Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Acabei de ler "Call Me By Your Name": sobre o amor, migalhas de pão e basílicas

27.06.18 | BeatrizCM

Atenção: possíveis spoilers de importância secundária são partilhados no texto que se segue.

 

IMG_25610621_091708.jpg

 

Tenho andado a ler alguns livros alegadamente lamechas, com histórias de amor dentro. Por exemplo, acabei de ler Call Me By Your Name, do autor André Aciman. Já tinha visto o filme há cerca de meio ano e desde então que me andava a perguntar quando teria estômago para aguentar o livro - porque, a ser como o filme, deixar-me-ia emocionalmente de rastos. Um filme vê-se em duas horas; um livro lê-se durante muitos dias.

Não me enganei. Esta história, com mais ou menos detalhes, contada por que meio for, exige alguma preparação mental. Ainda bem que só o li agora, principalmente depois de já me ter aventurado pelo aquecimento que foi Essays in Love. Não aconselho histórias destas a quem se ande a sentir mais em baixo, que esteja a passar por alguma fase pessoal menos positiva. Histórias como a das personagens Elio e Oliver fazem chorar até as pedras da calçada. Metem-nos uma nuvem cheia de chuva por cima (e não adianta pensar que é só uma história; quem realmente consegue entrar nos enredos acaba por se envolver e ser engolido pela narrativa).

 

No entanto, não sendo uma história de amor particularmente feliz, é uma história de amor que nos traz alguma satisfação. É uma história de amor entre dois rapazes, mas acho que todos os que já estiveram apaixonados se conseguem rever no que foi escrito por Aciman. Uma vez que a história é contada do ponto de vista de Elio, são partilhados pensamentos únicos e bastante exactos (digo eu, pela minha experiência nesse domínio) acerca do que significa apaixonarmo-nos por alguém sem saber se essa atracção é recíproca. A incerteza, os olhares desencontrados, os mal-entendidos... Está tudo neste livro.

 

Há uma metáfora que me tocou particularmente cá no fundinho. Foi a metáfora das migalhas de pão. Quando nos apaixonamos, esquecemo-nos muitas vezes de lançar migalhas de pão pelo caminho, como fizeram Hansel e Gretel, como gostaria Elio de ter feito, para sabermos como voltar atrás e qual o caminho anteriormente tomado, quando se torna necessário retroceder após o fim de um grande amor. (Além da metáfora do autor, eu até diria que nem interessa tentar marcar o caminho com migalhas de pão, já que há sempre pássaros que as comem mal viramos costas.) Gostaria ainda de deixar uma nota especial acerca doutra metáfora: tal como a Basílica de São Clemente (em Roma), também o subconsciente, o amor, as memórias, o tempo e as pessoas são construídas camada por cima de camadas, todas anacrónicas, mas que nos permitem ou obrigam a escavar para descobrir a sua história. Metáforas tão simples, mas que nos enchem a alma. Senti que, assim o autor consegue exprimir o que eu nem sempre consegui.

 

Mudando de ambiente, este não é um livro para cépticos no amor, mas também não é um livro para púdicos. Apesar de as cenas de sexo não serem explicitamente descritas, muitos dos pensamentos da personagem Elio contêm ideias... mais engraçadas, carnais. Quem ler irá perceber - já para não falar da existência óbvia duma relação homossexual, quase platónica, mas muito física, tanto quanto emocional.

 

Por outro lado, depois de muito reflectir, decidi que este não é o melhor livro de sempre, porque senti que encheu chouriços quase nas últimas páginas. Custou-me bastante lê-las, demorei imenso tempo. Eram difíceis de perceber, confusas, mas não essenciais para um desfecho brilhante. As últimas páginas, sobre o reencontro dos protagonistas, também poderia não ter acontecido, como no filme. Nisso, acho que o filme foi concebido de forma mais eficiente e até bonita.

 

Desta forma, concluo que, para mim, o tema central deste livro é o amor e a paixão, que primeiro correm o risco de não ser correspondidos, depois são consumados, mas nunca de forma plena, sendo finalmente interrompidos pelas circunstâncias da vida.

 

Para ler:
... enquanto se ouve Ludovico Einaudi ou Andrea Bocelli.
... quando se sente que há leveza de espírito para recuperar da carga emocional desta narrativa.
... se se acreditar no amor - e em histórias de amor épicas, marcantes.
... antes ou depois de ver o filme, que é das primeiras adaptações ao cinema que acho que valem por si, independentemente do livro em que se baseia. Tanto faz.

 

Deixo-vos agora a oportunidade de partilharem os vossos pensamentos nos comentários. Já metade da comunidade do Goodreads leu este livro, mas digam lá de vossa justiça neste blogue, digam-me que impressão vos causou esta história.

 

A Carolina leu Call Me By Your Name ao mesmo tempo que eu e já deixou a opinião dela também. Apesar de por vezes lermos géneros diferentes, hão-de reparar que até mencionamos e destacamos aspectos semelhantes acerca deste. Leiam também o que ela acabou de publicar! 

2 comentários

Comentar post