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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

7/30 (conduzir é a minha meditação)

Adoro conduzir. Acho que sou uma boa condutora, excepto no que toca a estacionar, mas nem é só por isso que gosto de conduzir. Conduzir é a minha meditação, porque é naquele período de tempo em que mal posso fazer outra coisa além de olhar em frente e controlar o carro que fico mais absorta em ideias paralelas que me vão ocorrendo.

 

Por exemplo, é muito provavelmente ao conduzir que tenho mais ideias de escrita, de cenários, de desbloqueio e de esclarecimento de dúvidas criativas, de resolução de problemas prementes variados. Só tenho pena que conduzir polua e seja dispendioso, porque, por mim, eu pegaria no carro todos os dias e iria por aí fora.

 

Gosto da calma de conduzir e gosto das memórias que tenho dentro do carro. Tenho memórias de tudo e mais alguma coisa. De conversas importantes e doutras das quais nem me lembro, de relações a começarem e a acabarem comigo em frente do volante ou no lugar do pendura, de momentos de reflexão profunda, momentos de solidão e momentos de confraternização. E não me posso esquecer das viagens de carro de quando era miúda, por mais curtas que fossem, com a minha avó, mesmo que a maioria tenha sido só casa-colégio-casa.

 

Na faculdade, aprendi um conceito sobre o qual tenho a impressão de já ter escrito aqui, o conceito de "não-lugar", de Marc Augé. Eu gosto muito de lugares que não o são, como o interior de carros, autocarros e comboios, lugares que são apenas espaços de transição, mas onde a vida não deixa de acontecer.

 

Há uma certa paz dentro de um carro, a solo ou com companhia, mas conduzir, em particular conduzir sozinha até aos meus próprios destinos, é a minha meditação.

 

(Este texto corresponde foi escrito em atraso, correspondendo à contribuição de 11 de Abril. Por essa razão, hoje ainda publicarei mais um.)

6/30 (leio muito devagar)

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Ao contrário do que possa parecer, eu demoro muito tempo a ler. Demoro tempo a ler livros, a estudar, a interpretar, a entender, a estabelecer ligações. A brincar, costumo dizer que sou esperta, mas que nem sempre sou inteligente. Acho que sou rápida e assertiva a tirar conclusões quando tenho a informação toda, gosto de escrever e de falar, sou curiosa, e isso é que me vai mantendo motivada a prosseguir com certas leituras mais densas (quero sempre obter respostas), mas não leio em quantidade.

 

Por isso, compro mais livros do que alguma vez serei capaz de ler. Adorava ter tempo para dar uma vista de olhos a todos os materiais que os professores recomendam nas bibliografias do mestrado. Na maior parte das vezes, não resisto e leio mesmo tudo, em detrimento de tempo livre e de alguma sanidade mental. Sofro de cada vez que tenho de ler mais de 100 páginas por semana.

 

Preciso de tirar notas, de procurar mais informação, de sublinhar, de reler, de pensar no que já li. Adoro estudar, mas ainda não sei se a investigação será uma opção profissional viável a médio ou longo prazo - não por falta de vocação, mas porque não consigo ler cinco páginas seguidas de qualquer texto sem ter de fazer uma pausa. Será que conseguiria dar conta do recado...?

 

Além disso, tenho memória curta. Ainda hoje estava a ler textos que sublinhei e anotei há menos de um mês, quando me fui surpreendendo com a sensatez e completude das notas tiradas pelo meu eu passado, apesar de não me lembrar conscientemente dessas páginas. Muitas vezes, agradeço a essa versão mais antiga de mim mesma por me ter proporcionando uma segunda experiência de leitura personalizada, como se fosse a primeira.

 

Não admira que, desde 2020, ande a reler alguns dos meus livros favoritos. Poder ler algo pela segunda vez, mas guiada pela mão, pelas notas, sublinhados e impressões que eu própria quis destacar, ir relembrando o que eu já pensava estar esquecido, e por isso ganhando alguma velocidade e maior facilidade de leitura... Tudo isto, é um alívio!

 

(Na fotografia: o último livro que li, e o que estou a ler agora.)

5/30 (ser feliz dá trabalho)

Parece uma contradição, mas ser feliz dá muito trabalho. Se houve lição que retirei destes últimos anos (na prática) e ainda mais após uma pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada (teoricamente), é que ser feliz não é possível se vivermos em modo automático.

 

Ser feliz implica exercitar músculos que nem sabíamos que tínhamos. São músculos psicológicos, mentais, relacionais. Não é uma coisa atingível por "dá cá aquela palha", é necessário investir muito esforço para querermos sair do modus operandi por defeito, porque nem sempre a nossa intuição está certa. Não devemos reagir, mas sim agir consoante a avaliação das circunstâncias e da paz a mais longo prazo.

 

Quando era mais nova, pensava que iria ser muito fácil para mim ser uma adulta feliz. Era só querer, e eu queria muito, mesmo muito. Até tinha um plano! Ainda não sendo adulta há muito tempo, já tenho a certeza de que vim ao engano - não vimos todos, cheios de vontade de ser crescidos?

 

É importante garantirmos que somos feliz, ou que nos aproximamos das expectativas que tenho quanto ao que significa a felicidade, o que envolve escolhas, passos atrás e mudanças e adaptações constantes. Envolve exercício, planeamento e estratégia. E também envolve esquecermo-nos deles, de vez em quando, mas não sempre.

3/30 (procrastinação e perfeccionismo)

Tenho este blog desde que era adolescente, andava na escola secundária e começava a minha carreira altamente especializada em fazer tudo e mais alguma coisa. Nessa altura, eu já tinha uma bolsa para estudar francês na Alliance Française, escrevia para a Fórum Estudante, tocava guitarra, fazia covers no YouTube, fazia uma disciplina extracurricular e jogava (ou tentava jogar) voleibol no desporto escolar.

 

Ainda assim, aos 16 anos, eu já sabia que procrastinar era o que eu realmente fazia, ainda antes desta palavra ser popular na Internet. Eu procrastinava umas ocupações com outras, umas ideias com outras, umas ambições com outras. Alguns anos mais tarde, fiz uma licenciatura generalista q.b. exactamente porque não me conseguia comprometer com nada mais específico, nem queria. Eu queria tudo.

 

Continuei a procrastinar sem limites, e cada vez mais sem nenhuma lógica ou rumo, até não aguentar mais as consequências negativas. Após 9 meses de terapia, eu agora sei que a procrastinação que me deu tantos frutos até certa altura se foi transformando num presente envenenado. A procrastinação que me incita à variedade de iniciativa, à criatividade e à aprendizagem também pode ser a procrastinação que me desconcentra de objectivos a médio e a longo prazo, a que me impede de desenvolver competências específicas e a que me faz, no final de contas, perder o tempo, assim como o juízo.

 

Não me recordo com precisão de qual foi o primeiro momento da minha vida em que comecei a procrastinar, ou quando me terei apercebido disso. Mas eu sei que a procrastinação sempre foi um subterfúgio. Se eu não conseguisse atingir o sucesso (ou seja, a perfeição) em determinado projecto, teria sempre outros. Se eu não quisesse encarar a realidade de uma falha, poderia orientar os meus esforços em direcção a diferentes alvos. Claro que só recentemente comecei a articular estas ideias, e no entanto elas não são assim tão difíceis de entender.

 

A procrastinação conferiu-me um manto de sucesso e várias vitórias em várias frentes. Depois, não deixando de me trazer algumas alegrias, também se revelou o que tenho vindo a descobrir: a procrastinação também é uma forma de auto-sabotagem, mascarando a dor ou a dificuldade que sinto na concretização do que é, naturalmente, menos agradável ou que revela imperfeições.

 

Mas a vida é feita de dissabores, tanto quanto, ou mais do que de beleza e leveza. Enfrentar a falha, a dor e a dificuldade é parte do processo. Ser perfeccionista não me faz bem. Não faz bem a ninguém. Esperar passar pela vida sem encarar o que há de menos belo, poético, doce ou fácil não é realista.

 

Procrastinar também é viver, mas só o pode continuar a ser com algumas adendas, avisos e notas de rodapé.

2/30 (sopa)

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Faço sopa sempre que possível. Não gosto da maioria dos vegetais cozidos, aos pedaços, no prato. Não foi à falta de tentativa da minha avó, que me obrigou a comer feijão verde, brócolos e couve-flor com peixe cozido durante muitos anos, mas essa foi uma estratégia falhada; e eu só descobri que até nem desgosto de brócolos e couve-flor depois dos 20. Por outro lado, detesto abertamente feijão verde em todo o lado, mesmo na sopa.

 

É sobre isso que decidi escrever hoje. Sobre sopa. Descobri que adoro todos os vegetais (excepto feijão verde, já disse? E talvez couves de Bruxelas) cozidos e moídos dentro duma panela, se bem misturados com uma base de cenoura e/ou abóbora.

 

(Consta que, quando eu era bebé, uma médica disse que não me deveriam dar a comer tanta abóbora, porque eu estava a ficar demasiado amarela. Consta também que é o resultado normal, quando um dos pais é asiático e o outro é loiro e pálido.)

 

Uma coisa que também descobri recentemente é que a minha avó andou a retardar um amor por sopa que só se manifestou em mim quando deixei de lhe repetir o gesto de pôr azeite na mistura. Avó, se estás a ler isto, agora já sabes por que razão me vês tantas vezes a comer sopa, agora que eu é que mando na panela. Além disso, a sopa fica muito melhor quando leva ervas e especiarias (alecrim e ervas da Provença são os meus favoritos até agora). 

 

Sempre que faço sopa, é igualmente inevitável pensar naquelas pessoas privilegiadas q.b. que se podem dar ao luxo de afirmar, com toda a segurança: a sopa é uma refeição saudável, tão variada e tão barata, com uma sopa não se passa fome. Vê-se logo que não sabem o preço a que estão a abóbora, a beterraba, a beringela, a cebola, o pepino ou a batata doce; ou talvez essas pessoas só ponham cenoura e água nas sopas delas. E também não devem fazer a mínima ideia de que um corpo humano precisa de proteína e outros nutrientes que só se encontram noutras comidas, e que ninguém merece ir para a cama só com "um caldinho", a não ser que faça questão disso (como é o meu caso ao Domingo).

Ler sobre a morte

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Há alguns dias, no clube de leitura do Sapo24, "É Desta que Leio Isto", falámos com a convidada Inês Maria Meneses sobre um dos livros que mais gostei de ler na vida, mas também dos que mais me custaram: The Year of Magical Thinking, de Joan Didion.

 

Neste encontro, uma das participantes comentou que recomendaria o livro a qualquer pessoa, que todos o deveriam ler. Quanto a isto, tive de discordar sem hesitação. Eu cá não recomendo livros sobre a morte e sobre o luto a qualquer pessoa. Diziam depois outros participantes: mas é preciso lidar com a morte, conhecer as histórias, não é por não lermos sobre a morte que ela desaparece, ou que deixa de existir.

 

Continuei a defender o meu ponto de vista. Claro que não é por evitarmos leituras sobre a morte, como em obras autobiográficas, que ela deixa de existir. Não é por isso que a perda de um ente querido não vai acontecer. No entanto, um livro não é uma vacina. O papel de um livro não deve ser preparar-nos contra os males do mundo, em doses pequenas, aqui e ali, até criarmos imunidade a partir das ideias, das palavras e das experiências dos outros. Depois desta argumentação, quase ninguém concordou comigo.

 

Penso que jamais recomendarei um livro como o de Joan Didion a qualquer pessoa. Só eu sei a angústia que senti ao lê-lo. Adorei lê-lo, mas foi uma leitura sofrida. Nessa altura, andava muito ansiosa, e bem sei que o leitor também sofre, o leitor também chora, e há momentos em que não é indicado ler certos livros. Não está certo martirizarmo-nos. Enquanto lia The Year of Magical Thinking, só me passavam pela cabeça cenários hipotéticos de perda de alguém que amo, não só pela morte, mas também pelo desaparecimento dessas pessoas da minha vida, em geral e em abstracto. De vez em quando, continuo a folheá-lo, e essas releituras breves, ainda que as continue a achar belas, só servem para o voltar a pousar na estante. Ler não é indolor, nem é sempre feliz. Ler sobre a morte não é um passeio no parque, como se diz em inglês.

 

Ontem, recebi alguns livros novos. Um deles é Agora e na Hora da Nossa Morte, da jornalista e escritora portuguesa Susana Moreira Marques. Li-o em poucas horas, entre o intervalo da tarde e o pós-jantar. Tudo o que leio desta autora parece ser suficiente, e simultaneamente incapaz de preencher um qualquer vazio que permanece depois de terminarmos os seus textos ou livros.

 

Mas lá está: fui para a cama angustiada. É uma angústia que não é totalmente negativa, e ainda assim relembrou-me do que já referi: há temas sobre os quais devemos ler só, e apenas, quando estamos preparados para sentir o que inevitavelmente vamos sentir. Podemos escolher certos livros pela experiência - literária, estética... - mas não pelo prazer em si mesmo. Não pelo entretenimento. É preciso saber escolher as nossas batalhas, e também os livros.

Procrastinação em tempos de pandemia

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Este podia ser apenas mais um texto com uma data de dicas sobre como lidar com a procrastinação enquanto temos de ficar em casa a trabalhar. Mas não é, e acho que devo prevenir a leitora ou leitor de que é provável que eu não escreva nada que já não se saiba. Ainda assim, se tiver um par de minutos para gastar e não sabe como, fique comigo aqui a procrastinar.

 

Então, de que se trata este texto afinal? Respondo já, antes que me apeteça ir lavar a loiça do almoço em vez de me concentrar na escrita: trata-se de não-ficção, é claro. Aspira principalmente a ser crónica, mas acho que é capaz de ficar mais aproximado a um queixume de café (se os cafés estivessem abertos nesta altura, claro está). Em geral, a qualidade literária não é muito melhor do que a já comprovada nas linhas anteriores, as ideias ficarão pela rama, e o leitor guardará sobre mim a impressão de que sou daquelas pessoas irritantes que gosta de se queixar de barriga cheia (e talvez eu seja obrigada a dar-lhe razão).

 

Portanto, vamos ao que interessa. No dia 16 de Março, celebrei um ano de teletrabalho a tempo inteiro. É uma maçada, porque eu gostava mesmo de estar com outras pessoas cara a cara. Por outro lado, aprendi a gostar de estar com elas ecrã a ecrã, e temo ser tarde de mais para me voltar a habituar ao primeiro cenário, até porque me mudei para longe de toda a gente e fica caro e demorado voltar a ir para Lisboa todos os dias. 

 

O único senão desta situação à qual me fui acomodando é ter mais liberdade para passar uma inesculpável parte do dia a fazer coisas que, apesar de úteis no fim de contas, mormente empatam. A minha preferida é preparar comida e comer. Descobri uma grande paixão nestas duas tarefas, que me consomem mais tempo do que eu lhes quero destinar quando acordo de manhã e penso que a jornada tem uma quantidade muito satisfatória de horas para aproveitarmos - se ao menos o soubermos fazer.

 

Mas não sou esquisita com as actividades procrastinatórias a que me entrego de alma e coração.

 

Na verdade, em geral, todas as tarefas domésticas me parecem apelativas, apesar de eu as detestar nas horas vagas, ou seja, aquelas que não estão pré-destinadas ao trabalho. Consequentemente, acabo a ter de trabalhar nessas mesmas horas vagas, e não me queixo, porque é essa a belíssima vantagem em ser trabalhadora independente - o que não me impede de sentir uma dose de culpa desmesurada, que me consome a paciência e a tolerância que reservo para as minhas neuras. Só é lamentável acabar por me aborrecer a mim própria, apesar de conscientemente não me desejar outra coisa senão tudo do bom e do melhor. Como se costuma dizer: por bem fazer, mal haver... e tudo na primeira pessoa.

 

A auto-sabotagem é bastante angustiante. Porque raio insisto em sabotar a minha paz de espírito, em prol dumas trocas e baldrocas no meu horário? Haverá algo mais profundo a analisar, do que o simples ímpeto para a procrastinação? Não será defeito, apenas feitio? Ou vice-versa? Seja como for, esse é um tema para outras incursões e discussões.

 

Como é óbvio, escrevi este texto para procrastinar não sei o quê que tinha de fazer depois de almoço há uns dias, mas seguindo o modelo sugerido pelo nome deste blog, não se esqueçam de que procrastinar também é viver. E que estranha forma de vida é...!

Como ler um livro - manual de utilizador

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É essencial fazer as perguntas certas, mesmo quando as achamos demasiado fáceis. Aliás, são essas as perguntas mais importantes, que frequentemente deixamos de fazer por comodismo, inércia ou habituação. Então, hoje abri um novo livro no qual quero mergulhar nos próximos dias e, pela primeira vez em muito tempo, questionei-me agitada: afinal, como é que se lê um livro?

 

Um livro parece ser um objecto com o qual todos lidamos de forma intuitiva. Pegamos-lhe, abrimos na primeira página, e começamos a ler. No entanto, há tantas questões a considerar. Por exemplo… Haverá alguma forma mais acertada de ler um livro? Ou algum passo que devamos seguir antes de qualquer outra acção? E se preferirmos começar pela última página? Neste sentido, quero partilhar algumas das minhas impressões sobre como ler um livro.

 

Pego num livro – e agora? Em primeiro lugar, no caso dos livros físicos, gosto de me sentar com eles, apreciá-los, pousá-los na estante, agarrá-los de novo, folheá-los, cheirá-los – habituar-me a eles e à forma como se adaptam à minha mão. Em segundo lugar, procuro índices, listas, epígrafes ou dedicatórias (além da sinopse e da biografia do autor), que são óptimas referências para entrar no espírito da obra, assim como fazer uma análise breve ao tipo de letra, capítulos ou outras particularidades gráficas.

 

O passo seguinte é ler a primeira frase com muita atenção. Seja ficção ou não-ficção, a forma como um autor escolhe apresentar o seu trabalho pode contribuir para uma primeira impressão mais completa, quiçá promissora, ou por outro lado desapontante. E também há quem escolha avaliar uma frase aleatória no meio do livro, que sirva de amostra do resto.

 

Após este ritual, ainda é comum ter alguma dificuldade em concentrar-me: a primeira página é o contacto inicial com uma nova realidade, uma nova narrativa, uma nova história, um novo tema. Por isso, normalmente levo algum tempo a situar-me e a encontrar um significado para a mancha de letras e palavras.

 

O trajecto vai-se tornando mais fácil de navegar a partir daí, mais suave. Nem sempre é intuitivo voltar a pegar no livro, de tantas distracções e interesses que existem fora das páginas. Talvez a primeira impressão não tenha sido óptima, por isso custa-nos retomar. Mas acredito que existe sempre um livro qualquer por perto que nos irá entusiasmar sem sequer nos apercebermos. Há sempre um livro capaz de nos levar por aí fora até à última página, de forma consistente e constante. Se forem como eu e gostarem de tirar notas, apreciarão a companhia dum lápis, dum marcador e de um caderno.

 

Ora, mas também não nos podemos esquecer da preparação: ainda antes de apreciar o livro, de o analisar, de prestar atenção à primeira frase ou de tirar notas, gosto de começar a leitura num sítio acolhedor, apesar de a continuação poder acontecer em quaisquer condições. Talvez comece num sofá confortável, talvez aconchegada debaixo de mantas, talvez esticada na cama a meia-luz, sempre em silêncio, ao som do meu gato a ressonar ou com uma música de fundo que inspire a concentração e a fruição da palavra escrita.

 

No fundo, o que interessa é sentirmo-nos à vontade. O que interessa é estarmos confortáveis perto de livros e deixá-los entrar nas nossas vidas, perceber como nos podem enriquecer ou pelo menos entreter. O que interessa é ler, e o “como” vai-se descobrindo. Portanto, agora é a tua vez de tentar.

 

Pegas num livro – e agora?

Três conselhos para alunos de Letras

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Na semana passada, recebi um e-mail dum futuro aluno da minha licenciatura (Ciências da Cultura, na FLUL, que agora se chama Estudos de Cultura e Comunicação). Nesse e-mail, o remetente pedia-me conselhos para quem começa agora esse percurso universitário, o que me despertou sentimentos ambivalentes.

 

Por um lado, parece extremamente irreal pedir apenas um conselho, como se dele dependessem os três anos seguintes, e tendo eu escrito tanto sobre o assunto no blog (a ver tags como "universidade", "estudar", "faculdade" ou "flul", ainda que correndo o risco de lerem o que já escrevi há vários anos e com o qual já não me identifico). Por outro lado, não foi há muito tempo que estava eu nesse lugar, que para mim foi tão feliz e cheio de esperança. Entrar para a universidade foi dos momentos mais felizes da minha vida. Por um conselho ou dois, se soubesse para onde e para quem enviar e-mails, eu tê-lo-ia feito.

 

Por isso, aqui nos encontramos, neste texto. Decidi lembrar-me da miúda que era, dos meus colegas, do nervoso que migrava para o estômago, do entusiasmo, da expectativa. Quis ajudar, aproveitando ao mesmo tempo para fazer um balanço ao fim de sete anos desde a minha primeira aula.

 

Portanto, não sabendo mais nada sobre o remetente do tal e-mail, além do nome e licenciatura, partilho convosco não um, não dois, mas três conselhos especialmente dirigidos a quem entra ou está em Estudos de Cultura e Comunicação na FLUL (aplicáveis a outros cursos de Letras, como Línguas, Literaturas e Culturas). Que sejam boas sugestões intemporais para quem tiver paciência para os ler!

 

1. Ler tanto quanto possível é o mais importante

Para se tirar um qualquer curso em Letras, é preciso gostar-se de ler. Não basta “gostar-se de estudar umas coisas”. Nem sempre ler vai ser uma actividade prazerosa ou de lazer nos próximos anos, mas é importante ler todos os dias, em quantidade e variedade. Por isso, também é essencial saber o que ler, onde encontrar o que se quer ler e como selecionar informação. Se passei os três anos de licenciatura sem ter propriamente “estudado”, tal só foi possível porque senti sempre que ia apenas lendo, tirando notas quando sentia essa necessidade, cultivando e saciando a minha curiosidade.

 

Os materiais que os professores fornecem nas bibliografias e nas antologias são óptimos para quem quer apenas saber o essencial ou por onde pode "começar". No entanto, há sempre temas sobre os quais queremos saber mais, e mais, e mais. Se encontrarmos um interesse específico em cada cadeira, conseguimos aprender muito melhor o que há para aprender, e as nossas relações com os professores e notas acabam por reflecti-lo - principalmente dado que muitas cadeiras têm como elemento de avaliação final um trabalho com tema à escolha ou negociado com o professor.

 

2. Saber escrever, para bem pensar e bem falar

Se noutra qualquer instituição de ensino superior é obrigatório saber escrever, numa faculdade de letras é pecado não saber fazê-lo correctamente e com destreza. O primeiro passo é saber pontuar um texto. O segundo passo é utilizar as palavras certas. O terceiro deve ser organizar as ideias. A maior parte dos elementos de avaliação são entregues em formato escrito e nenhum professor da universidade vai estar disponível para ensinar o que deveria ter ficado sabido no ensino secundário. Não me interpretem mal: tive professores maravilhosos na FLUL, e os maus de que me lembro contam-se pelos dedos duma mão. Mas quem entra numa faculdade de letras tem a obrigação de saber ao que vai e ter uma preparação melhor nesse sentido, não necessariamente da escola, mas acima de tudo por interesse pessoal.

 

A propósito do ensino secundário, a verdade é que é inevitável sentirmos que estamos a dar um salto maior do que a perna, quando passamos do 12º ano para o 1º ano de licenciatura. Neste mundo da universidade, geralmente os professores já não nos querem tratar por “tu”, nem podem baixar a fasquia. É o mundo dos “crescidos” e já não há quem nos dê o desconto.

 

Seja como for, bem escrever resulta em bem falar e em bem pensar - três em linha, e é isso que se quer.

 

3. Aproveitar todas as oportunidades

Com certeza que quem se candidata a cursos de Humanidades ou Ciências Sociais já terá ouvido a sua dose de “e isso dá para o quê?”, ou outras variações do enredo novelístico “vais ficar desempregado para o resto da vida, e agora?!”.

 

Confio que já terei escrito muitas linhas sobre isto durante os últimos anos e mantenho a minha palavra: vamos todos ficar no desemprego se não nos mexermos e esperarmos que, acabadinhos de sair da última aula do curso, nos vá cair uma proposta de trabalho no colo. Não interessa se nos licenciamos em Estudos de Cultura e Comunicação, em Direito, em Gestão, em Arquitectura ou em Engenharia do Ambiente.

 

É preciso fazer pelo menos um pedacinho mais do que o mínimo indispensável, como tirar outro tipo de formação profissional, fazer um intercâmbio europeu (mesmo que de curta duração), fazer parte da comissão do curso ou da Associação de Estudantes, fazer um estágio (mesmo que em part-part-part-time, num centro de estudos), um programa Erasmus ou um Almeida Garrett, arranjar trabalho durante o Verão ou conciliando com as aulas… You name it!

 

A minha experiência pessoal também dita que, se não tivesse feito um pouco de todas essas coisas, não teria realmente vivido ou aprendido muito, além de ter enfiado a cabeça nos livros, antologias e fotocópias.

 

Não se deixem intimidar pelos comentários alheios. Se tiverem gosto pelo que estudam, vão viver três anos inesquecíveis de crescimento. E não, uma licenciatura numa universidade não é um curso profissional: não se aprende realmente a fazer "algo", mas a pensar (sugestão: o discurso This is Water, de David Foster Wallace).

 

Espero que as Letras vos façam tão felizes quanto me fizeram (fazem) a mim!

Hotel do Parque, Curia - o destino ideal para uns dias a ler e a escrever

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O Hotel do Parque, na Curia, foi inaugurado em Julho de 1922. Aos 98 anos de idade, dá-nos o conforto dum bisavô meio esquecido do passado, sonolento, enrugado, mas cheio de histórias, ou não fosse a sua decoração ao estilo Belle Époque, como nas séries Downton Abbey e A Espia (na verdade, esta última foi mesmo gravada no Hotel do Parque).

 

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Situado numa rua cheia de hotéis, incluindo o Hotel Termas da Curia, o Hotel do Parque destaca-se por ser o mais pequeno dos edifícios, parcialmente coberto de hera nas paredes exteriores e rodeado de árvores e arbustos por todos os lados. Quando passámos à sua frente pela primeira vez, ainda perdidas e abandonadas pela falta de sinal do GPS, a minha avó exclamou a brincar “é esta casa que eu vou comprar”. E não é que foi precisamente aqui que passámos estes últimos cinco dias?

 

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Inicialmente, escolhi o Hotel do Parque por me parecer o sítio ideal para vir sozinha escrever, ler e descansar, baseando-me numa recomendação blogosférica. Entretanto, a minha avó decidiu também vir comigo, alterei a reserva de uma para duas pessoas e ambas confirmamos: o Hotel do Parque fica numa zona calma, bonita, verde, silenciosa, central. Felizmente, os hóspedes com quem nos cruzámos respeitavam o espaço uns dos outros e conseguimos estar horas e horas na piscina ou no salão sem mais ninguém.

 

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(Tenho ainda a destacar que, nestes tempos em que o distanciamento social é necessário, o Hotel do Parque tem todas as condições e segue todas as medidas de prevenção ao contágio por coronavírus - assim como os restaurantes e pequeno comércio e restaurantes muito acessíveis e variados.)

 

Ao pequeno-almoço, comemos no buffet incluído no preço da estadia, do qual recomendo especialmente o pão de cereais e os bolos feitos pela proprietária, a D. Maria João. Ao almoço e jantar, ora comemos num restaurante a três minutos a pé (com pratos do dia bem confecionados e baratos), ora comemos no próprio hotel, onde é servida comida mais leve, como tostas, saladas, hambúrgueres, bebidas e outros snacks.

 

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Quanto aos espaços, todos são preciosos. Os corredores nos dois pisos são uma caixinha de surpresas para os apreciadores de loiça antiga; o salão (sem televisão) é o poiso ideal para ler e escrever nas horas de maior calor e depois do jantar; a piscina e o jardim entretêm miúdos e graúdos; os quartos são frescos, fofos e acolhedores para boas noites de sono. A cada esquina, embarcamos numa viagem de regresso ao passado, onde reina o saudosismo e uma atmosfera romântica do início do século.

 

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Pela sua antiguidade, o hotel precisaria de uns arranjos aqui e ali, o que justificará não ter mais estrelas do que 2*. Os canos são mais ruidosos, o papel de parede descola nalgumas pontas, o soalho e os armários rangem, as colchas têm buraquinhos… Só que, tal como se ele fosse uma pessoa, gosto ainda mais deste hotel vivido, imperfeito e com vestígios dos anos, do que se tudo fosse previsivelmente perfeito.

 

Last but not least, o Hotel do Parque colecciona uma data de pormenores curiosos, mas o meu preferido é a tentativa de preservação do património histórico, mas também familiar. O Hotel do Parque pertence à mesma família há quatro gerações, três das quais servem e convivem com os hóspedes ainda hoje – a D. Maria João, que nos recebe e está sempre atenta aos nossos pedidos e perguntas; o filho Zé Pedro, que acumula funções de cozinheiro, restaurador, handy man e cuidador da horta; e a mãe, D. Alda, que vamos vendo pela sala ou pelo jardim. O resto dos funcionários do hotel, incluindo a Joana, as senhoras que servem o pequeno-almoço e as que fazem as limpezas, só nos confirmam o quão agradável é estarmos neste cantinho e nem sentirmos necessidade de sair.

 

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Sentimo-nos muito bem acolhidas e aconchegadas, por isso todas as nossas recomendações são poucas. Nem o facto de termos de fazer 300km de estrada será suficiente para não voltarmos cá assim que possível, agora que descobrimos o Hotel do Parque. As estadias por noite rondam os 30€ poe quarto individual, 50-60€ por quarto duplo, ou 60-70€ por quarto triplo.

 

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(Ainda por cima, ficámos de ir ao Buçaco, ao Luso, Aveiro e Coimbra nas próximas visitas, já que acabámos por permanecer sempre no hotel.)

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