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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

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Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

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Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

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Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Como se chamam as ruas do futuro?

No seu último livro, Não Respire, Pedro Rolo Duarte conta-nos sobre o entusiasmo que sentiu ao ouvir que a uma rua se tinha dado o nome de alguém que ele tinha conhecido e respeitado. A vida começa e termina, mas há quem ganhe uma espécie de segunda existência quando um rádio de taxista pede um "móvel" para a Rua Helena Vaz da Silva, a senhora que ele conheceu - jornalista, fundadora do Expresso -, que muitos outros não saberão quem é, por muitas vezes que lá passem; ou para a Rua Ana de Castro Osório, que o autor só soube que era escritora quando já nem morava nessa rua.

 

Isto pôs-me a pensar: que nomes terão as ruas do futuro? Quem dos dias de hoje será eternizado através do seu nome na geografia nacional (quiçá internacional)? Alguém que eu conheça? E - a questão mais egocêntrica de sempre - serei eu parte dessa paisagem? Imagino-me daqui a cinquenta anos - haja saúde! - a reflectir nas duas primeiras décadas dos anos 2000. E nas personalidades que fazem parte dos meus dias, da minha geração, da minha formação contemporânea.

 

Terão as ruas nomes de actores? Políticos? Escritores? Apresentadores de televisão? Humoristas? Ou nomes de plantas? Ou nomes conceptuais, como um bairro perto da minha casa com nomes como Amor, Amizade, Paz, Sossego e Vitória?

 

No que toca às personalidades eternizadas (ou reduzidas) com o seu nome numa pedra suja ou placa enferrujada de rua, muita água há-de correr nas próximas décadas. Quando ganharmos objectividade sobre os tempos que vivemos actualmente, o que será tido como prioridade a transmitir aos que virão? Que gente, eventos e valores recordaremos?

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Leitor e escritor, entre a realidade e a ficção: Autobiografia (José Luís Peixoto)

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Este livro deixou-me com sentimentos contraditórios.

 

Há autores que fazem parte da nossa vida; ora porque nos falaram ao coração e criaram aquilo de que precisávamos, ora porque os lemos em fases críticas no desenvolvimento pessoal e ajudaram a moldar os nossos gostos, ora porque nos deram uma espécie de alimento que aprendemos a digerir e sem o qual deixamos de poder viver.

 

Entre os 15 e os 19 anos, houve três escritores portugueses que me arrancaram do Harry Potter, dos Diários da Princesa e dos romances de cordel: Eça, Saramago e José Luís Peixoto. Os primeiros dois foram sugestão da escola e, ao ler o obrigatório, achei que era pouco e li quase tudo o que me passasse pelas mãos, tivesse em casa ou houvesse na biblioteca. O último foi uma surpresa. Folheei um Abraço no Modelo da Quinta do Conde, e depois acho que fiquei tão fascinada que o pedi pelo aniversário seguinte. Foi, de facto, o abraço literário da minha adolescência.  De vez em quando, abro o livro e escolho uma crónica aleatória para ler. Demorei muitos meses até conseguir terminar todas pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos não tinha profundidade para absorver tudo duma vez, mas o que li teve um efeito duradouro. Depois disso, vi o JLP num evento da FLUL, fui ao lançamento de Galveias em Lisboa, conheci-o em Banguecoque e fui a um encontro com outro escritor tailandês na Casa Pessoa no Verão passado.

 

Acho que já só me falta ler dois livros de José Luís Peixoto. No entanto, Autobiografia subiu na lista de prioridades quando soube que teria Saramago como personagem. Não poderia perder a oportunidade de saber mais sobre esse Saramago que JLP, que ganhou o Prémio Saramago quando ainda era bastante jovem, conheceu e que escolheu trazer-nos.

 

Não sei como falar de Autobiografia sem vos contar demasiado sobre o enredo. Vou tentar ser breve: é um texto ficcional de carácter biográfico. Ou, se calhar, não é. De autobiografia tem pouco, excepto do ponto de vista das personagens. Mas são personagens ou pessoas reais? Por que não ambas?

 

Autobiografia é um livro cheio de camadas que nos cabe desbravar. O enredo forma-se a partir do entrelaçamento entre a realidade e a ficção, numa metanarrativa acerca do que significa ser-se escritor e leitor (e, mais uma vez, por que não ambos?). Existe um José, existe um (José) Saramago, existe uma Pilar e outras tantas figuras. A conclusão a que chegamos é que não interessa se são retratadas correspondendo à realidade ou se é tudo da cabeça do autor. Em vez disso, basta sabermos que existem neste livro. No início pode ser um pouco dissonante confrontarmo-nos com esta diluição de fronteiras e dicotomias, mas ao cabo de algumas páginas conseguimos finalmente desprender-nos das amarras dessas expectativas.

 

Quanto à escrita... Esta sim, faz-me ter sentimentos contraditórios. Por um lado, José Luís Peixoto consegue - como sempre - descrever o mundo como uma criança que o descobre pela primeira vez, maravilhando-se com as mais ínfimas (e íntimas) tonalidades da vida. É assertivo, inocente e simples com as palavras, e isso é bonito. Ainda assim, fiquei à espera de mais. Muitas expressões soam a lugar-comum da sua obra. O leigo di-las-á batidas. Não há surpresa, dei por mim a querer mais. Talvez não seja do autor, talvez seja de mim, mas confesso que as minhas expectativas eram bastante elevadas.

 

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, vou à apresentação do livro em Lisboa, por isso estou bastante entusiasmada. Tenho bastante curiosidade em saber o que o autor tem para contar sobre a sua própria obra, assim como outros que lá estarão, porque decerto ajudará a compreendê-la ainda melhor.

 

💡Seja como for, os nossos autores favoritos têm sempre um lugar de honra na nossa estante e na nossa formação informal enquanto leitores. Isso ninguém lhes tira! Acho que fazem muito bem em colocar esta Autobiografia na vossa lista de leituras para as férias de Verão.

Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

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Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?

Como contar e ler as melhores histórias: The Science of Storytelling (Will Storr)

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Andei a procrastinar esta opinião durante duas semanas. Senti sempre que tudo o que eu escrevesse não faria justiça ao que este livro é, o quanto gosto do tema e o quanto quero recomendá-lo a todas as pessoas que gostem de ler e escrever, seja a título profissional ou ocupação pessoal e inconsequente dos tempos livres.

 

Não é o livro do ano, nem da década, nem da vida, mas é um livro que nos ensina a ler histórias, seja em que meio for: The Science of Storytelling, de Will Storr (o mesmo autor de Selfie), publicado pela primeira vez há poucos meses, não é um manual de escrita criativa. É, em primeiro lugar, um manual de leitura atenta. Não serve só para quem cria histórias, mas principalmente para quem gosta de as destrinçar, analisar, receber com cuidado. E são explicadas tantas, mas tantas dicas sobre como fazer e ler histórias cativantes! Afinal, o objectivo evolutivo de criar histórias é educar, transmitir conhecimento e promover relações entre os membros de uma comunidade, para que a espécie humana sobreviva. Então, há que fazê-lo bem.

 

Segundo The Science of Storytelling, porque as histórias de que mais gostamos se calhar até são um espelho da vida, as partes mais importantes da narrativa poderiam ser as mais importantes quando pensamos na nossa própria história individual. Começamos com um herói, e a sua viagem no espaço físico ou mental, moral, emocional (à semelhança do que Joseph Campbell já escreveu). Por sua vez, este herói coloca-se e coloca-nos uma pergunta que nos guia e prende até à última página: quem sou eu? Segundo Will Storr, uma boa história corresponde à auto-descoberta dos protagonistas e, para tal acontecer, tem de haver uma evolução constante, quer seja externa ou interna. O que nos leva a outra das características mais importantes das histórias bem contadas: a falha sagrada das personagens, que é algo que não só as distingue, como também poderá ser a causa dessa procura de identidade ou evolução no enredo. Atentemos em exemplos muito fáceis que talvez todos conheçamos: exactamente por ter colocado em questão a forma como viveu a sua vida, até ao momento em que o filme começa, é que Elle Woods (a personagem de Reese Witherspoon em "Legalmente Loira") tem uma história minimamente interessante para ser contada. Nós identificamo-nos, nem que seja metaforicamente, com aquela criatura cor-de-rosa, porque ela é uma excelente rapariga, tem bom coração, move-se por causas nobres, apesar de... no início parecer cognitivamente limitada, ser imatura, superficial e ingénua, ter problemas por resolver. Tal como nos sentimos solidários com Mrs. Richardson, que é uma excelente mãe de família, adora os filhos e o marido, apesar de... ser hipócrita, coscuvilheira, cega para o resto do mundo que não cumpra os seus ideais. Ou porque acabamos por empatizar com Lord Voldemort: coitado, teve um início de vida trágico, o pai abandonou a mãe, que o abandonou a ele, viveu num orfanato cheio de miúdos sujos, ficou sem nariz, apesar de... ser ruim, matar pessoas, invocar tudo o que seja força negra e entreter-se a perseguir um adolescente para conseguir a imortalidade.

 

Estas personagens com falhas também somos nós. As histórias que elas vivem também são as nossas. O nosso cérebro procura acção, questionamento e algo com que nos possamos identificar, seja com o protagonista ou o antagonista. Por outro lado, estes princípios também podem ser subvertidos, se procurarmos antes uma história menos comercial e mais desafiante.

 

Obviamente, isto é apenas um pouco do que vos posso contar em poucos parágrafos sobre The Science of Storytelling. Will Storr tem muito mais para vos oferecer do que eu. No final, temos ainda uma lista de referências bibliográficas muito interessantes e que dão vontade de estender ainda mais a lista de livros por ler.

 

Por isso, comecem já por este. São apenas duzentas e poucas páginas com letra gordinha e espaçada. Infelizmente, ainda só existe em inglês, mas pode ser que alguma editora portuguesa lhe pegue em breve, por ser um autor com alguma notoriedade.

 

📚  De resto, porque me tenho interessado imenso pelo storytelling e pela empatia, agradeço todas as sugestões de leitura que tenham sobre estes temas. Ou mesmo opiniões pessoais: acham que os princípios apresentados por Will Storr são mesmo ingredientes indispensáveis numa história? O que é que vos move a devorar um livro? O que é que procuram?

Aos 23

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Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

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Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

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🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?