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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Como encontrar o amor da nossa vida (ou como ser encontrado por ele)

14.02.22 | BeatrizCM

A verdade é que, em nossa cultura, muitas pessoas não sabem o que é o amor. E esse desconhecimento parece um segredo horrível, uma ausência que precisamos esconder. [...] Quando amamos, expressamos cuidado, afeição, responsabiidade, respeito, compromisso e confiança. Definições são pontos de partida fundamentais para a imaginação. O que não podemos imaginar não pode vir a ser. Uma boa definição marca nosso ponto de partida e nos permite saber aonde queremos chegar.

bell hooks, em Tudo Sobre o Amor - novas perspetivas (edição brasileira) 

 

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Eu não encontrei o João, o João é que me encontrou. Não uma, mas duas vezes. No OkCupid. Tentou começar uma conversa, mas eu não lhe liguei, fiz swipe left. Os perfis das redes sociais, tais como os CVs, são montras injustas. À segunda tentativa, conquistou-me ao perguntar pelo meu gato, Lord Ennui, que aparecia numa das fotografias. Funcionou. Um ano depois, estávamos a morar juntos, não só com Lord Ennui, mas também com a nossa cachorrinha, a Coffee Bean.

O João encontrou-me mas, acima de tudo, ajudou-me a encontrar-me. Aliás, todos os dias da nossa vida, sinto que me estende um mapa para a minha própria alma e aponta qual o melhor trilho. Puxo e puxo pela cabeça, e não consigo imaginar (logo eu, que sou a pessoa mais imaginativa que conheço) uma vida possível, paralela, sem ele. Com certeza também seria uma vida feliz, mas aposto que não seria tão divertida, pacífica e preenchida. E eu não seria tão eu sem ele. Disso tenho a certeza.

Alguns dias antes de conhecer o João, fiz uma lista. Não acreditava no poder da dita manifestação, mas acreditava no poder da organização e da decisão. A lista que fiz mostrava todas a condições e características que eu pretendia num parceiro, de preferência para a vida, sobre as quais eu me tinha de sentir esclarecida antes de mais nada. O João correspondeu a quase todas.

O que eu não sabia é que, mais do que ter feito uma lista de características, eu criara uma definição de amor que, por fim, me enchia as medidas.

 

Alguém que queira ter uma família.

Alguém que seja optimista, ambicioso e sonhador.

Alguém que me elogie sem razão.

Interesses partilhados.

"Better together."

... entre outros.



É difícil definir o amor numa sociedade em mudança constante e tão acelerada e volátil como nunca o foi antes. É difícil definir o amor numa sociedade ainda tão marcada por ideais patriarcais. É difícil definir o amor pertencendo a uma geração de mulheres emancipadas, mas que ainda assim cresceram rodeadas de códigos de "amor" machistas, seja através das primeiras experiências relacionais e familiares, seja pela comunicação social, seja pelos filmes e livros.

Falo por mim. A minha avó vivia aterrorizada que eu começasse a namorar e me desleixasse nos estudos e na vida, padecendo de distração crónica de ora em diante (e, imagino eu, gravidez na adolescência). Por isso, foi com enorme surpresa que tive uma relação longa e estável entre a adolescência e o início da idade adulta, na qual encontrei apoio e concentração para trabalhar, estudar e ser muito feliz (apesar do final atribulado, mas isso são outras contas).

Depois dessa relação séria, tive mais outra. Se a primeira já me tinha mostrado que amar e sentir-me amada podiam ser condições básicas para o crescimento e realização individual, a segunda confirmou-o. E, mais tarde, conheci o João. Concluo: tenho sido muito afortunada no que toca ao amor.

Se é verdade que encontrei colo nas relações anteriores, agora também reconheço que não foi, necessariamente, o colo que mais falta me fazia. Era bom, mas não óptimo. Este último é o João quem mo dá.

Quando fiz a lista sobre o que queria encontrar num parceiro, eu não sabia que, pela primeira vez, estava a tentar definir o amor romântico e familiar de que tinha sempre carecido e que me garantiria aconchego e compromisso a longo prazo, quaisquer que fossem as circunstâncias. Nunca ninguém me havia ensinado como o fazer. Nem como o pedir... Tanto por falta de referências, como por falta de experiência, e porque os adultos com quem cresci acreditavam em ideias feitas sobre o amor enquanto emoções destrutivas e desapontantes, apesar de, no fundo, viverem os seus próprios contratempos com esperança, errando uma e outra vez, mas sem desistirem.

De tudo o que me poderiam ter ensinado, foi a essa esperança que acabei por beber a minha coragem para amar e me deixar amar, em quaisquer tipos de relação. Mantive-me sempre optimista e destemida nos assuntos do coração.

Neste dia dos namorados, parece-me que o mais importante é sabermos o que procuramos, quem procuramos, e porquê. E como é que também podemos ser encontrados. Quando falo com amigos meus sobre estes assuntos, o conselho que lhes dou é sempre: faz uma lista. Fazer uma lista é uma oportunidade para pensar duas vezes sobre o futuro, estabelecer limites e prioridades, criar uma ferramenta simples de definição e de decisão para quando nos "esquecemos" do essencial. Uma lista pode ajudar em todas as dimensões e temas da nossa vida, incluindo no amor.

 

Não acho que seja por causa duma lista que vamos tropeçar no amor da nossa vida. Ainda assim, acredito que esta nos possa obrigar a pensar naquilo que queremos, em quem somos, e salvar de alguns dissabores, indecisões e perdas de tempo.

 

***

 

A propósito, aqui vos deixo uma recomendação de podcast alusiva e complementar ao que escrevi:

 

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