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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

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A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

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