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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Das relações à distância (em regime temporário)

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Em princípio, tanto eu quanto o Ricardo vamos passar o Verão, ou grande parte do Verão, no estrangeiro - isto é, em continentes diferentes, cada um no seu. Apesar de o plano dele já estar confirmado, da minha parte ainda aguardo uma resposta final do empregador. Ainda assim, a verdade é que eu estou mesmo com uma grande expectativa de ser aceite. Sei que preencho os requisitos e, pelo menos, a documentação, as três cartas de recomendação que pedi a professores meus e a carta de motivação que escrevi atestam que serei uma boa escolha.
Seja como for, expectativas à parte, já comecei a contar que talvez vá para fora a algumas pessoas do meu círculo de amigos e família. Como a duração do programa ainda é longo, ouço logo uma resposta:
- Coitado do Ricardo!

... com as seguintes variações:
- Coitado do Ricardo! O que é que ele vai fazer sem ti durante esse tempo todo?
- Coitado do Ricardo! Ele não se importa que vás estar fora?
- Coitado do Ricardo! O que é que ele diz sobre tu ires?

Obviamente, somos uma caixinha de surpresas e, em primeiro lugar, os surpreendidos ouvem logo um:
-

Ele também vai trabalhar para o país X, de mês Y a mês Z.

E, a seguir, ouvem qualquer coisa deste género:
Já cantava o João Pedro Pais que "ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém". Que eu vá para a Cochinchina durante uns tempos deve ser motivo de orgulho para o meu mais-que-tudo e não uma desgraça. Quer dizer que tem ao seu lado uma pessoa cheia de energia e espírito de aventura! Aliás, eu já tinha entrado em processo de aceitação pelas instâncias portuguesas envolvidas no programa ao qual estou a concorrer quando o Ricardo foi definitivamente aceite pelo programa dele e... foi isso que eu senti, senti-me uma babadona que vai ter um namorado mais rico, com mais mundo dentro dele no final do Verão, que há-de ter vivido experiências que um dia virá a contar aos seus descendentes, sejam eles também meus ou não, com um ar inchado de Indiana Jones da União Europeia. Senti que ele vai crescer e trazer mais pontos em comum comigo dessa estadia prolongada no estrangeiro, que seremos os dois gente do planeta, não só da vila, da cidade ou do país.
(Também costumo salientar que o facto de eu estar fora durante o Verão, mesmo que ele cá ficasse, não seria o pior. É que, até há dois meses atrás, o meu plano era passar um ano em França como assistente de Português.)
Se vamos ter saudades um do outro? Caríssimos, mas é claro que sim! Quando cheguei ao aeroporto de Lisboa das duas semanas em Newcastle e a minha avó me disse que o Ricardo não tinha ido esperar-me também (era mentira), só não me atirei do avião porque já tinha aterrado! Mas a vida continua, o pessoal não vai propriamente emigrar, sem bilhete da volta marcado. E que fôssemos, não é verdade? Eu adoro o meu respectivo, há alturas em que até tenho impressão de que ele gosta ainda mais de mim do que eu dele, mas só de pensar num futuro sem ele fico sem ideia do que é que isso quererá realmente dizer (que estranho, uma Beatriz sem um Ricardo). E daí? Não somos seres autónomos?
Sobreviveremos um sem o outro, sim senhor, que é para isso que servem as redes sociais, o WhatsApp, o Skype e os correios!
Se um namorado meu, marido que fosse, se importasse que eu me dirigisse ali ao fundo do planeta agarrar numa das maiores oportunidades da minha juventude, talvez da minha vida, eu recomendar-lhe-ia que se distraísse a dar água aos camelos. Se não me prendo pela minha família, iria prender-me pelo meu namorado???! (O meu namorado, de certo modo, também é da minha família, mas vocês perceberam o que eu queria dizer.)
Infelizmente, nem todos os que estarão a ler este texto terão tido a sorte de lhes ter calhado um namorado ou namorada com a noção de que, se as relações são fortes, não serão uns quantos milhares de quilómetros durante um par de meses que farão diferença em todo um composto de uma vida em comum. Eu não me veria com ninguém que não respeitasse a minha vontade de viajar e de ter experiências profissionais fora de Portugal ou que começasse logo com enxaquecas, só de ouvir falar que estou a pensar em enfiar-me num avião e passar umas semanazitas noutro clima. Num período como este, de crise e instabilidade no mercado de trabalho em Portugal (principalmente no domínio das Letras, das Humanidades e das Ciências Sociais), até acho proveitoso uma pessoa pensar que a outra pode lembrar-se de concorrer a um anúncio de trabalho para Nárnia e dar de frosques no dia seguinte para terras longínquas. Nunca se sabe...
Em suma, não, o meu respectivo ainda não pensou em prender-me com uma algema à trave da minha cama, nem em atirar-se ao Tejo cheio de mágoas de amante sofredor, tipo mártir do amor que tem de aguentar uma namorada com bicho carpinteiro. Graças a todos os santinhos, o moço também aspira a profissional dos programas internacionais, já que os nacionais são o que se vê.
De qualquer forma, e respondendo aos mais inquietos com toda esta pouca vergonha, namorado meu entretém-se muito bem sem mim, nem que seja a jogar às paciências, a fazer crochê ou a ler toda a obra do Pedro Chagas Freitas.

Olhem lá para a Sofia: previsão de quatro anos (se não me falha a memória) com o namorado nos EUA a alimentar a loucura (!!!) de ser piloto, e ela aqui em Portugal. Meio ano já se passou e a rapariga ainda não se atirou aos mares revoltos da Caparica. Ponham os olhos na Sofia. Se ela e o respectivo podem viver longe durante quatro anos (ainda que entretanto andem a ver escolas em Portugal), eu e o Ricardo podemos viver dois ou três meses da mesma forma. Take it easy. Se a coisa ficar feia e não aguentar a pressão da distância, se calhar é porque não estava destinada, já pensaram nisso?

Pronto, eu sei que divaguei q.b., mas não me censurem, que cada vez que eu viajo ouço nem que seja a minha avó, em tom de brincadeira, perguntar-me o que vai ser do pobre rapaz que deixo em terra. Ok, em todo o caso, após dois programas internacionais e algumas viagens pelo meio, acho que já o vacinei para a vida. Ufa!

Na volta, fico eu em terra desta vez.

 

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