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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Cansada de opiniões

Deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião. E mais: deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião e achar que esta é a mais correcta de todas. Uma opinião-verdade, indiscutível, infalível, do género "como é que não conseguem todos ver isto, que é tão claro, tão óbvio?".

 

À hora de jantar, estava a ouvir um segmento de notícias sobre o Orçamento do Estado e, em vez de conseguir realmente perceber qual a celeuma do momento, passaram a emissão para o comentário não sei de quem, isto é, de um comentador profissional. Acabei por não entender perfeitamente qual era o tema do Orçamento que pretendiam destacar (só apanhei uns minutos da ministra da Saúde a falar sobre autonomia de contratação), não fiquei minimamente informada, e enfiaram-me um tipo de fato, com voz grave e tom solene, pelos olhos e pelos ouvidos adentro. Um tipo sério. Um opinador de profissão, entenda-se.

 

Nos dias que correm, tanto me faz quem é o opinador. Soa-me tudo a bitaites de tasca. Estou cansada do chico-espertimo-achismo, da opinião que todos parecem ter sobre tudo, quer no mundo real, quer nas redes sociais. No Twitter e no Facebook, então, é uma cascata de gente inteligentíssima, que só peca por lhe faltarem credenciais, moderação e bom senso, porque de resto são exímios na arte das postas de pescada. Na televisão, preferem pôr o Zé-Não-Sei-das-Quantas (que pode ser um reformado antecipado da política, do jornalismo ou de coisíssima nenhuma) a deitar umas larachas frequentemente mal informadas e pouco informativas. Noticiar à hora das notícias, no canal das notícias, 'tá quieto. Tanto, tanto ruído.

 

(Caramba, eu só quero saber o que se passa no país e no mundo, não pretendo que me tentem endoutrinar após trinta segundos de breve e incompleta notícia!)

 

Como vêem, este não é um blog de opinião. Opiniões, tenho uma ou outra sobre alguns livros, porventura podcasts, filmes ou séries, mas nem essas partilho em barda. Eu cá sou mais de sugestões, o que talvez denote que nasci no tempo errado e que vivo contra a corrente. Isto não implica que eu deixe de ter princípios. Alto lá! Sou uma moça às direitas que vota sempre à esquerda, defendo certas causas e visões do mundo e, apesar de não gostar de atritos, não hesito quando é necessário ter uma discussão acesa porque me chegaram as mostardas e os vinagres ao nariz.

 

Ainda assim, tenho tantas dúvidas sobre quase tudo que me abstenho, por vezes nem por falta de vontade de me insurgir, mas sinceramente por me sentir assoberbada contra as Grandes Certezas dos outros, por sentir que gastarei o meu português a falar para a parede, porque discutir para eles não tem sentido pedagógico, mas sim apenas mostrar que sabem mais e melhor (do quê, porquê e como é que me escapa). E eu sei que eles devem estar cansados, mas estou cansada eu também, provavelmente ainda mais.

 

Escrever este texto deixou-me cansada, mesmo exausta, por isso não me alongo mais com a minha opinião sobre opiniões, despedindo-me apenas com duas - lá está - sugestões que me parecem modestamente sensatas e largamente geniais. São elas o podcast Quem Lê Tanta Notícia e o programa Dados Contados (da RTP). Sinto que, graças a estes minutos semanais, finalmente compreendo qualquer coisa sobre a actualidade. E, como até as sugestões podem ser tendenciosas, aviso desde já que a primeira tem a participação da minha ídola Tati Bernardi e que o segundo é produzido pela minha amiga Daniela Ferreira Pinto, duas mulheres que admiro arregaladamente, uma escritora e outra jornalista, mas ambas autoras e produtoras de cenas divinais que vemos e ouvimos por aí.

 

Por ora, este será um blog pouquíssimo insurgente, sempre cheio de dúvidas sobre se tem sequer algo para acrescentar ao espaço público, mas confiante de que faz apenas o barulho necessário para espicaçar as ideias de quem por aqui aparece, sem as moer. (Confirmando que tal é possível, note-se que nas caixas de comentários deste blog existem leitores que discordam de mim, e que mo escrevem, mas que o fazem com uma elegância e uma delicadeza, que eu quase penso estar numa realidade paralela. Obrigada por estarem desse lado, que é como quem diz, voltem sempre!)

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