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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Dos outros #36

"Acaso alguém seja melhor nalguma coisa que os outros, a regra portuguesa é pedir-lhe que tenha a polidez e o espírito de solidariedade para agir tão mal como o pior. Assim todos, maus ou bons, podem gozar do privilégio reconfortante e demoracrático de dizer: «Ouve lá, se eu quisesse, fazia melhor... mas, para quê, se são todos tão mauzotes, coitados...?» A incompetência portuguesa nada tem de natural: é um conluio maciço, um autêntico contrato social. Quantas vezes perguntamos, atónitos diante de qualquer produção colectiva, cultural, económica ou político: “Como é possível que tantas pessoas, tão inteligentes e talentosas, tenham conseguido fazer tamanha cegada"


Miguel Esteves Cardoso, "Mediocridade", in A Causa das Coisas

E foi assim que conheci o José Luís Peixoto

Cada vez que leio um livro e investigo quem o escreveu, tento distanciar-me da real figura do autor, em comparação à figura narrativa, a quem pertence a voz das palavras, que formulo mental e inevitavelmente. Por vezes, destoam uma da outra. Podemos nem sequer ficar agradados pela imagem física do sujeito, ou pelo seu percurso pessoal - não vamos com a cara dele, e depois? - enquanto a beleza e simpatia do escritor imaginado nos encantam.

Já me cruzei com alguns autores assim que, ao fim duma fila para autógrafos, se revelam uma autêntica desilusão. Arrogantes, inacessíveis, apressados, de palavra difícil. A custo, combato as péssimas impressões que me deixam, recalcando a experiência, tanto quanto possível. Normalmente, sou bem-sucedida nesse processo. Afinal, todas as pessoas têm defeitos. Portanto, por que não haveria aquele ser humano - que, por acaso, escreve livros de que gosto - de ter?

Contudo, felicidade das felicidades, algo incrível, um dos meus escritores favoritos - se não o favorito - correspondeu, em carne, pele e osso, às expectativas que o seu "eu" literário tem depositado em mim ao longo dos últimos (quase) dois anos. 

Hoje, José Luís Peixoto, vulto-maior - de acordo com a minha humilíssima opinião de leitora seguidora - da literatura portuguesa do século XXI, provou que a escrita pode, realmente, reflectir o carácter do seu autor. O JLP é um bacano, cheio de carisma e piada, um excelente orador. E juro que não estou a exagerar, justifica-se toda a minha admiração pelo seu trabalho.

O JLP a falar sobre a escrita de viagens na minha faculdade... Eu, cheia de coragem para, no final, lhe colocar questões (e aos outros dois convidados, Tiago Salazar e Loïc Pedras), e para lhe pedir que me autografasse o seu "Abraço", e para lhe pedir que tirasse uma fotografia comigo. Eu a dizer-lhe que estou a fazer um trabalho para Cultura e Sociedade, cujo ponto de partida é um livro dele.

Quanto ao JLP-pessoa e ao JLP-escritor, não os separarei na minha cabeça. Um coincide com o outro, são unos na sua personalidade, são os dois o mesmo indivíduo.

Tive muito gosto em conhecê-lo.

 

 

 

 

Dos outros #35

"De repente, Fernando Pessoa abriu os olhos, sorriu, Imagine você que sonhei que estava vivo, Terá sido ilusão sua, Claro que foi ilusão, como todo o sonho, mas o que é interessante não é um morto sonhar que está vivo, afinal ele conheceu a vida, deve saber do que sonha, interessante é um vivo sonhar que está morto, ele que não sabe o que é a morte, Não tarda muito que você me diga que morte e vida é tudo um, Exactamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam [...]."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Dos outros #34

"Sei que, de tempos a tempos, preciso de não deixar casa. Estar naquele que é o meu recanto mais íntimo, onde guardo tudo aquilo que me é materialmente mais querido. Passei horas trancado em casa como modo de puro enriquecimento cultural e de reflexão. Ou, se preferirem, procrastinação."

 

Nelson Nunes, Um dia não são dias

Eu, tu e o Saramago

Ontem, a tarde foi assim...

 

Começámos com os deliciosos gelados da Satini do Chiado (laranja e cenoura para a Carolina, chocolate e brigadeiro para mim - porque apenas um tipo de chocolate é para fracos)...
... e depois fomos ver a Sé.
Entretanto, perdemo-nos e, ao fim de muitas voltas, um Google Maps do smartphone e uma paragem para perguntar o caminho, conseguimos dar com as traseiras da fundação (não antes de já lá termos estado, mas sem nos apercebermos do que se tratava)! *Atentem na minha cara de rainha de beleza.*
Afinal, a Casa dos Bicos fica a poucos metros da estação de metro do Terreiro do Paço, quase à beira-rio.
Esta era uma saída já prometida desde há umas semanas atrás. Tanto eu como a Carolina somos leitoras ávidas e sempre à procura de mais bagagem literária e cultural, pelo que não poderíamos descansar enquanto não visitássemos a Fundação José Saramago - eu, por gostar muito da obra do senhor e do que ela representa na literatura portuguesa (e, porque não?, mundial), e ela, pela curiosidade e por querer obter algum incentivo para se aventurar por páginas saramaguianas.
A exposição preenche apenas o primeiro andar, mas chega bem pelo conteúdo. Mal lá entrei, pensei de imediato "pronto, lá vou eu ter que voltar para ver tudo outra vez". E com todo o gosto! Há demasiado para ler, para prestar atenção, esmiuçalhazinhas que não o são, porque fazem parte do percurso pessoal e profissional do Saramago, e que a mim muito me agradam enquanto sua admiradora. Portanto, são imperdíveis. São as centenas de capas das várias edições, nacionais e esrangeiras, dos diversos livros, são os cadernos e caderninhos de apontamentos, as agendas, as distinções, as fotografias, os manuscritos ainda batidos à máquina ou já digitados a computador, todos eles com anotações feitas à mão, o material de investigação para cada história, a correspondência e os e-mails com amigos e colegas, a recriação do seu escritório - são as provas de que esta pessoa, José Saramago, viveu neste mundo, escreveu o que escreveu e merece ter alcançado a glória almejada por qualquer profissional ou artista; são pessoas como ele que inspiram outras e que são capazes de mover "vontades" alheias (sei lá, como a minha!). Apesar de a exposição estar orientada para quem conheça minimamente os seus livros, qualquer um com o mínimo de interesse acerca do assunto há-de conseguir disfrutar igualmente da visita.
Dito isto, tenho meeeeeeeeeesmo que lá voltar sozinha para me poder perder sem arrastar ninguém na onda, digamos assim. No final, só fiquei um bocado revoltada por as edições estrangeiras dos livros do Saramago serem vendidas a um preço bem mais acessível (chegava a ser apenas metade!) do que as edições portuguesas. Compreendo que, tratando-se de maiores tiragens, essa edições ficam mais rentáveis, mas... até na própria Fundação Saramago, no centro de Lisboa???! Porquê? Os portugueses são assim tão ricos que possam gastar vinte e tal euros de uma assentada para poderem ter acesso à sua cultura?
Mas não nos alarguemos mais em devaneios reservados para outras ocasiões.
O que interessa é que os 2€ do bilhete de estudante valem totalmente a pena, ainda se dá um passeio engraçado antes e/ou depois da visita e assim se passa uma tarde engraçada e cheia de sol, em boa companhia (falo por mim, escolham bem a vossa!). Recomendável para quem não quer gastar muito dinheiro sem deixar de se divertir e de (re)conhecer Lisboa. Não se esqueçam de levar uma garrafa de água o mais fresca possível e um lanche leve mas nutritivo (preferencialmente, numa mochila) e pronto, ei-vos preparados!

Dos outros #32

"Rei Leão™, Bambi™, e o seu amigo fofinho, o coelho Tambor... O homem é o único animal que romantiza aquilo que devora. A nossa sociedade ergue os seus pilares sobre a cultura automóvel, mantendo na impunidade quem tira a vida de outrém, mas em compensação canta o seu amor às crianças. As crianças até já têm um dia delas. Desconfiar sempre daquilo que tem um dia mundial, é mau sinal. Só há dias mundiais daquilo que está por baixo."

 

Rui Zink, O Suplente

Dos outros #31

"Porque é que uns, poucos, tinham sapatos e outros, a maior parte, não?

Perguntei isso ao professor e ele ficou atrapalhado. Perguntei em casa e ficaram incomodados. Fiz muitas vezes essa pergunta. E de cada vez que a fazia sentia que estava a fazer uma pergunta inconveniente. Nunca ninguém me respondeu e continuo, de certo modo, a perguntar.

Porque ainda sinto o frio da escola. Ainda sinto o cheiro a pobreza, o pouco. Foi sobretudo isso que aprendi, além da gramática, das contas, da História Pátria, dos rios, das serras e das linhas de caminho-de-ferro. Aprendi a conjugar os verbos e nunca foi preciso o professor Lencastre virar-me de cabeça para baixo. Mas a quem tenho eu de agarrar pelos pés e bater com a cabeça no chão para que de uma vez por todas me digam porque é que uns usavam sapatos e outros não?"

 

Manuel Alegre, Alma

3 anos sem Saramago

É verdade. Assim, num ápice, já contamos três anos desde a morte do nosso Nobel português, José Saramago, que nos deixou a 18 de Junho de 2010. Connosco, permaneceu a sua criatividade e o empenho que colocou em toda a sua obra, a sua devoção à língua portuguesa como poucos escritores ainda a têm. Jamais se publicará uma obra nova da autoria de José Saramago, jamais faremos fila na Feira do Livro para lhe pedirmos um autógrafo (eu fiz duas vezes... e, incredulamente, não era assim tão grande quanto a imaginaríamos). Jamais este "nosso" Saramago escreverá uma linha que nos ajude a entender o verdadeiro valor do património linguístico que temos e o seu alcance. Jamais Saramago escreverá uma linha que nos faça visitar outras épocas e realidades, do modo como só ele sabia contar histórias. E isso é que é triste.

 

Já lá vão três anos.

 

 

 

 

Dos outros #30

"Os segredos estão dentro de nós. Como tudo o que sabemos, também os segredos nos constituem. Também os segredos são aquilo que somos. Quando os seguramos, quando somos mais fortes e os contemos, alastram-se em nós. Desde dentro, chegam à nossa pele. Depois, avançam até sermos capazes de os reconhecer. Então, nesse momento, já não são apenas segredos que estão dentro de nós, somos também nós que estamos dentro dos segredos."

 

José Luís Peixoto, Dentro do Segredo

Sim, eu cheguei a ir à Feira do Livro!

Escusado será dizer que anteontem fui à Feira do Livro e cometi a "pequena" loucura de comprar quatro (dois deles para oferecer), pagos com o meu dinheirinho, já que ganhei recentemente mais um prémio literário. Foi essa a minha maneira de festejar o dia de Portugal, valorizando a literatura nacional. Ainda pedi um autógrafo à Sô-dona Pipoca (que é mesmo doce!, mais simpática do que pensava) no seu primeiro livro, que já tinha há um tempo, e ao Rui Zink, n'O Suplente, que comprei propositadamente no momento. O outro livro que adquiri não podia deixar de ser um do José Luís Peixoto, mais especificamente o Dentro do Segredo, pelo qual nutria uma enorme curiosidade e que não encontrava em nenhum site de vendas em segunda mão.