduz as suas relações íntimas? Quem são eles para decidir se a mulher se pode (quer!) abster de uma vida sexual saudável, importante para garantir o seu bem-estar mental e, por consequência, físico? A mulher (e o homem com quem ela escolher praticar o acto) é um ser humano, caramba!

 

No ano de 2015, após um século de evolução social e de luta pelos direitos da mulher, é inacreditável que este ainda seja um tema de discussão ferverosa, que ainda haja por aí pseudo-conservadores, defensores dos pseudo-bons costumes, que se opõem ao aborto. Já nem a religião serve de bode expiatório, get over it!

Os fraldários

Provavelmente, este tema já há-de ter sido discutido na blogosfera ou, seja como for, somewhere. Ou não. Mas quero acreditar que sim.

Quero falar de fraldários. Quero escrever sobre os fraldários, quero fazer incidir um bocadinho de atenção sobre esses equipamentos que assomam o nosso caminho logo à porta das casas-de-banho públicas, daquelas que se podem encontrar nas estações de comboios, nos centros comerciais, nas bombas de gasolina, nos parques e jardins... Por aí. Não é que pretenda tornar o tópico numa larga discussão, mas os fraldários andam aqui a dar-me uma comichãozinha.

 

 

Lanço a ideia com uma simples questão: onde costumam estar os fraldários? Nas casas-de-banho das mulheres, é onde eles costumam estar, os ditos cujos! Já me tinha apercebido disso antes, mas hoje tive uma espécie de epifania ao cruzar-me com um.

 

 

Ser desleixada ou não, eis a questão!

No outro dia, maquilhei-me "mais a sério": uma camada de base finíssima, risco e sombra nos olhos, batom q.b.. De facto, não sou menina de me encher de pós e correctores, de primers e de iluminadores. No que toca à roupa, também não ia malzinho de todo, mas pronto, não consigo trocar a minha mochila por mala feminina alguma deste mundo.

Pronto, caiu o Carmo e a Trindade! Cheguei à faculdade e logo duas ou três pessoas me perguntaram, automaticamente, se eu iria encontrar-me com o meu namorado, que estava toda composta, maquilhada, arranjada, blá blá blá. Um ex-colega do Ricardo, ao saber que não, eu nem estaria com ele nesse dia, chegou mesmo a dizer que iria fazer-lhe queixinhas do meu aspecto, como se eu fosse uma criminosa e não tivesse o direito de ter mais cuidado com o meu aspecto num determinado dia. Sei que foram comentários meio a brincar, mas deixaram-me estupefacta com o tipo de mentalidade que ainda se mantém na cabecinha das pessoas.

Então eu só posso estar bonita para agradar ao meu namorado? Só posso arranjar-me se for ter com ele? No resto dos dias, posso (devo!!!) ser a pior Maria Rapaz de sempre, posso andar toda oleosa, maltrapilha e desmazelada, sem respeito por mim própria e pela minha imagem? Ah!, mas se calhar ando a dar umas facadinhas à relação, embonecando-me para outro, que isto nunca se sabe.

Que lindo...

 

Não, eu digo não!

Há dias em que me sinto mais feminina, há outros em que não. Há dias em que acordo cheia de pica para me encher de perfumes, maquilhagens, desodorizantes, cremes e loções várias, e depois visto o meu melhor casaco, com a minha melhor camisa, com as minhas melhores calças. Há outros em que me contento com o creme hidratante na cara, com uma camisola de malha, as calças que encontrar primeiro e ala, que se faz tarde! Tenho direito à minha própria maneira de expressão individual e social, tenho direito a parecer ranhosa ou maravilhosa, consoante me sinta de corpo e espírito para isto ou aquilo.

Quando andava no secundário, arranjava-me mais do que me tenho arranjado no último ano de faculdade, mas agora estou a tentar mudar o péssimo hábito de me desleixar. Sim, ando cansada, não me sobra tempo nem para espremer borbulhas. No entanto, a maneira como cuido de mim também transmite aos outros o meu potencial, por isso escolho sacrificar alguns minutos de sono para construir uma imagem de mim própria que deixe uma boa impressão nos outros e que me faça sentir confortável, reflectindo o que sou por dentro: esforçada, dedicada, animada e confiante.

No século XXI, já não deveria ser normal pensar-se que as mulheres só se arranjam para satisfazer os homens. Nós, o nosso corpo e - veja-se - o nosso cérebro valemos por nós. Não me considero uma feminista de grande monta, mas defendo que há certas ideias do suposto senso comum que devem ser, inevitavelmente, combatidas.

 

Mas isso sou eu, que sou uma badalhoca!

O fim do "viveram felizes para sempre"?

Ultimamente, tenho andado a lidar com estatísticas. Primeiro, por causa de um trabalho no curso de escrita de não-ficção; agora, por causa da cadeira da faculdade de Sociologia da Comunicação. E há estudos para tudo, sobre tudo. Se uma pessoa tiver curiosidade, qualquer pessoa mesmo, encontra facilmente informação variada acerca de qualquer aspecto da vida dos portugueses, dos europeus ou até da população mundial em geral. Desde que se analisem os dados a partir de uma perspectiva crítica e se saiba distinguir estudos da treta de estudos que valem a pena, os depositórios de estatísticas online (por exemplo, o site do Instituto Nacional de Estatística ou o PORDATA).

Hoje, enquanto eu procurava informação sobre os portugueses e as televisões, ou o meio pelo qual assistem aos programas televisivos, encontrei um estudo do mais comum possível, pelo meio da (má) filtragem: Número de divórcios por 100 casamentos em Portugal. Nem sequer é um estudo fora do comum, são estatísticas fáceis de obter... No entanto, os resultados deixaram-me perplexa:

casam.png

Como assim, mais de 70% dos casamentos, em Portugal, acaba em divórcio? Como assim, nos dias que correm, 7 em cada 10 casamentos não vão avante, não cumprem o "para sempre" implícito em toda a pompa e circunstância da cerimónia, da celebração ou simplesmente do acto de assinar os papéis?

Será que o "viveram felizes para sempre" perdeu a sua validade? Como é que as gerações mais novas ou vindouras podem continuar a acreditar no amor verdadeiro ou - pior - na estabilidade emocional, depois de se chegar a tais conclusões?

Reconheço que estou a colocar demasiadas questões, provavelmente a mostrar o meu lado mais sensível e fosquinhas no que toca ao amor e às relações humanas, mas é possível ficar-se indiferente depois de se saber que, em 2012, a taxa de divórcio no nosso país foi de 73,7%?

Na minha família próxima, o último casal mais ou menos perfeito foram os meus bisavós. Diz a minha avó que foram sempre os melhores amigos, que nunca lhes faltava tema de conversa. Pelo meio houve problemas, mas foram relativamente bem sucedidos, até que o meu bisavô faleceu um ano antes de eu nascer. De resto, as histórias envolveram sempre separações conturbadas, noivados cancelados, filhos levados na onda, facadinhas pelo meio... Nem os pais da maioria dos meus amigos conseguem manter casamentos 80% equilibrados, felizes. Sou uma romântica incurável, mas sem referências nem exemplos para os quais possa olhar em busca de alento. O amor contínuo, o companheirismo, a estabilidade, a confiança, a foleirice... Onde andam eles? 

É claro que mais vale só do que mal acompanhado, é claro que, quando já não resta nada por que lutar, por que esperar, o melhor é cada um ir para seu lado e seguir o seu caminho, talvez com outra pessoa com a qual se seja mais feliz. É claro que as estatísticas não reflectem muitos casos que são "mudos", que não são revelados nas estatísticas. As uniões de facto. Os namoros. Aquelas relações que não têm "expressão" oficial.

 

Seja como for, há que manter a mente em aberto, sem estereótipos, e limpa de estatísticas. Livre de maus exemplos, livre do que outros fizeram ou deixaram de fazer. Senão, como é que alguém se pode abstrair do histórico de família, do histórico nacional, do histórico - porventura - mundial? Há que ver o copo meio cheio, a todo o custo: cerca de 3 em cada 10 casamentos mantém-se. Com sorte, pode até acontecer que dois deles sejam constituídos por duas pessoas que são os melhores amigos um do outro.

A ocupação indevida das escadas rolantes: uma observação social + apelo

Lembro-me de os passeios com a minha avó e o meu pai, quando eu era pequena, terem contribuído em grande parte para a minha educação cívica. De todos eles retirei qualquer coisa de útil, quer se tratasse de uma ida ao supermercado, quer fosse um passeio especial ao Chiado ou à praia. Gestos tão rotineiros como a maneira certa e educada de entregar notas num pagamento, utilizar os transportes públicos ou tratar um adulto foram, deste modo, apreendidos com bastante facilidade, praticamente por mera intuição, através do método "faz como vires fazer". 

Hoje em dia, mesmo que nem sempre cumpra as regras de etiqueta ou das relações sociais de propósito (o meu maior pecado é comer em todo o lado, a toda a hora, nas aulas, no comboio, no Metro, na fila para o autocarro), consigo distinguir o certo do errado. Se alguém me levar a mal, terei de dar o braço a torcer.

Por isso é que, pessoalmente, fico ainda mais incomodada quando adultos "feitos", com idade para serem meus pais ou avós, cometem erros de convivência social que me parecem, dentro da minha realidade, inadmissíveis.

Os locais em que mais vejo erros básicos devem ser as escadas rolantes. O comportamento dos indivíduos nas escadas rolantes das estações de Metro e comboio ou dos centros comerciais demonstra um total desrespeito pela regra "chega-te à direita porque, se alguém estiver com pressa para passar, tem a esquerda livre". E, para variar, eu costumo ser quem está com pressa ou, em geral, quem abomina estar ali parada, sem se mexer, encurralada por todos os lados. Detesto ter de esperar, sou impaciente por natureza e as escadas rolantes e a sua indevida utilização enervam-me. 

E depois uma pessoa está ali a suplicar "com licença, peço desculpa" e, quando finalmente pensa que já se livrou da totalidade dos empecilhos, eis que surge mais um casal que se recusa a separar-se, permanecendo lado a lado. Em breve, alcanço o fim das escadas rolantes, sem resultados ou glória.

Para quem vive a uma hora do centro de Lisboa, ou seja qual for o local para onde se dirige diariamente, a falta de educação e consideração implica muitas vezes todo o desarranjar de horários pré-definidos. O que mais me chateia são, de facto, as escadas rolantes que ligam as estações de Metro às de comboio e vice-versa. Não há quem não as ocupe, qual boneco Michelin insuflado (nem que sejam mulheres com uma mala de senhora gigante e larga a baloiçar num braço snob e inconveniemente esticado) de um lado ao outro dos corrimões, em especial quando quem só tem comboios de vinte em vinte minutos e autocarros de quarenta em quarenta está em vias de os perder e deseja, desesperadamente, passar (até porque uma desgraça nunca vem só). É que, por causa dessa gente pseudo-urbana, demasiado descontraída para se preocupar com o bem-estar alheio, gente stressada (e com razão!!!) como eu (a constante e egocêntrica vítima da conspiração) perde toda uma cadeia de transportes Lisboa-Margem Sul por dez curtos segundos (o que me acontece com mais frequência do que o normal, para aí uma vez por semana).

 

Dito isto, deixo um apelo a todos: DESOCUPEM O RAIO DO LADO ESQUERDO DAS ESCADAS ROLANTES!

Obrigada.